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Datafolha expõe divisão do eleitorado: Lula domina entre mais pobres e Flávio abre 33 pontos entre evangélicos

Pesquisa mostra que renda, religião, gênero e região criam eleitorados muito distintos para os dois líderes da corrida presidencial; Lula tem 39% no primeiro turno contra 33% de Flávio Bolsonaro

por Júlia Campos
22/08/2026 às 12h33
em Política
Datafolha Sp: Lula E Flávio Com 35%; Polarização Pesa Em Risco Fiscal E Reformas-Gazeta Mercantil

A nova pesquisa Datafolha sobre a eleição presidencial de 2026 revela uma disputa que vai além da diferença de seis pontos percentuais entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno. Quando o eleitorado é dividido por renda, religião, gênero, raça e região, surgem dois blocos políticos com comportamentos muito diferentes e, em alguns segmentos, vantagens superiores a 20 ou até 30 pontos percentuais para um dos candidatos.

No cenário geral de primeiro turno, Lula aparece com 39% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro soma 33%. Ronaldo Caiado (PSD) registra 5%, Renan Santos (Missão) tem 4%, Romeu Zema (Novo), 3%, e Augusto Cury (Avante), 2%. Samara Martins (UP), Rui Costa Pimenta (PCO), Edmilson Costa (PCB) e Wilson Grassi (Democrata) aparecem com 1% cada. Clariana Barão (DC) e Hertz Dias (PSTU) não pontuaram no levantamento.

Leia também: Eslováquia barra novas sanções contra a Rússia e expõe divisão interna na União Europeia.

A radiografia mais significativa da pesquisa, no entanto, aparece no cenário de segundo turno entre Lula e Flávio. Nesse confronto, o presidente tem 47% das intenções de voto, contra 43% do senador. A diferença de quatro pontos é relativamente estreita quando comparada às distâncias encontradas dentro de determinados grupos sociais.

Entre os eleitores evangélicos, por exemplo, Flávio Bolsonaro alcança 62%, contra apenas 29% de Lula, uma vantagem de 33 pontos percentuais. Entre os brasileiros com renda familiar de até dois salários mínimos, ocorre movimento inverso: Lula registra 55%, diante de 35% de Flávio, diferença de 20 pontos.

Os números mostram que uma eventual segunda rodada da eleição poderá ser decidida não apenas pela capacidade de cada candidato de mobilizar sua base tradicional, mas principalmente pela disputa por segmentos nos quais nenhum dos dois consegue estabelecer uma vantagem suficientemente ampla.

Mulheres dão vantagem de 13 pontos a Lula

O gênero constitui uma das divisões identificadas pelo Datafolha. Entre as mulheres, Lula aparece com 51% das intenções de voto em um segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que registra 38%. A vantagem do presidente nesse grupo chega, portanto, a 13 pontos percentuais.

O resultado permanece relativamente próximo ao observado na pesquisa anterior do instituto. Em julho, Lula tinha 50% entre as mulheres e Flávio, 40%.

Entre os homens, o cenário se inverte, embora a diferença esteja dentro do intervalo de empate técnico considerado pelo levantamento. Flávio Bolsonaro registra 48%, enquanto Lula aparece com 43%. Na rodada anterior, os percentuais eram de 46% para o senador e 45% para o presidente.

A margem de erro específica para os recortes masculino e feminino é de três pontos percentuais para mais ou para menos, superior à margem de dois pontos calculada para o conjunto da amostra. Por isso, diferenças entre segmentos devem ser interpretadas de acordo com a margem correspondente a cada grupo.

Ainda assim, a combinação dos resultados produz uma assimetria relevante: Lula abre uma vantagem expressiva entre as mulheres, enquanto Flávio apresenta desempenho superior entre os homens, mas sem conseguir estabelecer no segmento masculino uma distância equivalente à obtida pelo presidente no feminino.

Renda produz uma das maiores divisões da pesquisa

O corte por renda familiar apresenta uma mudança clara de liderança conforme aumenta o rendimento do eleitor.

