A temporada de balanços dos grandes bancos privados deverá expor, no segundo trimestre de 2026, três momentos distintos do sistema financeiro brasileiro. O Bradesco (BBDC4) chega à divulgação como candidato à maior aceleração de resultados, o Itaú Unibanco (ITUB4) deve preservar a liderança em lucro e rentabilidade, enquanto o Santander Brasil (SANB11) enfrenta o desafio de conter a piora do crédito sob uma nova administração.
O Santander Brasil (SANB11) abrirá a rodada em 29 de julho. O Itaú Unibanco (ITUB4) apresentará seus números em 4 de agosto, seguido pelo Bradesco (BBDC4), em 5 de agosto.
As estimativas da XP indicam lucro recorrente de R$ 6,9 bilhões para o Bradesco no período entre abril e junho, crescimento de 15% na comparação anual. O retorno sobre o patrimônio líquido, conhecido como ROE, poderá chegar a 15,8%.
Para o Itaú, a projeção é de lucro de R$ 12,3 bilhões, alta de 7,7%, com ROE de 24,3%. Já o Santander deverá registrar lucro de R$ 3,3 bilhões, retração de 7,7% em relação ao segundo trimestre de 2025, e rentabilidade de 14%.
Os números colocam o Bradesco como o banco com maior possibilidade de mostrar melhora relativa. Isso não significa que superará o Itaú em resultado absoluto. O Itaú deve continuar gerando quase o dobro do lucro e mantendo uma diferença expressiva de rentabilidade sobre os concorrentes.
Bradesco chega ao balanço com recuperação mais visível
O Bradesco (BBDC4) atravessa uma reconstrução iniciada depois da deterioração de sua carteira de crédito entre 2022 e 2023. O banco passou a reduzir exposições menos rentáveis, rever políticas de concessão, reforçar provisões e direcionar capital para operações com melhor relação entre risco e retorno.
Essa estratégia começou a aparecer com maior clareza nos resultados recentes. No primeiro trimestre de 2026, o Bradesco registrou lucro recorrente próximo de R$ 6,8 bilhões, mantendo a trajetória de recuperação da rentabilidade.
A expectativa para o segundo trimestre é de novo avanço, sustentado pelo crescimento da margem financeira com clientes, pela expansão seletiva da carteira e pela contribuição do segmento de seguros.
O banco deverá priorizar financiamentos de veículos, antecipação de recebíveis e empréstimos a pequenas e médias empresas. São linhas nas quais garantias, relacionamento bancário e conhecimento do fluxo financeiro dos clientes ajudam a limitar as perdas.
A administração tende a manter maior cautela no crédito pessoal sem garantia e nas operações com empresas consideradas mais vulneráveis à desaceleração da economia.
O ponto central será saber se o Bradesco conseguirá aumentar as receitas sem interromper a melhora da qualidade dos ativos. Um crescimento acelerado acompanhado de provisões elevadas reduziria a percepção de que o processo de recuperação se tornou sustentável.
Margem financeira deve sustentar lucro de BBDC4
A margem financeira com clientes deverá ser o principal motor do resultado do Bradesco (BBDC4). Essa linha representa, de forma simplificada, a diferença entre os juros cobrados nos empréstimos e o custo do dinheiro utilizado para financiá-los.
Os juros elevados podem favorecer os spreads, mas também aumentam o risco de atraso. A vantagem aparece quando o crescimento das receitas supera o avanço das perdas esperadas.
Em maio, a taxa média cobrada nas operações de crédito livre chegou a 49,5% ao ano. Para pessoas físicas, a média ficou em 62,8%, enquanto os empréstimos livres para empresas apresentaram taxa de 25,2%.
Esses níveis aumentam a rentabilidade nominal das operações, mas limitam a capacidade de pagamento dos clientes. Por isso, o banco precisa selecionar cuidadosamente os segmentos nos quais pretende crescer.
