A eleição presidencial de 2026 começa a ser precificada pelo mercado não apenas como uma disputa entre projetos políticos, mas como um teste sobre a capacidade do próximo governo de alterar a trajetória das contas públicas. Em relatório divulgado nesta semana, o Morgan Stanley traçou cenários para os ativos brasileiros que levam o Ibovespa de 130 mil a 250 mil pontos em 2027, enquanto o dólar oscila entre R$ 4,50 e R$ 6,00 e os juros de longo prazo variam de aproximadamente 12% a 18%, de acordo com o grau de credibilidade do ajuste fiscal.
A amplitude das projeções mostra que o resultado das eleições não deve ser interpretado isoladamente. Para o banco, a reação dos mercados dependerá da combinação entre o presidente eleito, a composição do Congresso, a capacidade de aprovação de medidas fiscais e a disposição do novo governo de apresentar um programa que seja considerado suficiente para estabilizar a dívida pública.
O primeiro turno das eleições ocorrerá em 4 de outubro e um eventual segundo turno está marcado para 25 de outubro. Até a posse, em janeiro de 2027, haverá ainda um período relevante para formação de expectativas. É nesse intervalo que investidores deverão avaliar não apenas quem venceu a disputa, mas quais condições políticas existirão para transformar promessas econômicas em medidas efetivamente aprovadas e executadas.
Três cenários mostram que o fiscal pode definir os preços dos ativos
No cenário considerado mais favorável, o Morgan Stanley trabalha com Ibovespa em 250 mil pontos, dólar a R$ 4,50 e Selic em 9,75%, enquanto os juros longos poderiam recuar para algo próximo de 12%. A hipótese pressupõe melhora significativa da percepção fiscal, redução do prêmio de risco e avanço suficiente na consolidação das contas públicas para abrir espaço a uma recuperação do grau de investimento.
No cenário-base, o banco estabelece alvo de 215 mil pontos para o Ibovespa em meados de 2027. O dólar ficaria em torno de R$ 5,25 e os juros longos próximos de 15%. A leitura é de continuidade, sem uma deterioração fiscal suficientemente forte para provocar uma ruptura dos preços, mas também sem uma transformação capaz de reduzir rapidamente o prêmio exigido pelos investidores.
Já no cenário adverso, o dólar poderia alcançar R$ 6, enquanto o Ibovespa recuaria para 130 mil pontos e os juros longos se aproximariam de 18%. A Selic projetada nesse ambiente chegaria a 15,50%, segundo a análise reproduzida na apuração.
A diferença entre os dois extremos é de 120 mil pontos no principal índice acionário brasileiro. O intervalo representa uma variação equivalente a quase 92% do próprio nível de 130 mil pontos utilizado no cenário de estresse. No câmbio, a distância entre R$ 4,50 e R$ 6 chega a R$ 1,50 por dólar, o equivalente a um terço do valor do cenário mais favorável.
Esses números não constituem uma previsão única para 2027. São cenários condicionados à forma como o mercado avaliará a política econômica do próximo governo.
O ponto central é a capacidade de executar o ajuste
O problema destacado pelo banco não se resume à escolha entre diferentes candidatos. A questão fiscal depende da capacidade do Executivo de negociar com o Legislativo e de alterar despesas, receitas e regras que afetam a dinâmica da dívida.
A estrutura orçamentária brasileira reduz esse espaço de manobra. A Lei Orçamentária Anual de 2026 prevê que 92% das despesas primárias sejam obrigatórias. Entre os maiores blocos estão benefícios previdenciários, transferências constitucionais e gastos com pessoal. Isso significa que apenas uma parcela pequena das despesas primárias pode ser ajustada discricionariamente pelo governo de forma direta.
Na prática, um programa de consolidação fiscal precisa avançar sobre despesas e mecanismos que não podem ser simplesmente reduzidos por uma decisão administrativa de curto prazo. Medidas relevantes podem exigir aprovação legislativa, alterações legais ou mudanças de desenho de políticas públicas.
