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Banco Genial e Entre Investimentos entram no radar de operação que apura estrutura de R$ 11,6 bi

Receita e Gaeco investigam operações com fundos, fintechs e holdings e rastreiam R$ 100 milhões usados na estrutura ligada à aquisição da Terrana.

por Álvaro Lima
24/09/2026 às 10h08
em Economia
Banco Genial Renuncia A Fundo E Reforça Governança Após Citação Na Operação Carbono Oculto - Gazeta Mercantil

A Operação Crédito Oculto, deflagrada nesta quinta-feira, 24 de setembro, colocou operadores do mercado financeiro no centro de uma nova etapa das investigações derivadas da Carbono Oculto. Entre os alvos das buscas estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, ligado ao Banco Genial, e Antonio Carlos Freixo Junior, proprietário da Entre Investimentos. Receita Federal e Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) investigam uma cadeia de fundos, fintechs, holdings e operações bancárias que teria sido utilizada para ocultar beneficiários econômicos e financiar a aquisição da Tobras Distribuidora de Combustíveis, conhecida como Terrana.

A apuração oficial identificou ainda uma empresa financeira que movimentou aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. A Receita não atribuiu nominalmente esse volume ao Banco Genial nem à Entre Investimentos, razão pela qual o montante não pode ser associado diretamente a nenhuma das duas empresas. O número representa a movimentação de uma companhia utilizada, segundo a investigação, em uma estrutura anterior relacionada à ocultação do controle de uma usina sucroalcooleira. Leia também: IPCA permanece acima da meta e pressiona juros: o que esperar da economia.

O avanço da investigação permite, entretanto, reconstruir operações específicas nas quais aparecem estruturas relacionadas ao mercado financeiro. A força-tarefa examina aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios da usina e outra movimentação de R$ 100 milhões que teria percorrido empresas e fintechs antes de chegar a um fundo utilizado na operação envolvendo a distribuidora. O objetivo é identificar de onde vieram os recursos, quem efetivamente controlava os veículos financeiros e quem recebeu os benefícios econômicos das transações.

Banco Genial aparece na etapa financeira usada para aquisição da distribuidora

Segundo informações atribuídas pelo Ministério Público de São Paulo à investigação, uma das estruturas passou pelo Fundo Radford, que tinha a Usina Itajobi como cotista. O Banco Genial assumiu a administração do fundo em 2024, e os recursos foram posteriormente aplicados em Certificados de Depósito Bancário Vinculados, os CDBVs, emitidos pela instituição. Leia também: Bitcoin atinge recorde de US$ 111 mil: entenda os motivos da alta e o que esperar em 2025.

A investigação sustenta que o lastro desses certificados foi utilizado em operações de crédito concedidas a duas holdings, Berna e Branson, por meio de Cédulas de Crédito Bancário. Os investigadores afirmam que os recursos dessas operações terminaram empregados na estrutura utilizada para adquirir a Branson Oil, controladora da Terrana, além de cotas de outro fundo de investimento.

Esse encadeamento está sendo analisado como parte da hipótese de que operações formalmente distintas teriam criado camadas entre a origem dos recursos e seus beneficiários econômicos. A tese pertence aos investigadores e ainda depende das provas reunidas, do contraditório e das etapas posteriores do procedimento criminal. Leia também: Conta de Luz de Graça: Veja Quem Tem Direito e Como Solicitar em 2025.

O Banco Genial afirma que agiu dentro das atribuições que lhe competiam e em conformidade com as normas e informações disponíveis na época das operações. A instituição também declarou que forneceu ao Gaeco informações relacionadas ao Fundo Radford e às empresas envolvidas, realizou as comunicações cabíveis ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras e abriu procedimento interno para examinar os fatos.

Humberto Tupinambá está entre os alvos da nova fase

Humberto Arthur Tupinambá Neto aparece entre os principais nomes ligados ao mercado financeiro alcançados pela Operação Crédito Oculto. Diferentes registros e reportagens desta quinta-feira o relacionam à estrutura societária e executiva do Banco Genial, enquanto a investigação procura estabelecer sua eventual participação individual nas operações examinadas. Leia também: Ações europeias sobem após Trump adiar tarifas sobre a União Europeia.

Também foram alvo das diligências seus irmãos André e Bruno Tupinambá. Segundo informações divulgadas a partir da investigação do Ministério Público, empresas relacionadas aos dois teriam recebido pagamentos oriundos de companhia pertencente ao núcleo investigado na Carbono Oculto.

A inclusão de Humberto e de seus irmãos entre os alvos de busca não significa que tenham sido condenados ou que todas as hipóteses formuladas pelos investigadores estejam comprovadas. Mandados de busca e apreensão são medidas destinadas justamente à obtenção de documentos, dispositivos e registros que possam confirmar, modificar ou afastar linhas investigativas. Leia também: Declaração do Imposto de Renda 2025: guia completo para evitar erros e garantir restituição.

