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Dívida chega a 81,9% do PIB e expõe desafio fiscal para Lula e Flávio Bolsonaro

Programas registrados no TSE apresentam caminhos diferentes para o ajuste fiscal: Lula pretende manter o atual arcabouço, enquanto Flávio Bolsonaro promete reformular as regras e produzir superávits; nenhum dos dois estabelece uma trajetória numérica para a dívida

por Henrique Valverde
26/08/2026 às 13h22
em Política
Lula X Flavio Bolsonaro - Gazeta Mercantil

A disputa presidencial de 2026 coloca Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em campos políticos opostos, mas os dois candidatos enfrentarão, caso eleitos, um problema fiscal que independe do resultado das urnas. A dívida bruta do governo chegou a 81,9% do Produto Interno Bruto em junho, equivalente a R$ 10,8 trilhões, e avançou 3,3 pontos percentuais do PIB somente nos seis primeiros meses do ano. O déficit nominal do setor público, que incorpora o resultado primário e os juros, alcançou R$ 1,318 trilhão em 12 meses, ou 9,99% do PIB.

Os programas de governo registrados pelos dois principais candidatos reconhecem, de formas diferentes, a necessidade de melhorar as contas públicas. Lula promete manter o atual arcabouço fiscal e buscar o equilíbrio combinando crescimento econômico, contenção do avanço das despesas primárias, eficiência do gasto e mudanças tributárias. Flávio Bolsonaro propõe substituir as atuais regras por um novo desenho voltado explicitamente à estabilização e posterior redução da relação dívida/PIB, além de prometer superávits primários, redução da máquina pública e controle das despesas discricionárias.

Leia também: Fundo imobiliário inadimplência: caso VIUR11 expõe riscos e movimenta o IFIX.

O ponto que permanece sem resposta nos dois documentos é o tamanho do ajuste necessário para transformar essas diretrizes em uma trajetória efetiva de queda do endividamento. Nem o programa petista nem o do candidato do PL fixa uma meta anual de dívida/PIB para o próximo mandato ou apresenta uma sequência de resultados primários capaz de mostrar quando a dívida deixaria de crescer. A diferença, portanto, está mais clara no método proposto do que no resultado fiscal quantificado.

Dívida avança mesmo antes da posse do próximo presidente

Os números do Banco Central mostram por que o assunto deverá permanecer no centro da agenda econômica durante toda a campanha. A dívida bruta do governo geral passou para 81,9% do PIB em junho depois de avançar 0,9 ponto percentual em apenas um mês. Segundo o BC, os juros incorporados à dívida adicionaram 0,8 ponto percentual ao indicador no período, enquanto as emissões líquidas contribuíram com outros 0,6 ponto. O crescimento nominal da economia atuou no sentido contrário, reduzindo a relação em 0,5 ponto.

No acumulado de janeiro a junho, os juros acrescentaram 4,9 pontos percentuais do PIB ao endividamento. O efeito do crescimento nominal da economia retirou 2,7 pontos, mas não foi suficiente para impedir a alta de 3,3 pontos percentuais no semestre.

O problema não se resume ao estoque da dívida. O resultado nominal do setor público ficou negativo em R$ 166 bilhões apenas em junho e acumulou déficit de R$ 1,3178 trilhão em 12 meses. Isso significa que uma parcela relevante da deterioração fiscal está ligada ao custo financeiro de carregar uma dívida elevada num ambiente de juros ainda altos.

Esse mecanismo cria um desafio para qualquer presidente. Se a dívida continua avançando, o risco fiscal pode dificultar a queda estrutural dos juros; com juros elevados, o custo de carregamento do próprio endividamento aumenta, dificultando novamente sua estabilização.

Lula quer preservar o arcabouço fiscal

No programa entregue ao Tribunal Superior Eleitoral, Lula optou pela continuidade da arquitetura fiscal criada em seu atual mandato.

O documento afirma que um eventual novo governo manterá o novo arcabouço fiscal, defendendo que a regra permitiu controlar o crescimento das despesas sem interromper políticas sociais. Segundo o programa, o resultado fiscal deverá vir de uma combinação entre crescimento econômico, controle do aumento do gasto primário, melhoria da eficiência e da qualidade das despesas, justiça tributária e combate a privilégios e distorções.

É uma estratégia que evita apresentar um grande ajuste concentrado exclusivamente em cortes. O plano econômico petista associa a consolidação fiscal à expansão da atividade econômica e dos investimentos, partindo do pressuposto de que crescimento maior também ajuda a aumentar a arrecadação e reduzir a relação dívida/PIB.

Ao mesmo tempo, o documento não determina qual resultado primário o governo pretende produzir em 2027, 2028, 2029 ou 2030. O programa registrado no TSE não apresenta uma meta específica de superávit nem uma trajetória para a relação dívida/PIB.

Essa ausência é relevante porque o ponto de partida do próximo mandato será diferente daquele encontrado por Lula em janeiro de 2023. A dívida já se encontra em 81,9% do PIB e o déficit nominal está próximo de 10% do produto.

O programa afirma que o atual governo realizou um esforço fiscal de aproximadamente 2% do PIB entre 2023 e 2026 e sustenta que o déficit primário deverá terminar este ano próximo de 0,4% do PIB. Ainda assim, os números recentes do Banco Central mostram que o endividamento continua crescendo, sobretudo sob o peso dos juros.

Flávio promete mudar a regra e produzir superávits

O programa de Flávio Bolsonaro segue uma estratégia diferente. O candidato do PL afirma que pretende reformular as atuais regras fiscais e estabelecer um sistema voltado diretamente à estabilização e à redução da dívida pública.

