SÃO PAULO — O Banco do Brasil (BBAS3), historicamente visto como uma das principais portas de entrada para investidores interessados no agronegócio brasileiro, passou a ocupar uma posição menos confortável entre os grandes bancos listados na B3.
A mudança de percepção ganhou força nesta semana após o Citi reduzir o preço-alvo das ações do banco estatal de R$ 25 para R$ 21 e colocar o papel entre os menos preferidos dentro da cobertura do setor financeiro. A revisão ocorreu em meio ao aumento das preocupações com a qualidade dos ativos bancários e com o avanço das provisões para perdas em operações de crédito.
Embora a nova estimativa ainda represente potencial de valorização em relação às cotações atuais, o movimento reforça uma discussão que vem crescendo entre analistas desde o início do ano: até que ponto o agronegócio continuará sendo uma vantagem competitiva para o Banco do Brasil sem se transformar em uma fonte adicional de risco.
Agronegócio deixa de ser apenas motor de crescimento
O Banco do Brasil construiu ao longo das últimas décadas uma posição dominante no crédito rural brasileiro.
A instituição concentra parte relevante do financiamento ao setor agropecuário e tradicionalmente utiliza essa liderança como diferencial competitivo em relação aos concorrentes privados.
Nos últimos meses, porém, a deterioração observada em segmentos do agronegócio começou a alterar a percepção do mercado sobre a velocidade de crescimento da carteira.
Fontes do setor financeiro ouvidas pela Gazeta Mercantil afirmam que o problema não está na relevância estratégica do agro, mas no aumento da seletividade exigida para novas concessões em um ambiente de juros elevados e maior pressão sobre produtores endividados.
O resultado é um cenário em que crescimento e controle de risco passaram a competir pelo mesmo espaço dentro das projeções dos investidores.
Juros elevados pressionam qualidade dos ativos
Além do crédito rural, outra preocupação compartilhada por diferentes casas de análise envolve as carteiras de consumo.
Financiamento de veículos, cartão de crédito e empréstimos pessoais aparecem entre os segmentos mais monitorados pelo mercado.
A manutenção da Selic em níveis elevados aumenta o custo financeiro das famílias e reduz a capacidade de pagamento de parte dos tomadores de crédito.
Na avaliação de gestores consultados pela Gazeta Mercantil, o sistema bancário brasileiro continua sólido, mas a tendência para os próximos trimestres aponta para maior atenção à inadimplência e às despesas com provisões.
Esse movimento ajuda a explicar por que parte das instituições financeiras passou a negociar com múltiplos mais descontados na Bolsa.
Mercado passa a separar vencedores e perdedores
A revisão promovida pelo Citi não atingiu apenas o Banco do Brasil.
O banco americano reduziu preços-alvo para diversos bancos brasileiros, argumentando que o ambiente macroeconômico mais desafiador exige maior cautela na avaliação dos ativos.
Mesmo assim, a instituição manteve Itaú Unibanco (ITUB4) e BTG Pactual (BPAC11) como suas principais escolhas para atravessar o atual ciclo econômico.
A leitura predominante entre analistas é que o mercado entrou em uma nova fase, na qual a simples geração de lucro já não basta para sustentar múltiplos elevados.
A qualidade do crédito, a capacidade de preservar rentabilidade e a gestão de risco ganharam peso maior na avaliação dos investidores.
BBAS3 continua barata, mas desconto já não é suficiente
Apesar da piora na percepção de risco, poucos analistas defendem que o Banco do Brasil tenha perdido seus fundamentos.
A instituição continua sendo uma das maiores geradoras de lucro do sistema financeiro nacional, possui forte presença no agronegócio, ampla base de clientes e liderança em diversas linhas de crédito.
O debate atual não gira em torno da sobrevivência ou da relevância do banco.
A questão central é quanto desse risco adicional já está refletido no preço das ações.
Com BBAS3 negociando próximo dos menores múltiplos entre os grandes bancos brasileiros, investidores passaram a discutir se o desconto atual representa uma oportunidade ou apenas a antecipação de resultados mais fracos nos próximos trimestres.
Crédito rural deve continuar no centro das atenções do mercado
Mais do que o corte de preço-alvo promovido pelo Citi, o episódio sinaliza uma mudança mais ampla na forma como os investidores enxergam o setor bancário brasileiro.
O foco do mercado está migrando gradualmente da expansão do crédito para a qualidade das carteiras e para a capacidade dos bancos de atravessar um ciclo prolongado de juros elevados.
Nesse contexto, o Banco do Brasil surge como um dos principais termômetros do sistema financeiro.
Se conseguir controlar a deterioração observada em parte da carteira rural e manter a rentabilidade em níveis elevados, poderá recuperar espaço entre os favoritos do mercado.
Caso contrário, o debate sobre provisões, inadimplência e crescimento do crédito deverá continuar pressionando a percepção dos investidores sobre BBAS3 ao longo dos próximos trimestres.










