Redes resgatam vídeo em que Bolsonaro ofereceu a Amazônia aos EUA durante encontro em Davos
O debate político e diplomático em torno da soberania da Amazônia voltou ao centro das atenções após as redes sociais resgatarem um vídeo no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro afirma que gostaria de “explorar a Amazônia junto com os Estados Unidos”. O episódio, registrado durante o Fórum Econômico Mundial (FEM) de 2019, em Davos, ganhou nova repercussão em um momento de elevada sensibilidade internacional, marcado por declarações recentes do presidente norte-americano Donald Trump sobre interesses estratégicos dos Estados Unidos em territórios ricos em recursos naturais.
A circulação do material ocorre em um contexto global distinto daquele de sete anos atrás, mas com paralelos evidentes. Enquanto o vídeo mostra Bolsonaro em sua primeira participação internacional como chefe de Estado brasileiro, agora Trump reacende tensões ao defender abertamente a necessidade de controle da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, sob o argumento de segurança nacional. Esse ambiente internacional contribui para ampliar o alcance e a leitura política do episódio em que Bolsonaro ofereceu a Amazônia aos EUA, ainda que a declaração nunca tenha sido formalizada como proposta diplomática.
O contexto do vídeo resgatado nas redes sociais
O trecho que voltou a circular faz parte do documentário alemão “O Fórum”, dirigido por Marcus Vetter, que acompanha os bastidores do Fórum Econômico Mundial de 2019, realizado em Davos, na Suíça. Naquele momento, Jair Bolsonaro participava de seu primeiro grande evento internacional após assumir a Presidência da República, buscando sinalizar alinhamento político e ideológico com lideranças conservadoras e liberais no cenário global.
A gravação registra um encontro informal entre Bolsonaro e o então ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, reconhecido internacionalmente como uma das principais vozes na defesa do meio ambiente e no combate às mudanças climáticas. Durante a conversa, Gore manifesta preocupação com a preservação da Amazônia, tema sensível e recorrente nas relações entre o Brasil e a comunidade internacional.
É nesse contexto que surge a declaração que reacendeu o debate público. Bolsonaro afirma que a Amazônia “não pode ser esquecida”, ressalta que o Brasil possui “muitas riquezas” e acrescenta que gostaria de explorá-las “junto com os Estados Unidos”. A reação de Al Gore, registrada em vídeo, é de evidente constrangimento, levando-o a dizer que não tinha certeza se havia compreendido corretamente o que estava sendo dito.
A fala de Bolsonaro e a reação internacional
Ao insistir na aproximação, Bolsonaro reforça sua afinidade com os norte-americanos, afirmando gostar do povo dos Estados Unidos e ressaltando que o Brasil havia eleito um presidente alinhado a Washington. Em seguida, declara que “a Amazônia pode ser a solução para o mundo”, sugerindo que o tema deveria ser tratado de forma conjunta entre os dois países.
A conversa é encerrada de maneira diplomática por Al Gore, que afirma estar sempre disponível para o diálogo. O episódio, no entanto, permaneceu por anos restrito a círculos especializados e ao público que acompanhou o documentário. A retomada do vídeo, agora, ocorre em um cenário no qual discursos sobre soberania, recursos naturais e segurança geopolítica voltaram a ganhar protagonismo.
A afirmação de que Bolsonaro ofereceu a Amazônia aos EUA passou a ser interpretada por críticos como símbolo de uma postura considerada excessivamente alinhada aos interesses norte-americanos durante seu governo, especialmente em temas ambientais e estratégicos.
A ausência de formalização e os limites institucionais
Do ponto de vista institucional, é relevante destacar que o ex-presidente nunca formalizou qualquer proposta de cooperação internacional nos termos mencionados no vídeo. Não houve tratados, acordos ou iniciativas oficiais que indicassem a cessão de controle, soberania ou exploração conjunta da Amazônia com os Estados Unidos.
Ainda assim, a simbologia política da declaração permanece relevante. Em diplomacia, palavras proferidas por chefes de Estado, mesmo em contextos informais, são frequentemente analisadas como sinais de orientação política e estratégica. Por isso, o fato de Bolsonaro ter mencionado a possibilidade de exploração conjunta da Amazônia continua sendo objeto de debate acadêmico, político e midiático.
O momento internacional e a escalada de tensões
A nova repercussão do vídeo ocorre simultaneamente à presença de Donald Trump na Europa para compromissos ligados ao Fórum Econômico Mundial. O presidente norte-americano desembarcou em Zurique e seguiu para Davos em meio a uma escalada de tensões com países europeus, após reiterar que os Estados Unidos “precisam” da Groenlândia por razões de segurança nacional.
A Groenlândia, território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca, é rica em recursos naturais e possui localização estratégica no Ártico, região cada vez mais relevante do ponto de vista militar e econômico. Trump afirmou que a ilha é essencial para o sistema de defesa dos EUA e para o monitoramento de atividades militares russas e chinesas.
