Santander, Citi, XP Investimentos e Empiricus revisaram nas últimas semanas suas avaliações sobre quatro empresas negociadas na B3 e mantiveram recomendações positivas para Plano&Plano (PLPL3), Smart Fit (SMFT3), Tupy (TUPY3) e Orizon (ORVR3). Os novos preços-alvo indicam potencial de valorização de até 115%, apoiado em expectativas de recuperação operacional, expansão de margens, redução de endividamento e crescimento em negócios mais rentáveis.
As recomendações surgem em um momento de maior seletividade no mercado de ações. A permanência dos juros brasileiros em níveis restritivos aumenta o custo de capital das empresas, reduz o valor presente dos fluxos de caixa futuros e dificulta a reprecificação de companhias mais dependentes de crédito, consumo e expansão financiada.
O efeito é mais intenso sobre ações de empresas de pequeno e médio porte, que normalmente têm menor liquidez e maior sensibilidade às alterações na curva de juros. Nessas condições, resultados abaixo das expectativas ou mudanças nas projeções costumam provocar oscilações mais acentuadas nas cotações.
Ao mesmo tempo, o processo de reprecificação produz distorções. A avaliação das instituições é que determinados papéis passaram a negociar com descontos excessivos em relação ao potencial de geração de caixa, às perspectivas setoriais e aos múltiplos de empresas comparáveis.
Os preços-alvo, contudo, não representam garantia de retorno. Eles refletem estimativas elaboradas a partir de premissas sobre receita, margem, lucro, endividamento e condições econômicas, que podem ser alteradas conforme a divulgação de novos resultados ou mudanças no cenário macroeconômico.
Juros elevados ampliam diferença entre empresas e setores
A taxa de juros afeta as ações por diferentes canais. No setor imobiliário, o crédito mais caro pode reduzir a capacidade de compra das famílias e elevar as despesas financeiras das incorporadoras. Em negócios de consumo, o aperto monetário pressiona a renda disponível e pode limitar a expansão da demanda.
Empresas industriais enfrentam outro conjunto de riscos. A desaceleração econômica tende a reduzir encomendas de máquinas, veículos comerciais e componentes, enquanto oscilações cambiais alteram custos, receitas de exportação e margens.
Companhias com dívida elevada também sofrem com despesas financeiras maiores. Mesmo quando a operação permanece saudável, o aumento do custo dos empréstimos pode consumir parcela relevante do resultado e limitar investimentos, aquisições ou distribuição de dividendos.
A seleção de Plano&Plano (PLPL3), Smart Fit (SMFT3), Tupy (TUPY3) e Orizon (ORVR3) mostra que as casas de análise procuram ações com catalisadores próprios, capazes de reduzir parcialmente a dependência de uma melhora imediata da economia brasileira.
As teses são diferentes. A Plano&Plano depende da recuperação de margens e do desempenho da habitação popular. A Smart Fit aposta na expansão regional e no crescimento do TotalPass. A Tupy está vinculada à retomada da indústria de caminhões pesados. A Orizon busca ampliar a geração de receita com biogás, biometano e valorização de resíduos.
Plano&Plano (PLPL3) tem maior potencial, mas enfrenta pressão sobre margens
A Plano&Plano (PLPL3) apresenta o maior potencial de valorização entre as quatro ações analisadas. O Santander reduziu o preço-alvo dos papéis de R$ 21 para R$ 18, mas manteve recomendação equivalente à compra.
O novo preço-alvo representa uma valorização estimada de aproximadamente 115% em relação à cotação considerada pelo banco no momento da revisão. A redução ocorreu após resultados mais fracos do que o esperado no primeiro trimestre de 2026.
O desempenho levou o Santander a cortar projeções para lucro, vendas e lançamentos da construtora. A rentabilidade foi afetada pelo aumento dos custos de construção, por despesas adicionais relacionadas à conclusão de empreendimentos e pela concessão de descontos comerciais destinados a acelerar a venda de unidades em estoque.
A pressão sobre as margens é um ponto central para os investidores. Incorporadoras reconhecem receitas e custos ao longo do desenvolvimento dos projetos, o que significa que decisões tomadas durante o lançamento podem produzir efeitos financeiros por vários trimestres.
O banco avalia, entretanto, que a administração da Plano&Plano (PLPL3) começou a reagir. Entre as medidas estão maior controle sobre os custos, redução gradual dos descontos concedidos aos compradores e revisão de empreendimentos com retorno inferior ao esperado.
