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CVM destrava compra da Brava (BRAV3) pela Ecopetrol; OPA de R$ 23 será remarcada

Colegiado derruba suspensão da oferta, mas Ecopetrol ainda terá de atualizar o edital e marcar novo leilão na B3.

por João Souza
16/07/2026 às 17h13
em Empresas
Brava Energia (Brav3) - Gazeta Mercantil

A Comissão de Valores Mobiliários destravou a oferta pública de aquisição de ações que permitirá à Ecopetrol buscar o controle da Brava Energia (BRAV3). Em reunião realizada na terça-feira (14), o Colegiado da autarquia acolheu o recurso apresentado no âmbito da operação e tornou sem efeito a suspensão imposta em junho. A decisão foi comunicada à companhia na quarta-feira (15) e exige que a ofertante publique um aditamento ao edital antes de marcar uma nova data para o leilão na B3.

A decisão recoloca em andamento uma transação que pode transferir 51% do capital da Brava Energia (BRAV3) para o grupo colombiano. A estrutura combina a compra direta de aproximadamente 26% das ações pertencentes a um grupo de acionistas relevantes e uma OPA parcial, aberta aos demais investidores, pelo número de papéis necessário para completar a participação de controle.

Na oferta destinada ao mercado, a Ecopetrol propôs pagar R$ 23 por ação da Brava Energia (BRAV3). A OPA poderá alcançar aproximadamente 25% do capital da petroleira, correspondente a cerca de 116,1 milhões de ações, e movimentar até R$ 2,67 bilhões caso seja integralmente preenchida.

O negócio não será retomado imediatamente. A CVM determinou que a Ecopetrol apresente um aditamento ao instrumento da oferta com as exigências remanescentes formuladas pela área técnica. A nova versão também deverá informar a data do leilão e observar os prazos previstos na regulamentação do mercado de capitais.

Recurso derruba suspensão imposta em junho

A OPA da Brava havia sido suspensa em 16 de junho pela Superintendência de Registro de Valores Mobiliários da CVM. A área técnica apontou irregularidades consideradas sanáveis na documentação e afirmou que os ajustes exigidos não haviam sido realizados até o prazo estabelecido, encerrado no dia anterior.

A suspensão poderia durar até 30 dias. Durante esse período, a ofertante tinha duas alternativas: adequar os documentos ao entendimento técnico ou recorrer ao Colegiado da CVM. A Ecopetrol escolheu contestar a decisão.

O leilão havia sido inicialmente marcado para 25 de junho, mas foi retirado do calendário da B3. A CVM advertiu, naquele momento, que a oferta poderia ser cancelada caso as irregularidades não fossem corrigidas ou o recurso não fosse apresentado dentro do prazo.

O Colegiado decidiu dar provimento à contestação da Ecopetrol. A Brava Energia (BRAV3) não informou, no fato relevante, os fundamentos detalhados da deliberação. O comunicado registra apenas que a suspensão perdeu efeito e que a ofertante ainda terá de cumprir exigências remanescentes antes da retomada.

A decisão, portanto, não equivale à conclusão da operação nem elimina todas as etapas regulatórias. Ela permite que a OPA da Brava prossiga, mas condiciona o novo leilão à atualização dos documentos e ao cumprimento dos procedimentos determinados pela CVM.

Preços diferentes estavam no centro da disputa

A discussão regulatória começou com a estrutura escolhida pela Ecopetrol para chegar a 51% da Brava Energia (BRAV3).

Em 23 de abril, a companhia colombiana assinou um contrato de compra e venda de ações com Jive, Yellowstone e Bloco Somah Printemps Quantum. Juntos, os vendedores detêm 120.813.490 ações ordinárias, equivalentes a aproximadamente 26% do capital da Brava.

Segundo o ofício que fundamentou a suspensão, as ações incluídas nesse contrato privado, conhecido como SPA, foram avaliadas em R$ 24 cada. Os demais acionistas receberam, pela OPA da Brava, uma proposta de R$ 23 por ação.

A diferença nominal é de R$ 1 por papel, ou 4,35% em relação ao preço oferecido aos minoritários. Além do valor mais alto, os vendedores que assinaram o SPA terão a alienação integral de suas participações assegurada caso as condições da transação sejam cumpridas.

