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Banco Central corta Selic para 14,25%, mas inflação mais alta freia sinalização de novos cortes

Copom promove terceira redução consecutiva dos juros e eleva projeções para o IPCA, reforçando cautela sobre os próximos passos da política monetária.

por Camila Braga
17/06/2026 às 11h36
em Economia
Banco Central Corta Selic Para 14,25%, Mas Inflação Mais Alta Freia Sinalização De Novos Cortes-Gazeta Mercantil

O Banco Central reduziu nesta quarta-feira (17) a taxa Selic de 14,50% para 14,25% ao ano, em decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom). O movimento representa o terceiro corte consecutivo de 0,25 ponto percentual no atual ciclo de flexibilização monetária, mas veio acompanhado de um comunicado mais cauteloso, sem qualquer indicação sobre novas reduções nas próximas reuniões.

A decisão ocorre em um ambiente de desaceleração gradual da atividade econômica, após um longo período de juros elevados, mas também em meio à deterioração das projeções para a inflação. O próprio Banco Central revisou para cima suas estimativas para os próximos anos e reforçou que a trajetória futura da Selic dependerá da evolução dos indicadores econômicos e dos riscos para o controle dos preços.

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O encontro do Copom foi concluído após dois dias de reuniões em Brasília e marcou mais um passo na tentativa da autoridade monetária de calibrar a política monetária sem comprometer o processo de convergência da inflação para a meta oficial.

Segundo o comunicado divulgado após a decisão, a manutenção da taxa básica em nível restritivo durante os últimos trimestres permitiu observar efeitos mais claros da política monetária sobre a atividade econômica, abrindo espaço para uma redução moderada dos juros neste momento.

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“O período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica”, destacou o colegiado.

Inflação mais distante da meta aumenta cautela do Copom

Embora tenha realizado novo corte na Selic, o Banco Central reforçou preocupações relacionadas ao comportamento da inflação nos próximos anos.

O principal fator de atenção foi a revisão das projeções oficiais para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A estimativa para a inflação passou de 4,6% para 5,2% no horizonte considerado mais relevante para a política monetária.

O número supera o limite superior do sistema de metas perseguido pela autoridade monetária. Atualmente, a meta contínua de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

Também houve revisão para cima das projeções para períodos mais longos. Para o quarto trimestre de 2027, a estimativa avançou de 3,5% para 3,7%.

Segundo o Copom, além da deterioração das projeções, aumentou a incerteza em relação às variáveis utilizadas nos modelos econômicos que orientam as decisões de política monetária.

“O Comitê avalia que a incerteza acerca dessas projeções permanece mais elevada que o usual”, informou o comunicado.

O tom adotado pela autoridade monetária indica que a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário dependerá da evolução dos indicadores de inflação, atividade econômica e expectativas de mercado até a próxima reunião, marcada para os dias 4 e 5 de agosto.

Terceiro corte consecutivo reduz juros do maior patamar em quase duas décadas

A nova redução faz parte de um processo gradual de retirada dos juros dos níveis mais elevados observados desde meados dos anos 2000.

O ciclo anterior de aperto monetário começou em setembro de 2024, quando a Selic estava em 10,50% ao ano. Ao longo dos meses seguintes, o Banco Central promoveu sucessivas altas para conter a aceleração inflacionária, levando a taxa para níveis que não eram observados há quase 20 anos.

Após um longo período de estabilidade em patamar elevado, o Copom iniciou o atual ciclo de cortes em março deste ano. Desde então, a taxa recuou de 14,75% para 14,50% e agora para 14,25% ao ano.

Apesar da redução acumulada, os juros permanecem em níveis historicamente altos e continuam exercendo papel relevante no controle da demanda e da inflação.

Analistas avaliam que a postura cautelosa adotada pelo Banco Central busca preservar a credibilidade do regime de metas em um momento de expectativas inflacionárias ainda desancoradas.

Efeitos da Selic atingem crédito, consumo e investimentos

A taxa Selic é considerada o principal instrumento utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação.

Quando os juros sobem, o crédito tende a ficar mais caro para consumidores e empresas. Empréstimos pessoais, financiamentos imobiliários, crédito corporativo e operações para aquisição de veículos costumam registrar aumento dos custos financeiros.

