O Brasil encerrou 2025 com US$ 169,2 bilhões em exportações do agronegócio, a menos de US$ 2 bilhões dos US$ 171 bilhões embarcados pelos Estados Unidos. A diferença, a menor já registrada entre os dois países, coloca o Brasil pela primeira vez em condição efetiva de disputar a liderança mundial do comércio agrícola, posição ocupada pelos americanos por décadas e que sustentou parte relevante do poder de definição de preços, padrões sanitários e rotas logísticas globais.
A fotografia da virada foi organizada pelo jornal britânico Financial Times a partir dos dados oficiais divulgados nesta semana. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, as vendas externas brasileiras cresceram 3% sobre 2024 e garantiram superávit setorial de US$ 149,07 bilhões. De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA, as exportações agrícolas americanas recuaram para US$ 171 bilhões em 2025, após o pico de 2022, pressionadas por preços internacionais mais baixos, dólar valorizado e perda de mercados. As duas estatísticas usam classificações distintas, mas apontam para a mesma direção. A liderança americana deixou de ser incontestável.
O que está em jogo vai além de um ranking. Quando o maior exportador de alimentos muda, muda a forma como o mundo compra, financia e transporta comida. Para o Brasil, significa mais dólares entrando pela balança comercial, mais peso nas negociações bilaterais e mais exposição a um único cliente. Para os Estados Unidos, significa lidar com um déficit agrícola crescente e com a necessidade de redesenhar subsídios, política de biocombustíveis e estratégia comercial.
Diferença de menos de US$ 2 bi encerra era de domínio incontestável
A aproximação entre US$ 169,2 bilhões e US$ 171 bilhões não é apenas simbólica. Ela materializa um movimento de duas décadas. No início dos anos 2000, o Brasil exportava pouco mais de um décimo do que exporta hoje em produtos do agro. O avanço veio com expansão de área no Centro-Oeste, adoção de cultivares adaptadas ao Cerrado, correção de solo e um salto de produtividade por hectare que permitiu ao país produzir mais sem crescer na mesma proporção em área.
Levantamento da Gazeta Mercantil com base em dados da Secex e do USDA mostra que a trajetória dos dois países se inverteu nos últimos três anos. Enquanto o Brasil manteve crescimento mesmo com queda de preços de soja e milho, os Estados Unidos perderam valor embarcado. O dado de 2025 consolida essa inversão porque ocorre em um ano de preços internacionais menos favoráveis, o que indica que o ganho brasileiro não depende apenas de cotação, mas de volume, diversificação de destinos e capacidade de originação.
O superávit de US$ 149,07 bilhões do agro brasileiro em 2025 foi, mais uma vez, o principal amortecedor das contas externas. Em um contexto de juros globais ainda elevados e de custo de financiamento pressionado, essa entrada de divisas ajuda a suavizar a volatilidade cambial e a financiar importações de bens de capital, combustíveis e insumos. É um efeito fiscal indireto, mas relevante, porque sustenta arrecadação de estados exportadores e reduz a necessidade de captação externa em momentos de aversão a risco.
China acelera virada e troca fornecedor americano por brasileiro
A China explica boa parte da convergência. Em 2025, o país comprou US$ 55,3 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro, o equivalente a 32,7% de todas as exportações do setor, com crescimento de 11% em um ano. No sentido oposto, as vendas agrícolas dos Estados Unidos para a China despencaram 66%, para US$ 8,4 bilhões. O mercado chinês, que já foi o principal destino do agro americano, caiu para a sexta posição no ranking de clientes dos EUA.
A disputa tarifária aberta pelo governo Donald Trump acelerou um processo que já estava em curso. Importadores chineses, diante de tarifas, incerteza regulatória e risco de interrupção de embarques, ampliaram contratos de longo prazo com o Brasil em soja, carnes, açúcar e algodão. Esses contratos não envolvem apenas preço. Eles amarram originação, armazenagem, capacidade portuária e financiamento de safra. Uma vez estabelecidos, tendem a ser mantidos, porque o custo de trocar de fornecedor inclui revalidar plantas frigoríficas, certificar fazendas e reorganizar logística interna na China.
O Financial Times ressalta que não se trata de um efeito conjuntural isolado. O Brasil construiu, ao longo de vinte anos, uma estrutura capaz de atender a China em escala. Isso inclui calendário agrícola complementar ao americano, oferta concentrada de farelo e grão no primeiro semestre e capacidade de entregar volumes grandes em janela curta, o que é decisivo para esmagadoras chinesas que operam com estoques baixos.
