O estoque de crédito do Sistema Financeiro Nacional alcançou R$ 7,3 trilhões em maio de 2026, após crescer 0,6% em relação a abril, informou o Banco Central nesta quarta-feira, 1º de julho. As novas concessões de empréstimos avançaram 0,2% no mês, mas os dados revelam um cenário de forte contraste: enquanto o crédito direcionado cresceu 13,3%, as operações livremente negociadas caíram 1,1%, tiveram juros de 49,5% ao ano e registraram aumento da inadimplência.
A taxa de atrasos superiores a 90 dias no crédito livre passou de 6,1% em abril para 6,2% em maio, maior nível desde o início da série histórica do Banco Central, em março de 2011. O avanço indica deterioração da capacidade de pagamento de famílias e empresas em modalidades nas quais os bancos definem livremente juros, prazos e garantias.
Os números mostram que o volume total de crédito continua crescendo, mas com composição menos favorável. A expansão das concessões foi sustentada por operações submetidas a regras governamentais, enquanto os financiamentos de mercado perderam força pelo segundo mês consecutivo.
Em abril, as concessões de crédito livre já haviam recuado 5,9% em relação a março. A nova queda de 1,1% em maio reforça os sinais de moderação diante do custo elevado dos empréstimos, do maior comprometimento financeiro dos tomadores e da cautela das instituições na aprovação de novos contratos.
Crédito direcionado sustenta resultado de maio
As concessões totais cresceram 0,2% em maio, já descontadas as variações sazonais. O resultado positivo ocorreu principalmente por causa da alta de 13,3% nas operações com recursos direcionados.
O crédito direcionado reúne financiamentos submetidos a regras específicas, fontes vinculadas de recursos ou políticas públicas. O grupo inclui, entre outras modalidades, parte do crédito imobiliário, rural, habitacional e das linhas operadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
Nesse segmento, a taxa média de juros recuou 0,3 ponto percentual em maio e ficou em 12,2% ao ano. O custo permanece muito inferior ao observado nos empréstimos livremente negociados.
A expansão mensal pode refletir a liberação concentrada de determinadas linhas, fatores sazonais e o calendário de programas governamentais. Por isso, o avanço de 13,3% não significa necessariamente que todas as modalidades direcionadas cresceram na mesma proporção.
O estoque total, por sua vez, representa o valor que continua devido pelos tomadores às instituições financeiras. Esse saldo pode aumentar mesmo quando novas concessões desaceleram, devido à incorporação de juros, aos prazos mais longos dos contratos e ao ritmo de amortização das dívidas.
Crédito livre recua e juros chegam a 49,5%
As concessões com recursos livres diminuíram 1,1% em maio. Nessas operações, as condições são definidas diretamente pelas instituições financeiras e pelos clientes, sem enquadramento obrigatório em programas públicos.
O segmento inclui cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal, financiamento de veículos, capital de giro e outras modalidades destinadas a pessoas físicas e empresas.
Ao mesmo tempo que as novas contratações recuaram, a taxa média de juros aumentou de 49,4% para 49,5% ao ano.
Esse percentual representa uma média entre diferentes produtos e perfis de risco. Empréstimos com garantia ou desconto automático em folha tendem a ter taxas menores. Modalidades sem garantia, como o cartão rotativo e determinadas linhas de crédito pessoal, podem apresentar custos significativamente superiores.
A taxa média anual também não corresponde necessariamente ao Custo Efetivo Total pago pelo cliente. Além dos juros, o contrato pode incluir tarifas, tributos, seguros e outros encargos.
Para famílias, juros próximos de 50% ao ano tornam mais difícil financiar compras, reorganizar dívidas ou absorver despesas inesperadas. Para empresas, o custo elevado reduz a atratividade de investimentos e encarece o capital de giro utilizado para pagar fornecedores, formar estoques e manter as operações.
Inadimplência atinge maior nível da série
A inadimplência no crédito livre subiu para 6,2% em maio, ante 6,1% no mês anterior. Segundo os dados divulgados pelo Banco Central, esse é o maior nível registrado desde março de 2011, quando começou a série atual.
O indicador considera operações com parcelas vencidas há mais de 90 dias. Dessa forma, ele não representa atrasos pontuais, mas dívidas que já permanecem sem pagamento por um período prolongado.
A alta da inadimplência cria um ciclo de maior restrição. Quando os bancos identificam elevação do risco e aumento das perdas esperadas, podem reduzir limites, exigir garantias adicionais e cobrar taxas mais altas nas novas operações.
Esse processo também afeta clientes que mantêm os pagamentos em dia, pois parte do risco médio das carteiras é incorporada aos preços dos financiamentos.
O aumento ocorreu mesmo após o lançamento do Novo Desenrola, programa federal de renegociação de dívidas destinado a famílias, micro e pequenas empresas e agricultores familiares. O impacto da iniciativa, entretanto, pode levar mais tempo para aparecer nas estatísticas de atrasos superiores a 90 dias.
