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BC avisa que inflação global mantém juros altos por mais tempo; ata do Copom cita 2028 como horizonte de risco inédito

Ata do Copom aponta desancoragem das expectativas até 2028 e ambiente externo deteriorado como razões para manutenção da restrição monetária; IPCA projetado em 5,2% em 2026, acima do teto da meta

por Antônio Lima
25/06/2026 às 15h57
em Economia
Análise: Corte Da Selic Mostra Avanço Cauteloso Do Copom Diante De Inflação E Risco Fiscal - Gazeta Mercantil

Para o Banco Central do Brasil, a inflação global não é ruído passageiro. Na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira (23), a autoridade monetária alertou que o ambiente externo deteriorado — marcado pelo conflito no Oriente Médio, pela alta do petróleo acima de US$ 100 por barril e pela incerteza em torno da política econômica americana — impõe ao Brasil uma política monetária mais rígida e por prazo mais longo do que o mercado previa. A conclusão foi unânime entre os membros do colegiado: num cenário de expectativas desancoradas, uma flexibilização prematura sairia muito mais cara do que manter a cautela.

O documento detalha a reunião de 16 e 17 de junho, quando o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano — o terceiro corte consecutivo desde março deste ano. Apesar da trajetória de queda, o BC tratou de deixar claro que o ciclo de flexibilização não tem ritmo predefinido. Os passos seguintes dependerão dos dados incorporados até agosto, sobretudo da evolução do IPCA e dos reflexos duradouros do conflito geopolítico sobre a economia global.

Leia também: Ibovespa ao Vivo: Bolsa, Dólar e Juros em Foco com Commodities e Geopolítica no Radar.

O diagnóstico do comitê é severo. As projeções do próprio Banco Central elevaram o IPCA de 2026 para 5,2%, acima do teto de 4,5% da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). O Boletim Focus apontou, na semana anterior à decisão, projeções para o IPCA de 2026 e 2027 em 5,30% e 4,10%, respectivamente. Para uma autoridade monetária comprometida com a meta contínua de 3%, esse distanciamento é expressivo.

Ata de junho cita 2028 como horizonte inédito de desancoragem

Pela primeira vez nos documentos do comitê, a desancoragem das expectativas de inflação alcança o ano de 2028 — período que fica além do horizonte relevante formal da política monetária. A constatação, citada duas vezes na ata, preocupou analistas. Expectativas desancoradas em horizontes tão distantes indicam que o mercado não acredita em convergência rápida para a meta, o que complica ainda mais o trabalho do BC.

Quando as expectativas saem dos trilhos, a política monetária precisa trabalhar mais para gerar o mesmo efeito desinflacionário. A autoridade monetária enfatizou que o custo para trazer a inflação de volta à meta é significativamente maior quando as expectativas do mercado estão desancoradas, o que justifica a manutenção de uma postura restritiva para a Selic. A conclusão compartilhada por todos os membros do comitê é de que esse ambiente exige restrição monetária maior e por mais tempo do que anteriormente seria considerado necessário.

Bruna Centeno, economista e sócia da Blue3 Investimentos, destacou que o relevante é a “assimetria altista no balanço de riscos” para a inflação e a desancoragem adicional nas expectativas, elementos que exigiriam uma restrição monetária mais intensa e prolongada. A ata também enumerou quatro fatores de risco inflacionário: estímulos à demanda que gerem crescimento acima do potencial — adicionado nesta reunião —, persistência da desancoragem, resiliência da inflação de serviços e eventuais desvalorizações cambiais que contaminassem os preços domésticos.

Petróleo acima de US$ 100 sincroniza bancos centrais em postura restritiva

O pano de fundo externo que alimenta o diagnóstico do BC é dominado por uma variável central: o preço do petróleo. O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã levou o barril a superar a marca de US$ 100 — um limiar que acende alertas automáticos para bancos centrais em todo o mundo. Combustíveis mais caros pressionam diretamente o custo de vida e contaminam expectativas, em um mecanismo que autoridades monetárias conhecem bem desde os choques energéticos de 2022.

O Federal Reserve (Fed) manteve as taxas de juros estáveis e sinalizou, no máximo, um único corte ao longo de 2026 — projeção bem abaixo dos múltiplos cortes que o mercado antecipava no início do ano. Policymakers do Fed adotaram um tom mais restritivo, com a narrativa de “juros altos por mais tempo” reconquistando terreno diante da inflação persistente e da instabilidade geopolítica. Kevin Warsh, nomeado por Donald Trump para presidir a autoridade monetária em substituição a Jerome Powell, manteve o tom conservador em sua primeira decisão à frente da instituição.

Na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) optou por manter a taxa de referência em 2%, mas passou a sinalizar a possibilidade de elevações para conter a desancoragem das expectativas inflacionárias. Os mercados antecipam até duas altas das taxas diretoras em 2026. A presidente do BCE, Christine Lagarde, reconheceu o risco de estagflação na zona do euro, resultado da combinação entre energia cara e crescimento anêmico, e indicou que a instituição não hesitará em agir se a pressão de preços persistir.

