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Braskem (BRKM5) diz que negociação com credores avança e busca acordo para reestruturar dívida

Nova administração afirma que solução deve ser consensual e de longo prazo; companhia terminou junho com US$ 9,4 bilhões em dívida líquida ajustada e mantém propostas de credores em análise.

por João Souza
14/08/2026 às 17h42
em Empresas
Braskem (Brkm5) Diz Que Negociação Com Credores Avança E Busca Acordo Para Reestruturar Dívida - Gazeta Mercantil - Empresas

A Braskem (BRKM5) afirmou nesta sexta-feira, 14, que as negociações com bancos e detentores de títulos de dívida avançam em direção a uma solução consensual para sua estrutura de capital. A avaliação foi apresentada pela nova administração durante a teleconferência dos resultados do segundo trimestre de 2026, em um momento no qual a petroquímica opera sob medidas de proteção relacionadas às tratativas financeiras e ainda não definiu os termos de uma eventual reestruturação.

“O processo está avançando bem. As conversas estão construtivas”, afirmou o diretor financeiro e de Relações com Investidores, Carlos Augusto Brandão. O executivo assumiu o cargo em junho, na reorganização da administração realizada após a mudança de controle da companhia. A direção colocou a preservação de liquidez e a reorganização financeira entre as prioridades do segundo semestre.

Leia também: Acordo Comercial entre EUA e Indonésia Reposiciona Estratégia Global de Trump.

Os documentos divulgados pela própria Braskem mostram, porém, que as conversas permanecem em uma etapa sem acordo formal. No release do 2T26, a empresa informou ter recebido de grupos de credores propostas indicativas e não vinculantes sobre condições e parâmetros para uma potencial reestruturação. Até a divulgação dos números, não havia definição sobre os termos de uma operação nem sobre medidas judiciais ou extrajudiciais adicionais.

A distinção é relevante porque o balanço mostra uma companhia que voltou a gerar caixa e lucro no trimestre, mas continua carregando um volume elevado de obrigações. Em 30 de junho, a dívida bruta corporativa, excluídas Braskem Idesa e TQPM, somava US$ 10,314 bilhões. A dívida líquida ajustada atingia US$ 9,427 bilhões, alta de 3% sobre março e 24% em 12 meses.

Leia também: Braskem busca esclarecimentos e Petrobras avança em processo de auditoria.

Resultado melhora, mas pressão financeira permanece

O segundo trimestre trouxe uma recuperação expressiva do desempenho operacional. A Braskem registrou receita líquida de R$ 21,715 bilhões, Ebitda recorrente de R$ 5,253 bilhões e lucro líquido atribuível aos acionistas de R$ 3,326 bilhões. No mesmo período de 2025, a companhia havia registrado Ebitda recorrente de R$ 427 milhões e prejuízo líquido de R$ 267 milhões.

A melhora foi impulsionada principalmente pela abertura dos spreads de produtos químicos e petroquímicos no mercado internacional. Segundo a empresa, o conflito no Oriente Médio restringiu a oferta de matérias-primas, elevou o preço do petróleo e da nafta e aumentou o custo do produtor marginal asiático. Esse movimento sustentou preços mais altos de resinas e químicos durante parte do trimestre.

A própria administração, contudo, indicou que parte desse efeito perdeu força antes do fechamento de junho. No fim do trimestre, os spreads internacionais de resinas haviam retornado aos níveis observados antes do início do conflito, diante da expectativa de redução de preços e de estoques globais próximos da média histórica. Isso reduz a possibilidade de simplesmente projetar para os próximos períodos a rentabilidade excepcional observada no 2T26.

O caixa também apresentou melhora relevante. A geração operacional foi de R$ 1,928 bilhão, ante consumo de R$ 3,172 bilhões no primeiro trimestre. A geração recorrente de caixa alcançou R$ 1,048 bilhão e, depois dos desembolsos relacionados ao evento geológico de Alagoas, a geração de caixa antes da dívida ficou positiva em R$ 807 milhões.

Dívida líquida ajustada chega a US$ 9,4 bilhões

A melhora operacional ainda convive com uma estrutura de capital pesada. A dívida bruta consolidada alcançou US$ 12,211 bilhões em junho. Ao excluir Braskem Idesa e TQPM e considerar derivativos e arrendamentos mercantis, a dívida bruta corporativa ficou em US$ 10,314 bilhões. Do total corporativo, 92% estavam denominados em moeda estrangeira.

Depois dos ajustes de caixa e aplicações financeiras, a dívida líquida somava US$ 9,298 bilhões. Com a inclusão do chamado Acordo Global, o indicador de dívida líquida ajustada chegou a US$ 9,427 bilhões. A relação entre dívida líquida ajustada e Ebitda recorrente dos últimos 12 meses encerrou o trimestre em 6,74 vezes, ante 18,18 vezes em março.

A queda da alavancagem trimestral decorreu sobretudo do salto do Ebitda acumulado, e não de redução da dívida líquida. O saldo ajustado aumentou US$ 247 milhões entre março e junho. Em relação ao segundo trimestre de 2025, a expansão foi de aproximadamente US$ 1,838 bilhão.

A companhia também apresenta uma medida mais ampla de exposição financeira. Ao somar a dívida líquida ajustada, US$ 1,133 bilhão em cartas de crédito e US$ 643 milhões relacionados ao evento geológico de Alagoas, as chamadas obrigações financeiras expandidas chegaram a US$ 11,203 bilhões em junho, 10% acima dos US$ 10,151 bilhões registrados um ano antes.