Entre os brasileiros que vivem em famílias com renda de até dois salários mínimos, Lula alcança 55% das intenções de voto no segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com 35%. A diferença é de 20 pontos percentuais.

A vantagem muda de lado imediatamente na faixa seguinte. Entre os eleitores com renda familiar superior a dois e de até cinco salários mínimos, Flávio registra 51%, contra 37% de Lula, abrindo 14 pontos.

Entre os brasileiros que recebem mais de cinco salários mínimos, a distância aumenta. Flávio chega a 54%, enquanto Lula tem 39%, diferença de 15 pontos.

O resultado transforma a renda em uma das variáveis mais importantes para compreender a composição atual das bases dos dois candidatos. Lula concentra sua maior força econômica na faixa de menor renda, enquanto Flávio assume a dianteira nas duas categorias seguintes.

Há, porém, uma diferença estatística importante. A margem de erro é de três pontos entre os eleitores com renda de até dois salários mínimos, quatro pontos na faixa de dois a cinco salários e chega a seis pontos entre aqueles que recebem acima de cinco salários mínimos, devido ao tamanho menor desse segmento dentro da amostra.

Evangélicos representam maior vantagem de Flávio

Nenhum dos principais recortes sociais divulgados pelo levantamento apresenta uma distância tão ampla quanto a encontrada entre os evangélicos.

Flávio Bolsonaro registra 62% das intenções de voto nesse segmento, enquanto Lula soma 29%. A diferença de 33 pontos percentuais transforma o eleitorado evangélico em uma das principais bases do candidato do PL.

Em julho, Flávio aparecia com 60% e Lula com 31%, indicando que a vantagem do senador nesse grupo passou de 29 para 33 pontos, embora as oscilações devam ser consideradas dentro da margem de erro de quatro pontos percentuais do segmento.

Entre os católicos, a situação é praticamente oposta. Lula alcança 54%, enquanto Flávio registra 36%, uma vantagem de 18 pontos para o presidente. Os números ficaram praticamente estáveis em relação à pesquisa anterior, quando o placar era de 54% a 37%.

A divisão religiosa é especialmente relevante porque cria dois eleitorados nos quais cada candidato obtém desempenho muito acima de sua média nacional. Enquanto Lula supera os 50% entre católicos, Flávio ultrapassa com folga a marca dos 60% entre evangélicos.

Isso não significa, isoladamente, que a religião determine o voto. Os mesmos grupos também apresentam diferenças de renda, região, idade e escolaridade. O resultado mostra, entretanto, uma associação eleitoral suficientemente forte para tornar católicos e evangélicos segmentos estratégicos das campanhas.

Lula chega a 55% entre pretos

O Datafolha também identificou diferenças importantes no recorte por raça ou cor declarada pelos entrevistados.

Lula registra seu maior percentual entre os eleitores que se declaram pretos: 55%, contra 37% de Flávio Bolsonaro. A vantagem do presidente nesse segmento é de 18 pontos percentuais. Na pesquisa anterior, Lula aparecia com 54% e Flávio com 34%.

Entre os pardos, a distância diminui. Lula soma 48% e Flávio, 42%. O instituto considera o resultado um empate técnico levando em conta a margem específica desse grupo.

Entre os brancos, Flávio aparece numericamente à frente, com 47%, contra 41% de Lula. Também nesse caso os candidatos estão tecnicamente empatados dentro da margem de erro.

As margens são distintas porque cada subconjunto da amostra possui tamanho diferente: cinco pontos percentuais entre pretos, três entre pardos e quatro entre brancos.

A diferença metodológica é relevante. Um resultado como 55% a 37% entre eleitores pretos apresenta uma distância suficientemente grande para indicar vantagem de Lula mesmo diante da margem mais ampla. Já diferenças menores observadas entre pardos e brancos não permitem concluir estatisticamente que exista uma liderança consolidada.

Nordeste e Sul reproduzem polos opostos

A geografia eleitoral também reforça a divisão observada nos recortes sociais.

