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Flávio Bolsonaro viajou em jato ligado a Vorcaro durante negociação de US$ 24 milhões

Voo ocorreu em janeiro de 2025, quando uma das cotas da aeronave estava ligada à Prime You e Flávio negociava com Vorcaro recursos para o filme sobre Jair Bolsonaro.

por Carlos Menezes
24/09/2026 às 19h03
em Política
Flavio Bolsonaro - Gazeta Mercantil

O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) viajou dos Estados Unidos para Brasília, em janeiro de 2025, em um jato executivo cuja estrutura de propriedade compartilhada incluía uma participação ligada à Prime You, empresa que naquele momento tinha Daniel Vorcaro entre seus sócios. O voo ocorreu em meio às negociações conduzidas por Flávio para obter do então banqueiro financiamento de até US$ 24 milhões para Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, e acrescenta um novo episódio à sequência de contatos, mensagens e operações financeiras que aproximaram os dois ao longo de 2025.

A aeronave era um Legacy 650 de prefixo PP-NLR, formalmente vinculado à Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A. O modelo de propriedade era dividido em três cotas. Uma delas pertencia à Alcazar Holdings, ligada ao advogado e empresário Willer Tomaz; outra estava relacionada ao empresário Laércio Cosentino; e uma terceira havia sido adquirida no fim de 2024 pela Prime You, companhia da qual Vorcaro era investidor e sócio naquele período. Leia também: Senado analisa projeto de lei que altera critérios de dosimetria da pena.

Flávio embarcou em Fort Lauderdale, na Flórida, em 19 de janeiro de 2025, acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, das duas filhas e de Willer Tomaz. O avião pousou em Brasília no mesmo dia. No dia seguinte, 20 de janeiro, Flávio voltou a cobrar interlocutores envolvidos na captação de recursos para Dark Horse, justamente na data prevista para a liberação da primeira parcela de US$ 2 milhões de um financiamento que poderia chegar a US$ 24 milhões.

A proximidade temporal entre os episódios não comprova que Vorcaro tenha oferecido, autorizado ou custeado o voo. Willer Tomaz afirma que a viagem foi paga por ele, descontada das horas correspondentes à sua própria participação na aeronave, e que Flávio e sua família embarcaram como convidados. Tomaz também diz não conhecer Vorcaro e sustenta que só descobriu posteriormente que a Prime You havia adquirido outra cota do mesmo avião. Leia também: Moraes determina pedido de extradição de Alexandre Ramagem ao Ministério da Justiça.

O ponto relevante é que o episódio não surge isoladamente. Naquele momento, Flávio já participava de tratativas destinadas a obter recursos relacionados a Vorcaro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro. Meses depois, mensagens recuperadas pelas investigações mostrariam o senador cobrando diretamente do ex-banqueiro o cumprimento de parcelas associadas ao projeto. Flávio confirmou posteriormente a negociação, disse que procurou Vorcaro em busca de financiamento privado e negou ter oferecido qualquer vantagem em troca dos recursos.

Jato aparece no mesmo período das negociações com Vorcaro

As tratativas para financiar Dark Horse começaram pelo menos no fim de 2024. Flávio afirmou que conheceu Daniel Vorcaro em dezembro daquele ano, quando, segundo sua versão, não existiam acusações públicas contra o então controlador do Banco Master. Conversas obtidas posteriormente pela Polícia Federal mostraram que interlocutores discutiam encontros entre Vorcaro, Flávio e Jair Bolsonaro, enquanto avançavam as negociações para financiar o projeto cinematográfico. Leia também: Como Lula Articula a Resposta do Brics às Tarifas dos EUA.

O plano apresentado aos potenciais financiadores previa US$ 24 milhões para a produção. A estrutura mencionava inicialmente parcelas de US$ 2 milhões e transferências posteriores de aproximadamente US$ 1,66 milhão. Flávio não era apenas uma figura periférica nessas conversas: mensagens divulgadas ao longo da investigação mostram que ele acompanhava os pagamentos, cobrava andamento das operações e pressionava pela liberação dos recursos.

Nesse contexto, o voo de 19 de janeiro adquire relevância por sua posição na cronologia. Um dia depois da chegada a Brasília, Flávio entrou em contato com o publicitário Thiago Miranda, envolvido na negociação, e cobrou avanço da análise jurídica necessária à liberação do primeiro aporte. A data de 20 de janeiro correspondia ao prazo indicado para o pagamento inicial de US$ 2 milhões. Leia também: Bolsa Família paga NIS final 6 nesta quinta; veja valores e calendário.

