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China amplia aposta em inteligência artificial para disputar liderança tecnológica global

Estratégia combina modelos abertos, infraestrutura digital, formação de talentos e definição de padrões para ampliar a presença chinesa no setor.

por Bianca Neri
03/09/2026 às 14h39
em Tecnologia
China Amplia Aposta Em Inteligência Artificial Para Disputar Liderança Tecnológica Global-Gazeta Mercantil

A China está consolidando a inteligência artificial como uma nova frente de sua política industrial, combinando investimentos em infraestrutura digital, modelos abertos, formação de talentos e participação na definição de regras e padrões internacionais. O movimento ganhou força em 2026 com o lançamento de novas plataformas chinesas de IA e com uma estratégia governamental que procura levar a tecnologia para setores produtivos e mercados estrangeiros.

O avanço ocorre em um momento em que a economia chinesa mantém crescimento moderado, mas apresenta desempenho significativamente superior nos segmentos ligados à tecnologia da informação. No primeiro semestre de 2026, o Produto Interno Bruto (PIB) da China avançou 4,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Dentro desse resultado, os serviços de transmissão de informação, software e tecnologia da informação cresceram 10,7%, mais que o dobro do ritmo do conjunto da economia.

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A diferença ajuda a dimensionar a mudança de composição do crescimento chinês. O setor de manufatura avançou 5,5% no primeiro semestre, enquanto a construção recuou 4%. A propriedade imobiliária também registrou retração de 0,2%. Com isso, atividades digitais passaram a apresentar um desempenho cada vez mais distante de setores que durante décadas foram centrais para a expansão do país.

O próprio tamanho do setor de informação chama atenção. Segundo os dados oficiais chineses, os serviços de transmissão de informação, software e tecnologia da informação movimentaram 4,13 trilhões de yuans no primeiro semestre, o equivalente a aproximadamente 5,9% do PIB registrado no período. O peso ainda é menor que o da indústria manufatureira, mas a taxa de crescimento indica que a transformação digital já funciona como um dos principais vetores de expansão.

Leia também: China à beira da deflação é mais um sinal de fraqueza econômica.

Kimi K3 leva a estratégia para o mercado global

Um dos sinais mais visíveis dessa disputa apareceu em julho, quando a Moonshot AI lançou o Kimi K3. O modelo foi apresentado pela companhia como um sistema aberto de grande escala, com 2,8 trilhões de parâmetros, janela de contexto de até 1 milhão de tokens e arquitetura baseada em técnicas de Mixture of Experts.

A dimensão técnica é relevante porque o modelo foi desenhado para reduzir a quantidade de especialistas computacionais efetivamente acionados em cada tarefa. Segundo a própria Moonshot, 16 dos 896 especialistas podem ser ativados em determinadas configurações. A empresa também afirma que as mudanças arquitetônicas elevaram em cerca de 2,5 vezes a eficiência de escala em relação ao Kimi K2.

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O lançamento mostrou, ao mesmo tempo, a força e a limitação da nova geração de empresas chinesas de IA. A procura pelo Kimi K3 foi tão elevada que a Moonshot suspendeu temporariamente novas assinaturas poucos dias depois da estreia, alegando pressão sobre sua capacidade computacional.

O episódio tem importância econômica além do sucesso de um produto. Modelos abertos permitem que empresas e desenvolvedores utilizem os pesos do sistema em suas próprias infraestruturas, façam adaptações e construam aplicações sem depender exclusivamente de uma plataforma proprietária. O Kimi K3 passou a disponibilizar seus pesos completos e o código associado à arquitetura sob uma licença própria, ampliando a possibilidade de uso fora do ambiente original da companhia.

Esse modelo de distribuição altera a competição. Em vez de depender apenas de receitas obtidas diretamente com assinaturas, uma empresa pode buscar escala pela adoção de sua tecnologia, pela formação de uma comunidade de desenvolvedores e pela ocupação de mercados em que o preço de acesso é uma barreira relevante.