No Nordeste, Lula registra 61% das intenções de voto em uma eventual disputa direta contra Flávio Bolsonaro, que aparece com 30%. A vantagem é de 31 pontos percentuais, uma das maiores encontradas em todo o levantamento.

No Sul ocorre movimento contrário. Flávio registra 50%, enquanto Lula aparece com 38%, diferença de 12 pontos para o candidato do PL.

Sudeste e o agrupamento formado por Centro-Oeste e Norte apresentam situações mais competitivas. No Sudeste, Flávio tem 46% e Lula, 43%, resultado considerado empate técnico. No Centro-Oeste/Norte, o senador registra 49%, contra 42% do presidente, também sem vantagem estatisticamente conclusiva diante da margem de erro específica desse recorte.

A combinação regional ajuda a explicar por que diferenças muito amplas encontradas em determinados grupos acabam reduzidas quando todos os eleitores são reunidos em uma única amostra nacional.

Primeiro turno tem Lula seis pontos à frente

Apesar das fortes diferenças internas, o retrato nacional continua mostrando uma eleição concentrada principalmente em Lula e Flávio Bolsonaro.

No primeiro turno, Lula registra 39% e Flávio, 33%. Juntos, os dois concentram 72% das intenções de voto apresentadas no cenário estimulado, deixando os demais candidatos significativamente atrás.

Caiado aparece em terceiro lugar, com 5%, seguido por Renan Santos, com 4%, e Zema, com 3%. Mesmo somados, os três chegam a 12%, percentual muito inferior ao registrado individualmente pelos dois primeiros colocados.

Em uma eventual segunda rodada entre Lula e Flávio, a distância diminui para quatro pontos: 47% a 43%. Brancos, nulos e eleitores que não escolheram nenhum candidato, além dos indecisos, mantêm uma parcela da disputa ainda sem adesão a um dos dois nomes.

A diferença pequena no resultado agregado e as vantagens muito maiores nos diferentes segmentos indicam um desafio distinto para cada campanha. Lula parte de posições especialmente fortes entre eleitores de menor renda, mulheres, pretos, católicos e moradores do Nordeste. Flávio apresenta vantagem entre evangélicos, eleitores de renda mais elevada e no Sul, além de desempenho numericamente superior entre homens.

A eleição tende, portanto, a depender da capacidade de ambos de avançar para além dos grupos nos quais já possuem domínio. Uma vantagem de 30 pontos dentro de determinado segmento pode ser compensada pela vantagem do adversário em outro, dependendo do peso de cada grupo no eleitorado nacional e de sua participação efetiva nas urnas.

Margem de erro muda conforme o segmento

O Datafolha entrevistou presencialmente 2.058 eleitores com 16 anos ou mais em todo o país nos dias 18 e 19 de agosto. Para o conjunto da amostra, a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

Nos recortes demográficos, a margem aumenta porque o número de entrevistados de cada grupo é menor. Ela chega, por exemplo, a seis pontos percentuais entre eleitores com renda familiar superior a cinco salários mínimos e na região Sul.

A diferença é fundamental para interpretar os resultados. Percentuais numericamente diferentes não significam necessariamente que um candidato esteja estatisticamente à frente do outro dentro daquele segmento.

A pesquisa foi encomendada pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo e registrada na Justiça Eleitoral sob o protocolo BR-04496/2026. Pelas regras eleitorais, pesquisas relacionadas ao pleito devem informar à Justiça Eleitoral dados como contratante, metodologia, período de realização, plano amostral, número de entrevistas, margem de erro e intervalo de confiança.

O levantamento foi realizado logo após o início oficial da campanha eleitoral e, por isso, fornece uma primeira fotografia da disputa com as candidaturas já registradas. Mais do que apontar quem está à frente, os recortes mostram onde cada candidato encontra seus principais reservatórios de votos — e onde precisará avançar para vencer uma eleição que, pelos números atuais, permanece competitiva.

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