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Banco Mundial corta projeção da economia global e alerta para pior crescimento desde a pandemia

Guerra no Oriente Médio eleva preços da energia, pressiona inflação e leva instituição a reduzir expectativa para a expansão econômica mundial em 2026.

por Álvaro Lima
11/06/2026 às 21h30
em Economia
Banco Mundial Corta Projeção Da Economia Global E Alerta Para Pior Crescimento Desde A Pandemia-Gazeta Mercantil

Reprodução

O crescimento global deverá registrar em 2026 o ritmo mais fraco desde a crise provocada pela pandemia de covid-19, segundo avaliação divulgada nesta quinta-feira (11) pelo Banco Mundial. Em seu relatório Perspectivas Econômicas Globais, a instituição revisou para baixo suas estimativas para a economia mundial e alertou que a intensificação do conflito no Oriente Médio pode provocar uma combinação de desaceleração econômica, inflação mais elevada e aumento dos riscos financeiros em diversas regiões.

A nova projeção indica expansão de 2,5% para a economia global em 2026, abaixo dos 2,9% registrados em 2025. O corte reflete principalmente os efeitos da guerra sobre o mercado internacional de energia, a elevação dos custos de produção e a deterioração das condições financeiras em economias desenvolvidas e emergentes.

O relatório aponta que as revisões negativas atingiram aproximadamente dois terços dos países analisados desde a última atualização divulgada em janeiro, evidenciando a disseminação dos impactos econômicos do conflito.

A avaliação do Banco Mundial reforça a preocupação crescente entre organismos multilaterais e autoridades monetárias sobre os efeitos secundários da instabilidade geopolítica, especialmente em um momento em que diversas economias ainda enfrentam desafios relacionados ao elevado endividamento público e à desaceleração da produtividade.

Guerra no Oriente Médio amplia incertezas para a economia mundial

O principal fator por trás da deterioração das perspectivas para o crescimento global é o choque provocado nos mercados energéticos após a escalada das tensões no Oriente Médio.

Segundo o Banco Mundial, as interrupções nas rotas de abastecimento e os impactos sobre a oferta internacional de petróleo aumentaram significativamente os riscos para a atividade econômica global.

O relatório destaca que o fechamento do Estreito de Ormuz — uma das principais vias marítimas para o transporte de petróleo e gás natural do mundo — gerou forte pressão sobre os preços da energia.

A região concentra parcela relevante do comércio internacional de petróleo bruto, tornando qualquer interrupção um fator de risco imediato para cadeias produtivas, inflação e crescimento econômico.

Como consequência, a instituição elevou suas projeções para o preço do petróleo Brent ao longo de 2026.

A expectativa é que o barril encerre o próximo ano com preço médio de US$ 94, representando alta de aproximadamente 36% em comparação com os níveis observados em 2025.

O cenário-base considera uma normalização gradual das principais interrupções a partir do segundo semestre deste ano. Mesmo assim, os efeitos sobre os custos globais permanecem significativos.

Inflação volta ao centro das preocupações globais

A alta do petróleo não é o único fator que preocupa os economistas da instituição.

O Banco Mundial também projeta forte elevação dos preços dos fertilizantes, movimento que tende a pressionar os custos da produção agrícola e, consequentemente, os preços dos alimentos em diversas regiões.

A combinação entre energia mais cara e alimentos pressionados deverá interromper parte do processo de desaceleração inflacionária observado após os anos mais críticos do pós-pandemia.

A projeção da instituição indica que a inflação global deverá alcançar 4% em 2026, acima dos 3,3% registrados em 2025.

O avanço dos preços representa um desafio adicional para bancos centrais ao redor do mundo, que vinham avaliando a possibilidade de reduzir juros de forma mais consistente diante da desaceleração inflacionária observada nos últimos trimestres.

Com a volta das pressões inflacionárias, autoridades monetárias podem ser forçadas a manter condições financeiras mais restritivas por um período maior.

Na prática, isso significa crédito mais caro para famílias e empresas, menor investimento privado e ritmo mais lento de crescimento econômico.

Cenário extremo prevê desaceleração para apenas 1,3%

Embora o cenário central já indique uma desaceleração relevante do crescimento global, o Banco Mundial alerta para riscos ainda mais severos.

Segundo a instituição, caso as interrupções no fornecimento de energia se intensifiquem e sejam acompanhadas por episódios de estresse financeiro significativo, a economia mundial poderá crescer apenas 1,3% em 2026.