A estratégia chinesa não está restrita à Moonshot. A DeepSeek, outra empresa do país, colocou em operação em 2026 sua família V4, incluindo versões voltadas a aplicações de agentes de IA, programação e processamento de grandes volumes de informação. O movimento amplia o número de empresas chinesas capazes de disputar espaço no desenvolvimento de modelos avançados.

Governo amplia política de dados, computação e padrões

A competição empresarial ocorre em paralelo a uma estratégia oficial mais ampla. Em julho, durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial realizada em Xangai, órgãos do governo chinês divulgaram um plano de ação para cooperação e desenvolvimento internacional em IA.

O documento estabelece oito áreas de atuação, entre elas dados, capacidade computacional, ecossistemas tecnológicos, aplicação industrial, formação de talentos, regras e padrões, governança e ética. A orientação mostra que Pequim não trata a IA apenas como um segmento de tecnologia, mas como infraestrutura econômica transversal.

A política prevê maior acesso a dados de alta qualidade, expansão dos serviços de computação inteligente, compartilhamento de ecossistemas de código aberto e aumento da aplicação da IA em diferentes setores. Também busca estimular a coordenação internacional em regras, padrões, segurança e governança.

Esse último ponto é particularmente estratégico. A disputa por inteligência artificial não envolve apenas quais empresas produzirão os modelos mais eficientes. Também está relacionada a quem definirá os padrões técnicos, os protocolos de segurança, os formatos de interoperabilidade e as condições de acesso à infraestrutura.

A China já avança nessa frente. Um padrão nacional relacionado a plataformas de modelos abertos de inteligência artificial foi publicado em 2026, com participação de instituições acadêmicas e empresas de tecnologia. O movimento reforça a tentativa de transformar experiências domésticas em referências para um mercado mais amplo.

IA ganha espaço enquanto consumo e imóveis avançam menos

A aceleração tecnológica ocorre em uma economia que ainda enfrenta problemas estruturais. No primeiro semestre, as vendas no varejo de bens de consumo cresceram apenas 1,3% na comparação anual. Excluindo automóveis, a expansão foi maior, de 2,8%.

A diferença entre o desempenho da economia digital e o consumo tradicional é expressiva. As vendas online de bens e serviços aumentaram 5,2% no período, 3,9 pontos percentuais acima do crescimento do varejo de bens de consumo em geral.

Os números indicam que a digitalização está avançando mais rapidamente do que a demanda doméstica convencional. Ao mesmo tempo, a construção caiu 4% no semestre e o setor imobiliário recuou 0,2%, mostrando que a mudança de motores do crescimento ainda acontece em meio aos efeitos prolongados do ajuste imobiliário.

Isso ajuda a explicar por que a política industrial continua sendo central para Pequim. A estratégia busca criar novas fontes de produtividade e demanda por investimentos, ao mesmo tempo em que direciona capital para setores considerados capazes de ampliar a competitividade internacional.

A experiência acumulada em veículos elétricos, baterias, equipamentos de energia renovável, robótica e manufatura avançada fornece uma base industrial para a expansão da IA. Em 2025, por exemplo, a produção chinesa de veículos de nova energia cresceu 25,1% e a fabricação de robôs industriais aumentou 28% no acumulado do ano, segundo os dados oficiais.

O ponto de convergência entre essas áreas é a crescente utilização de software, sensores, automação e sistemas de decisão baseados em dados. Na prática, a IA pode funcionar não apenas como uma indústria própria, mas como uma camada adicional sobre a base industrial já construída pela China.

A disputa muda o cálculo dos investidores

O avanço dos modelos chineses também começa a influenciar a lógica financeira do setor de tecnologia. A tese dominante nos mercados internacionais foi construída em torno de investimentos elevados em chips, data centers, software e capacidade computacional, sob a expectativa de que a liderança tecnológica das empresas americanas garantiria retornos correspondentes.