Segunda safra cria vantagem estrutural que o clima americano não permite
Parte central dessa capacidade está no modelo de duas safras. Em Mato Grosso, principal polo produtor de grãos, áreas plantadas com soja no verão recebem milho ou algodão na sequência. Esse sistema dilui custos fixos de terra, máquinas e infraestrutura e gera duas receitas na mesma área em um único ano agrícola. Nos Estados Unidos, o inverno rigoroso impede essa intensificação na maior parte do Corn Belt, onde o produtor tem uma janela principal de cultivo.
Essa diferença de modelo tem consequência econômica direta. Ao produzir duas culturas, o produtor brasileiro reduz o custo médio por tonelada e ganha flexibilidade para decidir o que vender conforme preço relativo entre soja, milho e algodão. Para tradings, significa maior oferta de milho no segundo semestre, justamente quando os estoques americanos começam a cair. Para a indústria de carnes, significa oferta mais estável de grãos para ração, o que sustenta competitividade de proteína animal.
O Brasil já lidera as exportações mundiais de soja, carne bovina, carne de frango, café, açúcar e suco de laranja, e vem ganhando participação em algodão e carne suína. A safra de grãos 2025/2026 está estimada pelo Ministério da Agricultura em 353,4 milhões de toneladas, o maior volume da série histórica. No primeiro trimestre de 2026, as exportações do agro superaram US$ 38 bilhões, também recorde para o período, segundo a pasta. O dado do início de 2026 é relevante porque mostra que a safra recorde está sendo convertida em embarque, não apenas em estoque de passagem.
A renovação de máquinas entra nesse cálculo. Em junho, o governo anunciou o programa Move Agricultura, com R$ 14 bilhões para financiar tratores, colheitadeiras e outros equipamentos. A medida afeta custo operacional, produtividade e capacidade de plantar dentro da janela ideal, que é determinante para a segunda safra. Para a indústria de máquinas agrícolas, representa demanda firme em um ano de crédito mais caro.
Balança comercial, dólar e juros sentem o efeito imediato
A disputa pela liderança tem efeito prático sobre a economia brasileira. O agro responde pela maior parte do superávit comercial e é a principal fonte privada de dólares no mercado à vista. Quando as exportações crescem em volume, mesmo com preço médio menor, o fluxo cambial ajuda a conter depreciações abruptas do real e reduz a pressão sobre inflação de alimentos e combustíveis importados.
Para a política monetária, o canal é indireto. Um superávit robusto melhora a percepção de risco externo e dá mais espaço ao Banco Central para calibrar juros sem a necessidade de responder a choques cambiais. Para o Tesouro, o efeito aparece na arrecadação de estados do Centro-Oeste e do Matopiba e na atividade de setores ligados a transporte, armazenagem e insumos. Não é por acaso que a curva de juros futuros costuma reagir a revisões de safra e a dados mensais de exportação da Secex.
Para o consumidor brasileiro, a leitura é dupla. De um lado, exportação forte sustenta emprego e renda no interior. De outro, maior integração com a China e com o mercado internacional torna o preço interno de soja, milho, carnes e açúcar mais sensível à demanda externa. Em anos de quebra nos EUA ou de aceleração chinesa, o repasse para o varejo doméstico pode ser mais rápido do que em anos de oferta abundante.
Empresas listadas entram no centro da disputa
O rearranjo comercial muda a equação de empresas que operam na originação, processamento e logística. Frigoríficos e tradings passam a lidar com um cliente mais concentrado e exigente em termos de escala e regularidade. No Brasil, companhias listadas como JBS (JBSS3), BRF (BRFS3), Marfrig (MRFG3) e SLC Agrícola (SLCE3) ficam mais expostas à dinâmica de frete marítimo, habilitação de plantas e spread entre preço interno e internacional. Para as produtoras de grãos, a segunda safra vira variável central de margem, porque define diluição de custo fixo e capacidade de travar preço em Chicago e no câmbio.
Para as tradings globais, a mudança de eixo significa redefinir onde investir em armazéns, esmagadoras e terminais portuários. A capacidade de originar milho no Brasil no segundo semestre, embarcar pelo Arco Norte e entregar na Ásia em prazo competitivo passou a valer tanto quanto a capacidade tradicional de originar no Golfo do México. Isso explica parte dos investimentos recentes em portos do Pará e Maranhão e em ferrovias que conectam o Centro-Oeste ao Norte.
Para o investidor de Bolsa, o recado é que o agro brasileiro deixou de ser apenas uma história de volume para ser também uma história de execução logística. O diferencial entre empresas não está mais só em produtividade no campo, mas em capacidade de armazenar, transportar, financiar e certificar carga. A volatilidade do dólar, o custo do diesel e o preço do frete deixam de ser coadjuvantes e passam a definir resultado trimestral.
