A correção recente da Bolsa brasileira abriu uma janela para a compra seletiva de ações de empresas com baixo endividamento, posição competitiva consolidada e capacidade de preservar margens mesmo em um ambiente de juros altos. A avaliação foi apresentada pelos gestores André Lion, da Ibiúna Investimentos, Octávio Magalhães, da Guepardo Investimentos, e João Luiz Braga, da Encore Asset, durante painel realizado em São Paulo.
Entre as companhias citadas estão Klabin (KLBN11), Smart Fit (SMFT3), Ultrapar (UGPA3), Vivara (VIVA3) e Nubank (ROXO34). Os gestores sustentam que parte dessas empresas negocia a preços capazes de produzir retornos reais elevados para quem puder manter as posições por vários anos.
A tese não depende de uma recuperação imediata do Ibovespa nem de um corte acelerado dos juros. O ponto central é que a queda das cotações teria ampliado a diferença entre o preço das ações e o valor econômico dos negócios, criando oportunidades em companhias capazes de atravessar um ciclo adverso sem comprometer seus balanços.
O cenário continua desafiador. A Selic está em 14,25% ao ano, a inflação permanece acima da meta e o Banco Central adota cautela diante dos efeitos dos conflitos no Oriente Médio sobre petróleo, câmbio e preços globais.
Esse ambiente aumenta a competição entre a Bolsa e a renda fixa. Para justificar a compra de uma ação, o retorno esperado precisa compensar o risco adicional em relação aos títulos públicos, que oferecem juros reais elevados e previsibilidade de pagamento.
Juros de 14,25% elevam exigência sobre as ações
A renda fixa exerce forte pressão sobre a avaliação das empresas quando a Selic permanece em dois dígitos. Quanto maior o retorno oferecido pelos títulos públicos, maior precisa ser o desconto das ações para atrair capital.
O investidor também tende a reduzir sua disposição para esperar. Empresas cujo valor depende de lucros projetados para muitos anos à frente são mais penalizadas, porque esses resultados futuros passam a valer menos quando descontados por taxas elevadas.
Ao mesmo tempo, o custo do crédito aumenta para companhias e consumidores. Negócios endividados precisam destinar uma parcela maior da geração operacional ao pagamento de juros, enquanto as famílias reduzem compras financiadas e serviços considerados não essenciais.
A seletividade defendida pelos gestores parte dessa diferença. Empresas líderes, com balanços mais sólidos e vantagens competitivas, podem continuar crescendo ou ganhar mercado enquanto concorrentes frágeis reduzem investimentos.
Octávio Magalhães, da Guepardo, avalia que determinadas ações embutem retornos equivalentes à inflação acrescida de aproximadamente 14% ao ano. Na comparação apresentada pelo gestor, esse potencial seria superior ao oferecido por títulos públicos indexados ao IPCA.
A projeção representa uma estimativa baseada no preço atual, na geração de caixa esperada e no valor atribuído aos negócios. Não se trata de retorno garantido. Resultados operacionais, economia, juros e riscos específicos podem alterar substancialmente esse cálculo.
Klabin (KLBN11) combina escala, exportação e geração de caixa
A Klabin (KLBN11) aparece entre as preferências da Guepardo Investimentos, que possuía aproximadamente 4% do capital total da companhia na posição divulgada em julho.
A participação reforça que a escolha representa uma tese efetivamente mantida pela gestora, e não apenas uma avaliação apresentada em evento. A Klabin reúne florestas próprias, produção de celulose, papéis e embalagens, com operações integradas e receitas expostas aos mercados brasileiro e internacional.
A diversificação oferece proteção parcial contra ciclos específicos. Quando a demanda doméstica por embalagens perde força, as exportações e a receita em moeda estrangeira podem amortecer o impacto. Em outros períodos, a estabilidade dos contratos de embalagens reduz a dependência das oscilações da celulose.
A companhia também possui ativos florestais que funcionam como barreira de entrada. A formação de uma base produtiva exige terras, plantio, tempo de maturação, logística e investimentos industriais de grande porte.
O risco está na intensidade de capital. Projetos de celulose e papel exigem desembolsos elevados e podem ampliar a alavancagem antes que as novas capacidades comecem a gerar caixa.
A Klabin (KLBN11) também permanece exposta aos preços internacionais da celulose, à demanda chinesa, ao câmbio e aos custos de madeira, energia e transporte.
Para os investidores, a tese depende da disciplina na execução dos investimentos e da capacidade de manter geração de caixa suficiente para reduzir dívida e sustentar dividendos. A companhia programou R$ 1,11 bilhão em distribuições aos acionistas ao longo de 2026.