Os investidores que aderirem à OPA da Brava não contam com a mesma garantia. Como a oferta será limitada ao número de ações necessário para completar os 51% de participação, haverá rateio se a quantidade de papéis apresentada no leilão superar o limite.

Na avaliação inicial da Superintendência de Registro de Valores Mobiliários, o SPA e a OPA não poderiam ser analisados como negócios completamente independentes. A área técnica entendeu que os dois instrumentos eram partes interdependentes de uma única operação destinada à aquisição do controle.

A consumação do contrato privado depende do sucesso da oferta, enquanto a Ecopetrol precisa das ações vinculadas ao SPA para alcançar os 51%. Para a área técnica, essa relação tornava relevante a comparação entre o tratamento dado aos vendedores do bloco de 26% e aos demais acionistas.

Área técnica apontou tratamento econômico desigual

O ofício da CVM que suspendeu a OPA da Brava afirmou que acionistas titulares de papéis da mesma espécie e classe receberam condições econômicas diferentes dentro de uma operação organizada para atingir um objetivo comum: a transferência do controle.

A regulamentação exige que uma oferta pública seja realizada de maneira equitativa, com preço uniforme, ressalvadas as situações expressamente admitidas. Nas ofertas parciais, o rateio deve ser aplicado entre os investidores que aceitarem vender suas ações quando a adesão superar o volume pretendido pelo comprador.

A área técnica questionou o fato de os acionistas vinculados ao SPA receberem R$ 24 e venderem a totalidade das ações, enquanto os demais receberiam R$ 23 e poderiam ter apenas uma parcela dos papéis adquirida.

Outro ponto levantado foi a comprovação da propriedade das ações necessárias para a aquisição do controle. Como o fechamento do SPA está previsto para ocorrer depois do leilão e depende do sucesso da oferta, a Ecopetrol ainda não possui os papéis do bloco de 26%.

A Superintendência sustentou que uma expectativa contratual de aquisição futura não equivaleria, para os fins da oferta, à propriedade efetiva das ações. O entendimento buscava assegurar que a ofertante tivesse capacidade objetiva de assumir o controle caso a OPA fosse bem-sucedida.

O Colegiado acolheu o recurso apresentado contra essa interpretação, mas o fato relevante divulgado pela Brava Energia (BRAV3) não esclarece quais fundamentos foram aceitos nem quais exigências técnicas permanecem pendentes.

Essa definição deverá aparecer no aditamento ou na publicação integral da decisão. Até lá, não é possível afirmar que todos os questionamentos sobre preço, rateio e interdependência foram afastados.

Ecopetrol investirá mais de R$ 5,5 bilhões no controle

A aquisição das 120,8 milhões de ações previstas no SPA, pelo valor de R$ 24 por papel, representa um desembolso aproximado de R$ 2,9 bilhões.

Somada à OPA da Brava, que poderá movimentar cerca de R$ 2,67 bilhões, a transação pode superar R$ 5,5 bilhões. O valor final dependerá do número exato de ações necessário para que a Ecopetrol atinja 51% do capital.

A companhia colombiana informou que pretende financiar o negócio por meio de um empréstimo-ponte. A aquisição também está sujeita a condições precedentes, incluindo aprovações regulatórias, anuências relacionadas a instrumentos de dívida e contratos comerciais da Brava e a compra da quantidade mínima de ações necessária para formar o bloco de controle.

A OPA não tem como objetivo adquirir todas as ações em circulação nem fechar o capital da Brava Energia (BRAV3). A petroleira continuará listada na B3, e os acionistas que não venderem seus papéis permanecerão sócios de uma companhia controlada pela Ecopetrol caso a operação seja concluída.

Para os minoritários, a distinção é importante. A oferta cria uma possibilidade de venda a R$ 23, mas não assegura a aquisição integral das ações apresentadas no leilão. Quanto maior for a adesão, menor poderá ser a proporção efetivamente comprada de cada investidor.

Preço de R$ 23 vira referência para BRAV3

A retomada da OPA da Brava tende a manter o preço de R$ 23 como uma referência para as ações BRAV3 enquanto a operação estiver em andamento.

