O candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, apareceu com três anotações feitas à caneta na palma da mão esquerda durante a entrevista concedida à TV Globo na noite desta sexta-feira (28). As inscrições ficaram visíveis em diferentes momentos da transmissão, principalmente quando o senador gesticulava diante dos entrevistadores Renata Vasconcellos e César Tralli.
As imagens permitem identificar as palavras “Mudança” e “Futuro”, além da anotação “7/set”. O detalhe rapidamente chamou atenção durante a transmissão e passou a circular nas redes sociais, numa repetição visual de uma estratégia já usada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em campanhas eleitorais anteriores.
A presença das palavras na mão não significa, porém, que Flávio tenha recorrido às anotações para responder às perguntas feitas pelos jornalistas. Também não houve, durante a entrevista, uma explicação do candidato sobre a finalidade das inscrições. O que as imagens comprovam é que os três registros estavam escritos na palma da mão e ficaram expostos às câmeras em diferentes momentos da sabatina.
A referência a “7/set” ganha significado adicional porque Flávio Bolsonaro e o PL vêm convocando apoiadores para uma manifestação marcada para 7 de setembro na Avenida Paulista, em São Paulo. A concentração está prevista para começar às 15h, e o evento integra a estratégia de mobilização da campanha presidencial do senador.
Dias antes da entrevista, Flávio havia divulgado uma convocação para o ato, pedindo que lideranças políticas, religiosas, comunitárias e apoiadores ajudassem a mobilizar participantes. O próprio Partido Liberal também promoveu a manifestação em seus canais de comunicação. Dessa forma, embora Flávio não tenha explicado durante a sabatina o significado da anotação, a data coincide diretamente com uma das principais mobilizações de rua anunciadas por sua campanha.
Anotação aparece enquanto Flávio gesticula

Flávio participou da entrevista vestindo terno azul e permaneceu durante boa parte da conversa com as mãos sobre a bancada ou utilizando-as para enfatizar as respostas. Foi nesses movimentos que as anotações se tornaram perceptíveis.
Em planos mais abertos, as palavras aparecem parcialmente. Nos enquadramentos em que a palma da mão fica voltada para as câmeras, a leitura é mais clara. A disposição é feita em linhas, com as duas palavras acompanhadas da referência abreviada à data.
A baixa resolução de alguns recortes publicados nas redes sociais provocou leituras diferentes nos primeiros minutos da repercussão. Em imagens mais nítidas da transmissão, entretanto, é possível distinguir “Mudança”, “Futuro” e “7/set”.
A palavra “cola”, usada para definir o episódio, deve ser entendida nesse contexto como uma descrição informal das anotações. Não há elementos que permitam afirmar que Flávio consultou a mão para encontrar respostas ou dados durante a entrevista.
O candidato não foi questionado pelos apresentadores sobre as inscrições, nem interrompeu respostas para consultá-las de forma perceptível. A atenção sobre o conteúdo surgiu sobretudo a partir dos enquadramentos da própria transmissão e da circulação de capturas de tela nas redes sociais.
“7/set” coincide com manifestação convocada pela campanha
Entre as três anotações, “7/set” é a que pode ser relacionada de maneira mais objetiva a uma agenda pública conhecida do candidato.
Flávio Bolsonaro convocou apoiadores para uma manifestação em 7 de setembro na Avenida Paulista. Em mensagens divulgadas antes da sabatina, pediu a participação de lideranças e incentivou simpatizantes a produzirem vídeos para ampliar a mobilização.
A campanha pretende transformar a data da Independência em um de seus principais atos de rua nesta fase da disputa presidencial. A Avenida Paulista já foi usada repetidamente pelo bolsonarismo para demonstrações de força política e manifestações de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
As palavras “Mudança” e “Futuro”, por sua vez, não foram explicadas pelo candidato na entrevista como parte de uma mensagem específica. Os dois termos são compatíveis com a linguagem utilizada por campanhas eleitorais e com o discurso de oposição adotado por Flávio, mas qualquer interpretação mais precisa sobre o motivo pelo qual foram escritos na mão dependeria de uma manifestação do próprio candidato ou de sua campanha.
Por isso, não é possível afirmar apenas pelas imagens que as três inscrições constituíam um slogan planejado ou uma peça de divulgação propositalmente direcionada às câmeras. A hipótese é plausível diante da natureza das palavras e da agenda do dia 7, mas permanece uma interpretação enquanto não houver confirmação.
Flávio foi o quinto candidato entrevistado pela Globo
A entrevista desta sexta-feira integrou a série organizada pela TV Globo com seis candidatos à Presidência da República. Flávio foi o quinto entrevistado, depois de Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Luiz Inácio Lula da Silva. Augusto Cury encerra a sequência neste sábado (29).
