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Ferrari (RACE) vende menos, lucra €463 milhões e eleva projeções para 2026

Personalizações, F80 e modelos de maior margem fazem receita avançar 8% mesmo com queda nas entregas; carteira de pedidos já cobre todo o ano de 2027.

por João Souza
30/07/2026 às 23h16
em Empresas
Ferrari (Race) Vende Menos, Lucra €463 Milhões E Eleva Projeções Para 2026 - Gazeta Mercantil

A Ferrari (RACE) elevou nesta quinta-feira, 30 de julho, em Maranello, suas projeções financeiras para 2026 após encerrar o segundo trimestre com receita líquida de €1,938 bilhão, lucro líquido de €463 milhões e Ebitda de €755 milhões. O avanço ocorreu apesar da redução de 128 carros nas entregas, para 3.366 unidades, e foi sustentado pela maior participação de modelos de elevado valor, pelo início da contribuição do F80 e pelo crescimento das personalizações. A fabricante passou a prever receita anual de aproximadamente €7,6 bilhões, Ebitda ajustado de pelo menos €2,97 bilhões e fluxo de caixa livre industrial mínimo de €1,55 bilhão. Os resultados referentes ao período encerrado em 30 de junho são preliminares e não auditados.

O balanço da Ferrari confirma que a empresa continua ampliando seus resultados sem depender do aumento da produção. A receita cresceu 8% em relação aos €1,787 bilhão obtidos no segundo trimestre de 2025, enquanto o lucro operacional, medido pelo Ebit, avançou 10%, de €552 milhões para €605 milhões. O lucro líquido aumentou 9%, e o resultado diluído por ação passou de €2,38 para €2,62. Em moeda constante, desconsiderados os efeitos cambiais e das operações de proteção, a receita teria crescido 11% e o Ebit, 16%.

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A margem operacional subiu de 30,9% para 31,2%, movimento que mostra maior rentabilidade sobre a receita. A margem de Ebitda, por outro lado, recuou de 39,7% para 39%, embora o indicador tenha aumentado €46 milhões em termos absolutos. O resultado reflete a combinação de um portfólio mais rentável com custos industriais, despesas de marketing e gastos ligados às atividades esportivas. Para os investidores, a diferença entre as duas margens mostra que a Ferrari manteve capacidade de elevar o lucro operacional mesmo durante um período de renovação da linha de produtos.

Ferrari fatura mais com 128 carros a menos no trimestre

A Ferrari (RACE) entregou 3.366 veículos entre abril e junho, ante 3.494 unidades no mesmo período de 2025. A queda de 3,7% não impediu a expansão dos resultados porque a companhia privilegiou automóveis com maior contribuição financeira e ampliou o valor incorporado a cada pedido. A estratégia reafirma o modelo de produção controlada adotado pela fabricante, que administra a oferta para preservar exclusividade, preços e valor residual dos veículos.

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A receita da divisão de automóveis e peças de reposição alcançou €1,629 bilhão, alta de 8%. Essa linha inclui não apenas o valor dos carros entregues, mas também as personalizações contratadas pelos clientes e a venda de componentes. Patrocínios, atividades comerciais e exploração da marca geraram outros €209 milhões, crescimento de 2%. As demais receitas avançaram 31%, para €100 milhões, impulsionadas, entre outros fatores, pelo aluguel de motores para equipes da Fórmula 1.

A composição geográfica das entregas mudou de forma significativa. Europa, Oriente Médio e África receberam 1.856 automóveis, aumento de 210 unidades em um ano. Nas Américas, os embarques caíram 206 unidades, para 787. China continental, Hong Kong e Taiwan tiveram redução de 89 veículos, para 185, enquanto o restante da região Ásia-Pacífico registrou queda de 43 unidades, para 538.

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No acumulado dos seis primeiros meses, as entregas recuaram de 7.087 para 6.802 carros. A retração foi de 285 unidades, ou aproximadamente 4%, mas a receita semestral avançou 6%, de €3,578 bilhões para €3,786 bilhões. A relação entre as duas variações resume a principal mensagem econômica do balanço: a Ferrari obteve mais receita com uma base física menor, apoiada no preço, no portfólio e na personalização.

F80 amplia contribuição enquanto Ferrari renova portfólio

A redução do volume também refletiu uma mudança planejada entre modelos. As entregas do 12Cilindri, do 12Cilindri Spider, do Purosangue e da família 296 Speciale aumentaram no trimestre. Amalfi e 849 Testarossa continuaram avançando em suas respectivas curvas de produção, enquanto 296 GTS, Roma Spider e a família SF90 XX perderam espaço à medida que se aproximaram do encerramento de seus ciclos comerciais.