O próprio governo reconhece a pressão estrutural. O Relatório de Projeções Fiscais do primeiro semestre de 2026 aponta expectativa de elevação da dívida pública no curto prazo e destaca a necessidade de medidas para recuperação de receitas ou revisão de despesas para sustentar uma estabilização no médio prazo.
A dificuldade política, portanto, não está apenas em anunciar um ajuste, mas em obter votos, construir uma coalizão e executar medidas suficientes para convencer os credores de que a trajetória da dívida será compatível com a capacidade de pagamento do país.
O mercado pode reagir antes de qualquer melhora nas contas públicas
É nesse ponto que o risco eleitoral ganha uma dimensão financeira imediata. Uma eventual melhora fiscal pode levar meses ou anos para aparecer de maneira consistente nos resultados orçamentários, enquanto os preços de ativos incorporam expectativas praticamente em tempo real.
Uma mudança na percepção sobre a capacidade de ajuste pode afetar primeiro o câmbio e os juros. O real pode se valorizar caso o mercado passe a exigir prêmio menor para carregar ativos brasileiros. Ao mesmo tempo, a queda das taxas futuras elevaria o valor presente de ações e títulos prefixados e indexados à inflação.
O mecanismo também funciona ao contrário. Se o novo governo for visto como incapaz de produzir uma trajetória fiscal sustentável, investidores podem exigir remuneração maior para financiar a dívida. O dólar tende a reagir à deterioração da percepção de risco, enquanto as curvas de juros incorporam taxas mais elevadas.
A consequência para a economia real é relevante. Juros mais altos encarecem crédito, financiamento corporativo e investimento. Se a moeda também perder valor, importados e insumos dolarizados ficam mais caros, aumentando a pressão sobre custos e podendo dificultar uma redução mais rápida da inflação.
É essa sequência que torna o fiscal determinante para mercados que, à primeira vista, parecem responder a fatores distintos.
Cenário de estresse combina câmbio, juros e Bolsa em uma mesma direção
A hipótese de dólar a R$ 6 não deve ser interpretada como previsão do Morgan Stanley, mas como uma condição de estresse associada a um plano fiscal considerado insuficiente. O mesmo vale para o Ibovespa em 130 mil pontos e os juros longos próximos de 18%.
Nesse ambiente, o relatório estima uma queda de aproximadamente 25% do Ibovespa em reais e de cerca de 35% para o investidor que mede seu patrimônio em dólares. O efeito cambial amplia a perda porque a desvalorização das ações ocorre simultaneamente à redução do valor do real frente à moeda norte-americana.
A análise também aponta para uma compressão relevante dos múltiplos. No cenário adverso, o Ibovespa poderia ser negociado a aproximadamente 6,1 vezes o lucro das empresas, sinalizando uma redução da disposição dos investidores a pagar por cada unidade de resultado corporativo.
A deterioração não seria homogênea entre as companhias. Empresas exportadoras ou com receitas dolarizadas possuem uma proteção parcial contra a desvalorização cambial, já que uma parcela da receita cresce em reais quando a moeda americana se valoriza.
Instituições financeiras também podem apresentar comportamento distinto. Em um primeiro momento, taxas de juros elevadas podem sustentar receitas financeiras, mas a manutenção prolongada de juros altos também aumenta o custo do crédito e pode elevar riscos de inadimplência e desaceleração econômica.
Juros altos também podem gerar perdas na renda fixa
A eventual disparada das taxas longas teria outro efeito importante sobre o patrimônio dos investidores. Títulos prefixados e papéis indexados à inflação com vencimentos distantes sofrem marcação a mercado. Quando as taxas exigidas pelos investidores sobem, o preço dos títulos existentes tende a cair para que sua remuneração se ajuste às novas condições.