A transferência não ocorreu naquela data. Nas semanas seguintes, Vorcaro e pessoas próximas passaram a discutir alternativas para viabilizar o pagamento. Em fevereiro, recursos começaram a ser enviados pela Entre Investimentos e Participações ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, estrutura utilizada no financiamento do projeto.

Ao longo de 2025, foram identificados repasses que somaram mais de US$ 12 milhões. Flávio reconheceu posteriormente que recursos ligados a Vorcaro chegaram ao projeto e sustentou que se tratava de investimento privado numa produção cinematográfica, sem emprego de dinheiro público ou utilização de mecanismos como a Lei Rouanet. Leia também: Juiz suspende veto de Trump a CNN, Politico e MS NOW após Casa Branca usar briefing próprio contra site.

A Polícia Federal continua examinando o caminho percorrido pelos recursos, os intermediários envolvidos e a destinação das quantias transferidas. A existência da negociação entre Flávio e Vorcaro não é mais objeto apenas de relatos de terceiros: o próprio senador admitiu ter procurado o banqueiro para financiar o filme e afirmou que não houve contrapartidas ilícitas.

Mensagens revelaram cobranças diretas de Flávio a Vorcaro

A relação entre Flávio e Vorcaro ganhou dimensão pública em maio de 2026, quando vieram à tona mensagens e áudios mostrando cobranças feitas pelo senador ao empresário a respeito dos recursos destinados a Dark Horse. Leia também: Bradesco e Neoenergia emitem R$ 1 bilhão em debêntures verdes do Eco Invest.

Flávio confirmou a autenticidade do núcleo das negociações e afirmou que havia procurado um patrocinador privado para um projeto privado sobre a trajetória do pai. Em sua defesa, destacou que o governo Jair Bolsonaro já havia terminado quando conheceu Vorcaro e disse que, à época do primeiro contato, não havia suspeitas públicas envolvendo o empresário.

As conversas, contudo, mostram que o contato continuou durante 2025. Em setembro daquele ano, Flávio cobrou novos recursos poucos dias depois de o Banco Central rejeitar a operação que previa a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília. Em novembro, um dia antes da primeira prisão de Vorcaro, o senador voltou a procurá-lo.

Em uma das mensagens divulgadas, Flávio tratou Vorcaro de forma pessoal e afirmou que estaria ao lado dele, enquanto simultaneamente cobrava uma orientação sobre as parcelas do filme. O conteúdo passou a integrar a investigação sobre as relações do ex-banqueiro com agentes políticos e o destino do dinheiro movimentado a partir de empresas e fundos ligados ao grupo.

O senador sustenta que as mensagens precisam ser interpretadas dentro da negociação comercial para financiar a produção e rejeita qualquer interpretação de que tenha recebido vantagens pessoais. Também defende que o dinheiro foi destinado ao filme e afirma que cabe às empresas responsáveis pela produção apresentar sua prestação de contas.

Ainda assim, a cronologia demonstra uma relação mais extensa do que um contato pontual. Houve aproximação no fim de 2024, negociação de financiamento, cobranças ao longo de 2025 e transferências milionárias posteriormente identificadas pelas investigações.

É dentro dessa cronologia que aparece agora a utilização do PP-NLR.

Uma das três cotas do avião estava ligada à empresa de Vorcaro

A forma como o Legacy 650 era estruturado exige precisão. O avião não era propriedade exclusiva de Daniel Vorcaro e não há demonstração de que o ex-banqueiro tenha disponibilizado pessoalmente a aeronave para Flávio Bolsonaro.

O PP-NLR funcionava sob um modelo de propriedade compartilhada. A Fraction 024 aparecia formalmente como proprietária e cada participante detinha direitos correspondentes à sua cota. A Prime You havia adquirido uma dessas participações no fim de 2024, período em que Vorcaro ainda estava ligado societariamente à companhia.

Segundo informações da própria Prime You divulgadas posteriormente, Vorcaro participou da empresa entre 2021 e setembro de 2025. Assim, quando Flávio viajou no avião em janeiro daquele ano, a cota vinculada à companhia já integrava a estrutura de propriedade do jato.