Proteção judicial abriu espaço para negociação

As tratativas com credores ganharam uma estrutura formal em junho. No dia 25, a Braskem e determinadas controladas iniciaram mediação perante a Câmara Wind de Mediação e protocolaram pedido de tutela de urgência cautelar na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca da Capital de São Paulo.

A Justiça determinou a suspensão, por 60 dias, de execuções e constrições promovidas pelos credores convidados a participar da mediação. No dia seguinte, entidades envolvidas no processo brasileiro também recorreram ao Chapter 15 nos Estados Unidos, buscando o reconhecimento da proteção cautelar naquele país. A corte norte-americana concedeu, inicialmente, um automatic stay pelo mesmo período.

Segundo a Braskem, essas medidas têm alcance exclusivamente financeiro e não abrangem obrigações ordinárias com fornecedores, clientes e outros públicos. A administração afirmou que a operação regular da companhia continuou sendo conduzida normalmente, enquanto as negociações financeiras prosseguiram dentro do período de proteção.

A companhia reconheceu, entretanto, que a pressão sobre a liquidez já produziu efeitos concretos. Durante o segundo trimestre, R$ 929 milhões em obrigações comerciais garantidas por cartas de crédito foram liquidados por instituições financeiras emissoras, gerando obrigações de reembolso posteriormente reclassificadas para empréstimos e financiamentos. Em julho, outros aproximadamente R$ 703 milhões em cartas de crédito venceram e receberam tratamento semelhante.

Braskem reconheceu default em determinados instrumentos

A situação financeira avançou para uma nova etapa após o encerramento dos períodos de cura de algumas obrigações. No release do 2T26, a Braskem informou que, em julho, estava em default sob determinados instrumentos financeiros devido ao não pagamento de obrigações cujos desembolsos haviam sido suspensos.

A empresa esclareceu que a tutela cautelar e o Chapter 15 mantêm suspensos os pagamentos relacionados às obrigações sujeitas à mediação, assim como eventuais execuções e constrições dos credores participantes do processo. A companhia também informou que, a partir de julho, saldos dessas obrigações em default passariam a ser classificados no passivo circulante, porque não existia direito incondicional de diferir sua liquidação por prazo superior a 12 meses.

Esse quadro ajuda a explicar por que a administração trata a reorganização da estrutura de capital como uma questão estrutural e não apenas conjuntural. O presidente da Braskem, Hélcio Tokeshi, afirmou na teleconferência que “não faz sentido pensar com prazo curto demais” em uma indústria como a petroquímica, ao defender uma transformação capaz de elevar eficiência e flexibilidade.

A orientação aparece também nos documentos corporativos. Entre os pilares definidos para o segundo semestre, a empresa colocou a otimização da estrutura de capital, incluindo a Braskem Idesa, com foco em estabilidade financeira, continuidade do negócio, preservação de liquidez, geração de caixa e disciplina na alocação de capital.

Mudança de controle redesenhou administração

As negociações são conduzidas por uma administração que tomou posse após uma mudança relevante na estrutura acionária. Em 3 de junho, a Braskem informou a consumação da transferência de ações anteriormente detidas pela NSP Investimentos, ligada à Novonor, para o Shine I Fundo de Investimento em Participações.

O fundo adquiriu aproximadamente 50,11% do capital votante e 34,32% do capital social total da Braskem. O veículo é gerido pela Vórtx e foi apresentado nos documentos da operação como assessorado pela IG4. Com o fechamento, entrou em vigor um novo acordo de acionistas entre o Shine I FIP e a Petrobras.

Poucos dias depois, em 8 de junho, uma assembleia reformulou a governança da companhia. Hélcio Tokeshi foi eleito diretor-presidente e Carlos Brandão passou a exercer as funções de diretor financeiro e de Relações com Investidores. A alteração colocou executivos da nova fase societária diretamente no comando da discussão sobre capital, liquidez e transformação operacional.

Brandão afirmou na teleconferência que a negociação com os credores pretende produzir uma solução capaz de sustentar a companhia no longo prazo. Apesar do tom positivo da administração, o documento oficial divulgado com o balanço mantém uma ressalva central: as propostas recebidas continuam em análise e não existe, até o momento, definição sobre a configuração final da reestruturação.

Companhia ainda não definiu medida extrajudicial

A ausência de uma decisão formal também limita conclusões sobre qual instrumento será utilizado. O release de resultados afirma expressamente que não há definição sobre eventuais medidas adicionais, judiciais ou extrajudiciais. Dessa forma, qualquer modalidade específica de reorganização financeira permanece, neste estágio, como possibilidade e não como decisão anunciada pela companhia.

A prioridade imediata é usar o ambiente de mediação para chegar a uma solução consensual com os credores financeiros. O fato relevante que iniciou o processo em junho estabelece como objetivo preservar um ambiente estável para as negociações e buscar uma reorganização estruturante e ordenada, alinhada à posição de liquidez da Braskem e às condições da indústria petroquímica.

A melhora do Ebitda e a volta da geração de caixa no segundo trimestre oferecem maior capacidade operacional para a negociação, mas não eliminam o desequilíbrio do balanço. A dívida líquida ajustada continuou crescendo, obrigações comerciais foram convertidas em passivos financeiros e determinados instrumentos entraram em default em julho.

O desfecho dependerá dos termos que forem aceitos pela companhia e por seus credores durante a negociação. Até que um acordo seja formalizado, o ponto objetivo permanece o informado pela própria Braskem: as tratativas continuam, as propostas ainda são indicativas e não vinculantes e a administração busca uma solução consensual capaz de estabilizar sua estrutura de capital sem interromper as operações regulares.

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