A ordem das entrevistas foi definida por sorteio com representantes dos partidos. Segundo as regras divulgadas pela emissora, foram convidados os seis candidatos mais bem posicionados em pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto.
As entrevistas de 2026 passaram a ser exibidas em uma faixa especial após o Jornal Nacional e são conduzidas por Renata Vasconcellos e César Tralli, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, com transmissão simultânea em diferentes plataformas do grupo.
Durante aproximadamente 40 minutos, Flávio foi questionado sobre temas relacionados à campanha presidencial, à trajetória política de sua família e a episódios que envolvem pessoas próximas ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Entre os assuntos da entrevista estiveram o filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro que passou a ser objeto de questionamentos por causa de seu financiamento, e as relações envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Flávio também respondeu sobre o sistema eleitoral, o comportamento que adotaria diante do resultado das urnas, a discussão sobre anistia relacionada aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 e episódios envolvendo integrantes de sua família e antigos aliados.
Em meio a perguntas de forte conteúdo político e jurídico, foi justamente um elemento visual sem relação direta com as respostas que ganhou repercussão imediata fora do estúdio: as três inscrições na mão esquerda do candidato.
Cena lembra estratégia usada por Jair Bolsonaro
A comparação com Jair Bolsonaro ocorreu quase imediatamente porque o ex-presidente já havia utilizado o mesmo recurso em entrevistas e debates eleitorais.
Durante a campanha presidencial de 2022, Jair Bolsonaro chegou ao Jornal Nacional com quatro referências escritas na palma da mão: “Nicarágua”, “Argentina”, “Colômbia” e “Dario Messer”.
As palavras se tornaram assunto durante e depois da entrevista, embora Bolsonaro não tenha desenvolvido todos aqueles temas ao longo da conversa com os apresentadores. A exposição das inscrições provocou buscas na internet e ampla repercussão nas redes sociais.
O episódio de 2022 também não havia sido a primeira vez em que Bolsonaro utilizara a própria mão como suporte para palavras-chave. Na eleição de 2018, durante outra participação televisiva, ele apareceu com “Deus”, “família” e “Brasil” escritos na palma.
O recurso acabou incorporado à memória visual das campanhas do ex-presidente. Por isso, quando Flávio surgiu nesta sexta-feira com palavras escritas de maneira semelhante, a associação com o pai tornou-se inevitável.
Há, no entanto, uma diferença importante entre os episódios. As anotações de Jair em 2022 incluíam nomes de países e de uma pessoa relacionados a assuntos políticos que poderiam ser levantados durante a entrevista. Na mão de Flávio, duas das três inscrições são conceitos genéricos — “Mudança” e “Futuro” — e a terceira é uma data diretamente relacionada a uma manifestação eleitoral previamente convocada.
Isso torna possível que o objetivo das anotações tenha sido diferente, mas não permite concluir, sem confirmação da campanha, que Flávio tenha planejado deliberadamente exibi-las como mensagem aos telespectadores.
Detalhe ganha dimensão política em plena campanha
A repercussão da cena mostra como elementos aparentemente secundários de uma entrevista presidencial podem adquirir dimensão própria durante uma campanha eleitoral.
Em uma sabatina cercada de preparação, regras previamente negociadas e perguntas sobre assuntos potencialmente sensíveis, três palavras escritas à caneta foram suficientes para criar um segundo eixo de discussão nas redes sociais.
Para Flávio, a coincidência entre “7/set” e a manifestação já convocada para a Avenida Paulista ainda conecta a cena a um movimento político concreto que ocorrerá nove dias depois da entrevista.
O 7 de Setembro tornou-se, nos últimos anos, uma data recorrente de mobilização de apoiadores de Jair Bolsonaro. A utilização da Avenida Paulista reforça essa continuidade: o local foi palco de alguns dos maiores atos políticos ligados ao ex-presidente e permanece como espaço estratégico para a demonstração pública de apoio ao grupo.
A manifestação de 2026 também ocorrerá já dentro do período oficial de campanha presidencial, o que amplia sua importância eleitoral. Para Flávio, será uma oportunidade de medir sua capacidade de mobilização nas ruas e de demonstrar até que ponto consegue transferir para sua candidatura a base política construída pelo pai.
Até que o próprio candidato ou sua campanha expliquem por que “Mudança”, “Futuro” e “7/set” estavam escritos em sua mão, contudo, esse significado deve ser tratado separadamente daquilo que as imagens efetivamente comprovam.
O fato é que as três inscrições estavam lá, ficaram visíveis durante uma das principais exposições televisivas da campanha de Flávio Bolsonaro e, poucas horas depois, já haviam se transformado em um dos detalhes mais comentados de sua passagem pela sabatina da TV Globo.








