Ex-Diretores do BC Projetam Ciclo de Cortes de Juros Diante de Melhora no Cenário Inflacionário e Global
O debate sobre a condução da política monetária no Brasil atingiu um novo patamar de consenso entre figuras de peso do mercado financeiro e ex-membros da autoridade monetária. Em um cenário onde a Taxa Selic se encontra no patamar restritivo de 15% ao ano, as avaliações de Bruno Serra, gestor da Itaú Asset e ex-diretor do Banco Central (BC), e de Rodrigo Azevedo, gestor da Ibiúna Investimentos e também ex-diretor da autarquia, convergem para um diagnóstico otimista: o Comitê de Política Monetária (Copom) possui, finalmente, o espaço técnico e fundamentalista necessário para iniciar um ciclo robusto de cortes de juros.
Esta análise visa dissecar os argumentos apresentados pelos especialistas durante evento promovido pelo UBS BB nesta terça-feira (27), explorando as janelas de oportunidade criadas pela desaceleração da inflação doméstica e pela reprecificação dos ativos globais. A perspectiva de cortes de juros não é apenas uma demanda do setor produtivo, mas agora, segundo os ex-diretores, uma possibilidade embasada na assimetria de riscos favorável e na necessidade de recalibragem da política monetária.
O Diagnóstico: Selic a 15% e a Necessidade de Ajuste
Para compreender a urgência e a viabilidade dos cortes de juros, é imperativo analisar o ponto de partida. A taxa básica de juros a 15% representa um nível historicamente elevado, utilizado apenas em momentos de grave crise de credibilidade ou choques inflacionários agudos. Bruno Serra foi enfático ao contextualizar esse patamar: em mais de duas décadas, o Brasil não convivia com uma Selic a 15%. Segundo o ex-diretor, tal taxa foi implementada como um “preço a pagar” para comprar credibilidade em um ambiente hostil de choque fiscal e institucional.
No entanto, a manutenção desse patamar, passada a fase mais crítica da tempestade, começa a se tornar contraproducente. A tese central defendida é que o “remédio amargo” já surtiu o efeito desejado de ancoragem, e a continuidade da dose excessiva pode gerar efeitos colaterais desnecessários na atividade econômica. É neste contexto que os <b data-path-to-node=”11″ data-index-in-node=”340″>cortes de juros surgem não como uma aventura, mas como uma correção de rota necessária para trazer a política monetária de um terreno “extremamente contracionista” para um terreno “ainda contracionista, mas razoável.
Azevedo corrobora essa visão ao lembrar que o aperto monetário agressivo do ano passado foi justificado por uma assimetria de riscos onde a probabilidade de a inflação fugir do controle era muito superior à de ela ceder. Hoje, com a inflação corrente rodando abaixo do esperado e o câmbio mostrando sinais de apreciação, essa distribuição de probabilidades se inverteu, abrindo a avenida para os cortes de juros.
A Magnitude e o Ritmo dos Cortes de Juros
Uma das questões mais sensíveis para o mercado financeiro não é apenas o “se”, mas o “quanto” e o “quando. Na visão de Bruno Serra, o Copom não deve ser tímido. Dada a distância entre a taxa atual (15%) e a taxa neutra ou mesmo uma taxa terminal razoável, iniciar o ciclo de cortes de juros com movimentos marginais seria ineficiente.
Serra projeta que o ciclo pode ter início já em março, com uma redução de 50 pontos-base (0,50 p.p.). Para ele, partindo de um patamar tão elevado, cortes de juros inferiores a meio ponto percentual parecem desnecessários e pouco condizentes com a realidade dos fundamentos econômicos atuais. Mais do que isso, o gestor da Itaú Asset vislumbra a possibilidade de o ciclo ganhar tração ao longo do ano. Em algumas reuniões do Copom, a depender da confirmação do cenário benigno, não se deve descartar movimentos de cortes de juros superiores a 50 pontos-base.
Essa agressividade na flexibilização monetária é sustentada pela projeção de inflação. Com o IPCA rodando próximo a 3% e as expectativas de longo prazo mais bem comportadas, Serra visualiza a Selic caminhando para algo em torno de 11%. Isso implicaria uma redução total de 400 pontos-base, um alívio significativo para o custo de capital das empresas e para o serviço da dívida pública.
A Assimetria de Riscos e a “Gordura” da Selic
Rodrigo Azevedo, da Ibiúna, traz uma abordagem sofisticada sobre a probabilidade e a gestão de riscos pelo Banco Central. Para ele, a decisão sobre os cortes de juros não deve se basear exclusivamente na projeção central de inflação do modelo do BC, que olha para 18 meses à frente. Azevedo alerta que, em ambientes de incerteza gigantesca, esse modelo é um exercício analítico útil, mas insuficiente como único guia.
O argumento central de Azevedo para defender os cortes de juros reside na mudança da “distribuição de probabilidades. Se antes o risco de desancoragem exigia juros de 15%, hoje, com a incerteza diminuindo e os vetores inflacionários perdendo força (câmbio apreciado, commodities estáveis), manter a taxa neste nível torna o juro real excessivamente apertado ex-ante.