O F80 passou a contribuir de forma mais intensa conforme o cronograma de entregas. A Ferrari atribuiu parte relevante do crescimento do lucro operacional ao mix proporcionado pelo modelo, combinado ao aumento das personalizações. A empresa também apresentou integralmente o Ferrari Luce e revelou o 12Cilindri Manuale, série especial cuja produção já havia sido totalmente destinada a clientes no momento da divulgação do balanço.

A renovação simultânea de diferentes famílias exige controle sobre produção, fornecedores, despesas de desenvolvimento e depreciação. No segundo trimestre, a fabricante teve um efeito temporariamente favorável de menor depreciação e amortização durante a troca de modelos. Esse benefício foi parcialmente neutralizado por custos industriais e de marketing mais altos, além de despesas relacionadas a uma expectativa de melhor posição da equipe no campeonato de Fórmula 1.

A administração afirma que a atual linha de produtos é a mais completa da história da companhia. A carteira de pedidos já cobre integralmente 2027, oferecendo visibilidade incomum para uma fabricante de automóveis. Essa demanda contratada reduz a exposição imediata às oscilações do consumo, embora não elimine riscos relacionados ao câmbio, a tarifas comerciais, a conflitos geopolíticos e ao comportamento do mercado internacional de bens de luxo.

Personalizações sustentam crescimento sem expansão de escala

O presidente-executivo Benedetto Vigna associou diretamente a revisão das projeções à continuidade da demanda por personalizações. Esse segmento permite que o comprador acrescente materiais, pinturas, acabamentos e configurações exclusivas ao veículo, ampliando a receita sem exigir a produção de uma unidade adicional. Para a Ferrari (RACE), a personalização funciona como uma extensão financeira da estratégia de escassez.

A fabricante não informou no balanço quanto as personalizações representaram da receita trimestral. Os documentos oficiais, contudo, deixam claro que o avanço dessa atividade foi um dos principais responsáveis pela melhora do mix e pela elevação das metas para o ano. O efeito torna o resultado menos dependente do simples volume de carros e aumenta a receita média obtida por entrega.

Esse modelo diferencia a Ferrari das montadoras convencionais, cujos resultados normalmente estão mais ligados à escala, à utilização das fábricas, aos estoques e aos descontos comerciais. A companhia italiana trabalha com produção deliberadamente restrita e listas de espera prolongadas. O objetivo não é conquistar participação de mercado por meio de maior oferta, mas proteger a percepção de raridade e ampliar a rentabilidade de cada relação com o cliente.

Para os acionistas, a estratégia oferece margens elevadas e maior previsibilidade de receita. O risco está na exigência de manter um fluxo contínuo de lançamentos desejados, preservar a força da marca e sustentar a disposição dos compradores de pagar por equipamentos opcionais. Uma deterioração na demanda por luxo ou uma recepção fraca a novos modelos poderia reduzir a contribuição econômica do mix.

Lucro semestral chega a €876 milhões e caixa livre soma €929 milhões

Nos seis primeiros meses de 2026, a Ferrari (RACE) registrou lucro líquido de €876 milhões, 5% acima dos €837 milhões obtidos no mesmo período de 2025. O Ebit semestral cresceu igualmente 5%, para €1,153 bilhão, e o Ebitda alcançou €1,477 bilhão. A margem operacional ficou em 30,5%, praticamente estável, enquanto a margem de Ebitda atingiu 39%.

O fluxo de caixa livre das atividades industriais somou €276 milhões no segundo trimestre, alta de 39% em um ano. No semestre, chegou a €929 milhões, crescimento de 14% sobre os €818 milhões da primeira metade de 2025. A geração foi sustentada pela rentabilidade, mas sofreu efeitos dos investimentos, do pagamento de juros e impostos e da variação de capital de giro, provisões e outros itens operacionais.

Os investimentos de capital totalizaram €236 milhões no trimestre e €489 milhões no semestre. Desse valor acumulado, €234 milhões corresponderam a custos de desenvolvimento capitalizados. A companhia também reconheceu €300 milhões em despesas de pesquisa e desenvolvimento diretamente no resultado. Consideradas em conjunto, as duas parcelas somaram €534 milhões, ante €526 milhões um ano antes.

A posição financeira industrial passou de caixa líquido de €388 milhões no fim de março para dívida líquida de €131 milhões em junho. A mudança não decorreu apenas das operações correntes. A Ferrari distribuiu mais de €800 milhões aos acionistas durante o período, dos quais €599 milhões em dividendos e €209 milhões por meio de recompras de ações.

Recompras reduzem ações em circulação e pressionam posição de caixa

A remuneração aos acionistas permanece como um dos pilares da política financeira da Ferrari (RACE). Em abril, a empresa concluiu uma primeira parcela de €250 milhões do programa plurianual de recompra anunciado em 2025 e iniciou uma segunda etapa de igual valor. O plano mais amplo prevê a aquisição de aproximadamente €3,5 bilhões em ações até 2030, condicionada às condições de mercado e à disponibilidade de caixa.