A XP espera que a expansão do Bradesco seja concentrada em operações com pequenas e médias empresas, financiamento de veículos e recebíveis. A combinação oferece maior possibilidade de garantia do que o crédito pessoal sem destinação específica.
A receita financeira também poderá se beneficiar do aumento dos saldos médios e da renovação de contratos a taxas mais altas. Em contrapartida, o custo de captação e as despesas com provisões continuarão limitando parte do ganho.
Seguros oferecem proteção adicional ao Bradesco
O segmento de seguros permanece como uma das principais vantagens competitivas do Bradesco (BBDC4).
A operação reúne planos de saúde, seguros, previdência, capitalização e participação na Odontoprev (ODPV3). Essas atividades geram receitas que não dependem diretamente da expansão do crédito bancário.
Em momentos de aumento da inadimplência, a diversificação reduz a volatilidade do resultado consolidado. O banco consegue compensar parte da pressão sobre empréstimos com prêmios de seguros, mensalidades, administração de planos e receitas financeiras das reservas.
O mercado acompanhará a sinistralidade da operação de saúde, indicador que mede quanto das receitas é consumido por consultas, exames, internações e demais despesas assistenciais.
Também haverá atenção para as receitas de tarifas e serviços. Consórcios, cartões, administração de recursos e produtos voltados ao público de alta renda podem reforçar o resultado.
Caso o lucro alcance os R$ 6,9 bilhões projetados, o Bradesco confirmará mais uma etapa de recuperação. O banco, entretanto, ainda precisará reduzir a diferença de rentabilidade em relação ao Itaú para que o movimento se transforme em uma reprecificação mais estrutural das ações BBDC4.
Itaú preserva vantagem de mais de oito pontos no ROE
O Itaú Unibanco (ITUB4) deverá continuar como o banco privado mais rentável do país.
A projeção de lucro de R$ 12,3 bilhões para o segundo trimestre praticamente repete o resultado recorrente registrado nos três primeiros meses de 2026. A estabilidade em nível elevado reforça a capacidade do banco de gerar resultados mesmo diante da desaceleração do crédito e do aumento da inadimplência no sistema.
O Itaú encerrou o primeiro trimestre com ROE recorrente consolidado de 24,8%. Para o segundo trimestre, a XP estima 24,3%, ainda mais de oito pontos percentuais acima do retorno projetado para o Bradesco e mais de dez pontos acima do Santander.
A carteira de crédito total do Itaú chegou a R$ 1,48 trilhão em março, desconsiderados os efeitos cambiais. O volume cresceu 9% em 12 meses, com destaque para pequenas e médias empresas, consignado e crédito imobiliário.
A inadimplência acima de 90 dias permaneceu em 1,9%, nível inferior ao observado no conjunto do sistema financeiro.
A força do Itaú está na combinação entre escala, qualidade da carteira, precificação de risco, controle de despesas e receitas diversificadas. O banco consegue crescer sem ampliar excessivamente sua exposição aos segmentos de maior risco.
Crédito para empresas menores exige atenção no Itaú
Apesar da posição mais confortável, o Itaú Unibanco (ITUB4) também enfrenta pontos de pressão.
Pequenas e médias empresas ganharam participação na expansão da carteira. Esses clientes podem oferecer margens superiores às grandes corporações, mas são mais sensíveis à queda da atividade, ao aumento de custos e ao encarecimento dos empréstimos.
O crédito consignado privado também deverá continuar crescendo. O produto ganhou impulso com o novo modelo de empréstimo vinculado aos trabalhadores formais.
A retenção das parcelas reduz o risco em comparação com o crédito pessoal comum. Ainda assim, a modalidade possui histórico curto dentro das novas regras, o que exige acompanhamento da originação, da rotatividade no mercado de trabalho e das taxas de recuperação.
O financiamento de veículos representa outro ponto de observação. O automóvel funciona como garantia, mas o valor recuperado pelo banco depende do preço dos usados e do tempo necessário para retomar e revender o bem.
No primeiro trimestre, a inadimplência do Itaú permaneceu controlada. O balanço de agosto mostrará se a deterioração observada no sistema começou a atingir carteiras específicas do banco.
