O Brasil chegou a 84 milhões de consumidores inadimplentes em agosto de 2026, maior contingente registrado pela Serasa Experian e equivalente a 51% da população adulta. O número expõe um paradoxo da economia brasileira: o mercado de trabalho permanece aquecido e a renda real avançou, mas uma parcela crescente das famílias continua incapaz de pagar compromissos assumidos anteriormente, enquanto novas operações de crédito mantêm expansão de dois dígitos.
O problema aparece também nas estatísticas do Banco Central. Em junho, as famílias comprometiam 28,9% da renda com pagamentos de dívidas no Sistema Financeiro Nacional. Quando os financiamentos imobiliários são retirados do cálculo, o índice ficava em 26,6%, patamar que evidencia quanto prestações, juros, cartões e empréstimos já ocupam do orçamento mensal dos brasileiros.
A situação se agrava porque o crédito não deixou de crescer. Em julho, o estoque de operações com recursos livres para pessoas físicas alcançou R$ 2,6 trilhões, aumento de 10,8% em 12 meses. No mesmo segmento, a inadimplência das famílias atingiu 7,8%, alta de 1,1 ponto percentual em relação ao ano anterior. Considerando pessoas físicas e jurídicas, os atrasos no crédito livre chegaram a 6,4%.
Não se trata, portanto, apenas de famílias que contraíram empréstimos em algum momento e deixaram de pagar. O quadro atual combina uma base de consumidores já endividados, expansão contínua do crédito, juros ainda elevados e utilização crescente de modalidades destinadas a cobrir necessidades imediatas. É esse mecanismo que cria o efeito de bola de neve: dinheiro novo entra para resolver uma despesa presente, mas gera uma prestação que reduzirá a renda disponível nos meses seguintes.
Metade da população adulta já aparece na inadimplência
Os 84 milhões de consumidores identificados pela Serasa possuem pelo menos um compromisso vencido e não pago registrado na base da empresa. O dado representa 51% dos brasileiros adultos.
A magnitude é particularmente relevante porque ocorre num período em que os indicadores de trabalho continuam relativamente favoráveis. Segundo o IBGE, o rendimento médio real habitual das pessoas ocupadas chegou a R$ 3.762 no trimestre encerrado em julho, alta de 3,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. A taxa de desemprego ficou em 5,3%.
O crescimento da renda, portanto, não foi suficiente para impedir o avanço das dificuldades financeiras.
Isso acontece porque renda e dívida não se movem necessariamente na mesma velocidade. Uma pessoa pode receber um salário maior e ainda assim perder capacidade de pagamento quando o estoque de obrigações acumuladas aumenta, os juros incidentes sobre essas dívidas permanecem altos ou despesas essenciais absorvem uma parcela crescente do orçamento.
O Banco Central já identificou esse mecanismo em seus relatórios. A autoridade monetária relaciona o elevado comprometimento da renda tanto à expansão anterior do acesso ao sistema financeiro quanto ao aumento do custo do crédito durante o ciclo de alta da Selic e à maior procura por modalidades emergenciais, normalmente mais caras.
É uma combinação relevante: mais brasileiros passaram a ter acesso a produtos bancários e linhas de financiamento, mas parte desse crédito passou a ser utilizada num ambiente de taxas elevadas e menor espaço disponível no orçamento.
Dívida ocupa parcela cada vez maior do orçamento
O indicador de comprometimento de renda do Banco Central mede quanto da renda mensal das famílias é destinado ao serviço das dívidas, incluindo amortizações e juros.
Em junho, essa proporção chegou a 28,9% considerando os compromissos com o Sistema Financeiro Nacional. Sem os financiamentos habitacionais, ficou em 26,6%.
A diferença é importante porque a dívida imobiliária possui características diferentes de modalidades como cartão, cheque especial ou crédito pessoal. Financiamentos de imóveis costumam ter prazos longos e garantias reais, enquanto linhas livres podem apresentar juros significativamente superiores e responder mais rapidamente às mudanças da Selic.
