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Bradesco (BBDC4) fará aumento de capital de R$ 10 bilhões com JCP de R$ 6,5 bi e desconto de 6% nas ações

Banco emite 302,9 mi de ações ON e 302 mi PN, garante até R$ 8 bi dos controladores e eleva CET1 em 90 pontos-base após reorganização da Bradsaúde

por Camila Braga
30/07/2026 às 14h14
em Mercados
Bradesco (Bbdc4) Fará Aumento De Capital De R$ 10 Bilhões Com Jcp De R$ 6,5 Bi E Desconto De 6% Nas Ações - Gazeta Mercantil

O Banco Bradesco (BBDC4) aprovou em 29 de julho de 2026 um aumento de capital social de até R$ 10 bilhões mediante subscrição particular de ações, combinado à antecipação do pagamento de R$ 6,5 bilhões em juros sobre capital próprio (JCP) declarados em março e junho. A decisão, comunicada em fato relevante à Comissão de Valores Mobiliários e à B3, prevê a emissão de 302,9 milhões de ações ordinárias (BBDC3) e 302,0 milhões de ações preferenciais (BBDC4), com diluição de aproximadamente 5,7%, e tem como objetivo central fortalecer o patrimônio líquido tangível e ampliar a capacidade de monetização de créditos tributários em um cenário de juros de dois dígitos.

O movimento ocorre após o banco registrar retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) acima do custo de capital desde o quarto trimestre de 2025 e concluir a reorganização de seus ativos de saúde na Bradsaúde (SAUD3). Segundo a administração, o índice de capital principal (CET1) pro forma já se encontra em 12,7% após a operação de saúde, e o aumento proposto adicionaria cerca de 90 pontos-base. A reação imediata do mercado, no entanto, foi de queda, com as ações entre as maiores baixas do Ibovespa no pregão de 30 de julho, refletindo dúvidas sobre o timing da capitalização em um momento de maior atenção ao ciclo de crédito.

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Estrutura prevê 604,9 milhões de ações com desconto e direito de preferência em agosto

De acordo com o fato relevante, o aumento será realizado por meio de subscrição particular, com preço de R$ 15,43 por ação ordinária e R$ 17,64 por ação preferencial. Os valores representam desconto de aproximadamente 6% em relação ao fechamento de 28 de julho, mecanismo adotado para estimular adesão. O montante total, caso integralmente subscrito, eleva o capital social em até R$ 10 bilhões, dividido em 604,9 milhões de novos papéis.

Os acionistas com posição em 4 de agosto de 2026 terão direito de preferência na proporção de 5,72%, com prazo de exercício entre 6 de agosto e 4 de setembro de 2026. Os recibos de subscrição e os direitos poderão ser negociados na B3 entre 6 de agosto e 1º de setembro de 2026. A operação prevê que o acionista possa manter os proventos antecipados e vender o direito no mercado, utilizar recursos próprios para subscrever ou empregar os próprios JCP antecipados para integralizar as novas ações.

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A arquitetura preserva o benefício fiscal do JCP, que é dedutível da base de Imposto de Renda e Contribuição Social, enquanto converte remuneração futura em capital permanente. Para o investidor pessoa física, há retenção de 15% de imposto na fonte no pagamento do JCP. O banco informou que as ações emitidas terão os mesmos direitos das já existentes, incluindo participação em resultados futuros.

Controladores assumem até R$ 8 bilhões e banco antecipa JCP de R$ 6,5 bilhões

O ponto central da operação está no compromisso assumido pelos acionistas controladores de subscrever até R$ 8 bilhões do total. A informação foi confirmada pelo banco no comunicado e reforçada em mensagem de áudio enviada ao seu site de relações com investidores pelo presidente-executivo, Marcelo Noronha. Segundo ele, a decisão partiu das próprias controladoras, consideradas bem capitalizadas, após a superação do custo de capital pelo ROE e diante da perspectiva de queda da taxa Selic ainda em 2026 e em 2027.

