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Ataques de Milei abrem crise com Brasil e expõem comércio de US$ 31,2 bilhões

Itamaraty convoca embaixador argentino após ataques a Lula e ao STF, enquanto empresas acompanham riscos para o Mercosul e a indústria automotiva

por Júlia Campos
28/07/2026 às 08h38
em Política
O Presidente Argentino Javier Milei | Crédito: Tomas Cuesta /Getty Images Via Afp

A relação entre Brasil e Argentina entrou em sua fase mais delicada desde o início do governo Javier Milei depois que o presidente argentino participou, no sábado (25), de uma convenção eleitoral em São Paulo, apoiou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e dirigiu ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Supremo Tribunal Federal. A reação do Itamaraty elevou o episódio ao terreno diplomático: o embaixador argentino em Brasília foi convocado para prestar explicações e o representante brasileiro em Buenos Aires, chamado para consultas. Por trás do confronto político está uma relação comercial que movimentou US$ 31,195 bilhões em 2025 e sustenta cadeias industriais integradas, sobretudo no setor automotivo.

A dimensão econômica ajuda a explicar por que o episódio ultrapassou rapidamente a troca de declarações entre dois presidentes ideologicamente opostos. O Brasil é o principal destino das exportações argentinas e também a maior origem das compras externas do país vizinho. Para a indústria argentina, não se trata apenas de volume: o mercado brasileiro absorve uma parcela relevante de seus produtos manufaturados, veículos, autopeças, trigo e bens de maior valor agregado.

O Ministério das Relações Exteriores classificou a passagem de Milei por São Paulo como uma visita privada e afirmou não haver precedente para que um presidente estrangeiro concentrasse, em território brasileiro, ataques ao chefe de Estado, às instituições democráticas, ao Poder Judiciário e à população do país anfitrião.

O chanceler Mauro Vieira convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para transmitir a repulsa do governo e cobrar explicações formais. No mesmo movimento, determinou o retorno temporário do embaixador Julio Bitelli, chefe da representação brasileira em Buenos Aires, para consultas em Brasília.

A convocação para consultas não significa rompimento das relações diplomáticas. É, porém, um instrumento reservado a episódios considerados graves e sinaliza que o governo brasileiro pretende rever o grau de interlocução política com a Casa Rosada.

Discurso em convenção eleitoral muda o patamar do conflito

Milei desembarcou em São Paulo para participar da convenção do Partido Liberal que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República. No palco, o presidente argentino atacou Lula, criticou a condução econômica brasileira e fez declarações ofensivas contra o ministro Alexandre de Moraes.

A presença de um chefe de Estado em um ato destinado a lançar um candidato de oposição já carregava forte conteúdo político. Os ataques proferidos durante o evento transformaram a visita em uma questão diplomática e deram ao governo brasileiro elementos para reagir institucionalmente.

As divergências entre Lula e Milei não são novas. Desde a eleição do libertário argentino, os dois presidentes mantêm distância política, sustentam visões opostas sobre o papel do Estado e adotam posições distintas nas relações com Estados Unidos, China e países do Brics.

Até agora, contudo, o antagonismo havia sido administrado sem prejudicar os canais formais entre Brasília e Buenos Aires. Ministérios, diplomatas e áreas técnicas continuaram a negociar temas comerciais, energéticos, regulatórios e fronteiriços, mesmo sem uma relação pessoal próxima entre os presidentes.

A passagem de Milei pela convenção do PL mudou esse equilíbrio. Ao vincular sua presença no Brasil a uma candidatura presidencial e atacar autoridades brasileiras, o argentino deslocou o conflito da divergência ideológica para o processo eleitoral.

O episódio também amplia a sensibilidade em torno da disputa presidencial de 2026. Para o governo brasileiro, manifestações de um mandatário estrangeiro dentro do país, em apoio a um candidato, podem produzir repercussões institucionais que vão além da política externa.

Brasil respondeu por 24,3% das importações argentinas

A reação firme do Itamaraty convive com uma realidade econômica que limita os espaços para uma escalada prolongada. Brasil e Argentina formam uma das relações comerciais mais densas da América Latina, com integração construída ao longo de décadas e consolidada pelo Mercosul.

Dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina mostram que o país exportou US$ 12,771 bilhões para o Brasil em 2025. O mercado brasileiro respondeu por 14,7% de todas as vendas argentinas ao exterior e permaneceu como o principal destino de seus produtos.

No sentido inverso, a Argentina importou US$ 18,424 bilhões do Brasil, alta de 28,5% em relação ao ano anterior. Os produtos brasileiros representaram 24,3% de tudo o que o país vizinho comprou no exterior.

A soma das duas correntes chegou a US$ 31,195 bilhões. O saldo foi favorável ao Brasil em US$ 5,653 bilhões, resultado da diferença entre as exportações brasileiras e as vendas argentinas para o mercado nacional.

Esses números revelam uma assimetria importante. Embora o comércio seja relevante para os dois lados, a Argentina apresenta dependência maior do mercado brasileiro, tanto como destino de produtos industriais quanto como fornecedor de bens de capital, insumos, componentes e veículos.

Em junho de 2026, mesmo com o ambiente político já marcado por divergências, o Brasil continuou a liderar o comércio argentino. As exportações argentinas para o país somaram US$ 1,176 bilhão no mês, enquanto as importações de produtos brasileiros chegaram a US$ 1,417 bilhão.

O fluxo mensal de US$ 2,593 bilhões mostra que a integração econômica permanece ativa e atravessa governos de diferentes orientações políticas. Uma deterioração da relação institucional não interromperia automaticamente o comércio, mas poderia afetar a previsibilidade necessária para investimentos, decisões de produção e negociações regulatórias.

Manufaturados dominam vendas argentinas ao Brasil

A composição das exportações argentinas torna o mercado brasileiro especialmente estratégico. Dos US$ 12,771 bilhões vendidos ao Brasil em 2025, US$ 8,189 bilhões corresponderam a manufaturas de origem industrial.

Isso significa que quase dois terços das vendas argentinas ao Brasil estiveram concentradas em produtos industriais. O desempenho contrasta com outros destinos, nos quais commodities agrícolas, combustíveis e produtos primários ocupam espaço maior.

O Brasil também comprou US$ 1,910 bilhão em produtos primários, US$ 1,977 bilhão em manufaturas de origem agropecuária e US$ 695 milhões em combustíveis e energia.

A pauta brasileira enviada à Argentina reflete igualmente o grau de integração produtiva. O país vizinho importou do Brasil US$ 5,476 bilhões em bens intermediários, US$ 3,560 bilhões em peças e acessórios para bens de capital e US$ 3,445 bilhões em bens de capital.

Somente as compras argentinas de veículos de passageiros produzidos no Brasil alcançaram US$ 3,860 bilhões em 2025. Outros US$ 1,858 bilhão foram destinados a bens de consumo.

Esses fluxos não são formados apenas por mercadorias prontas. Componentes atravessam a fronteira em diferentes etapas de fabricação, abastecendo fábricas instaladas nos dois países. A relação opera como uma cadeia regional de produção, e não como uma simples troca de excedentes comerciais.

Por isso, empresas acompanham a crise diplomática com atenção, mesmo sem medidas comerciais anunciadas até o momento. O risco imediato não está necessariamente na adoção de tarifas, mas no enfraquecimento do diálogo técnico, em atrasos administrativos e na perda de previsibilidade para investimentos.

Acordo automotivo protege cadeia integrada até 2029

A indústria automotiva é o ponto de maior exposição econômica na crise entre Brasil e Argentina. Montadoras instaladas nos dois países organizam suas fábricas considerando o mercado regional, com modelos produzidos em um lado da fronteira para abastecer consumidores do outro.

O comércio do setor é disciplinado pelo Acordo de Complementação Econômica nº 14, o ACE 14. O regime alcança automóveis, ônibus, caminhões, tratores rodoviários, chassis e autopeças e utiliza um mecanismo conhecido como “flex” para administrar o valor das importações em relação às exportações.

Entre julho de 2025 e junho de 2027, o coeficiente máximo é de 2. Isso permite que um país importe até US$ 2 em produtos automotivos para cada US$ 1 exportado ao parceiro sem perder a preferência tarifária prevista pelo acordo.

O limite subirá para 2,5 entre julho de 2027 e junho de 2028 e para 3 no período seguinte. A partir de 1º de julho de 2029, o intercâmbio automotivo deverá passar ao regime de livre comércio.