O documento promete produzir superávits primários, limitar crédito subsidiado com recursos do Tesouro e estabelecer uma regra de controle das despesas discricionárias dos três Poderes. Também associa o ajuste a uma reforma administrativa, redução de cargos comissionados, revisão da estrutura estatal e retomada do Programa Nacional de Desestatização.

O texto afirma que o objetivo é alcançar “no menor prazo possível” a estabilidade da relação dívida/PIB e, depois, iniciar sua redução. Apesar da formulação mais explícita sobre o endividamento, também não apresenta o número do superávit necessário, o limite de crescimento da despesa que substituiria o atual arcabouço ou o ano em que a dívida começaria efetivamente a cair.

Há algumas medidas concretas na área administrativa. O programa propõe, por exemplo, cortar pelo menos dez ministérios, reduzir cargos comissionados e despesas administrativas e rever normas nas áreas tributária, previdenciária e trabalhista.

A dificuldade está na escala. Mesmo que essas iniciativas produzam economia, o orçamento federal é dominado por despesas que não podem simplesmente ser reduzidas por uma decisão administrativa do presidente.

92% das despesas primárias já são obrigatórias

A Lei Orçamentária de 2026 mostra o tamanho dessa limitação. Segundo o Orçamento Cidadão, elaborado pelo Ministério do Planejamento, 92% das despesas primárias da União são obrigatórias. Apenas 8% estão na parcela discricionária, sobre a qual o governo possui liberdade relativamente maior para decidir quando e quanto gastar.

Entre os maiores blocos obrigatórios estão os R$ 1,13 trilhão destinados a benefícios da Previdência Social, R$ 592,16 bilhões em transferências constitucionais para Estados e municípios e R$ 459,89 bilhões em gastos com pessoal.

Essa composição ajuda a explicar por que cortes administrativos, embora possam produzir economia e ganhos de eficiência, não resolvem isoladamente um desequilíbrio fiscal de grande magnitude.

Para alterar substancialmente a trajetória das despesas, um futuro governo precisaria entrar em áreas politicamente mais difíceis, rever regras existentes, mudar mecanismos de indexação ou ampliar receitas. Em vários casos, isso dependeria do Congresso Nacional.

E o presidente eleito em outubro não será o único personagem dessa equação. Os eleitores escolherão também uma nova Câmara dos Deputados e dois terços do Senado. A capacidade de aprovar uma reforma fiscal dependerá diretamente da composição resultante dessas eleições.

As diferenças entre os planos são reais

Apesar de ambos deixarem lacunas quantitativas, seria incorreto dizer que Lula e Flávio Bolsonaro apresentam a mesma estratégia fiscal.

O programa do PT aposta na preservação das regras atuais. A proposta combina controle do crescimento das despesas com expansão econômica, investimentos públicos e privados, aumento de produtividade, justiça tributária e melhoria da qualidade do gasto. A prioridade declarada é produzir equilíbrio sem desmontar políticas sociais.

Flávio Bolsonaro promete uma ruptura maior com o modelo atual. Seu programa pretende redesenhar as regras fiscais, utilizar superávits primários para estabilizar a dívida, reduzir a estrutura administrativa, limitar crédito subsidiado e revisar políticas públicas e patrimônio estatal.

Há também uma diferença de estratégia tributária. Lula defende aprofundar medidas de progressividade e justiça tributária. O programa de Flávio afirma que pretende rever partes da reforma tributária do consumo e reduzir a carga sobre produção e consumo.

O desafio de consistência aparece justamente aí. Um ajuste baseado simultaneamente em redução de impostos e geração de superávits precisa demonstrar de onde virá a compensação pelo lado da despesa ou do crescimento. Da mesma forma, uma estratégia que preserve investimentos e programas sociais enquanto busca estabilizar a dívida precisa mostrar quais despesas crescerão menos ou quais receitas sustentarão o resultado necessário.

Nenhum dos programas resolve integralmente essa equação no documento entregue ao TSE.

O problema fiscal chegará à posse antes da solução

A eleição definirá qual modelo será tentado a partir de 2027, mas a deterioração da dívida ocorre agora. A combinação de déficit, juros elevados e rigidez orçamentária reduz o tempo disponível para o próximo governo apresentar uma estratégia convincente.

O dado mais importante talvez seja justamente a distância entre o debate eleitoral e a estrutura do orçamento. Com 92% das despesas primárias obrigatórias, qualquer promessa de ajuste relevante precisa ir além de expressões como eficiência, combate a desperdícios ou enxugamento da máquina. São medidas importantes, mas o volume do orçamento federal exige decisões sobre regras estruturais.

Lula já indica que pretende manter o arcabouço e realizar o ajuste gradualmente, preservando investimentos e políticas sociais. Flávio Bolsonaro promete uma mudança mais profunda das regras e coloca explicitamente a redução da dívida como objetivo. Os dois, entretanto, chegam à campanha sem apresentar uma conta completa que conecte medidas, superávits e trajetória de endividamento.

Com a dívida bruta em R$ 10,8 trilhões e 81,9% do PIB, essa pode se tornar uma das perguntas econômicas mais importantes da campanha presidencial: não apenas quem pretende ajustar as contas públicas, mas quanto será necessário ajustar, em quanto tempo e quem pagará essa conta.


Fontes:

Banco Central do Brasil — Estatísticas Fiscais de junho de 2026
Tribunal Superior Eleitoral — Programa de Governo de Luiz Inácio Lula da Silva
Tribunal Superior Eleitoral — Diretrizes do Plano de Governo de Flávio Bolsonaro 2027–2030
Ministério do Planejamento e Orçamento — Orçamento Cidadão 2026

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