Seria um desempenho comparável aos períodos de recessão ou de forte desaceleração econômica observados nas últimas décadas.

Nesse cenário adverso, a inflação global poderia atingir 4,4%, ampliando o desafio para governos e bancos centrais.

A combinação de crescimento fraco com inflação elevada costuma ser considerada um dos contextos mais difíceis para a condução da política econômica.

Isso ocorre porque medidas para conter a inflação tendem a reduzir ainda mais a atividade econômica, enquanto estímulos ao crescimento podem intensificar as pressões sobre os preços.

O Banco Mundial não trata esse cenário como sua previsão principal, mas ressalta que os riscos permanecem elevados diante da imprevisibilidade dos desdobramentos geopolíticos na região.

Economias emergentes enfrentam nova década de desafios

O relatório dedica atenção especial à situação das economias em desenvolvimento, que continuam apresentando desempenho inferior ao observado antes da pandemia.

A previsão é de crescimento de 3,6% para esse grupo de países em 2026, abaixo dos 4,4% registrados em 2025.

Para 2027, a expectativa é de recuperação parcial para 4,2%.

Mesmo com essa melhora, o Banco Mundial avalia que o ritmo continuará insuficiente para reduzir de forma significativa a distância de renda em relação às economias avançadas.

A instituição afirma que, até 2028, grande parte das economias em desenvolvimento — excluindo China e Índia — terá passado praticamente uma década sem avanços relevantes na convergência de renda per capita com os países mais ricos.

O diagnóstico reforça preocupações de longo prazo sobre produtividade, investimento, infraestrutura e capacidade de crescimento sustentável em mercados emergentes.

Segundo o relatório, o enfraquecimento prolongado da atividade econômica limita a geração de empregos, reduz investimentos privados e compromete ganhos de renda da população.

Países do Golfo concentram os maiores impactos econômicos

Entre as regiões mais afetadas pela atual crise estão os países do Golfo diretamente envolvidos ou impactados pelo conflito.

O Banco Mundial estima que essas economias poderão registrar crescimento próximo de zero em 2026, após expansão de 3,9% no ano anterior.

A desaceleração reflete os efeitos da interrupção do comércio, da queda na atividade econômica regional e da incerteza gerada pelo ambiente de guerra.

Apesar do quadro negativo para o curto prazo, a instituição projeta recuperação relativamente rápida a partir de 2027.

A expectativa é que a reconstrução de áreas afetadas e a retomada gradual do comércio internacional permitam crescimento próximo de 5% entre 2027 e 2028.

Esse movimento dependerá, entretanto, da estabilização política e da redução dos riscos geopolíticos na região.

Dívida pública limita capacidade de reação dos governos

Além dos impactos imediatos sobre o crescimento global, o Banco Mundial destaca a fragilidade fiscal crescente em diversas economias emergentes.

Segundo a instituição, muitos países aproveitaram pouco os períodos recentes de valorização das commodities para fortalecer suas contas públicas.

Parte significativa das receitas extraordinárias foi destinada ao aumento de despesas correntes, reduzindo a capacidade de resposta diante de novos choques econômicos.

O relatório aponta que a dívida pública agregada das economias em desenvolvimento saltou de menos de 40% para mais de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) desde 2010.

Esse avanço do endividamento restringe investimentos em infraestrutura, educação e saúde, além de elevar a vulnerabilidade fiscal em momentos de crise.

Para o Banco Mundial, governos precisam fortalecer mecanismos de estabilidade fiscal, aprimorar a arrecadação e ampliar a diversificação econômica para reduzir a dependência de ciclos favoráveis das commodities.

A instituição também defende o fortalecimento de regras fiscais e de fundos soberanos capazes de absorver choques de preços internacionais.

Pressão sobre energia e dívida amplia riscos para a economia global

A revisão das projeções do Banco Mundial reforça a percepção de que o conflito no Oriente Médio ultrapassou a esfera regional e passou a representar um dos principais riscos para a economia mundial.

Com crescimento global projetado em apenas 2,5% em 2026, inflação em aceleração, petróleo mais caro e espaço fiscal reduzido em diversas economias, o ambiente econômico internacional se torna mais desafiador para governos, empresas e investidores.

A combinação entre choque energético, aumento da dívida pública e desaceleração econômica cria um cenário de maior cautela para os próximos anos, especialmente nos países emergentes, onde os impactos tendem a ser mais duradouros e a recuperação mais lenta do que nas economias avançadas.

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