O mercado financeiro manteve em 5,33% a projeção para a inflação brasileira em 2026, interrompendo uma sequência de 15 semanas consecutivas de revisões para cima. Os dados constam do Boletim Focus divulgado pelo Banco Central na segunda-feira, 29 de junho.
Apesar da estabilidade semanal, a expectativa continua distante do objetivo perseguido pela autoridade monetária. A meta de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5% a 4,5%.
Isso significa que a estimativa dos economistas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está 0,83 ponto percentual acima do limite superior da meta.
O relatório também mostrou uma leve melhora na expectativa para a atividade econômica. A projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 passou de 1,98% para 1,99%.
As previsões para a taxa básica de juros e para o dólar permaneceram estáveis. O mercado espera que a Selic encerre o ano em 14% ao ano e que a moeda norte-americana fique cotada em R$ 5,20.
Focus mantém inflação de 2026 em 5,33%
A manutenção da estimativa em 5,33% encerrou, ao menos temporariamente, o ciclo de aumento das projeções para a inflação deste ano.
Há quatro semanas, a mediana das previsões estava em 5,09%. Desde então, o mercado incorporou aos cálculos pressões relacionadas aos preços de energia, combustíveis, alimentos, câmbio e à possibilidade de uma demanda doméstica mais resistente.
O Focus reúne as expectativas de instituições financeiras, consultorias, gestoras de recursos e outros agentes que acompanham a economia brasileira.
Os números representam a mediana das projeções coletadas pelo Banco Central. Portanto, não correspondem a uma previsão oficial da autoridade monetária.
Mesmo sem uma nova alta na semana, a inflação estimada para 2026 continua em patamar considerado desconfortável para a condução da política monetária.
Com o IPCA projetado em 5,33%, o índice ficaria acima do teto de 4,5% estabelecido no regime de metas.
Inflação esperada continua acima da meta
Desde janeiro de 2025, a meta brasileira passou a ser verificada continuamente, com base na inflação acumulada em 12 meses.
A meta central é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Dessa forma, o intervalo permitido vai de 1,5% a 4,5%.
O regime considera descumprida a meta quando a inflação acumulada permanece fora desse intervalo durante seis meses consecutivos.
A distância entre as expectativas e o objetivo oficial preocupa o Banco Central porque projeções elevadas podem influenciar contratos, negociações salariais, reajustes de preços e decisões de consumo e investimento.
Quando empresas e consumidores esperam inflação mais alta, parte desse movimento pode ser incorporada antecipadamente aos preços, dificultando o processo de convergência.
Projeção para 2027 volta a subir
Para 2027, a estimativa do IPCA passou de 4,15% para 4,17%, na sexta semana consecutiva de aumento.
Embora o percentual permaneça dentro do intervalo de tolerância, ele continua acima do centro da meta de 3%.
A trajetória preocupa porque 2027 está dentro do horizonte relevante observado pelo Comitê de Política Monetária na definição da taxa Selic.
Quanto mais distante a inflação esperada permanece da meta nos anos seguintes, menor tende a ser o espaço para reduções mais rápidas dos juros.
Para 2028, o mercado manteve a estimativa em 3,70%. A projeção para 2029 também permaneceu inalterada, em 3,50%.
As previsões de prazo mais longo indicam uma convergência gradual, mas ainda incompleta, para o objetivo oficial.
Selic deve terminar 2026 em 14%
Os economistas consultados pelo Banco Central mantiveram em 14% ao ano a projeção para a taxa Selic no encerramento de 2026.
A taxa básica está atualmente em 14,25% ao ano, após o Comitê de Política Monetária promover um corte de 0,25 ponto percentual em sua reunião de junho.
A previsão do Focus indica, portanto, que o mercado espera pelo menos mais uma redução de 0,25 ponto percentual até o fim do ano.
A próxima reunião do Copom está programada para os dias 4 e 5 de agosto.
A decisão dependerá da evolução da inflação, das expectativas, da atividade econômica, do mercado de trabalho, das contas públicas e do cenário internacional.
O Banco Central tem destacado que as expectativas permanecem desancoradas e que o processo de redução dos juros deve ser conduzido com cautela.
Juros elevados devem persistir nos próximos anos
Para 2027, a projeção da Selic foi mantida em 12% ao ano.
A expectativa para 2028 subiu de 10,25% para 10,50%, sinalizando que os analistas passaram a enxergar uma trajetória de juros ligeiramente mais elevada também no médio prazo.
Para 2029, a mediana permaneceu em 10% ao ano.
Mesmo com a expectativa de cortes graduais, as projeções apontam para juros nominais elevados durante um período prolongado.
Esse cenário tende a encarecer o crédito para consumidores e empresas, reduzir o ritmo de investimentos e aumentar o custo de financiamento da dívida pública.
Por outro lado, taxas altas são utilizadas pelo Banco Central para moderar a demanda e reduzir pressões sobre os preços.
PIB de 2026 sobe para 1,99%
A projeção de crescimento da economia brasileira em 2026 avançou de 1,98% para 1,99%.
Foi a sexta semana consecutiva de aumento da estimativa para o PIB deste ano.
A alteração foi pequena, mas indica que a atividade econômica continua apresentando resistência apesar do patamar elevado dos juros.