Isso não significa que os papéis necessariamente serão negociados próximos desse valor. A cotação incorpora a probabilidade de conclusão do negócio, o risco de rateio, o prazo até o pagamento e as perspectivas operacionais da própria Brava Energia.

Uma ação abaixo de R$ 23 pode refletir incertezas sobre o fechamento ou o fato de que o investidor talvez não consiga vender todos os papéis na OPA. Uma cotação acima desse patamar indicaria que o mercado atribui à companhia um valor superior à proposta ou espera mudanças nas condições da transação.

A diferença entre os R$ 24 previstos para o bloco de acionistas relevantes e os R$ 23 oferecidos aos demais investidores também continuará no centro das análises. Embora o recurso tenha sido acolhido, o aditamento deverá mostrar se a estrutura econômica será mantida integralmente.

O acionista que permanecer na empresa ficará exposto à estratégia da Ecopetrol, aos resultados dos campos de petróleo e gás, aos investimentos necessários para ampliar a produção e às decisões de alocação de capital do novo controlador.

Também haverá repercussões na governança. A obtenção de 51% permitirá à Ecopetrol eleger a maioria do conselho de administração e influenciar diretamente a direção estratégica, o orçamento, os investimentos, o financiamento e a política de distribuição de resultados da companhia.

Brava amplia presença da Ecopetrol no Brasil

A Brava Energia (BRAV3) foi constituída em 2024 a partir da combinação dos negócios da 3R Petroleum e da Enauta. A empresa reúne ativos de produção de petróleo e gás em terra e no mar, além de operações de processamento, refino, armazenamento e comercialização.

Em 2025, a companhia registrou produção média de aproximadamente 81 mil barris de óleo equivalente por dia. O Ebitda ajustado alcançou US$ 806 milhões, com margem de 39%, segundo os dados utilizados pela Ecopetrol na apresentação da operação.

O portfólio inclui ativos offshore e onshore em diferentes bacias brasileiras. Ao assumir o controle, a Ecopetrol incorporará uma participação proporcional nas reservas e na produção da Brava, ampliando sua exposição ao mercado brasileiro de exploração e produção.

A companhia colombiana afirmou que a aquisição está alinhada à estratégia de longo prazo do grupo e deverá fortalecer sua geração de caixa e sua presença internacional. A Ecopetrol já possui operações de exploração no Brasil e controla a ISA, grupo que atua na transmissão de energia elétrica por meio da ISA Energia Brasil (ISAE4).

A compra da Brava, no entanto, representa um movimento de escala diferente no segmento de petróleo e gás. A operação acrescentará uma plataforma integrada, com ativos em produção e projetos de desenvolvimento, sem exigir a construção de uma operação brasileira a partir do zero.

Para a Brava Energia (BRAV3), a entrada de um controlador de maior porte pode ampliar o acesso a capital, conhecimento técnico e oportunidades de desenvolvimento. Os efeitos concretos dependerão das prioridades que serão estabelecidas após a conclusão da transação.

Novo edital definirá rateio e calendário da troca de controle

O próximo documento da Ecopetrol será decisivo para esclarecer como a OPA da Brava seguirá depois da vitória no Colegiado da CVM.

O aditamento deverá incorporar as exigências remanescentes da área técnica, atualizar o calendário e definir uma nova data para o leilão. A Ecopetrol também terá de informar se haverá alguma alteração nas condições oferecidas aos acionistas.

Até a publicação, permanecem em aberto o prazo de adesão, a data de liquidação e os eventuais ajustes nos mecanismos de rateio. A Brava Energia (BRAV3) afirmou que manterá o mercado informado sobre os novos desdobramentos.

A decisão da CVM removeu o principal obstáculo regulatório que ameaçava cancelar a oferta, mas não entregou o controle imediatamente à Ecopetrol. A transação ainda depende do novo edital, das condições precedentes e da adesão de acionistas em quantidade suficiente para completar os 51%.

O leilão remarcado mostrará quantos investidores estão dispostos a vender BRAV3 por R$ 23 e qual parcela de cada ordem será atendida. Será nesse momento que a retomada regulatória se transformará, ou não, na maior mudança de controle recente entre as petroleiras independentes da B3.

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