A emergência de modelos chineses de código aberto ou de baixo custo introduz uma variável diferente: a possibilidade de que a competição derrube o custo marginal de determinadas aplicações mais rapidamente do que o previsto.

Isso não significa, por si só, que exista uma bolha de inteligência artificial ou que os investimentos americanos estejam superdimensionados. O efeito econômico é mais específico: quanto menor o custo de acesso aos modelos e quanto maior a concorrência entre fornecedores, maior tende a ser a pressão para que as empresas de tecnologia transformem infraestrutura em receitas efetivas.

O mercado já começou a discutir essa questão. A valorização de grandes empresas de tecnologia passou a ser analisada também sob a perspectiva do retorno necessário para justificar investimentos crescentes em IA, chips e data centers. Nesse ambiente, ganhos de eficiência proporcionados por modelos concorrentes podem ser positivos para consumidores e empresas usuárias, mas pressionar algumas margens de fornecedores.

A disputa também se conecta à infraestrutura. Modelos avançados exigem chips, energia, redes e centros de processamento. A capacidade de produzir ou controlar esses componentes torna-se uma vantagem econômica tão importante quanto o próprio software.

China busca transformar tecnologia em influência econômica

A estratégia chinesa é mais ampla que o lançamento de produtos individuais. O objetivo declarado pelo governo inclui disseminar aplicações de IA, ampliar ecossistemas abertos, estimular cooperação internacional e participar da formulação de padrões.

A combinação cria uma possibilidade de internacionalização diferente daquela baseada exclusivamente na exportação de bens. Em vez de vender apenas equipamentos ou produtos acabados, empresas chinesas podem exportar modelos, infraestrutura, serviços de computação e ferramentas de automação.

O movimento também cria uma disputa por padrões tecnológicos. Quem fornece uma plataforma amplamente adotada ganha influência sobre interfaces, formatos de dados, práticas de segurança e integração entre sistemas. Por isso, a abertura dos modelos pode ser entendida também como instrumento de expansão de mercado.

Ainda existem obstáculos. Restrições sobre tecnologia avançada, acesso a semicondutores e capacidade computacional continuam relevantes na competição com os Estados Unidos. Além disso, modelos abertos precisam demonstrar desempenho consistente, segurança e sustentabilidade econômica para conquistar usuários corporativos em larga escala.

A China, portanto, não eliminou as barreiras existentes na corrida pela IA. O que mudou é a natureza da disputa. O país deixou de competir apenas para produzir aplicações próprias e passou a construir simultaneamente modelos, infraestrutura, ecossistemas e normas.

Se a estratégia conseguir converter essa base tecnológica em ganhos de produtividade e presença internacional, a inteligência artificial poderá representar uma nova etapa da transformação econômica chinesa. O resultado mais importante não será necessariamente qual empresa terá o modelo mais poderoso, mas qual país conseguirá integrar melhor tecnologia, indústria, capital e política pública em uma cadeia econômica capaz de operar em escala global.

Fontes:

Moonshot AI – documentação técnica, lançamento e especificações do modelo Kimi K3

Kimi AI – informações sobre disponibilidade, pesos completos, arquitetura e aplicações do Kimi K3

Governo da China – plano de ação de 2026 para cooperação e desenvolvimento internacional em inteligência artificial

National Bureau of Statistics of China – PIB e composição setorial da economia chinesa no primeiro semestre de 2026

National Bureau of Statistics of China – vendas no varejo e indicadores de consumo do primeiro semestre de 2026

National Bureau of Statistics of China – produção industrial, veículos de nova energia e robôs industriais

DeepSeek – documentação oficial e lançamento da família de modelos DeepSeek-V4

Reuters – cobertura da expansão internacional dos modelos chineses de inteligência artificial e dos impactos sobre o setor de tecnologia

MarketWatch – análises sobre investimentos, avaliações e riscos financeiros associados à expansão da inteligência artificial

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