Além do Fed e do BCE, autoridades monetárias de Canadá, Japão, Suécia, Suíça, Reino Unido e Indonésia também optaram por manutenção das taxas em suas reuniões mais recentes, indicando que a cautela é o denominador comum entre os principais bancos centrais do planeta. O ciclo de normalização monetária global, iniciado em 2024, foi interrompido. A guerra reabriu uma janela inflacionária que os mercados julgavam encerrada.

Atividade aquecida e mercado de trabalho resiliente complicam a desinflação doméstica

O desafio doméstico do Banco Central não é menor que o externo. A atividade econômica mostrou recuperação no primeiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre final de 2025, com setores mais cíclicos voltando a desempenhar papel significativo, enquanto o mercado de trabalho mantém sinais de resiliência. Essa combinação — inflação acima da meta, expectativas desancoradas e economia em recuperação — forma o triângulo mais desafiador com o qual qualquer banco central pode se defrontar.

O próprio Copom registrou que a taxa de desemprego tem se mantido em patamares historicamente baixos, enquanto os rendimentos reais médios seguem crescendo em ritmo superior ao da produtividade do trabalho. Quando salários sobem mais depressa do que a capacidade de produção da economia, os preços respondem. A inflação de serviços — componente mais viscoso e mais difícil de debelar por meio da política monetária — permanece resistente, corroendo a trajetória de convergência.

Peterson Rizzo, da Multiplike, avalia que o cenário é estrutural: inflação acima do teto da meta, expectativas desancoradas até 2028, mercado de trabalho aquecido com rendimentos crescendo acima da produtividade e política fiscal sem contribuição contracíclica relevante. A esse diagnóstico interno somam-se as incertezas externas, que amplificam o desafio desinflacionário e tornam improvável qualquer aceleração no ritmo de cortes da Selic nos próximos meses.

Risco fiscal e câmbio ampliam pressão sobre a trajetória dos juros

Além do ambiente externo e do mercado de trabalho, o Copom voltou a incluir a política fiscal entre suas preocupações. A ata do comitê apontou dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida pública e o enfraquecimento de reformas estruturais como riscos que mantêm o cenário inflacionário pressionado. Quando esses elementos se deterioram, o prêmio de risco exigido pelo mercado para financiar o governo aumenta, pressionando a curva longa de juros mesmo durante um ciclo formal de cortes na Selic.

Juros mais altos nos Estados Unidos fortalecem o dólar globalmente e tendem a pressionar os preços em economias emergentes como a brasileira, tornando o controle da inflação ainda mais desafiador. Para o Brasil, o câmbio é uma variável de transmissão direta: depreciações do real encarecem combustíveis, alimentos e insumos industriais, alimentando a inflação antes mesmo de qualquer repasse ao longo da cadeia produtiva. O mercado projeta a taxa de câmbio em torno de R$ 5,16 ao final do ano — um nível que, embora mais favorável que no início de 2026, permanece sensível ao comportamento do petróleo e ao risco fiscal doméstico.

Os riscos para a inflação permanecem em alta, com destaque para a persistência da desancoragem das expectativas, a resistência da inflação de serviços, possíveis pressões cambiais e estímulos à demanda acima da capacidade de crescimento da economia. O Banco Central, ao citar esses vetores com clareza, sinalizou que não vê condições para flexibilizar seu discurso tão cedo.

Copom de agosto definirá ritmo do ciclo com petróleo como variável decisiva

A ata de junho foi considerada pelo mercado mais dura do que o comunicado divulgado logo após a decisão — uma indicação de que o Copom abandonou qualquer automatismo no ciclo de cortes. O comitê informou que o tamanho total do ajuste dos juros dependerá dos próximos dados econômicos, com o objetivo de garantir que a inflação volte à meta, com convergência projetada para o primeiro trimestre de 2028.

A próxima reunião do Copom está marcada para 5 e 6 de agosto de 2026. A projeção do Banco Safra é que a Selic encerre 2026 em 13,50% ao ano, refletindo um processo gradual de queda dos juros. Para isso, entretanto, seria necessário que o conflito no Oriente Médio se dissipasse, o petróleo recuasse dos patamares atuais e as expectativas de inflação deixassem de se deteriorar — uma conjunção de fatores que, no momento, ainda se mostra incerta.

Para os investidores, o quadro consolida a atratividade da renda fixa brasileira. Com a Selic a 14,25% ao ano, os retornos reais dos títulos públicos permanecem elevados, comprimindo o apetite por risco e mantendo a Bolsa brasileira sob pressão constante de custo de oportunidade. Enquanto a inflação global seguir ditando o comportamento das autoridades monetárias ao redor do mundo, a postura do Banco Central do Brasil não terá como ser outra.

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