O valor de R$ 6,5 bilhões em JCP antecipado corresponde a proventos declarados em 25 de março e 23 de junho de 2026, conforme consta do aviso aos acionistas vinculado ao fato relevante. A antecipação permite que o acionista, inclusive o controlador, utilize o recurso recebido para exercer a preferência, criando um mecanismo de recapitalização dos dividendos. Na prática, o capital retorna ao balanço como patrimônio, sem perda do efeito fiscal para a instituição.

Analistas do JP Morgan avaliaram que o desenho traz dois benefícios diretos. O primeiro é justamente a recapitalização via dividendos sem abrir mão da dedutibilidade do JCP. O segundo é o aumento do patrimônio líquido tangível, definido como o patrimônio contábil menos créditos tributários, ativos intangíveis e despesas antecipadas. Esse conceito ganhou relevância nas últimas divulgações do banco, quando o patrimônio líquido contábil avançou para R$ 169,6 bilhões, mas o capital tangível permaneceu praticamente estável devido ao crescimento de ativos fiscais diferidos.

Reforço de patrimônio tangível mira uso de R$ 120 bilhões em créditos tributários

A discussão sobre capital tangível se conecta ao estoque de ativos fiscais diferidos (DTAs) do Bradesco, estimado por analistas em aproximadamente R$ 120 bilhões. DTAs são créditos tributários que surgem de diferenças temporárias entre o resultado contábil e o fiscal, de provisões para devedores duvidosos e de prejuízos fiscais, e que só podem ser consumidos quando há lucro tributável futuro e base de capital que suporte sua manutenção no balanço pelas regras de Basileia.

Em um país com taxa de referência acima de 14%, como destacou o JP Morgan, manter um patrimônio tangível maior permite maior apropriação de receita líquida de juros (NII) e melhor aproveitamento desses créditos, o que pode representar vantagem competitiva. O consumo de DTA reduz a necessidade de provisionamento de capital e melhora a eficiência fiscal ao longo do tempo, mas exige capital de qualidade para ser mantido no balanço sem deduções excessivas do CET1.

A administração do Bradesco tem argumentado que 2027 pode ser um ano mais desafiador para o setor, com maior exigência de capital para crescimento e para absorção de risco. Nesse contexto, o reforço antecipado cria colchão para expansão da carteira de crédito, que o banco projeta crescer entre 8,5% e 10,5% em 2026, segundo guidance divulgado após o resultado do quarto trimestre de 2025, quando o lucro recorrente foi de R$ 6,5 bilhões.

CET1 pro forma de 12,7% após reorganização da saúde alivia discussão regulatória

Embora parte do mercado tenha interpretado o aumento como sinal de necessidade regulatória, o Bradesco estima que o CET1 pro forma já está em 12,7% após a reorganização da Bradesco Saúde, patamar superior ao de grande parte dos concorrentes. O cálculo considera os efeitos da incorporação das ações da Bradesco Gestão de Saúde pela Bradsaúde (SAUD3), operação estruturada como IPO reverso da antiga Odontoprev, que consolidou marcas como Bradesco Saúde, Mediservice, Atlântica Hospitais e participação em Croma Oncologia.

A nova holding de saúde, na qual o Bradesco detém 91,35% do capital, com 8,65% nas mãos de minoritários da antiga Odontoprev, foi celebrada na B3 em 2026 como parte da estratégia de destravar valor. A transação, ainda sujeita a aprovações da Agência Nacional de Saúde Suplementar, elevou o capital principal por meio de reorganização societária e geração de reserva. Com o aumento de até R$ 10 bilhões, o banco projeta acréscimo de aproximadamente 90 pontos-base ao CET1, levando o indicador para patamar próximo a 13,6% em base pro forma.