Receita de serviços pode limitar avanço de ITUB4
A principal fraqueza esperada no resultado do Itaú está nas receitas de comissões e serviços.
O primeiro trimestre já mostrou queda sequencial nas receitas relacionadas a cartões, pagamentos, assessoria financeira, corretagem e administração de recursos. Parte do movimento foi sazonal, mas a atividade mais fraca no mercado de capitais pode prolongar a pressão.
Menos ofertas de ações, fusões, aquisições e emissões reduzem as comissões do banco de investimento. Fundos com desempenho menos expressivo também geram menos taxas de performance.
O Itaú deverá compensar esse efeito com controle de despesas e margem financeira resiliente. No primeiro trimestre, o banco manteve inalteradas suas projeções para 2026.
O guidance oficial prevê crescimento entre 5,5% e 9,5% da carteira total de crédito, avanço de 5% a 9% na margem financeira com clientes e custo de crédito entre R$ 38,5 bilhões e R$ 43,5 bilhões no ano.
O banco também espera crescimento de 1,5% a 5,5% nas receitas de serviços e seguros e aumento de 5% a 9% nas despesas não financeiras.
Santander enfrenta piora da inadimplência no sistema
O cenário do Santander Brasil (SANB11) é mais delicado.
A estimativa de lucro de R$ 3,3 bilhões representa queda anual de 7,7% e redução em relação aos R$ 3,78 bilhões registrados no primeiro trimestre.
A rentabilidade projetada de 14% também indica perda de ritmo. No primeiro trimestre, o Santander havia apresentado ROE de aproximadamente 16%.
A pressão ocorre em um momento de aumento generalizado da inadimplência. Segundo o Banco Central, os atrasos superiores a 90 dias alcançaram 4,7% da carteira total do sistema financeiro em maio, avanço de um ponto percentual em 12 meses.
Nas operações com recursos livres, a inadimplência chegou a 6,2%. O índice atingiu 7,6% entre as famílias e 4,1% entre as empresas.
A deterioração não afeta todos os bancos da mesma maneira. A composição da carteira, as garantias, a renda dos clientes e a qualidade da concessão determinam quanto da piora do sistema chegará ao balanço de cada instituição.
No Santander, o mercado observa maior pressão em cartões, pequenas e médias empresas e determinadas operações do atacado.
Provisões devem ser o principal obstáculo de SANB11
O custo do crédito deverá ser a linha mais sensível do resultado do Santander Brasil (SANB11).
Quando aumenta a probabilidade de um cliente não pagar, o banco precisa constituir provisões. Esse valor é reconhecido como despesa antes mesmo de a perda se tornar definitiva.
Quanto maior a necessidade de provisionamento, menor a parcela da margem financeira que chega ao lucro líquido.
As projeções indicam aumento das provisões na comparação com o primeiro trimestre. Além da piora da carteira, o banco enfrenta efeitos das regras contábeis de reconhecimento de perdas esperadas.
Cartões de crédito e pequenas empresas concentram parte da atenção. São segmentos rentáveis, mas com maior sensibilidade à renda, ao emprego, ao faturamento e ao custo dos juros.
O crescimento da carteira deverá ficar entre 4% e 5% em 12 meses. A expansão tende a ser puxada por clientes de maior renda, crédito imobiliário e financiamento de veículos.
O consignado, por outro lado, deverá oferecer contribuição limitada. A originação para beneficiários do INSS permanece fraca, enquanto o crédito privado ainda não alcançou escala suficiente para compensar a desaceleração.
Gilson Finkelsztain assume banco sob pressão por rentabilidade
O balanço também marca uma nova fase na administração do Santander.
Gilson Finkelsztain assumiu a presidência do banco depois de comandar a B3 (B3SA3). Ele substitui Mário Leão e recebe uma instituição que precisa recuperar a qualidade do crédito e elevar o retorno sobre o capital.