Smart Fit (SMFT3) cresce 25% e amplia margens
A Smart Fit (SMFT3) representa uma tese diferente. Enquanto a Klabin opera em uma indústria intensiva em ativos, a rede de academias combina expansão física, recorrência de mensalidades e diversificação geográfica.
A companhia encerrou o primeiro trimestre de 2026 com 2.113 academias em 16 países, crescimento de 20% em comparação com o mesmo período do ano anterior. A rede incluía 1.703 unidades próprias e 410 franquias.
A receita líquida avançou 25%, para R$ 2,1 bilhões. O Ebitda ajustado chegou a R$ 672 milhões, alta anual de 29%, enquanto o lucro líquido recorrente cresceu 47%, para R$ 207 milhões.
Os números ajudam a sustentar a visão positiva apresentada por João Luiz Braga. A Smart Fit (SMFT3) vem ampliando sua presença no Brasil, no México e em outros mercados latino-americanos, além de desenvolver negócios complementares como TotalPass, studios e serviços digitais.
Mais da metade da operação já está ligada a mercados fora do Brasil quando consideradas determinadas linhas de receita e expansão. Essa diversificação reduz a dependência exclusiva da economia brasileira, embora acrescente exposição cambial e riscos de execução em diferentes países.
A empresa também se beneficia da maturação das academias abertas nos últimos anos. Unidades novas normalmente exigem investimentos e levam tempo para atingir uma base de clientes capaz de diluir aluguel, pessoal e outras despesas fixas.
Quando essas academias amadurecem, a receita adicional pode crescer mais rapidamente do que os custos, elevando as margens. No primeiro trimestre, a margem Ebitda ajustada avançou para 32%.
O risco está no ritmo de expansão. A Smart Fit planeja abrir entre 330 e 350 academias em 2026. Um programa dessa dimensão exige escolha adequada dos pontos, controle dos custos de construção e manutenção de uma estrutura financeira capaz de sustentar os desembolsos.
Nubank (ROXO34) mantém crescimento com rentabilidade
O Nubank (ROXO34) também foi citado como uma companhia cuja cotação pode não refletir integralmente o crescimento operacional.
A Nu Holdings encerrou março com mais de 135 milhões de clientes nos mercados em que atua. A receita trimestral superou US$ 5 bilhões pela primeira vez, enquanto o lucro líquido atingiu US$ 871 milhões, expansão anual de 41%.
O retorno sobre o patrimônio ficou em 29%. A combinação de crescimento e rentabilidade diferencia o Nubank (ROXO34) de empresas digitais que aumentam a base de clientes, mas ainda dependem de aportes para financiar suas operações.
A carteira de crédito avançou 40% em 12 meses, para US$ 37,2 bilhões. O crescimento amplia a receita de juros, mas também aumenta a necessidade de provisões para possíveis perdas.
No primeiro trimestre, o indicador de atrasos entre 15 e 90 dias subiu para 5%, influenciado pela sazonalidade e pela expansão para clientes de maior risco. A inadimplência acima de 90 dias recuou para 6,5%.
A tese de valorização depende da capacidade do Nubank (ROXO34) de ampliar o crédito sem permitir que as perdas consumam o aumento da receita. Também será necessário manter custos baixos enquanto a empresa investe no México, na Colômbia, nos Estados Unidos e em infraestrutura de inteligência artificial.
A escala favorece a diluição das despesas. O banco digital possui uma das maiores bases de dados financeiros da região e utiliza tecnologia para automatizar atendimento, concessão de crédito e oferta de produtos.
O principal risco é que uma deterioração econômica mais intensa provoque aumento da inadimplência e obrigue a companhia a elevar provisões. Esse movimento reduziria o lucro e poderia pressionar os múltiplos atribuídos às ações.
Vivara (VIVA3) aposta em marca e produção própria
A Vivara (VIVA3) integra a lista de companhias consideradas capazes de atravessar o ciclo de juros altos em posição mais forte do que concorrentes menores.
A empresa encerrou 2025 com receita próxima de R$ 3,8 bilhões e mais de 498 pontos de venda. Seu modelo verticalizado permite controlar criação, produção, distribuição e comercialização das joias.
Cerca de 80% dos produtos vendidos são fabricados pela própria companhia. Essa estrutura amplia o controle sobre estoque, qualidade, lançamentos e margens, além de permitir ajustes mais rápidos no mix entre ouro, prata, relógios e acessórios.
A marca Life, voltada a peças de prata e a consumidores mais jovens, ajudou a ampliar a frequência de compras e o alcance da empresa. A Vivara também possui escala de marketing e distribuição difícil de ser replicada por joalherias independentes.
O investimento, porém, permanece exposto à renda disponível das famílias. Juros elevados, crédito caro e desaceleração do consumo podem reduzir a procura por produtos discricionários.