Assim, um ambiente de juros de 18% pode representar simultaneamente oportunidade para novas aplicações e risco para quem já possui títulos longos adquiridos quando as taxas eram menores.
O efeito é especialmente relevante para investidores que podem precisar vender os papéis antes do vencimento. Quem mantém um título até a data contratada recebe as condições definidas na compra, desde que não haja risco de crédito ou evento extraordinário. Já quem precisa antecipar a saída fica exposto à oscilação do preço de mercado.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que uma deterioração fiscal pode atingir diferentes classes de ativos ao mesmo tempo, em vez de produzir simplesmente uma migração automática da Bolsa para a renda fixa.
Dívida e orçamento limitam o tempo disponível para o próximo governo
O pano de fundo para os cenários do banco é a trajetória da dívida pública. Dados recentes e análises de mercado colocam a dívida bruta brasileira em patamar elevado em relação ao PIB, enquanto projeções fiscais apontam necessidade de esforço adicional para estabilização no médio prazo.
O Tesouro Nacional, em seus relatórios mais recentes, também destaca a necessidade de gestão cuidadosa da dívida e acompanha a evolução do estoque, do perfil de vencimentos e do custo de financiamento. A combinação entre custo dos juros e crescimento econômico é central para o comportamento futuro do endividamento.
Quando a taxa de juros permanece elevada, o custo de carregar a dívida aumenta. Se, simultaneamente, o crescimento econômico desacelera e o resultado fiscal não melhora, a estabilização do endividamento se torna mais difícil.
Esse é o motivo pelo qual o mercado pode não conceder ao próximo governo um período prolongado para apresentar resultados. As expectativas sobre a política econômica são formadas antes que o novo presidente tenha executado integralmente seu programa.
A eleição, portanto, funciona como um marco para a formação de expectativas, mas a confirmação dessas expectativas dependerá das primeiras decisões tomadas em Brasília em 2027.
A data decisiva pode ser depois do resultado das urnas
O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, mas o teste econômico mais relevante começará depois da apuração. O novo governo precisará lidar simultaneamente com o Orçamento, a política fiscal, a estratégia de financiamento da dívida e a relação com um Congresso cuja composição também será determinada pela eleição.
É nesse momento que poderá surgir a diferença entre o discurso de campanha e a capacidade efetiva de implementação.
Um programa fiscal considerado crível pode reduzir o prêmio de risco antes mesmo de produzir resultados completos nas contas públicas. Um plano visto como insuficiente pode provocar a reação oposta, com alta do dólar, aumento dos juros futuros e redução dos múltiplos acionários.
A principal conclusão da análise do Morgan Stanley é, portanto, menos sobre uma cotação específica e mais sobre a amplitude do risco. Entre 130 mil e 250 mil pontos existe uma distância suficientemente grande para mostrar que a política fiscal poderá determinar uma mudança significativa na precificação dos ativos brasileiros em 2027.
Para o investidor, acompanhar apenas as pesquisas eleitorais será insuficiente. A composição do Congresso, os compromissos fiscais apresentados pelo vencedor, as medidas encaminhadas após a eleição e a reação das curvas de juros poderão oferecer sinais mais imediatos sobre qual dos cenários estará ganhando força.
Fontes:
Morgan Stanley – relatório sobre as eleições brasileiras de 2026, cenários para Ibovespa, câmbio, juros e trajetória fiscal
Ministério do Planejamento e Orçamento – Lei Orçamentária Anual de 2026 e composição das despesas primárias obrigatórias e discricionárias
Ministério do Planejamento e Orçamento – Relatório de Projeções Fiscais do primeiro semestre de 2026 e perspectivas para a dívida pública
Tesouro Nacional – Relatório Mensal da Dívida Pública Federal de julho de 2026 e informações sobre estoque, vencimentos e custo da dívida
Tribunal Superior Eleitoral – calendário oficial das Eleições Gerais de 2026