A participação da companhia no Minha Casa, Minha Vida também sustenta a recomendação. A empresa possui presença relevante no segmento habitacional de baixa renda na região metropolitana de São Paulo, mercado beneficiado por subsídios públicos, uso do FGTS e linhas de financiamento direcionadas.
Outro fator acompanhado pelo mercado é a possibilidade de expansão geográfica. Segundo a avaliação do Santander, a entrada em uma nova região poderia acrescentar cerca de R$ 1 bilhão por ano ao Valor Geral de Vendas, com atuação concentrada nas faixas 1 a 3 do programa habitacional.
O desconto atribuído às ações também pesa na tese. Pelos cálculos divulgados pelo banco, os papéis negociavam a aproximadamente 3,3 vezes o lucro projetado para 2027, múltiplo cerca de 45% inferior ao observado entre empresas comparáveis.
A recuperação não depende apenas do crescimento das vendas. Para que o preço-alvo seja alcançado, a Plano&Plano (PLPL3) precisará demonstrar que consegue recompor margens, controlar custos de obras, reduzir descontos e transformar lançamentos em geração efetiva de caixa.
TotalPass eleva expectativa de lucro da Smart Fit (SMFT3)
No setor de serviços, o Citi elevou de R$ 32 para R$ 34 o preço-alvo da Smart Fit (SMFT3) e manteve a recomendação de compra. A projeção indicava potencial de valorização próximo de 70% quando o relatório foi divulgado.
A revisão foi motivada principalmente pelo desempenho esperado da TotalPass, plataforma de benefícios corporativos controlada pela rede de academias. O serviço conecta empresas, trabalhadores e estabelecimentos parceiros por meio de planos de acesso a academias e atividades de bem-estar.
O modelo possui características financeiras diferentes das unidades físicas da Smart Fit. A abertura de uma academia exige investimentos em imóveis, equipamentos, manutenção e contratação de pessoal. A plataforma corporativa, por sua vez, pode ampliar a base de usuários com uma estrutura proporcionalmente mais leve.
Essa dinâmica favorece a escalabilidade e pode elevar a margem consolidada da companhia. À medida que o número de empresas contratantes, beneficiários e estabelecimentos parceiros cresce, a receita pode avançar sem aumento equivalente dos custos fixos.
O Citi também projeta crescimento orgânico da receita e expansão das margens operacionais da Smart Fit (SMFT3). A expectativa é de que o lucro líquido apresente desempenho superior ao consenso do mercado, apoiado tanto pelas academias quanto pelo avanço da plataforma corporativa.
A expansão pela América Latina continua sendo outro componente importante da tese. A presença em diferentes países reduz a dependência do mercado brasileiro, mas adiciona riscos cambiais, regulatórios e operacionais.
O crescimento acelerado exige disciplina na escolha dos pontos comerciais e no retorno das novas unidades. Academias abertas em regiões com demanda inferior à projetada podem levar mais tempo para atingir o ponto de equilíbrio e pressionar a rentabilidade.
Para os investidores, o principal teste será verificar se o TotalPass consegue manter crescimento elevado e ampliar margens sem provocar conflitos relevantes com academias parceiras. A capacidade de integrar a plataforma à rede física poderá determinar quanto valor adicional será incorporado às ações.
Tupy (TUPY3) aposta na retomada dos caminhões pesados
A XP Investimentos elevou a recomendação da Tupy (TUPY3) de neutra para compra e aumentou o preço-alvo de R$ 15 para R$ 20. Considerando as cotações observadas durante a revisão, o potencial de valorização ficava próximo de 25%.
A mudança ocorreu após sinais de melhora nas encomendas de caminhões pesados nos Estados Unidos, mercado relevante para a companhia. A Tupy fornece blocos, cabeçotes de motor e outros componentes estruturais para fabricantes de veículos comerciais e equipamentos industriais.
A ação já havia apresentado recuperação expressiva antes da alteração da recomendação. Esse movimento reduz parte da assimetria inicialmente observada, mas a XP entende que a retomada dos pedidos e os novos contratos podem sustentar uma melhora operacional no segundo semestre de 2026.
O balanço do primeiro trimestre ainda mostrou fragilidade. O Ebitda ajustado ficou em R$ 99 milhões, com queda de 60% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita líquida alcançou R$ 2,3 bilhões, recuo anual de 7%, refletindo volumes menores e efeitos cambiais desfavoráveis.
A margem Ebitda ajustada foi de 4,3%, distante do patamar de dois dígitos considerado mais compatível com a capacidade estrutural da companhia. A alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda, atingiu quatro vezes.