Azevedo calcula que é razoável devolver o aperto acumulado, retirando cerca de 300 pontos-base que foram adicionados como prêmio de risco no passado. Mesmo com a execução desses cortes de juros, levando a Selic para 12%, a política monetária brasileira continuaria em terreno restritivo, dada a inflação corrente baixa. Ou seja, o Banco Central pode cortar os juros substancialmente e, ainda assim, continuar combatendo a inflação, apenas com menos intensidade. Isso demonstra o tamanho da “gordura” que a política monetária atual possui para queimar através de cortes de juros.
O Cenário Internacional como Facilitador
Nenhum Banco Central é uma ilha, e o Copom não está imune aos ventos globais. Ambos os gestores destacaram que o ambiente internacional tornou-se um facilitador para os cortes de juros no Brasil. Bruno Serra aponta para uma reprecificação global de ativos, caracterizada por uma redução da sobrealocação em ativos norte-americanos.
Durante anos, os Estados Unidos performaram muito acima do restante do mundo, atraindo capital maciço. Agora, é natural que os investidores globais reduzam marginalmente essa exposição. Como o volume de capital envolvido é gigantesco, qualquer realocação marginal em direção a mercados emergentes tem um impacto relevante sobre preços e, crucialmente, sobre o câmbio. Um real mais forte (ou menos depreciado) atua como um poderoso desinflacionário, permitindo que o BC execute cortes de juros com maior tranquilidade.
Rodrigo Azevedo complementa essa visão focando na volatilidade dos Treasuries (títulos do tesouro americano). A taxa de juros dos EUA é a “taxa livre de risco” do mundo. Quando a volatilidade dessa curva cai, os ativos de risco, como os brasileiros, passam a refletir mais seus próprios fundamentos e menos o pânico global. Esse ambiente de menor aversão ao risco cria uma janela de oportunidade confortável para o Copom avançar na agenda de cortes de juros sem temer uma fuga de capitais desordenada.
O Fator Político e o Ajuste Fiscal: O Divisor de Águas
Embora o cenário técnico para os cortes de juros esteja desenhado, a variável política e fiscal permanece no radar. Bruno Serra e Rodrigo Azevedo abordaram a questão eleitoral e o futuro das contas públicas como elementos que influenciam, mas não determinam, o curto prazo da política monetária.
Para Serra, o impacto imediato da eleição na condução dos cortes de juros é menor do que o senso comum imagina. O Banco Central, com sua autonomia formal, tende a olhar para os fundamentos econômicos. O “ruído político”, embora gere volatilidade, muitas vezes não altera a trajetória estrutural da inflação no curto prazo, desde que as âncoras fiscais não sejam destruídas.
Azevedo, por sua vez, lança um alerta para o médio prazo. O verdadeiro teste para a sustentabilidade dos cortes de juros virá do lado fiscal. Segundo o gestor da Ibiúna, a história se torna “binária” no dia seguinte à eleição: ou haverá um ajuste fiscal crível, ou não haverá. É essa definição que ditará se a Selic poderá permanecer em patamares civilizados ou se o país precisará reverter o ciclo.
Se o ajuste fiscal for realizado, os cortes de juros implementados agora poderão ser mantidos ou aprofundados. Caso contrário, a curva de juros futura empinará novamente, forçando o BC a abortar o ciclo de relaxamento. Portanto, a viabilidade de longo prazo dos cortes de juros é indissociável da responsabilidade fiscal do governo.
A Hora da Recalibragem
A convergência de opiniões entre dois ex-diretores do Banco Central, que hoje comandam bilhões em ativos na iniciativa privada, é um sinal poderoso para o mercado. O diagnóstico é claro: a manutenção da Selic em 15% cumpriu seu papel, mas tornou-se anacrônica diante da melhora dos índices de inflação e do alívio no cenário externo. O Copom tem diante de si uma janela técnica para iniciar cortes de juros de forma assertiva, começando possivelmente com 50 pontos-base em março.
O ciclo de cortes de juros não é apenas uma medida de alívio monetário; é uma recalibragem necessária para evitar que o remédio da alta de juros se torne o veneno da recessão econômica. Com a inflação ancorada e o risco global mitigado, o Brasil tem a oportunidade de normalizar sua taxa de juros, devolvendo prêmios de risco que não se justificam mais.
Resta agora ao colegiado do Banco Central validar essa leitura na próxima reunião. Se a autoridade monetária seguir a lógica apontada por Serra e Azevedo, o ano será marcado por uma sequência de cortes de juros que poderá levar a Selic de volta aos 11% ou 12%, reaquecendo o mercado de crédito e investimentos, desde que a âncora fiscal permaneça firme no horizonte. Para o investidor e para o setor produtivo, a mensagem é de otimismo cauteloso: o inverno dos juros altos parece estar chegando ao fim.