Spread bancário permanece em 35,8 pontos percentuais
O spread bancário médio das operações com recursos livres permaneceu estável em 35,8 pontos percentuais em maio.
O spread corresponde à diferença entre o custo de captação do banco e a taxa final cobrada do cliente. O indicador incorpora não apenas a margem de lucro da instituição, mas também despesas administrativas, tributos, custos regulatórios, risco de inadimplência e perdas esperadas.
A estabilidade em nível elevado indica que o custo final do crédito continua muito superior à despesa enfrentada pelos bancos para captar recursos.
Com a inadimplência em alta, existe menor espaço para uma redução rápida do spread. As instituições tendem a incorporar aos contratos a expectativa de que uma parcela maior das operações poderá não ser paga.
A concorrência de bancos digitais, fintechs e cooperativas pode reduzir taxas em determinados produtos. O efeito, contudo, varia conforme o perfil do cliente, a modalidade e a existência de garantias.
Dados mostram crédito dividido em duas velocidades
Os resultados de maio mostram dois movimentos distintos dentro do sistema financeiro.
De um lado, o crédito direcionado apresentou expansão de 13,3% e redução da taxa média para 12,2% ao ano. De outro, as concessões livres recuaram 1,1%, enquanto os juros subiram para 49,5% e a inadimplência atingiu o maior nível da série histórica.
A diferença entre os segmentos ajuda a explicar por que o estoque total avançou mesmo diante da fraqueza das operações de mercado.
Linhas direcionadas possuem finalidades específicas e não estão disponíveis para qualquer necessidade. Um financiamento habitacional, rural ou empresarial subsidiado exige enquadramento em critérios próprios.
O crédito livre é mais acessível para despesas cotidianas e diferentes finalidades, mas costuma apresentar custo maior e refletir mais rapidamente as condições da política monetária, o risco dos clientes e o nível de inadimplência.
Consumidor deve observar custo total antes de contratar
O cenário exige atenção de consumidores que pretendem contratar empréstimos ou refinanciar dívidas.
A comparação deve considerar o Custo Efetivo Total, e não apenas a taxa de juros anunciada. O CET reúne todos os valores cobrados e permite avaliar quanto o cliente efetivamente pagará durante o contrato.
Prazos mais longos podem diminuir a parcela mensal, mas normalmente elevam o custo final. Em um ambiente de juros elevados, pequenas diferenças entre taxas produzem grande impacto no total pago.
Modalidades com garantia, como empréstimos vinculados a imóveis ou veículos, podem ter custo inferior, mas colocam o bem em risco caso as prestações não sejam quitadas.
A renegociação pode ser vantajosa quando substitui uma dívida cara por outra com taxa menor. Ela não resolve o problema, porém, se o novo contrato apenas alongar o prazo sem adequar a prestação à renda disponível.
Empresas enfrentam crédito caro para capital de giro
Para as empresas, a retração das concessões livres pode indicar menor procura por empréstimos, critérios bancários mais rigorosos ou uma combinação dos dois fatores.
Pequenas e médias companhias costumam sentir de forma mais intensa os efeitos dos juros altos porque possuem menos garantias, menor acesso ao mercado de capitais e maior dependência de linhas bancárias.
O capital de giro é usado para financiar estoques, antecipar pagamentos e cobrir a diferença entre despesas e receitas. Quando o custo do crédito se aproxima de 50% ao ano, o retorno da atividade precisa ser suficientemente alto para compensar os encargos.
Empresas com margens reduzidas podem adiar investimentos, diminuir contratações ou repassar parte do custo financeiro aos preços.
As linhas direcionadas representam uma alternativa para negócios enquadrados em programas específicos, mas não substituem integralmente as operações livres necessárias ao funcionamento cotidiano.
Próximos dados mostrarão se deterioração continuará
A evolução do mercado de crédito nos próximos meses dependerá da trajetória dos juros, do emprego, da renda, da inflação e do crescimento da economia.
Uma melhora da renda e do mercado de trabalho pode reduzir atrasos e fortalecer a capacidade de pagamento. Em sentido contrário, a manutenção de taxas elevadas por um período prolongado tende a pressionar tomadores já endividados.
O Banco Central também acompanha o comportamento dos ativos problemáticos, categoria mais ampla que inclui contratos inadimplentes e operações com sinais de que poderão gerar perdas para as instituições.
Os resultados de maio não indicam paralisação do crédito, mas revelam deterioração nas modalidades mais utilizadas por famílias e empresas. O estoque alcançou R$ 7,3 trilhões, porém o avanço ocorreu ao lado de juros próximos de 50% e de inadimplência recorde no segmento livre.
Fontes e documentos
- Estatísticas monetárias e de crédito — maio de 2026 — Banco Central do Brasil — 1º de julho de 2026 — https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticasmonetariascredito
- Sistema Gerenciador de Séries Temporais — Banco Central do Brasil — consulta realizada em 1º de julho de 2026 — https://www3.bcb.gov.br/sgspub/