O problema econômico começa quando uma parcela grande da renda futura já está comprometida antes mesmo do pagamento das despesas correntes.
Uma família que precisa utilizar o cartão de crédito ou contratar um empréstimo para fechar as contas de determinado mês desloca parte do problema para os meses seguintes. A nova prestação passa a competir com alimentação, aluguel, energia, transporte e outras despesas. Caso surja outro déficit, uma segunda operação pode ser contratada para cobrir a primeira.
Nesse estágio, o crédito deixa de financiar predominantemente consumo futuro ou aquisição de patrimônio e passa a funcionar como mecanismo de administração de insuficiência de caixa.
O processo pode continuar mesmo com aumento de renda porque o custo acumulado das dívidas reduz a parcela efetivamente disponível do salário.
Crédito às famílias chega a R$ 2,6 trilhões nas linhas livres
As estatísticas mais recentes do Banco Central mostram que a oferta e a utilização de crédito continuam aumentando apesar da inadimplência.
Em julho, o crédito com recursos livres destinado às pessoas físicas somava R$ 2,6 trilhões, crescimento de 10,8% em 12 meses. Entre os componentes que contribuíram para a expansão estavam cartão de crédito à vista, crédito consignado para trabalhadores do setor privado e financiamento de veículos.
O estoque total de operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional chegou a R$ 7,4 trilhões, dos quais R$ 4,6 trilhões correspondiam às famílias.
Ao mesmo tempo, a taxa média das novas operações de crédito livre estava em 47,7% ao ano. Esse número reúne modalidades muito diferentes e não significa que todo consumidor pague essa taxa, mas demonstra o custo elevado do financiamento disponível fora das linhas direcionadas.
A própria inadimplência mostra a deterioração de parte dessas carteiras. Entre pessoas físicas, 7,8% do crédito livre estava inadimplente em julho.
O fenômeno ajuda a explicar por que o aumento do crédito pode produzir efeitos contraditórios. Num primeiro momento, o financiamento sustenta consumo e oferece liquidez às famílias. Posteriormente, porém, parcelas e juros retiram renda que poderia ser usada para novas compras.
Quando esse processo ocorre simultaneamente em milhões de domicílios, o impacto deixa de ser apenas financeiro e passa a afetar o consumo agregado.
Selic começou a cair, mas crédito continua caro
O Comitê de Política Monetária reduziu em setembro a Selic para 13,75% ao ano, quinta redução consecutiva de 0,25 ponto percentual. O Brasil, portanto, já se encontra num ciclo de flexibilização monetária, mas a taxa permanece em nível considerado restritivo pelo próprio Banco Central.
Essa diferença é essencial para compreender a situação das famílias. Uma queda da Selic não significa redução imediata ou proporcional dos juros de cartão, cheque especial e crédito pessoal.
Existe uma defasagem entre a política monetária e as taxas efetivamente pagas pelos consumidores. Além disso, os preços dos empréstimos incorporam fatores como risco de inadimplência, custos operacionais, impostos, exigências de capital e margem das instituições financeiras.
Quanto maior a percepção de que determinado grupo de clientes pode deixar de pagar, maior tende a ser o prêmio de risco embutido nas novas concessões. Assim, a elevação da inadimplência pode contribuir para manter caro justamente o crédito destinado a consumidores mais vulneráveis.
Forma-se outro ciclo: juros altos aumentam o custo das parcelas; parcelas mais caras elevam o risco de atraso; inadimplência maior pode encarecer novas concessões.
Desenrola renegocia o passado, mas não impede novas dívidas
O governo federal tentou enfrentar parte do problema com uma nova edição do Desenrola Brasil em 2026. A Medida Provisória nº 1.355 criou um mecanismo extraordinário para renegociação de dívidas das famílias, com garantias do Fundo de Garantia de Operações e possibilidade de descontos e parcelamentos.
A vigência da medida terminou em 31 de agosto. Em 17 de setembro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo estuda novas iniciativas para enfrentar o endividamento e comparou as edições anteriores do Desenrola a “doses de vacina”.
