Boletim Focus reduz IPCA para 3,91% e corta Selic de 2026; mercado revisa cenário
O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (23), em Brasília, pelo BC, reduziu pela segunda semana consecutiva a projeção do IPCA para 2026 — de 3,95% para 3,91% — e revisou para baixo a estimativa da Selic no mesmo período, de 12,25% para 12,13%, sinalizando recalibragem relevante nas expectativas do mercado financeiro. O relatório, fechado em 20 de fevereiro, também elevou levemente a previsão de crescimento do PIB para 1,82% em 2026 e indicou dólar mais baixo no horizonte, compondo quadro de inflação mais comportada, juros gradualmente menores e atividade ainda moderada.
A nova leitura do Boletim Focus ocorre após o IPCA encerrar 2025 com alta acumulada de 4,26%, abaixo tanto da última mediana do mercado (4,31%) quanto da estimativa do próprio BC (4,4%). Com isso, as projeções para 2026 se distanciam do teto da meta contínua de 4,50% — centro de 3% com intervalo de tolerância de 1,5 ponto porcentual — reduzindo a probabilidade de descumprimento formal do regime.
Revisão do IPCA ganha tração e amplia distância do teto da meta
O movimento mais relevante do Boletim Focus está na consolidação de uma inflação projetada abaixo de 4% em 2026. A mediana caiu para 3,91%, ante 4,00% há um mês. Considerando apenas as 113 estimativas atualizadas nos últimos cinco dias úteis, o número recuou ainda mais, de 3,92% para 3,88%.
Esse dado é central para o BC. O regime de metas contínuo estabelece que, caso a inflação permaneça fora do intervalo por seis meses consecutivos, caracteriza-se perda do alvo. O Boletim Focus agora projeta IPCA 0,59 ponto porcentual abaixo do teto da banda, sugerindo menor risco institucional.
Para 2027, a mediana permaneceu em 3,80% pela 16ª semana seguida. Já para 2028 e 2029, as projeções ficaram estáveis em 3,50%. A estabilidade no horizonte mais longo reforça a percepção de ancoragem das expectativas.
O histórico recente mostra que o Boletim Focus vinha oscilando ao redor de 4% para 2026. A sequência de revisões baixistas indica mudança de inclinação nas expectativas, o que tende a influenciar a comunicação do Copom nas próximas reuniões.
Selic de 2026 recua e mercado antecipa ciclo menos restritivo
No campo monetário, o Boletim Focus registrou redução da taxa Selic projetada para o fim de 2026, de 12,25% para 12,13%. Quando consideradas apenas as 92 estimativas mais recentes, a mediana é ainda menor, em 12,00%.
Embora o ajuste seja marginal, ele representa inflexão relevante nas expectativas. O mercado passa a embutir maior probabilidade de ambiente desinflacionário sustentado, abrindo espaço para política monetária menos restritiva ao longo de 2026.
Para 2027, o Boletim Focus manteve a Selic em 10,50%. As projeções para 2028 e 2029 permaneceram em 10,00% e 9,50%, respectivamente. A curva implícita sugere trajetória de queda gradual, porém com juros estruturalmente elevados frente ao padrão histórico anterior à pandemia.
Esse desenho indica que o BC deve preservar diferencial real positivo enquanto consolida a convergência da inflação ao centro da meta.
PIB sobe para 1,82% e confirma crescimento moderado
O Boletim Focus também trouxe leve alta na estimativa de crescimento do PIB em 2026, de 1,80% para 1,82%. Para 2027, a projeção permaneceu em 1,80%, enquanto para 2028 e 2029 ficou em 2,00%.
A combinação de crescimento moderado com inflação desacelerando forma ambiente compatível com normalização gradual da política monetária. O cenário, contudo, permanece dependente de fatores externos, especialmente dinâmica de commodities, condições financeiras globais e estabilidade fiscal doméstica.
O Boletim Focus não indica aceleração robusta da atividade, mas tampouco aponta para deterioração relevante, sugerindo economia operando próxima ao seu ritmo potencial estimado.
Dólar recua para 2026 e reforça quadro desinflacionário
No câmbio, o Boletim Focus reduziu a projeção do dólar para o fim de 2026 de R$ 5,50 para R$ 5,45. Para 2027 e 2028, a estimativa permaneceu em R$ 5,50, enquanto para 2029 houve leve alta para R$ 5,52.
A revisão para baixo em 2026 contribui para reduzir pressões inflacionárias via bens importados e insumos dolarizados. A estabilidade cambial implícita reforça a leitura de convergência gradual do IPCA.
O cenário cambial seguirá condicionado ao ambiente internacional e à trajetória fiscal, mas o Boletim Focus sugere que o mercado não projeta desvalorização abrupta no horizonte de médio prazo.
Implicações imediatas para mercado e política monetária
O conjunto de revisões do Boletim Focus tende a influenciar a precificação da curva de juros futuros, títulos indexados ao IPCA e ativos sensíveis ao ciclo doméstico. Expectativas de inflação menores e Selic levemente reduzida fortalecem a tese de estabilização macroeconômica.
Para o BC, o relatório funciona como termômetro da credibilidade da política monetária. Expectativas ancoradas ampliam margem para condução gradual da Selic, sem necessidade de movimentos abruptos.
Empresas e investidores utilizam o Boletim Focus como referência para decisões estratégicas. Projeções mais benignas para inflação e juros reduzem incerteza e facilitam planejamento financeiro de médio prazo.
Próximos catalisadores: Copom e dados de inflação
A trajetória projetada pelo Boletim Focus será testada pelos próximos indicadores de inflação e pela comunicação do Copom. Eventuais surpresas altistas no IPCA ou deterioração fiscal podem alterar rapidamente as expectativas.
O mercado acompanhará especialmente sinais sobre o ritmo de flexibilização da Selic e o compromisso do BC com a convergência ao centro da meta.
Se confirmada a tendência atual, o Boletim Focus pode consolidar percepção de que 2026 será marcado por inflação abaixo de 4%, juros em trajetória descendente e crescimento moderado — combinação que reduz risco macroeconômico e amplia previsibilidade institucional.