O PIB representa a soma dos bens e serviços finais produzidos no país e é o principal indicador utilizado para medir o desempenho da economia.
A expectativa de crescimento próxima a 2% sugere uma expansão moderada, sem aceleração suficiente para caracterizar um ciclo econômico mais robusto.
Entre os fatores que podem sustentar a atividade estão o mercado de trabalho, o consumo das famílias, a produção agropecuária e os investimentos em determinados setores.
Em sentido contrário, os juros altos, a inflação acima da meta, as incertezas fiscais e o cenário externo podem limitar o avanço.
Mercado reduz previsão para o PIB de 2027
Para 2027, a expectativa de crescimento caiu de 1,70% para 1,68%.
A revisão mostra que os economistas veem alguma perda de dinamismo no próximo ano, possivelmente associada à manutenção de condições financeiras restritivas.
Para 2028 e 2029, as projeções foram mantidas em 2%.
A estabilidade das previsões de longo prazo indica que o mercado ainda trabalha com um ritmo potencial de crescimento relativamente baixo para a economia brasileira.
Uma expansão sustentada acima desse patamar dependeria de fatores como aumento da produtividade, melhora do ambiente de negócios, ampliação dos investimentos e maior previsibilidade fiscal.
Dólar permanece projetado em R$ 5,20
A projeção para a cotação do dólar no fim de 2026 permaneceu em R$ 5,20.
Há quatro semanas, a expectativa estava em R$ 5,16. A alta observada no período reflete um ambiente de maior volatilidade nos mercados internacionais e domésticos.
A cotação do dólar é influenciada por fatores como:
- política monetária dos Estados Unidos;
- diferença entre os juros brasileiros e norte-americanos;
- fluxo de capital estrangeiro;
- preços das commodities;
- percepção de risco fiscal;
- tensões geopolíticas;
- desempenho da economia mundial.
Um dólar mais alto pode pressionar os preços de combustíveis, alimentos, medicamentos, máquinas e componentes importados.
A valorização da moeda norte-americana também pode beneficiar exportadores, que recebem receitas em dólar e possuem parte dos custos em reais.
Projeções cambiais sobem para 2027 e 2028
Para 2027, a mediana da projeção cambial subiu de R$ 5,27 para R$ 5,28.
A estimativa para 2028 avançou de R$ 5,30 para R$ 5,35.
Para 2029, a previsão permaneceu estável em R$ 5,40.
Os números mostram que o mercado não espera uma valorização expressiva e permanente do real nos próximos anos.
A trajetória está relacionada às expectativas para juros, inflação, contas públicas, crescimento e fluxo internacional de recursos.
Mercado também projeta IGP-M de 6,15%
O Boletim Focus manteve em 6,15% a projeção para o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) em 2026.
O indicador é utilizado em diferentes contratos, incluindo alguns reajustes de aluguéis e tarifas.
Para 2027, a estimativa subiu de 4,08% para 4,10%. A previsão para 2028 permaneceu em 3,82%.
Já a projeção para os preços administrados, categoria que inclui itens como energia elétrica, combustíveis e tarifas públicas, ficou estável em 5% para 2026.
Para 2027, a expectativa passou de 3,85% para 3,86%.
Situação fiscal permanece no radar
O Focus também apresentou estimativas para as contas públicas.
A projeção para a dívida líquida do setor público em 2026 subiu de 69,80% para 69,82% do PIB.
Para 2027, a estimativa aumentou de 73,40% para 73,44%.
O mercado manteve em déficit de 0,50% do PIB a previsão para o resultado primário de 2026.
O resultado primário considera receitas e despesas do governo antes do pagamento dos juros da dívida.
Já a estimativa para o déficit nominal, que inclui as despesas financeiras, piorou de 8,60% para 8,70% do PIB.
A evolução das contas públicas influencia diretamente as expectativas de inflação, juros e câmbio.
Quando os agentes percebem risco de aumento persistente da dívida, podem exigir juros maiores para financiar o governo, pressionando as condições financeiras de toda a economia.
O que o novo Focus indica
O relatório apresenta um cenário de relativa estabilidade para 2026, mas sem uma melhora significativa no quadro inflacionário.
A interrupção das revisões para cima do IPCA é um sinal positivo, porém insuficiente para indicar que as expectativas voltaram a convergir para a meta.
A projeção de 5,33% continua acima do teto de tolerância e a expectativa para 2027 voltou a aumentar.
Ao mesmo tempo, o mercado prevê crescimento econômico próximo a 2% e apenas mais um pequeno corte na Selic até dezembro.
O conjunto das projeções reforça a percepção de que o Banco Central deve manter uma postura cautelosa antes de acelerar a redução dos juros.
Resumo do Boletim Focus
As principais projeções para 2026 são:
- IPCA: 5,33%;
- PIB: crescimento de 1,99%;
- Selic: 14% ao ano;
- Dólar: R$ 5,20;
- IGP-M: 6,15%;
- Preços administrados: 5%;
- Dívida líquida: 69,82% do PIB;
- Resultado primário: déficit de 0,50% do PIB;
- Resultado nominal: déficit de 8,70% do PIB.
As projeções representam a mediana das expectativas do mercado e podem mudar semanalmente conforme novos indicadores econômicos e decisões de política monetária e fiscal.









