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Flávio Bolsonaro diz que caso Dark Horse é “página virada” e afirma que contas foram apresentadas

Candidato do PL afirma que documentação sobre os gastos da produção já foi apresentada e tenta encerrar controvérsia que marcou sua pré-campanha; processo eleitoral relacionado ao filme foi extinto pelo TSE sem análise do mérito.

por Carlos Menezes
20/08/2026 às 17h32
em Política
Flavio Bolsonaro - Gazeta Mercantil

O candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, afirmou nesta quinta-feira, 20 de agosto de 2026, em São Paulo, que considera encerrada a controvérsia envolvendo o financiamento de “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Questionado durante uma agenda de campanha sobre a prestação de contas do projeto, o senador disse que os documentos referentes aos gastos já foram apresentados e classificou o episódio como “página virada”.

Flávio sustentou que uma prestação de contas relacionada à produção foi apresentada em processo judicial e afirmou que a documentação não apontaria irregularidades. Ao ser novamente cobrado sobre o assunto, respondeu que não considera haver pendências sob sua responsabilidade. “Da nossa parte, está tudo página virada”, declarou.

A manifestação ocorre mais de três meses depois de o próprio senador reconhecer publicamente que procurou Daniel Vorcaro para obter recursos privados destinados ao projeto. Em maio, Flávio divulgou uma nota na qual afirmou que buscou patrocínio para um filme sobre o pai e negou ter oferecido qualquer contrapartida política ao empresário.

O assunto também chegou à Justiça Eleitoral. Em junho, o Tribunal Superior Eleitoral extinguiu, sem julgamento do mérito, uma representação que pretendia impedir a utilização de “Dark Horse” durante o período eleitoral. A decisão não avaliou se o financiamento ou a eventual divulgação do filme configurariam irregularidade eleitoral. O processo foi encerrado porque o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, entendeu que os autores da ação não tinham legitimidade para apresentar aquele tipo de representação.

Flávio reconheceu busca por patrocínio privado

A versão pública apresentada por Flávio Bolsonaro sobre sua participação no financiamento foi registrada também em documentos oficiais do Congresso.

Em sessão da Câmara dos Deputados de 13 de maio, uma nota atribuída ao senador foi lida integralmente no plenário. No documento, Flávio afirmou que o episódio envolveu “um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”.

O senador declarou ainda que não houve utilização de recursos públicos nem de mecanismos de incentivo cultural. Segundo a nota, ele conheceu Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando Jair Bolsonaro já não ocupava a Presidência da República.

Flávio disse que posteriormente retomou o contato com o empresário em razão do atraso no pagamento de parcelas relacionadas ao patrocínio da produção. Na mesma manifestação, negou ter oferecido vantagens, intermediado negócios com o governo ou recebido recursos em benefício próprio.

“Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo”, afirmou na nota registrada no debate parlamentar.

A defesa apresentada naquele momento passou a ser o principal argumento político do senador sobre o episódio: a captação teria sido feita para uma iniciativa privada, sem recursos orçamentários ou contrapartida envolvendo o exercício de seu mandato.

Caso chegou ao Tribunal Superior Eleitoral

A controvérsia ganhou dimensão eleitoral quando uma representação foi apresentada ao TSE questionando a possibilidade de “Dark Horse” ser utilizado como instrumento de propaganda antecipada ou de promoção política durante as eleições de 2026.

A ação tinha como alvos Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Daniel Vorcaro e alegava, entre outros pontos, que o lançamento e a circulação do filme poderiam beneficiar eleitoralmente integrantes do grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Os autores pediram a suspensão do lançamento comercial, exibições, divulgação patrocinada, utilização de trailers, conteúdos derivados e outras ações promocionais durante o processo eleitoral.

O pedido, porém, não avançou para uma análise sobre o conteúdo da produção ou sobre a origem dos recursos.

Em 12 de junho, Nunes Marques extinguiu o processo ao concluir que os autores da representação não possuíam legitimidade processual para ajuizar a ação nas condições apresentadas. O pedido de liminar também foi considerado prejudicado.

A decisão significa que o TSE não declarou regular ou irregular o financiamento do projeto. Também não houve decisão de mérito sobre eventual uso eleitoral do filme. O processo foi encerrado por uma questão processual relacionada à legitimidade dos responsáveis pela representação.

Decisão não analisou financiamento do filme

A distinção é relevante diante da declaração feita por Flávio nesta quinta-feira de que considera o episódio encerrado.

Na decisão divulgada pelo próprio TSE, o tribunal explica que a representação tratava da possível utilização da cinebiografia como instrumento de propaganda eleitoral antecipada. O pedido buscava limitar a exibição e a promoção do filme durante o calendário eleitoral.

Nunes Marques entendeu que a jurisprudência eleitoral exige determinadas condições para que os autores possam questionar judicialmente um possível benefício eleitoral. Como essas condições não estavam presentes naquele processo, a ação foi extinta sem resolução do mérito.

Não houve, portanto, pronunciamento do tribunal sobre a legalidade da captação privada de recursos para produzir “Dark Horse”.

A Corte também não concluiu naquele julgamento se a divulgação do filme beneficiaria ou não a candidatura de Flávio Bolsonaro. A decisão limitou-se ao requisito processual analisado pelo presidente do tribunal.