Programas desse tipo conseguem atacar um componente importante do problema: o estoque de dívidas já vencidas. Uma obrigação considerada praticamente impagável pode ser renegociada com desconto, retirada dos cadastros de inadimplência e convertida numa prestação compatível com a renda da família.
Mas a renegociação não elimina automaticamente o mecanismo que produz novas dívidas.
Se, depois de limpar o nome, a família continuar com renda disponível insuficiente para despesas correntes ou voltar a contratar linhas caras, o problema pode reaparecer. É por isso que a evolução da inadimplência precisa ser observada em conjunto com o comprometimento da renda, as taxas cobradas e a expansão do crédito.
O próprio Banco Central tem demonstrado preocupação crescente com essa combinação e vem discutindo medidas prudenciais destinadas a reduzir riscos associados à expansão do endividamento.
Problema não tem uma causa única
A inadimplência recorde não pode ser atribuída a apenas uma variável.
Os juros elevados aumentam o custo das dívidas e tornam o refinanciamento mais difícil. A inflação acumulada reduz o poder de compra. O aumento da oferta de crédito permite que famílias continuem tomando recursos mesmo quando parte relevante da renda já está comprometida. A inclusão financeira ampliou o universo de pessoas com acesso a cartões e empréstimos. E situações individuais, como desemprego, doença ou perda temporária de renda, podem romper rapidamente um orçamento doméstico já apertado.
A política fiscal também integra o cenário macroeconômico porque expectativas sobre dívida pública, resultado primário e inflação influenciam as condições financeiras e fazem parte das avaliações do Banco Central. Isso, porém, não significa que seja possível estabelecer uma relação mecânica pela qual determinado nível de inadimplência das famílias decorra exclusivamente das contas públicas ou de uma única decisão de governo.
Da mesma forma, medidas de transferência de renda, isenção tributária ou renegociação de dívidas podem aumentar a renda disponível de determinados grupos, mas não substituem a necessidade de acompanhar a qualidade das novas concessões de crédito e a capacidade de pagamento dos tomadores.
O dado mais preocupante é justamente a coexistência desses movimentos.
O rendimento médio real do trabalho cresce. O desemprego permanece baixo. A Selic começou a cair. Ainda assim, 84 milhões de consumidores aparecem como inadimplentes e o crédito às famílias continua crescendo rapidamente.
Isso indica que parte relevante do problema está no estoque acumulado e na estrutura das dívidas, e não apenas na renda recebida no mês corrente.
Para uma família já comprometida com várias prestações, um aumento salarial pode servir primeiro para absorver juros e parcelas antigas antes de produzir qualquer melhora perceptível no consumo. O ganho existe nas estatísticas, mas não necessariamente chega integralmente ao orçamento disponível.
É esse efeito que ajuda a explicar o aparente paradoxo da economia brasileira em 2026: emprego e renda apresentam indicadores resistentes, enquanto os balanços domésticos mostram estresse crescente.
A marca de 84 milhões de inadimplentes é o resultado mais visível desse processo. Por trás dela está uma engrenagem mais ampla, formada por crédito abundante, custo financeiro elevado, comprometimento de renda e famílias que, em muitos casos, recorrem a novas dívidas para administrar obrigações anteriores.
Renegociações podem reduzir o estoque atrasado e oferecer alívio imediato. Para que o número de inadimplentes recue de forma sustentada, porém, será necessário que renda, custo do crédito e capacidade de pagamento voltem a crescer em velocidades compatíveis entre si.
Fontes:
Serasa Experian — Indicadores Econômicos, inadimplência do consumidor em agosto de 2026
Banco Central do Brasil — Estatísticas Monetárias e de Crédito de julho de 2026
Banco Central do Brasil — Relatório de Política Monetária e Ata da 281ª reunião do Copom
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — PNAD Contínua, trimestre encerrado em julho de 2026
Ministério da Fazenda e Congresso Nacional — Novo Desenrola Brasil e vigência da Medida Provisória nº 1.355
Ministério da Fazenda — declarações de Dario Durigan sobre novas medidas para endividamento