A alta do ouro e a variação do dólar também influenciam os custos. A capacidade de repassar esses movimentos aos preços sem comprometer o volume de vendas será determinante para preservar as margens.
Ultrapar (UGPA3) reúne combustíveis, gás e logística
A Ultrapar (UGPA3) aparece como uma tese apoiada na reorganização do portfólio e na exposição a negócios essenciais da economia.
O grupo atua por meio da Ipiranga, Ultragaz, Ultracargo e Hidrovias do Brasil. A estrutura reúne distribuição de combustíveis, gás liquefeito de petróleo, armazenagem de granéis líquidos e transporte hidroviário.
A diversificação reduz a dependência de uma única operação, mas também aumenta a complexidade da gestão. Cada segmento possui concorrentes, regulação, ciclos de investimento e riscos operacionais próprios.
Ao fim de março, a Ultrapar mantinha cerca de R$ 9,05 bilhões em caixa e aplicações financeiras, diante de uma dívida bruta de R$ 17,28 bilhões. O perfil de vencimentos estava distribuído ao longo dos anos seguintes, com aproximadamente 21% do total concentrado no prazo de até 12 meses.
A tese depende da recuperação das margens da Ipiranga, da expansão da Ultracargo e da integração da Hidrovias do Brasil. A companhia precisa transformar a diversificação em geração de caixa, evitando que novos investimentos aumentem excessivamente a dívida.
O negócio de combustíveis também está sujeito às oscilações do petróleo, à política de preços, à concorrência e às mudanças provocadas pela transição energética.
Gestores evitam empresas com execução mais complexa
A defesa da Bolsa não significa que todas as ações estejam baratas. Os gestores ressaltaram que a diferença entre empresas sólidas e negócios mais frágeis aumenta em períodos de juros elevados.
João Luiz Braga citou Azzas 2154 (AZZA3), Ânima Educação (ANIM3) e Natura (NATU3) como exemplos de companhias que, em sua avaliação, apresentam situações mais complexas.
A menção representa a opinião do gestor e não uma avaliação consensual do mercado. As três empresas possuem estratégias, balanços e desafios distintos.
A Azzas 2154 (AZZA3) atravessa o processo de integração das operações resultantes da união entre Arezzo&Co e Grupo Soma. O sucesso depende da captura de sinergias, da gestão de marcas e da recuperação do consumo de moda.
A Ânima Educação (ANIM3) opera em um setor exposto a mensalidades, evasão, financiamento estudantil e regulação. A empresa também precisa administrar dívida e equilibrar crescimento com geração de caixa.
A Natura (NATU3) vem reorganizando seu portfólio internacional e concentrando esforços nas operações consideradas estratégicas. O mercado acompanha a execução da simplificação e a recuperação das margens.
O contraste reforça o critério defendido no painel: comprar empresas apenas porque as ações caíram pode aumentar perdas. A queda precisa ser acompanhada por fundamentos capazes de sustentar uma recuperação.
Balanços do segundo trimestre testarão as teses
Os resultados do segundo trimestre serão o próximo teste para as ações citadas. Smart Fit (SMFT3) e Vivara (VIVA3) têm divulgação prevista para o início de agosto, quando o mercado avaliará se o crescimento permaneceu forte apesar dos juros e da inflação.
No Nubank (ROXO34), a atenção estará concentrada na inadimplência, nas provisões e na expansão da carteira. Na Klabin (KLBN11), preços da celulose, câmbio, volumes e dívida devem permanecer no centro da análise.
A Ultrapar (UGPA3) será avaliada pela evolução das margens da Ipiranga, pela contribuição dos negócios de logística e pela geração de caixa após os investimentos e aquisições.
Os gestores defendem um horizonte superior ao de um único trimestre. A chamada arbitragem temporal consiste em aceitar volatilidade no curto prazo para capturar a geração de valor que o mercado, concentrado nos riscos imediatos, estaria deixando de reconhecer.
Essa estratégia exige paciência e capacidade financeira para atravessar novas quedas. Também pressupõe que as empresas selecionadas consigam cumprir as projeções operacionais que justificam seu valor.
Com a Selic em 14,25%, a Bolsa não recebe capital apenas porque os preços recuaram. As ações precisam oferecer um prêmio claro sobre a renda fixa e demonstrar que seus resultados sobreviverão a um ambiente econômico restritivo.
Klabin (KLBN11), Smart Fit (SMFT3), Ultrapar (UGPA3), Vivara (VIVA3) e Nubank (ROXO34) entram nessa seleção por razões diferentes. O ponto comum está na combinação entre escala, liderança, crescimento e capacidade de gerar caixa — os atributos que os gestores acreditam que serão mais valorizados quando a incerteza diminuir.