Isso permite separar duas questões que passaram a aparecer juntas no debate público: a forma pela qual a produção obteve financiamento e a eventual utilização eleitoral do conteúdo durante a campanha presidencial.

Áudios provocaram debate no Congresso

O relacionamento entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro também foi discutido no Senado e na Câmara após a divulgação de gravações relacionadas à busca de recursos para a produção.

Em 13 de maio, o senador Jaques Wagner levou o assunto ao plenário do Senado. Durante o debate, parlamentares governistas questionaram a proximidade entre Flávio e o empresário, enquanto integrantes do PL argumentaram que a solicitação de patrocínio privado, isoladamente, não constituiria prova de ilegalidade.

O senador Izalci Lucas afirmou no plenário que um pedido de patrocínio não poderia, por si só, ser interpretado como corrupção. A discussão ocorreu enquanto Flávio divulgava sua própria versão do episódio pelas redes sociais.

Registro da Rádio Senado reproduziu parte dessa manifestação. Flávio afirmou que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024 e disse que o contato posterior esteve relacionado ao cumprimento das parcelas previstas para o financiamento do projeto.

A discussão sobre o filme tornou-se, assim, uma das primeiras controvérsias de maior dimensão enfrentadas por Flávio antes da formalização de sua candidatura ao Palácio do Planalto.

PL formalizou candidatura em julho

A condição de candidato foi oficializada posteriormente pela convenção nacional do Partido Liberal.

Ata registrada na Justiça Eleitoral mostra que a legenda aprovou, em 25 de julho, a indicação de Flávio Nantes Bolsonaro para concorrer à Presidência da República nas eleições de 2026.

Segundo o documento, foram contabilizados 230 votos favoráveis à indicação, nenhuma manifestação contrária e uma abstenção. A convenção também delegou poderes à direção nacional da legenda para deliberar sobre coligações e sobre a composição da chapa presidencial.

A formalização ocorreu mais de dois meses depois do início da controvérsia sobre “Dark Horse”, levando o assunto da fase de pré-campanha para o contexto de uma candidatura presidencial oficialmente escolhida pelo partido.

Desde então, Flávio passou a cumprir agendas eleitorais e a responder ao tema como candidato, e não apenas como senador e pré-candidato.

A declaração desta quinta-feira ocorreu durante compromissos políticos na capital paulista. Ao ser questionado novamente sobre a produção, ele sustentou que a documentação já existente seria suficiente para esclarecer o destino dos recursos e tentou deslocar o debate para cobranças contra adversários políticos.

Prestação de contas continua no centro da controvérsia

A afirmação de que houve prestação de contas não equivale, por si só, a uma decisão de órgão público certificando integralmente a origem e a destinação de todos os recursos ligados à produção.

Nos registros públicos oficiais localizados sobre o tema, o que existe de forma clara é a versão apresentada pelo próprio Flávio, a discussão parlamentar provocada pelo caso e o processo eleitoral posteriormente extinto sem análise de mérito.

O senador já havia defendido, desde maio, que a produção apresentasse detalhamento das despesas. Na ocasião, ele também afirmou que os recursos relacionados ao patrocinador deveriam permanecer identificados e disponíveis para eventual análise das autoridades.

A posição atual é mais categórica. Nesta quinta-feira, Flávio afirmou que a prestação já foi feita e que, do ponto de vista dele, não existe mais uma questão pendente a ser respondida pela campanha.

Essa avaliação é uma posição do candidato e não deve ser confundida com o conteúdo da decisão do TSE. O tribunal não examinou a prestação de contas financeira da produção ao extinguir a representação sobre eventual propaganda eleitoral antecipada.

Filme permanece ligado ao debate eleitoral

“Dark Horse” retrata a trajetória de Jair Bolsonaro e passou a integrar o debate político de 2026 antes mesmo da formalização da candidatura de Flávio.

O processo apresentado ao TSE evidenciou justamente a preocupação de adversários com a possibilidade de a produção cinematográfica exercer influência eleitoral. Ao extinguir a ação, porém, o tribunal não respondeu a essa discussão em seu mérito.

A situação poderá voltar à Justiça Eleitoral caso surja um novo processo proposto por parte legitimada e sustentado em fatos que se enquadrem na legislação eleitoral. A decisão de junho não impede automaticamente novas ações baseadas em situações posteriores ou fundamentos jurídicos diferentes.

Também permanece aplicável ao filme a legislação eleitoral geral, que disciplina propaganda, financiamento de campanha e utilização de meios de comunicação para promover candidaturas.

A candidatura presidencial de Flávio, por sua vez, passou por uma etapa formal decisiva com a convenção partidária de julho. A documentação registrada no TSE confirma sua escolha pelo PL para disputar o cargo de presidente.

Com a campanha oficialmente em curso, qualquer eventual utilização eleitoral da produção deverá ser analisada à luz das regras aplicáveis ao período de propaganda. A declaração de Flávio de que o episódio está encerrado representa sua posição política sobre o financiamento e a prestação de contas, enquanto a única decisão eleitoral pública localizada sobre “Dark Horse” permanece sendo a extinção, sem julgamento do mérito, da representação decidida pelo TSE em junho.

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