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IPCA junho 2026: 0,16%, abaixo do esperado, e eleva chance de corte de Selic em agosto

Deflação de alimentos e queda nos combustíveis puxaram o índice para baixo; juros futuros desabam, Ibovespa passa de 176 mil e dólar cai a R$ 5,11 após o dado do IBGE.

por Antônio Lima
10/07/2026 às 11h35
em Economia
Ipca Junho 2026: 0,16%, Abaixo Do Esperado, E Eleva Chance De Corte De Selic Em Agosto-Gazeta Mercantil
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,16% em junho de 2026, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (10). O resultado ficou 0,15 ponto percentual abaixo da mediana das projeções de mercado, que esperava alta de 0,31% no mês, e representa uma desaceleração de quase 72% ante os 0,58% de maio — a primeira leitura consistentemente benigna depois de quatro meses consecutivos de surpresas para cima na inflação oficial. Em 12 meses, o índice recuou de 4,72% para 4,64%, ainda 0,14 ponto acima do teto da meta do Banco Central (BC) de 4,5% para o ano.
A divulgação às 9h provocou uma reconfiguração imediata nos preços dos ativos financeiros. Na B3, o contrato futuro do Ibovespa para agosto saltou para 176 mil pontos, com alta de 0,33% na abertura. O dólar à vista perdeu força e passou a operar a R$ 5,1143, queda de 0,16%. Mais importante: as taxas de juros futuros cederam com força em toda a curva — o DI com vencimento em janeiro de 2027 caiu de 13,998% para 13,910% na primeira hora de negociação, enquanto o contrato para janeiro de 2029 recuou quase 19 pontos-base para 14,045%.
O movimento refez as apostas para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para 4 e 5 de agosto. Dados das Opções de Copom da B3, que na véspera já precificavam 75,5% de chance de um corte de 0,25 ponto na Selic, passaram a atribuir mais de 90% de probabilidade à redução para 14% ao ano já no próximo encontro. Na prática, o dado de junho removeu a dúvida que ainda pairava sobre a continuidade do ciclo de flexibilização monetária.
Ainda assim, o alívio vem com ressalvas importantes. O Boletim Focus mais recente, divulgado pelo BC na segunda-feira (6), mostra que a mediana das instituições financeiras continua projetando IPCA de 5,30% para o fechamento de 2026 — muito acima do teto da meta — e Selic em 14% ao ano no último dia de dezembro. O Grupo Consultivo Macroeconômico da Anbima, por sua vez, trabalha com cenário de taxa básica em 13% ao final de 2026, com cortes espaçados de 0,25 ponto por reunião.

A composição da desaceleração

Por trás da surpresa para baixo há uma combinação rara de três forças simultâneas: arrefecimento nos preços administrados, deflação na cesta básica e queda generalizada nos combustíveis. O índice de difusão do IPCA — que mede a parcela de produtos e serviços com alta no mês — caiu de 65% em maio para 54% em junho, o menor nível desde outubro de 2025, mostrando que a pressão inflacionária deixou de ser disseminada pela economia. Dos nove grupos de despesa pesquisados pelo IBGE, sete apresentaram inflação menor ou deflação.
O grupo habitação continuou sendo o de maior impacto individual, contribuindo com 0,10 ponto percentual para o índice, mas a alta desacelerou de 1,22% para 0,63% no mês. A conta de energia elétrica residencial, que havia subido 3,67% em maio por conta de reajustes no Sudeste, avançou apenas 1,53% em junho — ainda assim, foi o item individual que mais pesou no resultado final.
A grande reviravolta veio de alimentos e bebidas, que passaram de alta de 1,14% em maio para deflação de 0,24% em junho. Dentro do grupo, a alimentação no domicílio caiu 0,39%, revertendo quase toda a alta de 1,65% do mês anterior, com quedas expressivas de café moído (-3,72%), frutas (-1,58%) e carnes em geral (-0,64%). A exceção ficou por conta do feijão-carioca, que disparou 8,31%, e da batata-inglesa, com alta de 3,57%. Já a alimentação fora de casa desacelerou fortemente de 0,49% para 0,15%, com lanches e refeições praticamente estáveis.
No grupo transportes, a alta ficou contida em 0,17%, quase toda explicada pelas passagens aéreas, que subiram 7,12% com o início da alta temporada de férias escolares. Esse movimento, porém, foi quase totalmente anulado pela queda de 0,48% nos combustíveis: etanol (-3,09%), óleo diesel (-1,19%), gás veicular (-0,19%) e gasolina (-0,12%). Nos ônibus urbanos, a variação de 0,72% refletiu gratuidades parciais implementadas em Belo Horizonte, Brasília, Belém e Curitiba.
Na comparação regional, Brasília registrou a maior inflação do país com 0,52%, puxada por passagens aéreas (+11,05%) e gasolina (+1,74%), enquanto Recife foi a única capital com deflação no mês (-0,04%), graças a uma queda acentuada de 22,56% no preço do tomate e recuo de 1,99% na gasolina.