Em 16 de julho, a companhia cancelou 16.644.606 ações ordinárias mantidas em tesouraria desde o fim de 2025, além de 6.686.115 ações com direito especial de voto. Entre 1º e 24 de julho, foram compradas outras 139.732 ações por €45,5 milhões. Ao fim desse período, a empresa mantinha 1.502.095 ações ordinárias em tesouraria.

As recompras podem aumentar o lucro por ação ao reduzir o número de papéis em circulação. No segundo trimestre, o lucro diluído por ação cresceu 10%, ritmo ligeiramente superior à alta de 9% do lucro líquido. Embora parte dessa diferença possa decorrer da redução da base acionária, a evolução também depende da média ponderada de ações considerada durante o período.

A distribuição de dividendos e as recompras explicam parte da passagem de caixa industrial líquido para dívida líquida. O endividamento de €131 milhões permanece baixo em relação à geração de caixa e ao Ebitda da companhia, mas revela que a administração está utilizando recursos para remunerar os investidores enquanto financia uma fase de elevado desenvolvimento tecnológico.

Resultado de 2025 mostra avanço sobre uma base já elevada

A Ferrari (RACE) encerrou 2025 com receita de €7,146 bilhões, alta de 7%, e Ebitda de €2,772 bilhões, com margem de 38,8%. O lucro líquido anual chegou a €1,6 bilhão, enquanto o fluxo de caixa livre industrial alcançou €1,538 bilhão. A companhia entregou 13.640 carros, 112 unidades abaixo de 2024, em mais uma demonstração de crescimento financeiro com volume praticamente estável.

No início de 2026, a fabricante projetava receita anual de aproximadamente €7,5 bilhões, Ebitda mínimo de €2,93 bilhões, Ebit de pelo menos €2,22 bilhões e lucro diluído por ação a partir de €9,45. A meta original de fluxo de caixa livre industrial era de no mínimo €1,5 bilhão. Essas projeções já consideravam uma troca significativa de modelos, maior investimento na marca e aumento das despesas de depreciação.

O primeiro trimestre trouxe receita de €1,848 bilhão, Ebitda de €722 milhões, lucro líquido de €413 milhões e fluxo de caixa livre industrial de €653 milhões. Na ocasião, a companhia manteve as metas anuais e informou que sua carteira avançava até o fim de 2027. Três meses depois, o balanço da Ferrari ofereceu elementos suficientes para uma revisão formal das projeções.

Ferrari eleva receita prevista para €7,6 bilhões em 2026

A nova estimativa de receita passou de cerca de €7,5 bilhões para €7,6 bilhões. O piso do Ebitda ajustado foi elevado de €2,93 bilhões para €2,97 bilhões, com margem mínima mantida em 39%. A projeção de Ebit ajustado avançou de €2,22 bilhões para €2,26 bilhões, preservando margem mínima de 29,5%.

A meta de lucro diluído ajustado por ação subiu de pelo menos €9,45 para €9,68. Para o fluxo de caixa livre industrial, a expectativa aumentou de €1,5 bilhão para €1,55 bilhão. A Ferrari justificou as revisões por personalizações mais fortes do que as previstas inicialmente e por efeitos cambiais adversos menores, considerados os instrumentos de proteção.

As projeções mantêm como premissas uma mudança significativa no portfólio, mix positivo, expansão das receitas de competição e lifestyle, investimentos mais altos na marca e aumento de depreciação com o início da produção de novos veículos. A companhia advertiu que as metas refletem a visibilidade atual sobre os efeitos da crise no Oriente Médio e estão sujeitas a mudanças no cenário internacional.

Para o mercado, o balanço da Ferrari reforça uma característica central do negócio: o crescimento depende menos da quantidade de carros e mais da capacidade de extrair valor de uma produção limitada. Com receita maior, lucro em alta, carteira cobrindo 2027 e projeções ampliadas, a montadora inicia o segundo semestre com elevada visibilidade comercial. A manutenção desse desempenho dependerá da demanda por personalizações, da execução dos novos modelos e da capacidade de financiar investimentos sem comprometer margens e retorno aos acionistas.


Fontes

  1. Ferrari N.V. — Resultados consolidados preliminares e não auditados do segundo trimestre e do primeiro semestre de 2026 — 30 de julho de 2026.
  2. Ferrari N.V. — Resultados consolidados do primeiro trimestre de 2026 e confirmação das projeções anuais — 5 de maio de 2026.
  3. Securities and Exchange Commission — Ferrari N.V., resultados do quarto trimestre e do exercício de 2025, anexados ao Form 6-K — 10 de fevereiro de 2026.
  4. Ferrari N.V. — Conclusão da primeira parcela e abertura da segunda parcela do programa plurianual de recompra de ações — 10 de abril de 2026.
  5. Ferrari N.V. — Relatório periódico do programa de recompra, com operações realizadas no fim de junho de 2026 — 6 de julho de 2026.

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