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Banco Central multa Genial em R$ 21,6 milhões e inabilita CEO por quatro anos

Processo envolve operações de câmbio, controles internos e transações ligadas à compra de ativos virtuais no exterior.

por Letícia Nóbrega
13/08/2026 às 15h24
em Empresas
Banco Central Multa Genial Em R$ 21,6 Milhões E Inabilita Ceo Por Quatro Anos - Gazeta Mercantil - Empresas

O Banco Central aplicou multa de R$ 21,56 milhões ao Banco Genial e determinou a inabilitação, por quatro anos, do CEO André Schwartz para exercer cargos de administração em instituições autorizadas a funcionar pela autoridade monetária. A decisão decorre de um processo administrativo que examinou operações de câmbio, procedimentos de identificação e avaliação de clientes e controles relacionados à prevenção de ilícitos financeiros.

Schwartz também recebeu multa individual de R$ 516 mil. As sanções atingiram ainda outros executivos ligados às áreas de câmbio e controles internos da instituição durante o período investigado. O Genial contesta as conclusões e informou que pretende adotar medidas para buscar a anulação das penalidades.

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O processo analisou 2.038 operações de câmbio realizadas pelo banco com nove clientes entre novembro de 2020 e outubro de 2021. As transações consideradas no procedimento movimentaram R$ 1,208 bilhão, concentrando parte relevante dos questionamentos do regulador sobre a compatibilidade entre o perfil econômico dos clientes e os valores enviados ao exterior.

Dentro desse universo, 1.824 operações, correspondentes a R$ 1,154 bilhão, foram realizadas por quatro clientes para aquisição de ativos virtuais no exterior. A avaliação do Banco Central apontou insuficiências nos procedimentos utilizados pelo banco para verificar se a capacidade financeira declarada ou conhecida desses clientes era compatível com o volume movimentado.

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Operações com ativos virtuais concentram valores analisados

As transações destinadas à compra de ativos virtuais representam a maior parcela financeira das operações discutidas no processo. Os R$ 1,154 bilhão atribuídos aos quatro clientes equivalem a mais de 95% do valor total das 2.038 operações de câmbio submetidas à análise.

A concentração tornou a avaliação da capacidade financeira dos clientes um elemento central do caso. Instituições que operam no mercado de câmbio precisam manter procedimentos capazes de identificar clientes, compreender a natureza das operações e avaliar riscos associados às movimentações realizadas.

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No caso examinado pelo Banco Central, o questionamento não se limita à existência formal de documentação cadastral. A discussão envolve a suficiência dos mecanismos empregados para confrontar o porte econômico dos clientes com a dimensão e a frequência das operações.

Esse tipo de controle ganhou importância à medida que operações ligadas a ativos digitais passaram a utilizar com maior intensidade os canais do sistema financeiro tradicional para remessas internacionais. Embora a negociação dos ativos possa ocorrer fora das instituições bancárias convencionais, a transferência de recursos entre países frequentemente depende de operações de câmbio executadas por instituições supervisionadas.

A decisão contra o Genial, portanto, alcança um ponto de interseção entre dois mercados: o sistema bancário regulado e a negociação internacional de ativos virtuais. Para os bancos, o crescimento dessas transações ampliou a necessidade de calibrar sistemas de monitoramento e avaliação de clientes capazes de lidar com volumes elevados e operações realizadas em sequência.

Responsabilização alcança direção do banco

As sanções não ficaram restritas à pessoa jurídica. André Schwartz foi responsabilizado individualmente e recebeu, além da multa de R$ 516 mil, a penalidade de inabilitação pelo período de quatro anos.

Parte da responsabilização atribuída ao executivo alcança operações realizadas entre 2017 e 2021, quando Schwartz exercia funções ligadas à área de câmbio. O processo examinou aproximadamente R$ 520 milhões em transações envolvendo clientes cuja qualificação teria sido considerada insuficiente pelo regulador.

A inabilitação é uma das penalidades administrativas mais relevantes aplicáveis a administradores do sistema financeiro, porque impede temporariamente o exercício de determinadas funções em instituições submetidas à supervisão do Banco Central.

Outro executivo, William Kenzo Yoshiro, recebeu multa de R$ 732 mil e foi inabilitado por seis anos. O período é superior ao determinado para Schwartz e representa a sanção individual mais severa, em duração, entre as penalidades informadas no processo.

Luís José Rebello de Resende, ex-diretor responsável por controles internos, foi multado em R$ 180 mil. A responsabilização de dirigentes de diferentes áreas mostra que o processo avaliou não somente a execução operacional das operações de câmbio, mas também a estrutura de supervisão, controles e governança utilizada pelo banco.

Controles internos entram no centro da decisão

O processo também aborda deficiências apontadas nos mecanismos internos de acompanhamento das transações. A análise incluiu 502 operações consideradas suspeitas no âmbito da investigação, que somaram R$ 421,18 milhões.

A presença de operações dessa magnitude aumenta a importância dos procedimentos internos de classificação de risco. Bancos precisam acompanhar padrões de comportamento, alterações bruscas no volume financeiro, destino de recursos, frequência das transações e compatibilidade entre as movimentações e as informações disponíveis sobre os clientes.