Mercados reescrevem curva de juros em tempo real

Para operadores de renda fixa, a manhã desta sexta foi de ajuste acentuado nas posições. Antes do IBGE, a curva de juros já vinha cedendo ao longo da semana com o recuo do petróleo e sinais de alívio geopolítico no Oriente Médio. O dado de junho funcionou como um catalisador: os prêmios de inflação implícitos nos contratos de DI caíram em todos os vencimentos, e a parte longa da curva — que precifica expectativas para cinco ou mais anos à frente — teve a maior queda, sinalizando que o mercado passou a ver mais credibilidade na trajetória de convergência da inflação para a meta.
Para o investidor pessoa física, o movimento tem consequências práticas. Títulos prefixados de duração intermediária (de dois a cinco anos) devem ser os maiores beneficiários, pois capturam a queda das taxas esperadas para 2027 e 2028 sem excesso de risco de volatilidade. Já os papéis atrelados à inflação, como o Tesouro IPCA+, mantêm demanda estrutural, já que o IPCA de 12 meses ainda permanece acima do teto da meta e o prêmio real oferecido continua atrativo.
Na bolsa, o ganho se concentrou nos setores mais sensíveis ao custo do dinheiro e ao poder de compra: bancos, varejo, construção civil e consumo cíclico operavam com altas superiores a 1% na abertura, enquanto ações de commodities, como Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), tiveram desempenho mais contido, refletindo o recuo internacional do petróleo e do minério de ferro.

O Copom ainda não vai comemorar

Apesar da leitura favorável, economistas ouvidos pela Gazeta Mercantil alertam que um único mês de inflação benigna não altera o diagnóstico do Copom. Na reunião de junho, o comitê reduziu a Selic em 0,25 ponto para 14,25% ao ano, mas adotou um comunicado com tom extremamente cauteloso, lembrando que a inflação de núcleos — que exclui itens mais voláteis como alimentos e energia — ainda corre acima do desejado e que a política monetária permanecerá contracionista por “período prolongado”.
O BC não olha apenas para o IPCA cheio. O que realmente importa para a decisão de agosto é se a desaceleração de junho se repetir em julho, se os núcleos de inflação começarem a cair de forma consistente e se as expectativas de longo prazo no Focus — que há semanas estagnadas em 3,7% para 2028 — começarem a se aproximar do centro da meta de 3%. Outro ponto de atenção é a inflação de serviços, que continua em ritmo mais elevado do que o índice geral, refletindo uma demanda doméstica ainda resiliente e pressões salariais em setores intensivos em mão de obra.
“O dado de junho é inegavelmente bom, mas é um mês só. O BC vai querer confirmação em julho e agosto antes de pensar em acelerar os cortes”, resume o economista-chefe de uma instituição de grande porte, que pediu reserva por não estar autorizado a falar publicamente. “Se julho vier também abaixo de 0,25%, aí sim podemos começar a discutir um ciclo mais longo de redução. Por enquanto, o cenário base segue sendo um corte de 0,25 ponto em agosto e depois uma pausa para avaliação.”

Quem sente primeiro a diferença no bolso

A inflação mais baixa tem efeitos assimétricos que já começam a chegar ao bolso dos brasileiros. Famílias de baixa renda, que comprometem até 60% do orçamento com alimentação e energia, são as primeiras a ganhar poder de compra real. Trabalhadores com acordos coletivos atrelados ao IPCA também saem ganhando, pois o reajuste salarial tende a preservar mais renda quando o índice desacelera sem perda de emprego.
Para empresas de varejo, construção civil e bens de consumo duráveis, a combinação de inflação menor com juros em queda é o melhor dos mundos: reduz o custo de capital e devolve fôlego à demanda. Do lado do setor público, o Tesouro Nacional vê cair o custo de rolagem da dívida indexada à inflação, que corresponde a cerca de 30% do estoque total.
Do outro lado, credores com contratos de renda fixa atrelados ao IPCA com spreads já comprimidos perdem um pouco de rentabilidade real, e estados e municípios que dependem de receitas tributárias indexadas têm seu crescimento nominal mais contido no segundo semestre.

Riscos que não desapareceram

A boa notícia de junho não apaga os riscos que pairam sobre a inflação no resto do ano. O principal deles é a ameaça de tarifas de importação dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, que, se implementadas, podem pressionar o câmbio e repassar preços para a economia doméstica. Há também a incerteza sobre o preço do petróleo, que continua refém das tensões no Oriente Médio, e o comportamento da safra de grãos no segundo semestre, que definirá a trajetória dos preços de alimentos até o final de 2026.
Outro ponto de vigilância é o calendário de reajustes tarifários de energia, água e transporte coletivo ainda pendentes em diversos estados, que podem voltar a pressionar o grupo de habitação e serviços no terceiro trimestre.

O que define o ritmo dos cortes até o fim do ano

Antes da reunião de agosto, o Copom terá três marcos fundamentais para calibrar sua decisão: o IPCA de julho, que será divulgado pelo IBGE no dia 8 de agosto; os dados de núcleos de inflação e de atividade econômica do segundo trimestre; e a evolução das expectativas no Boletim Focus, que precisam começar a cair de forma sustentada para dar conforto ao comitê.
Se a desaceleração de junho se confirmar em julho, o ciclo de cortes pode ganhar fôlego no segundo semestre. Se, por outro lado, o índice voltar a surpreender para cima, o BC não terá receio de fazer uma pausa e manter a Selic em 14,25% por mais tempo, priorizando o reenquadramento definitivo da inflação dentro da meta — o único objetivo que, por lei, está acima de qualquer outra consideração.

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