O histórico pesa na avaliação. Em 2015, o Bradesco anunciou aumento de capital de R$ 3 bilhões por subscrição particular que acabou cancelado em 2016 diante de instabilidade de mercado e pressão sobre as ações. Segundo o BTG Pactual, o compromisso atual dos controladores de subscrever a maior parte da operação elimina o risco de execução que marcou o episódio anterior. A análise do BTG classifica a melhora da geração de capital tangível como pré-requisito para uma tese mais construtiva para BBDC4.

Ação recua na B3 apesar de avaliação positiva de BTG e XP sobre desenho da operação

No pregão de 30 de julho, as ações do Bradesco operaram entre as maiores quedas do Ibovespa. Por volta de 11h10, BBDC3 recuava 2,62% a R$ 15,62 e BBDC4 caía 2,23% a R$ 17,94, após mínima com recuo superior a 3%. Analistas consultados atribuíram o movimento ao timing. Em relatório diário, a XP Investimentos ponderou que um aumento de capital naturalmente levanta questionamentos sobre geração orgânica de capital, especialmente quando investidores voltam a concentrar atenção no ciclo de crédito.

A divulgação do resultado do Santander (SANB11) no mesmo dia, com lucro de R$ 3 bilhões no segundo trimestre de 2026, queda de 17,6% e disparada na provisão para devedores duvidosos, ampliou a sensibilidade do setor a sinais de deterioração. Para gestores ouvidos, o patrimônio tangível do Bradesco já estava pressionado há trimestres, e o banco havia buscado alternativa via IPO reverso da Bradsaúde para recompor capital. A percepção de que a instituição não demonstra total confiança na sequência de resultados contribuiu para a realização.

A XP avaliou a estrutura como bem desenhada por preservar benefícios fiscais e fortalecer a base de capital simultaneamente. O JP Morgan reconheceu que o tema não é simples de explicar ao investidor de varejo, que pode questionar o impacto sobre dividendos, mas considerou a decisão correta para o longo prazo. O banco estrangeiro descreveu a operação como primeiro passo para criação de um ciclo virtuoso, no qual mais capital tangível permite maior NII, maior consumo de DTA e, consequentemente, maior geração de lucro e de capital.

Medida se conecta à estratégia de rentabilidade após ROE superar custo de capital no fim de 2025

A trajetória de rentabilidade do Bradesco mostra recuperação gradual. No primeiro trimestre de 2026, o banco reportou lucro líquido recorrente de R$ 6,8 bilhões, alta de 16,1% em base anual, com ROE de 15,8%, ante 14,4% um ano antes, e margem financeira de R$ 10,4 bilhões. No quarto trimestre de 2025, o ROE foi de 15,2%, superando o custo de capital. A administração projeta crescimento gradual e seguro do lucro nos próximos trimestres, apoiada em disciplina de crédito, investimentos em tecnologia e uso de inteligência artificial, que já teria gerado ao menos R$ 250 milhões em ganhos de eficiência.

Do ponto de vista regulatório, a operação ainda depende de homologação do Banco Central do Brasil, responsável por aprovar aumentos de capital de instituições financeiras. Após a aprovação, o capital social será alterado no estatuto e as novas ações passarão a integrar a base acionária para cálculo de proventos futuros. O JCP antecipado será computado no cálculo dos dividendos obrigatórios do exercício, conforme previsto na Lei das S.A.

Para acionistas, a decisão cria três alternativas práticas: manter os dividendos recebidos antecipadamente e alienar os direitos de subscrição em bolsa, subscrever as novas ações com recursos próprios ou reinvestir os próprios JCP na capitalização. A escolha dependerá de perfil tributário, disponibilidade de caixa e visão sobre diluição versus fortalecimento de longo prazo. O desdobramento imediato será acompanhado pela evolução do CET1, do consumo de DTA e pela capacidade do banco de converter capital tangível adicional em expansão de crédito com retorno superior ao custo de capital nos próximos balanços.

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