Esse discurso reforça uma visão geopolítica baseada no controle de áreas estratégicas e de recursos naturais, o que leva analistas a traçarem paralelos com episódios passados envolvendo outros países, como o Brasil. Nesse ambiente, a lembrança do episódio em que Bolsonaro ofereceu a Amazônia aos EUA ganha nova camada de significado.
Amazônia, soberania e interesses globais
A Amazônia sempre ocupou posição central no debate internacional sobre meio ambiente, clima e desenvolvimento sustentável. Detentora da maior floresta tropical do mundo, a região concentra biodiversidade única, vastos recursos hídricos e minerais, além de desempenhar papel fundamental no equilíbrio climático global.
Historicamente, o Brasil defende a soberania plena sobre a Amazônia, rejeitando qualquer forma de internacionalização. No entanto, governos diferentes adotaram discursos variados sobre cooperação internacional, preservação ambiental e exploração econômica da região.
A fala de Bolsonaro em Davos, ao sugerir exploração conjunta com os Estados Unidos, foi interpretada por críticos como um afastamento do discurso tradicional de soberania, ainda que não tenha se materializado em ações concretas. Por isso, a narrativa de que Bolsonaro ofereceu a Amazônia aos EUA segue sendo utilizada como elemento simbólico no debate político.
Repercussão política e nas redes sociais
A retomada do vídeo nas redes sociais foi impulsionada por perfis ligados ao jornalismo político e à militância digital. O material rapidamente se espalhou, reacendendo críticas ao ex-presidente e provocando reações de seus apoiadores, que classificam a interpretação como distorcida ou exagerada.
No ambiente polarizado da política brasileira, o episódio passou a ser utilizado como argumento tanto por críticos quanto por defensores do ex-presidente. Para opositores, o vídeo evidencia uma postura considerada submissa aos interesses estrangeiros. Para aliados, trata-se de uma fala fora de contexto, voltada à atração de investimentos e parcerias internacionais.
Independentemente da interpretação, o fato de que Bolsonaro ofereceu a Amazônia aos EUA, ainda que em tom informal, tornou-se um marco simbólico frequentemente revisitado no debate público.
Impactos na imagem internacional do Brasil
Durante o governo Bolsonaro, a política ambiental brasileira foi alvo de críticas recorrentes por parte de governos estrangeiros, organizações não governamentais e investidores internacionais. O aumento do desmatamento e os embates retóricos com líderes europeus afetaram a imagem do Brasil em fóruns multilaterais.
A fala em Davos, agora resgatada, contribui para a construção dessa narrativa retrospectiva. Em um cenário internacional cada vez mais atento à questão climática, declarações que sugerem flexibilização da proteção ambiental ou abertura excessiva à exploração externa tendem a gerar repercussões negativas.
A leitura econômica e estratégica do episódio
Sob a ótica econômica, a Amazônia representa tanto um ativo ambiental quanto um potencial econômico de longo prazo. O desafio histórico do Brasil sempre foi equilibrar preservação e desenvolvimento, atraindo investimentos sem comprometer a soberania e o patrimônio natural.
A sugestão de exploração conjunta com uma potência estrangeira, mesmo que retórica, levanta questionamentos sobre o modelo de desenvolvimento defendido à época. Para analistas, a lembrança de que Bolsonaro ofereceu a Amazônia aos EUA reforça a necessidade de clareza estratégica e coerência discursiva por parte de lideranças nacionais.
A volta do tema em um novo cenário político
Com mudanças no cenário político brasileiro e internacional, o debate sobre a Amazônia assume novos contornos. A região segue no centro das discussões sobre clima, segurança alimentar, transição energética e geopolítica global.
A retomada do vídeo funciona, assim, como um lembrete de como declarações passadas podem ganhar novos significados à luz de acontecimentos presentes. Em um mundo marcado por disputas estratégicas por recursos e territórios, episódios como o de Davos continuam a repercutir muito além de seu contexto original.
O resgate do vídeo em que Bolsonaro ofereceu a Amazônia aos EUA revela mais do que um episódio isolado. Ele expõe a complexidade das relações internacionais, a força simbólica das palavras de um chefe de Estado e a sensibilidade permanente em torno da soberania amazônica.
Mesmo sem consequências práticas diretas, a declaração permanece como elemento relevante no debate político e econômico brasileiro, especialmente em momentos de tensão geopolítica global. A Amazônia, mais uma vez, se reafirma como tema central não apenas para o Brasil, mas para o mundo.
Bolsonaro ofereceu a Amazônia aos EUA, em Davos/2019pic.twitter.com/6GvUqyO5cL https://t.co/DsSY9tmJFO
— Marcelo Feller (@FellerMarcelo) January 21, 2026