O encarecimento do crédito reduz o ritmo de consumo e investimento, contribuindo para diminuir pressões inflacionárias.

Por outro lado, períodos prolongados de juros elevados costumam afetar negativamente a atividade econômica, reduzindo o ritmo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB), limitando investimentos produtivos e impactando a geração de empregos.

No mercado financeiro, a manutenção da Selic em níveis elevados continua favorecendo aplicações de renda fixa indexadas à taxa básica.

Títulos públicos vinculados ao Tesouro Selic e diversos instrumentos bancários permanecem oferecendo retornos considerados atrativos em comparação com aplicações mais conservadoras, como a caderneta de poupança.

Para empresas, entretanto, o ambiente segue desafiador. O custo elevado de capital continua pressionando investimentos, expansão operacional e decisões relacionadas à tomada de crédito.

Cenário internacional segue no radar da política monetária

Além dos fatores domésticos, o Banco Central destacou a necessidade de acompanhar os desdobramentos do cenário internacional.

Uma das principais preocupações envolve os impactos das oscilações nos preços globais do petróleo. Embora a commodity tenha recuado recentemente após o anúncio de um acordo entre Estados Unidos e Irã para encerrar o conflito no Oriente Médio e reabrir o Estreito de Hormuz, a autoridade monetária entende que ainda existem riscos inflacionários associados ao comportamento dos combustíveis.

Segundo o Copom, parte das variações observadas no mercado internacional já foi transmitida para preços internos, mas ainda é necessário monitorar possíveis efeitos secundários sobre outros setores da economia.

O petróleo possui influência relevante sobre a inflação brasileira devido ao impacto nos custos de transporte, logística e produção industrial.

Qualquer nova elevação da commodity pode gerar pressões adicionais sobre os índices de preços e dificultar o processo de convergência da inflação para a meta.

Decisão do Fed reforça ambiente global de cautela

A reunião do Copom ocorreu no mesmo dia da decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, tradicionalmente acompanhada pelos mercados globais.

A autoridade monetária norte-americana manteve sua taxa de juros na faixa entre 3,5% e 3,75% ao ano, mas indicou preocupação crescente com os riscos inflacionários associados aos preços de energia.

As projeções divulgadas pelo Fed apontam possibilidade de manutenção de juros elevados por período mais prolongado caso a inflação continue resistente.

Para economias emergentes como o Brasil, decisões do banco central norte-americano possuem impacto relevante sobre fluxo de capitais, câmbio e custo de financiamento internacional.

Um ambiente global de juros mais altos tende a reduzir o espaço para cortes agressivos em países emergentes, especialmente quando as expectativas inflacionárias permanecem pressionadas.

Nesse contexto, a combinação entre inflação doméstica acima da meta e incertezas externas ajuda a explicar a postura mais conservadora adotada pelo Banco Central brasileiro.

Revisão das projeções amplia debate sobre ritmo dos próximos cortes

A ausência de sinalizações explícitas sobre as próximas decisões foi interpretada pelo mercado como um indicativo de maior dependência dos dados econômicos.

Ao afirmar que a magnitude total do ciclo de calibração será definida à luz de novas informações, o Copom deixou aberta a possibilidade tanto de continuidade dos cortes quanto de uma eventual interrupção do processo caso os indicadores não evoluam conforme o esperado.

O posicionamento ocorre em um momento em que as expectativas para a inflação continuam acima dos objetivos oficiais e os riscos associados ao cenário internacional permanecem elevados.

Com a Selic em 14,25% ao ano, o Banco Central busca equilibrar dois desafios simultâneos: estimular gradualmente a atividade econômica após um longo período de restrição monetária e garantir que a inflação retorne de forma sustentável ao centro da meta.

A divulgação da ata da reunião, prevista para a próxima semana, deverá fornecer sinais adicionais sobre o diagnóstico da autoridade monetária e sobre os fatores que poderão influenciar as próximas decisões do colegiado.

Enquanto isso, investidores, empresas e agentes econômicos permanecem atentos aos indicadores de inflação, atividade e expectativas, que deverão determinar o ritmo do ciclo monetário nos próximos meses.

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