A necessidade de individualização das condutas será uma das etapas centrais a partir de agora. Ainda que uma instituição financeira ou um fundo apareça formalmente em determinada operação, eventual responsabilização penal depende da demonstração do conhecimento e da participação de cada pessoa nos atos investigados.

Entre Investimentos aparece em repasse relacionado à usina

A segunda empresa do mercado financeiro que ganha destaque na nova fase é a Entre Investimentos, controlada por Antonio Carlos Freixo Junior, também alvo das buscas. A investigação aponta para relações financeiras da empresa com estruturas ligadas à Usina Itajobi, companhia que ocupa posição central no caminho do dinheiro reconstruído pela força-tarefa. Leia também: Proteção de Dados no INSS: Entenda as Novas Regras.

Segundo elementos divulgados sobre a investigação, a usina recebeu aproximadamente R$ 20 milhões provenientes da Entre Investimentos. O repasse é examinado em conjunto com outras entradas financeiras e com operações envolvendo fundos que posteriormente participaram da cadeia usada na aquisição da distribuidora.

A existência da transferência não estabelece, isoladamente, irregularidade ou participação criminosa da Entre Investimentos. O ponto investigado é a finalidade do dinheiro, sua origem, a relação entre os operadores envolvidos e a posição do repasse dentro de uma estrutura financeira mais ampla.

Freixo já aparece em outra frente investigativa relacionada ao Banco Master, mas a Operação Crédito Oculto possui objeto próprio. A coincidência de personagens em diferentes investigações não significa que fatos apurados em um procedimento possam ser automaticamente tratados como provas em outro.

Receita rastreia R$ 100 milhões até fundo usado na operação

Uma das partes mais detalhadas da reconstrução oficial envolve R$ 100 milhões que, segundo Receita e Gaeco, foram enviados para financiar a aquisição da distribuidora de combustíveis. Antes de chegar à usina, os recursos teriam passado, em poucos minutos, por contas relacionadas a três empresas e por estruturas mantidas em fintechs.

A Receita descreve essas estruturas como contas utilizadas na circulação e fragmentação dos valores. Depois desse percurso, o dinheiro chegou à empresa sucroalcooleira, que posteriormente passou a integrar a carteira de um fundo criado para a operação envolvendo a distribuidora.

Os mesmos R$ 100 milhões teriam então sido aportados no fundo. Na sequência, aparecem os CDBVs e as Cédulas de Crédito Bancário que passaram a integrar a estrutura financeira investigada. É nesse trecho da operação que o Banco Genial surge nominalmente nas informações divulgadas a partir das apurações do Ministério Público.

A hipótese dos investigadores é de que o desenho teria permitido transformar recursos que já estavam na estrutura em uma operação com aparência de financiamento bancário independente. A instituição contesta qualquer interpretação de atuação irregular e sustenta ter observado os procedimentos regulatórios aplicáveis.

Operação anterior de R$ 370 milhões envolveu FIDC

Antes da aquisição da distribuidora, a Receita identificou outra operação de aproximadamente R$ 370 milhões envolvendo direitos creditórios da Usina Itajobi. Uma empresa ligada a uma sociedade de investimentos teria adquirido esses direitos mediante a transferência de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, o FIDC.

A análise financeira indicou que parcela relevante dos recursos usados na aquisição das cotas teria vindo de fundos controlados pelo próprio grupo investigado. Para os investigadores, essa característica teria criado um fluxo circular, no qual os recursos percorriam estruturas formalmente distintas antes de retornar ao ambiente econômico controlado pelos mesmos beneficiários.

Os R$ 100 milhões rastreados na etapa posterior correspondem a aproximadamente 27% dos R$ 370 milhões dessa operação anterior. As quantias, contudo, pertencem a negócios diferentes e não devem ser somadas como se constituíssem um único fluxo financeiro.

A relevância do negócio de R$ 370 milhões está justamente no fato de que a mesma usina reaparece posteriormente na operação que terminou na aquisição da distribuidora. A investigação procura estabelecer se as estruturas foram planejadas de forma coordenada e quem exercia controle econômico sobre elas.

Empresa financeira movimentou R$ 11,6 bilhões em cinco anos

O maior valor divulgado pela Receita na Operação Crédito Oculto é a movimentação de R$ 11,6 bilhões registrada por uma empresa financeira entre 2021 e 2025. O órgão afirma que a companhia havia sido utilizada na aquisição considerada simulada da empresa sucroalcooleira e que o volume, analisado em conjunto com outras evidências, reforçou os indícios examinados pela força-tarefa.

A Receita não informou oficialmente, em sua comunicação pública, o nome dessa empresa financeira. Por esse motivo, não é correto atribuir os R$ 11,6 bilhões ao Banco Genial, à Entre Investimentos ou a qualquer outra instituição sem documentação adicional que estabeleça essa correspondência.

