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Faria Lima vê fiasco de Flávio Bolsonaro nos EUA e alerta para tarifa de 25%

Senador foi a Washington sem dados técnicos e misturou Pix e eleição à pauta comercial; para mercado, atuação enfraquece posição do Brasil e não altera decisão americana

por Júlia Campos
09/07/2026 às 14h44
em Política
Flavio Bolsonaro - Gazeta Mercantil

A aposta do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em interceder pessoalmente nos Estados Unidos contra a sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros virou alvo de críticas duras na Faria Lima e acendeu um alerta entre exportadores. Em audiência no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), em julho de 2026, o parlamentar não apresentou estudos de impacto, planilhas de comércio bilateral ou simulações de preço. Em cinco minutos de fala, combinou defesa do Pix, menções à corrupção e referências ao calendário eleitoral de outubro, sem responder aos critérios técnicos que orientam o órgão americano. Para gestores, banqueiros e representantes da indústria, a condução foi “inócua” e ampliou o desgaste político do senador junto ao mercado.

A avaliação que circula entre fundos, bancos e associações setoriais é que a viagem não move um milímetro a decisão da Casa Branca. O USTR trabalha com metodologia de conformidade, consultas públicas e análise de cadeias de suprimento. Calendário eleitoral e discurso político de terceiros não entram na equação. Na prática, quem pode derrubar ou flexibilizar a sobretaxa de 25% são os grandes compradores americanos de insumos brasileiros — siderurgia, celulose, suco de laranja, autopeças, máquinas agrícolas —, que hoje pressionam Washington pelo custo que a tarifa impõe à indústria local.

Leia também: Eduardo Bolsonaro critica Nikolas Ferreira e expõe racha no bolsonarismo.

Expectativa era de dossiê técnico; mercado recebeu palanque

A Faria Lima esperava um dossiê. Havia a expectativa de que Flávio Bolsonaro chegasse a Washington munido de relatórios sobre inflação ao consumidor americano, impacto na cadeia de suprimentos e perda de competitividade de empresas dos Estados Unidos caso o tarifaço persista. O que se viu, segundo relatos de quem acompanhou a audiência, foi uma sustentação genérica, sem números consolidados e sem coordenação com o Ministério da Fazenda, com o Itamaraty ou com a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

O senador dedicou parte do tempo a rebater o lobby de bandeiras de cartão de crédito sediadas em Nova York, que tentam caracterizar o Pix como barreira concorrencial. “O Pix não é um problema a ser corrigido. É uma solução. Ele ampliou a inclusão financeira ao trazer milhões de brasileiros para a economia formal”, afirmou. A defesa do sistema do Banco Central é legítima e tem amparo em dados, mas, para técnicos de comércio exterior, o fórum estava errado. A pauta do USTR tratava de bens, subsídios e tarifas, não de arranjos de pagamento. A inserção do tema foi lida como desvio de foco.

Leia também: Motociata de Bolsonaro: Ex-presidente participa em Brasília sob restrições do STF.

Ao mencionar as eleições brasileiras de outubro e sugerir que a manutenção da tarifa poderia ter implicações políticas, Flávio Bolsonaro cruzou uma linha que o USTR não reconhece. O órgão responde a lei comercial americana, pareceres de agências e contribuições da indústria. Apelos eleitorais de países terceiros são classificados como irrelevantes. O movimento foi descrito por analistas seniores como “amadorismo técnico”.

Tarifa ameaça balança e pressiona exportadoras na B3

A sobretaxa de 25% foi anunciada pelo governo americano em abril de 2026 e atinge uma lista de produtos brasileiros sob alegação de subsídios e práticas desleais. O Brasil contesta a medida na Organização Mundial do Comércio (OMC), mas o rito é longo. Enquanto o contencioso avança, exportadores tentam repassar custos, buscar mercados alternativos e redesenhar rotas logísticas. O efeito imediato é perda de competitividade frente a México e Canadá, protegidos pelo USMCA.

Na Bolsa, papéis com exposição a receita em dólar sentiram. Vale (VALE3), Suzano (SUZB3), Embraer (EMBR3) e empresas de proteína registraram volatilidade após a audiência, segundo mesas de operação. O Ibovespa (IBOV) absorveu parte do ruído, mas gestores ressaltam que o dano maior é reputacional. A percepção de improviso em negociações sensíveis eleva o prêmio de risco e dificulta a interlocução do Brasil com investidores e com o governo americano.