A mudança acrescenta um componente estratégico à divulgação. Além dos números, investidores buscarão sinais sobre as prioridades da nova gestão.
O Santander poderá reduzir a exposição aos segmentos mais arriscados, reforçar a concessão para clientes de alta renda ou acelerar iniciativas para aumentar receitas de serviços.
Seguros e consórcios oferecem algum apoio. Essas operações geram comissões e podem compensar parcialmente a pressão das provisões.
O controle de despesas também será essencial. Com crescimento moderado da carteira, a eficiência operacional ganha peso maior na recuperação da rentabilidade.
O desafio será melhorar o risco sem comprometer excessivamente as receitas. Uma retração muito forte da concessão protege o balanço no curto prazo, mas pode reduzir a margem financeira e limitar o crescimento futuro.
Selic a 14,25% mantém crédito sob pressão
Os balanços serão apresentados em um cenário no qual os juros continuam altos, apesar do início do ciclo de redução da Selic.
O Banco Central cortou a taxa básica para 14,25% ao ano em junho. Mesmo após a queda, a política monetária segue contracionista e mantém elevado o custo dos financiamentos.
O estoque total de crédito do sistema financeiro alcançou R$ 7,3 trilhões em maio, crescimento de 9,5% em 12 meses.
A expansão, porém, veio acompanhada de aumento dos atrasos. O crédito às famílias cresceu 11,2%, enquanto a inadimplência desse grupo chegou a 5,6%.
No crédito livre, o problema é mais intenso. A taxa de atraso das famílias atingiu 7,6%, ao mesmo tempo em que os juros médios permaneceram acima de 60% ao ano.
Para os bancos, o quadro produz efeitos contraditórios. Taxas elevadas aumentam receitas em determinadas modalidades, mas reduzem a demanda e elevam a probabilidade de inadimplência.
Instituições com carteiras mais protegidas por garantias e clientes de maior renda conseguem capturar melhor as margens. Bancos com exposição maior ao crédito sem garantia tendem a consumir mais resultado com provisões.
Bradesco pode vencer na aceleração, mas Itaú segue à frente
A projeção da XP coloca o Bradesco (BBDC4) como principal candidato a surpresa positiva, sobretudo pela combinação de crescimento de receitas, seguros e qualidade de crédito administrável.
O Itaú Unibanco (ITUB4), entretanto, continuará liderando em lucro absoluto e rentabilidade. O banco deve entregar quase R$ 5,4 bilhões a mais de resultado do que o Bradesco no trimestre.
A comparação mostra que existem duas formas de interpretar o possível “vencedor” da temporada.
O Bradesco pode apresentar a maior evolução em relação à própria base, reforçando a recuperação e reduzindo a diferença para os concorrentes.
O Itaú, por sua vez, deverá continuar operando em um patamar de rentabilidade que os rivais ainda não alcançaram.
Para os investidores, a reação das ações dependerá não apenas do lucro, mas da diferença entre os números divulgados e as expectativas já incorporadas às cotações.
Um resultado forte pode provocar queda se estiver abaixo do consenso. Da mesma forma, um lucro menor pode impulsionar a ação quando supera as projeções ou traz melhora relevante na qualidade da carteira.
Crédito separará BBDC4, ITUB4 e SANB11 no 2T26
As provisões e a inadimplência deverão definir a leitura final dos três balanços.
No Bradesco (BBDC4), o mercado buscará confirmação de que a retomada da rentabilidade não está sendo comprada com maior risco.
No Itaú Unibanco (ITUB4), a atenção estará na capacidade de sustentar ROE superior a 24% e manter a inadimplência abaixo do sistema.
No Santander Brasil (SANB11), o principal teste será demonstrar que a piora da carteira está próxima de um limite administrável.
As projeções indicam um trimestre de avanço para o Bradesco, estabilidade em nível elevado para o Itaú e recuo para o Santander. A publicação dos balanços mostrará se essa diferença reflete apenas o momento de cada banco ou se representa uma mudança mais duradoura na disputa entre as três instituições.