Em uma média aritmética simples, o volume representa aproximadamente R$ 2,32 bilhões por ano nos cinco exercícios mencionados. O total também corresponde a cerca de 31 vezes a operação de R$ 370 milhões e a 116 vezes o fluxo de R$ 100 milhões identificado na etapa relacionada à distribuidora.

Essas comparações servem apenas para dimensionar os valores. Movimentação financeira não equivale a patrimônio, receita, lucro ou dinheiro de origem criminosa, e os R$ 11,6 bilhões não podem ser tratados como montante lavado, desviado ou relacionado integralmente à compra da Terrana.

Genial diz ter comunicado operações ao Coaf e colaborado com o Gaeco

Após o avanço da investigação, o Banco Genial afirmou que forneceu às autoridades informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford e as holdings examinadas pela força-tarefa. A instituição declarou ainda ter realizado as comunicações regulatórias consideradas necessárias ao Coaf.

O banco sustenta que atuou de acordo com suas atribuições e com as informações disponíveis à época. Também informou que instaurou processo interno ao tomar conhecimento dos fatos investigados e posteriormente deixou a administração do Fundo Radford.

Segundo a investigação, após a primeira fase da Carbono Oculto houve mudanças nas operações relacionadas ao fundo e aos certificados bancários. O Ministério Público analisa se essas alterações tiveram relação com uma tentativa de afastar a instituição das estruturas examinadas. Essa é uma interpretação dos investigadores, contestável pela instituição e ainda não convertida em conclusão judicial.

A manifestação do Genial é relevante porque estabelece o contraditório em relação às suspeitas apresentadas. Até o momento, a inclusão de operações do banco na investigação não equivale a uma condenação da instituição nem de seus executivos.

Operação alcança estruturas financeiras em sete estados

A Receita informou que a nova fase cumpre mandados em endereços vinculados a 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas. As diligências estão distribuídas por São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

São Paulo concentra a maior parcela dos alvos. A investigação envolve operadores do mercado financeiro, empresas relacionadas ao setor de combustíveis, fundos, holdings, fintechs e sociedades usadas nas estruturas patrimoniais examinadas.

A Operação Crédito Oculto deriva da Carbono Oculto, iniciada em agosto de 2025 para investigar suspeitas de fraude fiscal, lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial em diferentes etapas do mercado de combustíveis. Na primeira fase, as autoridades identificaram dezenas de fundos e estruturas financeiras relacionadas aos negócios examinados.

A nova etapa aprofunda justamente o braço financeiro da investigação. Em vez de se limitar às empresas que comercializavam ou distribuíam combustíveis, Receita e Gaeco procuram agora reconstruir como o capital foi movimentado, quais instituições participaram de cada etapa e quais pessoas estavam por trás dos veículos utilizados.

Próxima etapa será individualizar a atuação de cada investigado

O material apreendido nesta quinta-feira deverá ser cruzado com movimentações bancárias, documentos de fundos, contratos, mensagens e registros societários já reunidos. A força-tarefa tenta estabelecer quem estruturou cada operação e se os participantes conheciam a origem e a finalidade dos recursos.

No caso do Banco Genial, a investigação deverá confrontar a documentação bancária com a versão da instituição de que as operações foram realizadas dentro das normas e devidamente comunicadas. No caso da Entre Investimentos, a análise deverá esclarecer o contexto e a finalidade dos recursos relacionados à usina e a eventual participação de seus responsáveis na estrutura mais ampla.

Os R$ 11,6 bilhões representam a dimensão da movimentação da empresa financeira ainda não identificada nominalmente pela Receita em sua comunicação pública. Já os R$ 370 milhões e os R$ 100 milhões permitem acompanhar operações específicas que os investigadores procuram conectar à ocultação da propriedade da usina e à aquisição da Terrana.

O avanço da Crédito Oculto coloca, assim, o mercado financeiro em posição central na nova fase da Carbono Oculto. Banco Genial e Entre Investimentos aparecem por meio de pessoas e operações específicas examinadas pela investigação, mas o grau de responsabilidade de cada companhia, executivo ou investidor dependerá das provas reunidas e das decisões futuras das autoridades e do Judiciário.

Fontes:

Receita Federal – comunicado oficial da Operação Crédito Oculto, com informações sobre a movimentação de R$ 11,6 bilhões, operação de R$ 370 milhões, fluxo de R$ 100 milhões e estruturas financeiras investigadas

Ministério Público de São Paulo – informações da investigação conduzida pelo Gaeco sobre operadores financeiros, fundos, operações bancárias e aquisição da distribuidora de combustíveis

Banco Genial – posicionamento sobre as operações envolvendo o Fundo Radford, comunicações ao Coaf, fornecimento de informações ao Gaeco e procedimentos internos adotados pela instituição

Receita Federal – registros da Operação Carbono Oculto sobre fundos de investimento, fintechs e estruturas patrimoniais utilizadas nas operações investigadas

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