A geração de caixa livre, porém, apresentou sinal mais favorável. A Tupy (TUPY3) registrou R$ 198 milhões no período, apoiada pela redução de estoques e pela administração do capital de giro. A dívida líquida encerrou o trimestre em aproximadamente R$ 2,1 bilhões.
A diversificação da companhia também reduz a dependência exclusiva da indústria de caminhões. Seus componentes são utilizados em infraestrutura, agronegócio, mineração, geração de energia e outras aplicações de bens de capital.
Novas demandas relacionadas à geração de energia e à infraestrutura necessária para data centers podem abrir oportunidades adicionais. Esses projetos precisam de motores, sistemas de geração, estruturas metálicas e soluções de alta resistência, áreas nas quais a Tupy possui capacidade industrial.
O risco permanece elevado. A recuperação das encomendas precisa resultar em produção, receita e margem. Uma nova desaceleração na América do Norte, a valorização do real ou do peso mexicano e a manutenção da baixa utilização das fábricas podem atrasar a melhora esperada.
Orizon (ORVR3) amplia receita com biogás e biometano
A Orizon (ORVR3) completa a relação de ações acompanhadas pelas casas de análise. No levantamento, a Empiricus estabeleceu preço-alvo de R$ 97,80, com uma tese baseada na previsibilidade da gestão de resíduos e no avanço de negócios ligados à transição energética.
A companhia opera ecoparques destinados ao tratamento e à valorização de resíduos sólidos. A atividade possui demanda recorrente, uma vez que municípios e empresas precisam manter a destinação adequada do lixo independentemente do estágio do ciclo econômico.
Os contratos de longo prazo e as barreiras regulatórias aumentam a previsibilidade da receita. A construção e a operação de um aterro sanitário exigem licenciamento ambiental, disponibilidade de terrenos, investimentos elevados e capacidade técnica, o que limita a entrada de novos concorrentes.
O potencial de crescimento está na transformação dos resíduos em produtos de maior valor agregado. A decomposição de matéria orgânica gera biogás, que pode ser utilizado para produzir energia elétrica ou purificado para a obtenção de biometano.
O biometano pode substituir parte do gás natural e do diesel em processos industriais e frotas pesadas. A expansão desse mercado depende da disponibilidade de infraestrutura, de contratos de fornecimento e das políticas voltadas à redução das emissões.
Para a Orizon (ORVR3), o aproveitamento energético amplia a receita gerada por uma mesma base de ativos. Além de receber pela destinação do resíduo, a companhia pode produzir gás renovável, energia, combustíveis derivados, materiais recicláveis, fertilizantes e créditos de carbono.
A incorporação da estrutura ligada à Vital é outro elemento da estratégia. A expectativa apresentada na tese é de que a operação amplie a escala, aumente a presença geográfica e produza sinergias mais perceptíveis a partir de 2027.
A integração, entretanto, exige atenção. Aquisições podem elevar o endividamento, demandar investimentos adicionais e produzir custos superiores aos estimados. O retorno dependerá da capacidade de integrar contratos, operações, licenças e projetos de valorização energética.
Recomendações dependem de execução e mudança nas expectativas
As quatro ações possuem fundamentos e níveis de risco distintos, mas compartilham uma característica: parte importante do potencial projetado depende da execução de planos ainda não totalmente refletidos nos resultados.
Na Plano&Plano (PLPL3), o mercado buscará sinais de recuperação das margens e controle dos custos. Na Smart Fit (SMFT3), o foco estará na expansão do TotalPass e na rentabilidade das novas academias.
Para a Tupy (TUPY3), a confirmação da retomada industrial na América do Norte será determinante. No caso da Orizon (ORVR3), o avanço dos projetos de biometano e a integração dos ativos adquiridos deverão indicar se a companhia conseguirá transformar escala em geração de caixa.
Os juros continuam sendo o principal fator comum de risco. Uma curva mais elevada por período prolongado pode manter pressionados os múltiplos das ações, encarecer a dívida corporativa e retardar investimentos e consumo.
Uma eventual redução consistente das expectativas de inflação e dos juros futuros produziria o efeito oposto. Empresas com crescimento projetado para os próximos anos poderiam ser reavaliadas, especialmente aquelas que negociam com desconto em relação aos pares.
Até que esse movimento se consolide, as revisões de Santander, Citi, XP Investimentos e Empiricus reforçam uma estratégia seletiva na B3. O potencial de até 115% reflete a diferença entre as cotações atuais e os valores estimados pelos analistas, mas sua materialização dependerá da capacidade das quatro empresas de converter planos operacionais em margens, lucro e caixa.









