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Blaze corta vale-refeição de 150 funcionários e demite equipe que recusou presencial

Plataforma de apostas, que tem Neymar como principal embaixador e faturou R$ 600 milhões em 2025, reduz benefícios e muda regime de trabalho; trabalhadores falam em coação, empresa nega irregularidades e diz que decisão é técnica

por João Souza
18/06/2026 às 20h22
em Empresas
Blaze Corta Vale-Refeição De 150 Funcionários E Demite Equipe Que Recusou Presencial - Gazeta Mercantil
São Paulo – No dia 29 de maio, a Blaze, uma das maiores plataformas de apostas do Brasil, anunciou o corte do vale-refeição para cerca de 150 dos seus quase 200 colaboradores, além de impor mudança no regime de trabalho para quem atua na capital paulista, o que teria resultado em desligamentos de profissionais que não aceitaram retornar ao escritório presencialmente. A empresa, sediada em Curaçao e com operações regulamentadas no país, justificou as medidas diante de incertezas jurídicas, aumento de impostos e ambiente eleitoral, enquanto trabalhadores e especialistas apontam riscos trabalhistas e possíveis violações à legislação.
O comunicado interno enviado às equipes afirma que “o ambiente político e eleitoral traz preocupação e apreensão”, e que o crescimento de plataformas ilegais, somado a elevação de tributos e custos regulatórios, comprometeu o planejamento financeiro. “Estamos vivendo um momento desafiador para os operadores regulados, que geram empregos, arrecadação e segurança”, diz o documento, obtido pela reportagem.
Dados de mercado mostram que a Blaze registrou faturamento de US$ 115 milhões — aproximadamente R$ 600 milhões — em 2025, conforme cálculo do Gross Gaming Revenue (GGR), método definido pelo Ministério da Fazenda em janeiro daquele ano para medir receita do setor. A empresa figura entre as 12 maiores do segmento nacional, com estrutura apoiada em marketing digital forte e parcerias com celebridades, lideradas pelo jogador Neymar, embaixador global da marca desde 2022.

Corte atinge apenas equipe remota; presencial mantém benefício

A alteração no benefício afetou exclusivamente os colaboradores que trabalhavam em regime remoto. Somente os que atuam presencialmente mantêm o direito ao auxílio-alimentação. Segundo relatos de funcionários ouvidos em condição de anonimato, a medida foi comunicada de forma abrupta, sem negociação prévia ou possibilidade de acordo.
Além da redução de benefício, a empresa determinou que os cerca de 40 colaboradores baseados em São Paulo deixassem o modelo remoto e passassem a comparecer diariamente ao escritório. De acordo com os relatos, aproximadamente 30 pessoas recusaram a mudança e foram desligadas logo em seguida. “Houve coação. Tentaram justificar por qualquer motivo, mas foi claro: saiu quem não quis trabalhar presencial”, disse um dos ex-funcionários.
A Blaze nega que as demissões tenham relação com a recusa ao retorno presencial. Em nota enviada à imprensa, a empresa afirma que “a informação não procede” e que todas as medidas são pautadas por critérios técnicos, operacionais e legais, dentro do marco regulatório vigente. “Respeitamos integralmente os direitos trabalhistas e mantemos diálogo aberto com todos os colaboradores”, reforça a nota.

Especialista alerta para risco de judicialização e violação contratual

Para o advogado trabalhista Douglas Matos, qualquer alteração em contrato de trabalho, especialmente em benefícios como alimentação, requer cuidado redobrado. “A legislação brasileira, no artigo 468 da CLT, proíbe mudanças que sejam lesivas ao trabalhador. Cortar um benefício que já faz parte da remuneração pode ser considerado justamente isso”, explica.
O especialista lembra ainda que decisões unilaterais costumam gerar ações judiciais em massa, com custos altos para a empresa e demora na resolução. “O caminho correto seria negociação coletiva, com participação do sindicato, para encontrar soluções que atendam aos dois lados. Sem diálogo, o risco de conflito é enorme”, alerta.
A Blaze, no entanto, sustenta que seguiu todos os trâmites legais. “Toda decisão sobre gestão de pessoas e benefícios é analisada com rigor e transparência, sempre dentro dos parâmetros permitidos pela lei”, reforça a nota oficial.