O cronograma foi desenhado para oferecer previsibilidade às montadoras e permitir uma abertura gradual. Investimentos em novas plataformas, motorização, componentes e tecnologias são planejados com anos de antecedência e dependem da manutenção das regras acordadas entre os governos.

O acordo também prevê mecanismos de cooperação regulatória. Brasil e Argentina trabalham para reduzir divergências em normas de segurança veicular e homologação, medida necessária para facilitar o acesso de veículos produzidos em um país ao mercado do outro.

Uma crise diplomática persistente poderia dificultar esse trabalho sem que fosse necessário revogar qualquer tratado. A simples paralisação de comitês técnicos ou o atraso na convergência regulatória já seria suficiente para elevar custos e reduzir a eficiência da cadeia.

Imprensa argentina desloca foco para o risco econômico

A repercussão na Argentina mostrou que a preocupação ultrapassou a avaliação sobre o estilo político de Milei. Clarín, La Nación e Página/12, jornais com linhas editoriais distintas, deram espaço ao efeito potencial do confronto sobre a relação com o principal parceiro comercial do país.

O Clarín destacou os US$ 31,195 bilhões movimentados em 2025 e apontou que empresários não projetam uma interrupção imediata do comércio. A preocupação está concentrada na possibilidade de que a crise se prolongue e atinja decisões administrativas, negociações setoriais ou o funcionamento do Mercosul.

O La Nación tratou o episódio como uma das crises mais graves já abertas por Milei com o Brasil. Em análises publicadas pelo jornal, os insultos foram apresentados como a parte visível de uma disputa regional que envolve alianças partidárias, a aproximação argentina com o governo dos Estados Unidos e o posicionamento brasileiro diante da China e do Brics.

O Página/12 relacionou o episódio a outros confrontos de Milei com presidentes latino-americanos e deu destaque à resposta do Itamaraty. A publicação também ressaltou a dificuldade de uma retratação formal por parte da Casa Rosada.

As diferenças editoriais entre os veículos não impediram uma convergência: a Argentina tem pouco espaço econômico para tratar a relação com o Brasil como um conflito sem consequências.

A repercussão doméstica aumenta a pressão sobre o governo Milei para separar o discurso político da administração dos interesses comerciais. Essa divisão será decisiva para determinar se a crise permanecerá restrita à diplomacia ou avançará para áreas econômicas.

Mercosul obriga governos a preservar canais técnicos

Brasil e Argentina respondem pela maior parcela do Produto Interno Bruto, da população e da produção industrial do Mercosul. As decisões dos dois países condicionam negociações comerciais, regras de origem, tarifas externas e acordos com outros blocos.

Essa estrutura reduz a possibilidade de isolamento bilateral. Mesmo sob forte tensão política, os governos precisam manter interlocução em temas como indústria automotiva, energia, infraestrutura, fronteiras, comércio agrícola e circulação de mercadorias.

A experiência do bloco mostra que divergências presidenciais podem coexistir com relações comerciais intensas. O custo, porém, tende a crescer quando o conflito atinge a confiança empresarial e compromete a estabilidade das regras.

Até o momento, as medidas formalizadas pelo governo brasileiro permaneceram no campo diplomático. Não houve anúncio de revisão tarifária, suspensão de acordos ou restrição ao comércio bilateral.

A Casa Rosada, por sua vez, não indicou disposição para um pedido formal de desculpas. Esse impasse mantém aberta a crise entre Brasil e Argentina e transfere para diplomatas e ministros a responsabilidade de impedir que o confronto presidencial contamine a agenda econômica.

Com US$ 31,195 bilhões movimentados em um único ano, mais de US$ 8 bilhões em manufaturados argentinos vendidos ao mercado brasileiro e uma cadeia automotiva submetida a regras comuns até 2029, os dois países acumulam razões concretas para limitar a escalada.

O principal teste será preservar esses interesses durante a campanha presidencial brasileira. A entrada de Milei na disputa eleitoral elevou a tensão política, mas a densidade do comércio, dos investimentos e da produção integrada mantém Brasil e Argentina presos a uma relação que nenhum dos governos consegue administrar apenas pelo confronto.

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