Por que os EUA perderam tração e viraram importadores líquidos
Nos Estados Unidos, o valor das exportações agrícolas atingiu o pico em 2022 e recuou para US$ 171 bilhões em 2025. Conforme o USDA, a queda reflete combinação de preços menores, dólar forte e mudança na composição da demanda por soja e milho. Ao mesmo tempo, as importações agrícolas americanas chegaram a US$ 212 bilhões, o que gerou déficit de US$ 41 bilhões no comércio agrícola. É um número que contrasta com o período em que os Estados Unidos dominavam simultaneamente produção, comércio e formação de preços globais.
A estratégia americana para compensar a perda de mercados tem se apoiado em subsídios diretos a produtores e em incentivos ao uso de milho para biocombustíveis. A política sustenta renda no campo e ajuda a escoar parte da produção, mas não recupera automaticamente clientes que já migraram para o Brasil e estabeleceram cadeias de abastecimento alternativas. Além disso, o aumento da produção de proteínas vegetais, a maior concorrência da América do Sul e a preferência de importadores asiáticos por contratos mais flexíveis reduziram o poder de precificação dos EUA em algumas cadeias.
Há ainda um componente de custo interno. A mão de obra, o custo de armazenagem e o transporte interno nos EUA subiram nos últimos anos, enquanto o Brasil, mesmo com gargalos, conseguiu manter custo de produção competitivo em grãos e carnes. A diferença não está na tecnologia embarcada, que é elevada nos dois países, mas na capacidade de escalar área e de produzir duas safras onde o clima permite.
Logística cara e rastreabilidade ambiental definem se liderança será sustentável
A possível liderança brasileira convive com limitações que podem travar o salto final. A primeira é logística. A distância entre as áreas produtoras do Centro-Oeste e os portos do Sudeste e do Arco Norte ainda impõe custo elevado, congestionamentos em safra e dependência de rodovias. O escoamento pela BR-163, a expansão da Ferrovia Norte-Sul e os terminais no Arco Norte avançaram, mas não acompanharam integralmente o crescimento de 353,4 milhões de toneladas de grãos. Cada ponto percentual de perda de eficiência logística reduz a competitividade que o campo constrói com produtividade.
A segunda limitação é ambiental e regulatória. A expansão de lavouras e pastagens sobre vegetação nativa pressiona o debate sobre desmatamento e cria risco de barreiras comerciais. A União Europeia avança com exigências de rastreabilidade por lote e comprovação de cadeia livre de desmatamento, o que aumenta custo de conformidade para tradings, frigoríficos e produtores. O investimento em monitoramento por satélite, certificação, segregação de origem e sistemas de rastreabilidade de bovinos e grãos deixa de ser diferencial e vira condição para manter acesso a mercados de maior valor agregado.
Esse custo regulatório tende a se concentrar nas empresas que não investiram em governança socioambiental. Para as que já operam com rastreabilidade, pode virar vantagem competitiva, porque cria barreira de entrada para concorrentes menores. É um ponto que interessa diretamente a investidores que avaliam risco de sanção, perda de cliente e desconto em múltiplos por exposição ambiental.
O que pode confirmar ou adiar a ultrapassagem em 2026
A diferença inferior a US$ 2 bilhões entre Brasil e Estados Unidos em 2025 não significa que a ultrapassagem já ocorreu oficialmente. As metodologias de classificação de produtos são diferentes e a comparação direta exige ajustes. Ela mostra, porém, que a disputa entrou em uma nova fase, em que o Brasil tem safras sucessivas, acesso privilegiado à China e um modelo de segunda safra que amplia volume sem expandir área na mesma proporção.
Os próximos meses serão decisivos para confirmar a tendência. O USDA divulga em agosto nova rodada de estimativas de oferta, demanda e estoques, a Conab atualiza a projeção de safra e o Ministério da Agricultura detalha o desempenho por produto. O comportamento da demanda chinesa, a política tarifária americana, o ritmo de embarque do milho segunda safra e o custo de frete marítimo vão definir se o Brasil supera os EUA ainda em 2026 ou se a ultrapassagem fica para o ciclo seguinte.
Para a Gazeta Mercantil, o ponto central é que o agro brasileiro deixou de ser apenas fornecedor complementar para ser formador de preço e de rota logística. Quando um país passa a responder por mais de um terço das importações agrícolas do maior comprador do mundo, como ocorre com o Brasil na China, ele muda a balança de poder no comércio global de alimentos. Resta saber se o país conseguirá transformar volume em liderança sustentável, com logística eficiente, crédito para mecanização e rastreabilidade que garanta acesso a mercados exigentes. O número de 2025 indica que a janela está aberta. O custo para atravessá-la será medido em ferrovias, portos e sistemas de controle que vão muito além da porteira.










