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Financiamento imobiliário tem 4º melhor janeiro da história

por Maria Helena Costa
04/03/2026 às 21h23
em Economia
Financiamento Imobiliario - Gazeta Mercantil

Financiamento imobiliário via poupança recua, mas mantém força histórica em janeiro

O financiamento imobiliário com recursos da poupança iniciou o ano de 2026 em ritmo mais moderado, refletindo tanto fatores sazonais quanto a redução estrutural no volume de depósitos nas cadernetas. Ainda assim, os números divulgados pela Abecip mostram que o desempenho de janeiro foi o quarto melhor da série histórica para o mês, sinalizando resiliência do crédito habitacional mesmo em ambiente de maior restrição de funding.

De acordo com a entidade, os financiamentos imobiliários com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) somaram R$ 12,1 bilhões em janeiro. O volume representa queda de 8,2% na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Em relação a dezembro, a retração foi mais acentuada, de 28,4%, movimento típico do início do ano.

Leia também: Governador do RS alerta para “maior desastre da história” do estado.

Apesar da desaceleração, o resultado reforça a relevância do financiamento imobiliário lastreado na poupança para o mercado habitacional brasileiro. O montante acumulado em 12 meses alcançou R$ 155,2 bilhões, ainda que com recuo de 15,7% frente ao período anterior.

Quarto melhor janeiro da série histórica

A leitura isolada da queda anual pode sugerir enfraquecimento do financiamento imobiliário, mas o contexto histórico revela cenário mais equilibrado. Janeiro costuma registrar volumes inferiores aos de dezembro, mês tradicionalmente mais forte em contratações. Ainda assim, o desempenho de 2026 figura entre os quatro maiores já registrados para o período desde o início da série histórica da Abecip.

O dado reforça que, mesmo diante da captação negativa da poupança e da concorrência de aplicações financeiras com maior rentabilidade, o financiamento imobiliário permanece como eixo central da política de crédito habitacional no país.

A importância desse indicador vai além do setor imobiliário. O crédito habitacional tem efeito multiplicador na economia, movimentando cadeias como construção civil, indústria de materiais, serviços e geração de empregos.

Número de imóveis financiados também recua

Em janeiro, foram financiados 35,7 mil imóveis nas modalidades de aquisição e construção com recursos do SBPE. O volume representa queda de 28% frente a dezembro e recuo de 5,5% na comparação anual.

No acumulado entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026, o total chegou a 455,6 mil unidades financiadas, retração de 16% em relação aos 12 meses anteriores. O dado confirma que o financiamento imobiliário acompanha a redução gradual do saldo das cadernetas de poupança.

O SBPE depende diretamente dos recursos captados pelas cadernetas. Quando há redução no saldo — seja por resgates elevados ou menor volume de novos depósitos — a capacidade dos bancos de conceder crédito imobiliário tende a diminuir.

Recursos livres ampliam participação

Diante da menor disponibilidade de recursos da poupança desde meados de 2024, o mercado passou a recorrer com maior intensidade às operações com recursos livres. Desde dezembro de 2025, a Abecip divulga também os dados dessa modalidade.

Em janeiro de 2026, os financiamentos imobiliários com recursos livres somaram R$ 2,26 bilhões. O volume foi 1,7% inferior ao registrado em dezembro, mas apresentou crescimento de 3,5% em relação a janeiro do ano anterior.

Em número de unidades, 12,9 mil imóveis foram viabilizados por meio dessa modalidade. Houve retração mensal de 10,1%, mas expansão anual de 14,2%. O avanço indica que parte da demanda por financiamento imobiliário vem sendo atendida fora do funding tradicional da poupança.

A maior participação dos recursos livres altera a dinâmica do crédito habitacional. Em geral, essas operações podem apresentar taxas distintas e critérios de concessão mais alinhados às condições de mercado, ampliando a diversificação das fontes de financiamento.

Poupança registra captação negativa expressiva

A pressão sobre o financiamento imobiliário via SBPE está diretamente ligada ao comportamento da poupança. Em janeiro, a captação líquida foi negativa em R$ 18,8 bilhões — o pior resultado desde janeiro de 2025, quando havia registrado saída de R$ 20,3 bilhões.

O movimento segue padrão sazonal. No início do ano, despesas como IPVA, IPTU, matrículas escolares e tributos diversos elevam os saques. Historicamente, janeiro costuma concentrar as maiores captações negativas do calendário anual.

Nos últimos quatro anos, apenas em 2022 o mês não registrou o pior saldo do ano. Ainda assim, o volume de resgates pressiona o funding do financiamento imobiliário, uma vez que reduz a base de recursos disponível para novas concessões.

Saldo da poupança recua em 12 meses

O saldo das cadernetas do SBPE encerrou janeiro em R$ 752,5 bilhões. O montante representa queda de 1,8% frente a dezembro e retração de 0,7% na comparação anual.

A evolução do saldo é monitorada de perto por incorporadoras, bancos e investidores. Trata-se de um dos principais termômetros do financiamento imobiliário no Brasil. Quando o estoque de recursos diminui, as instituições financeiras tendem a adotar postura mais cautelosa na concessão de crédito.

Mesmo com a redução, o volume ainda é expressivo e sustenta patamar relevante de contratações. O desafio para o setor é equilibrar a demanda por crédito com a disponibilidade de funding, sobretudo em cenário de juros reais elevados e competição com outros produtos financeiros.

Impactos para o mercado imobiliário em 2026

O comportamento do financiamento imobiliário em janeiro serve como sinalizador para o restante do ano. A combinação de captação negativa na poupança, crescimento dos recursos livres e manutenção de volumes historicamente elevados sugere transição estrutural no modelo de funding do crédito habitacional.

Especialistas avaliam que a tendência é de maior diversificação das fontes de recursos, reduzindo gradualmente a dependência exclusiva da poupança. Ao mesmo tempo, o desempenho robusto do mês indica que a demanda por moradia segue consistente.

Para incorporadoras e construtoras, o cenário exige planejamento financeiro mais rigoroso. A previsibilidade do crédito é fator decisivo para lançamento de novos projetos e definição de preços.

Já para o consumidor, o ambiente reforça a importância de planejamento antecipado. A disponibilidade e as condições do financiamento imobiliário podem variar conforme a liquidez do sistema.

Crédito habitacional mantém relevância estratégica

Apesar das oscilações mensais, o financiamento imobiliário continua desempenhando papel estratégico na economia brasileira. O setor habitacional responde por parcela significativa do PIB da construção civil e contribui para a geração de empregos formais.

Os dados de janeiro mostram que, mesmo com retração, o sistema mantém capacidade de financiamento em níveis historicamente elevados para o período. A quarta melhor marca da série reforça a resiliência do mercado diante de condições macroeconômicas desafiadoras.

O desempenho ao longo de 2026 dependerá da trajetória da poupança, do comportamento das taxas de juros e da confiança do consumidor. Enquanto isso, o setor acompanha atentamente cada indicador que possa influenciar o fluxo de crédito.

Em meio às incertezas, uma constatação permanece: o financiamento imobiliário segue como principal motor do mercado habitacional brasileiro, sustentando tanto a realização do sonho da casa própria quanto a dinâmica da construção civil.

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