Outra participação era de Willer Tomaz, amigo de Flávio e passageiro da viagem. Tomaz afirma ter sido o responsável pelo trecho entre a Flórida e Brasília e sustenta que o voo foi lançado contra as horas correspondentes à sua própria cota.

Segundo ele, Flávio, a mulher e as filhas viajaram como convidados, sem custos, pagamentos, favores ou qualquer outra forma de contrapartida. Tomaz declarou ainda que não conhece Daniel Vorcaro, nunca fez negócios com ele e só teria descoberto em abril de 2026 que uma participação no avião havia sido adquirida pela Prime You.

Essa versão impede atribuir diretamente o transporte a Vorcaro sem evidências adicionais. O elo verificável é societário: o candidato presidencial viajou numa aeronave cuja propriedade compartilhada incluía, naquele momento, uma participação da empresa na qual Vorcaro era investidor.

Outros episódios aproximaram os mesmos personagens

O voo não é o único ponto de interseção identificado entre Flávio, pessoas próximas a ele e integrantes do círculo empresarial de Vorcaro.

Em dezembro de 2024, mensagens apreendidas pela Polícia Federal registraram conversas sobre a tentativa de organizar um jantar envolvendo Daniel Vorcaro, Flávio e Jair Bolsonaro. No início de 2025, avançaram as tratativas para financiar Dark Horse. Depois vieram os repasses milionários, as cobranças de Flávio ao banqueiro e os contatos mantidos até as vésperas da prisão de Vorcaro.

Outro episódio revelado em setembro mostrou que Flávio utilizou durante sua campanha em São Paulo um imóvel que havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. O apartamento havia sido vendido posteriormente a Willer Tomaz, o mesmo empresário que afirma ter custeado a viagem no Legacy 650.

Esses fatos têm naturezas diferentes e não devem ser tratados como prova automática de uma operação conjunta. O que mostram, quando analisados cronologicamente, é a recorrência dos mesmos personagens em transações, viagens, negociações e relações patrimoniais que passaram a ser examinadas após o colapso do Banco Master e o avanço das investigações envolvendo Vorcaro.

No caso do filme, entretanto, a ligação é direta e reconhecida pelo próprio Flávio. O candidato admitiu ter procurado o empresário para levantar recursos e confirmou que Vorcaro participou do financiamento.

Flávio diz que financiamento era privado e nega contrapartida

Flávio tem afirmado desde a divulgação das mensagens que não houve irregularidade na negociação. Segundo ele, Dark Horse era um projeto privado e a busca por investidores não envolveu recursos públicos, favores governamentais ou contrapartidas oferecidas ao então dono do Banco Master.

O senador também afirma que as investigações devem separar operações lícitas de eventuais crimes praticados por pessoas ligadas ao banco e defendeu publicamente a apuração do caso Master.

Sobre o avião, Flávio respondeu à revelação destacando Willer Tomaz como responsável pela aeronave utilizada na viagem. Também ironizou o fato de o mesmo PP-NLR ter transportado posteriormente o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

A referência a Moraes, porém, não modifica a composição societária existente no momento do voo de janeiro. O ministro utilizou a aeronave meses depois, por meio de serviço de táxi aéreo contratado, segundo a versão apresentada pelo escritório de sua mulher. Não há indicação de que Moraes tenha sido proprietário do jato.

Da mesma maneira, a presença de uma cota vinculada à Prime You não significa que Vorcaro tenha organizado ou financiado o deslocamento de Flávio. A versão disponível atribui essa responsabilidade a Tomaz.

O significado jornalístico do episódio está na coincidência entre estruturas e personagens num período em que a relação entre o senador e o banqueiro estava em formação e avançava para uma operação financeira milionária.

Em 19 de janeiro de 2025, Flávio desembarcou em Brasília num avião cuja propriedade compartilhada já incluía uma participação ligada à empresa de Vorcaro. Em 20 de janeiro, cobrou o avanço do primeiro aporte de um financiamento negociado com o banqueiro. Em fevereiro, começaram os repasses. Ao longo daquele ano, as cobranças continuaram.

A sucessão desses fatos não demonstra que o voo e o financiamento façam parte da mesma operação, mas amplia o registro documental da proximidade entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro durante o período em que milhões de dólares foram negociados para Dark Horse.

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