Consultorias estimam que, mantida até dezembro, a sobretaxa de 25% pode retirar até 1,2 ponto percentual do total exportado pelo Brasil no ano. O impacto recai sobre o superávit comercial e, por consequência, sobre o câmbio. Bancos como Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e BTG Pactual (BPAC11) já revisam projeções para clientes do agro e da indústria que dependem do mercado americano.

Desalinhamento com governo expõe ruído institucional

A ida de Flávio Bolsonaro não foi coordenada com a equipe econômica. Técnicos do Ministério da Fazenda e diplomatas vinham conduzindo tratativas com o Departamento de Comércio e com o próprio USTR por canais formais. A estratégia do governo combina contestação na OMC, negociação bilateral e mobilização de empresas americanas prejudicadas pela tarifa. A entrada de um parlamentar sem mandato negociador, avaliam fontes, embaralha mensagens e enfraquece a posição brasileira.

O PL afirma que a viagem teve caráter institucional e que o senador foi convidado por congressistas republicanos. A assessoria divulgou notas, mas não apresentou o material técnico que, segundo a Faria Lima, deveria ter sido levado à audiência. Ex-ministros ouvidos sob reserva classificam o episódio como “custo político sem ganho comercial”. Para eles, o impacto no USTR é neutro. O órgão decide com base em fatos econômicos, séries históricas e contribuições da indústria americana, não em discursos.

Pix vira munição em disputa que é de bens, não de pagamentos

A tentativa de enquadrar o Pix como barreira tem origem na pressão de grandes bandeiras de cartão. Elas alegam assimetria regulatória no varejo brasileiro. O Banco Central rebate e diz que o sistema é aberto, interoperável e gratuito para pessoas físicas. O governo federal sustenta que o Pix ampliou concorrência e reduziu custos de transação.

O tema, porém, pertence a fóruns de regulação financeira e de concorrência, não a uma audiência sobre tarifas de importação. Ao levar o assunto ao USTR, Flávio Bolsonaro abriu um flanco desnecessário, segundo técnicos. A discussão sobre meios de pagamento exige outro tipo de interlocução, com Fed, Tesouro americano e reguladores, não com o órgão de comércio. A mistura de agendas reforçou a leitura de despreparo.

Indústria cobra ofensiva coordenada e dados de emprego nos EUA

Associações como CNI e Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) defendem uma contraofensiva baseada em números. O argumento central é mostrar que a tarifa encarece insumos para a indústria americana, pressiona preços ao consumidor e ameaça empregos em estados que dependem de componentes brasileiros. Esse é o tipo de material que o USTR considera: emprego, inflação, resiliência de cadeias.

A atuação de parlamentares, dizem as entidades, precisa estar alinhada ao Executivo para evitar ruído. Viagens isoladas, sem dossiê e sem interlocução com compradores americanos, tendem a ser inócuas. O caso de Flávio Bolsonaro, na visão da indústria, ilustra o risco. O senador é cotado para disputar o Executivo em 2026 e buscava aproximação com o mercado. O episódio, contudo, expôs lacunas em comércio exterior e no funcionamento de órgãos dos Estados Unidos.

Prejuízo político supera qualquer ganho diplomático

Para gestores de fundos multimercado, a leitura é direta: previsibilidade e capacidade técnica pesam em decisões de alocação. Improviso em temas sensíveis, como tarifas, aumenta incerteza. O mercado não cobra alinhamento ideológico, cobra competência. A percepção de que a tribuna do USTR virou palanque partidário reduz o capital político de Flávio Bolsonaro entre empresários.

O USTR ainda não definiu data para a decisão final sobre a sobretaxa. Exportadores avaliam redirecionar cargas para Ásia e Europa, mas enfrentam fretes mais altos e prazos maiores. O governo estuda medidas de compensação, limitado pelo quadro fiscal. Sem reversão, setores inteiros terão de recalibrar margem e investimento.

Caso amplia pressão sobre articulação do Brasil em Washington

O episódio joga luz sobre a necessidade de uma articulação comercial mais profissional em Washington. A disputa por mercado e por regras não se vence com discurso. Exige dados, aliados na indústria americana e coordenação fina entre governo, Congresso e setor privado.

Enquanto isso, a sobretaxa de 25% segue como fato. E, para a Faria Lima, a viagem de Flávio Bolsonaro entrou na conta como passivo. O mercado classificou a atuação como fiasco não por ideologia, mas por método: faltou técnica onde só a técnica conta.

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