Regulamentação instável pressiona todo o setor de apostas

O cenário apresentado pela Blaze reflete tensões que atingem todas as empresas regulamentadas do ramo. Desde a aprovação da Lei 14.790/2023, que organizou o mercado, o setor enfrenta constantes mudanças de regras, aumento de alíquotas e discussões no Congresso sobre novas restrições ou até proibições.
Nos últimos meses, projetos de lei tramitam na Câmara e no Senado para endurecer combate a plataformas irregulares, definir regras de publicidade e aumentar impostos sobre a receita. Candidatos em campanha eleitoral também têm apresentado propostas que variam de maior fiscalização até bloqueio total de operações, o que aumenta a insegurança jurídica.
Dados da Secretaria de Prêmios e Apostas mostram que existem hoje cerca de 80 empresas autorizadas, operando mais de 180 marcas, mas estima-se que o volume de apostas feitas em sites ilegais seja quase igual ou superior ao mercado regulado, sem qualquer arrecadação ou controle do governo.
“Quem cumpre a lei acaba pagando mais impostos, seguindo regras rígidas e competindo com quem não paga nada e não tem obrigações. Isso cria uma distorção grande na concorrência”, avalia um executivo do setor, que pediu para não ser identificado.

Estratégia de marketing com Neymar não garante estabilidade interna

Apesar das dificuldades atuais, a Blaze construiu sua marca com uma das estratégias de marketing mais agressivas do mercado. O principal nome é Neymar, que em 2023 chegou a publicar campanha da empresa antes mesmo de compartilhar vídeo sobre sua convocação para a Copa do Mundo. Além do jogador, contou com parcerias com influenciadores como Virginia Fonseca, Juju Salimeni e MC Daniel, além de Bianca Biancardi, esposa do atleta.
A visibilidade ajudou a alavancar o crescimento: em dois anos, a empresa saltou de operadora pequena para uma das maiores do país, com jogos exclusivos como o famoso “Jogo do Aviãozinho”, que se tornou fenômeno nacional. Mas o crescimento também trouxe problemas. Em 2023, representantes da marca foram convocados para depor na CPI das Pirâmides Financeiras, após denúncias de não pagamento de prêmios a apostadores, o que a empresa sempre negou.
Para analistas de mercado, o contraste entre investimentos milionários em publicidade e corte de benefícios a funcionários reforça o cenário de pressão. “Empresas desse porte gastam muito para construir imagem, mas quando o ambiente fica difícil, o primeiro corte costuma ser na estrutura interna. É um movimento que levanta dúvidas sobre gestão e prioridades”, comenta um consultor especializado em negócios digitais.

Decisão expõe fragilidade de modelo baseado em regulamentação incerta

O caso da Blaze representa um dilema maior: como equilibrar crescimento, obrigações legais e custos em um mercado que ainda está em construção. Empresas do setor investem em estrutura, tecnologia e marketing, mas dependem de regras claras para planejar médio e longo prazo.
Para os trabalhadores, a situação traz insegurança adicional. “Muitos escolheram trabalhar aqui justamente por ser uma empresa regulamentada, com supostamente mais estabilidade. Agora vemos que nem isso garante segurança”, conta um colaborador que permanece na empresa.
A Blaze mantém a posição de que as medidas são necessárias para garantir continuidade e sustentabilidade. “Estamos nos adaptando para continuar gerando valor, empregos e cumprindo nossas obrigações com o Brasil”, finaliza a nota.
Enquanto isso, o setor acompanha de perto: decisões como essa podem abrir precedentes para outras empresas, e o ambiente regulatório e político deve definir nos próximos meses quais caminhos estarão abertos para as plataformas de apostas no país.

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