A questão é especialmente relevante no mercado cambial. Transferências internacionais podem envolver estruturas societárias, diferentes jurisdições, intermediários e operações econômicas cujo propósito precisa ser adequadamente documentado.

No segmento de ativos virtuais, a análise pode ganhar complexidade adicional porque a conversão de recursos em criptoativos pode ocorrer imediatamente após a remessa. Para a instituição que executa o câmbio, isso torna a avaliação prévia do cliente e da operação uma etapa essencial do gerenciamento de risco.

As penalidades impostas ao Genial mostram também que a supervisão regulatória pode alcançar fatos ocorridos vários anos antes da decisão administrativa. O intervalo entre as operações analisadas e o julgamento não elimina a possibilidade de responsabilização quando o regulador entende que houve descumprimento das obrigações aplicáveis no período.

Genial contesta interpretação do Banco Central

O banco rejeita as conclusões que fundamentaram as punições. A defesa sustenta que as operações respeitaram as normas vigentes quando foram realizadas e questiona a interpretação regulatória aplicada aos fatos.

Um dos principais argumentos apresentados pela instituição é que parte da avaliação teria utilizado parâmetros estabelecidos ou desenvolvidos posteriormente às operações examinadas. O Genial afirma que fatos ocorridos há mais de cinco anos não poderiam ser julgados com base em exigências normativas que teriam sido introduzidas depois.

A divergência coloca no centro do debate administrativo a identificação da norma aplicável em cada momento e a extensão das obrigações existentes quando as operações foram realizadas. Esse aspecto poderá ser relevante nas medidas que o banco pretende utilizar para contestar a decisão.

A instituição informou que buscará a anulação das condenações. A contestação, entretanto, não significa automaticamente reversão das penalidades. A validade, suspensão ou eventual modificação das sanções dependerá dos instrumentos administrativos ou judiciais utilizados e das decisões que vierem a ser tomadas nas instâncias competentes.

Até que ocorra eventual revisão, a decisão permanece como referência regulatória do caso. A defesa do Genial deverá demonstrar, entre outros pontos, por que considera inadequada a interpretação utilizada para enquadrar as operações e responsabilizar a instituição e seus administradores.

Caso reforça pressão sobre controles de câmbio

Para o sistema financeiro, o processo acrescenta um precedente relevante à discussão sobre os controles necessários em operações de grande volume relacionadas à compra de ativos virtuais no exterior.

A supervisão não se limita ao processamento técnico da remessa. A instituição financeira precisa avaliar o cliente, o propósito da operação e os riscos envolvidos, especialmente quando existe diferença significativa entre a movimentação realizada e a capacidade econômica previamente identificada.

Esse processo de avaliação faz parte de uma arquitetura mais ampla de controles de prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento de atividades ilícitas. Quanto maiores os valores e mais complexa a estrutura das operações, maior tende a ser a necessidade de documentação, acompanhamento e justificativa interna.

Para bancos e corretoras que atuam no câmbio, as consequências de falhas podem ultrapassar multas aplicadas à instituição. O caso do Genial mostra que administradores e responsáveis por áreas específicas também podem ser individualmente alcançados pelas decisões do regulador.

A dimensão financeira das operações investigadas reforça esse ponto. Somente as transações relacionadas à aquisição de ativos virtuais por quatro clientes alcançaram R$ 1,154 bilhão no período examinado. A avaliação do Banco Central concentrou-se justamente na capacidade dos controles do banco de explicar e validar operações dessa escala.

Penalidades podem abrir nova etapa de disputa

A multa de R$ 21,56 milhões aplicada ao Genial representa a principal sanção financeira do processo, mas os efeitos sobre os administradores ampliam o alcance da decisão. A inabilitação imposta ao CEO por quatro anos e a penalidade de seis anos aplicada a William Kenzo Yoshiro interferem diretamente na possibilidade de exercício de funções de gestão no sistema financeiro durante os respectivos períodos, caso sejam mantidas.

Para o banco, a próxima frente deixa de ser predominantemente regulatória e passa a incluir a contestação formal das penalidades. A instituição terá de decidir quais instrumentos utilizará para tentar suspender ou derrubar os efeitos da decisão, enquanto sustenta que os procedimentos adotados eram compatíveis com a regulação existente na época.

O processo também expõe um desafio crescente para instituições financeiras que atendem clientes envolvidos com ativos virtuais. A expansão desse mercado não reduz as obrigações dos bancos que executam as transferências de moeda fiduciária. Ao contrário, operações de grande porte exigem que os sistemas tradicionais de conformidade consigam acompanhar atividades desenvolvidas em ambientes financeiros mais novos e com estruturas de movimentação distintas.

A decisão não equivale a uma conclusão criminal contra o banco ou seus executivos. Trata-se de responsabilização administrativa no âmbito da supervisão do sistema financeiro, cuja fundamentação é contestada pela instituição. Qualquer discussão sobre outras formas de responsabilidade depende de procedimentos próprios e não pode ser inferida apenas a partir das sanções regulatórias.

O desdobramento imediato será a ofensiva jurídica e administrativa anunciada pelo Genial para tentar anular as condenações. Enquanto não houver decisão posterior que suspenda, modifique ou reverta as penalidades, o caso mantém multas que somam mais de R$ 22 milhões entre a instituição e os executivos citados, além das inabilitações determinadas para dois administradores.

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