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Flávio Bolsonaro pede adiamento de tarifa dos EUA e diz que medida fortaleceria Lula

Senador envia nova manifestação ao USTR antes da audiência de 6 de julho e defende negociação para evitar sobretaxa de 25%.

por Júlia Campos
02/07/2026 às 14h42
em Política
Flavio Bolsonaro E Donald Trump - Gazeta Mercantil

Reprodução

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) encaminhou nesta quinta-feira (2) uma nova manifestação ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), em Washington, para pedir que o governo do presidente Donald Trump suspenda a proposta de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros e adie qualquer decisão até o encerramento das negociações comerciais. O parlamentar argumenta que a tarifa dos EUA afetaria exportadores e consumidores, agravaria a crise diplomática e poderia fortalecer politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em pleno ano eleitoral.

O documento foi apresentado às vésperas da audiência pública marcada para 6 de julho, na sede da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos, em Washington. Flávio Bolsonaro está inscrito para participar da sessão, convocada pelo USTR para ouvir empresas, associações, autoridades e outros interessados antes de uma definição sobre as medidas comerciais contra o Brasil.

A audiência integra uma investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. O processo foi aberto em 15 de julho de 2025 e analisa práticas brasileiras que, segundo o órgão norte-americano, seriam prejudiciais ou discriminatórias ao comércio dos Estados Unidos. O USTR recebeu mais de 295 manifestações e realizou consultas formais com representantes brasileiros antes de propor a tarifa dos EUA.

Na nova manifestação, Flávio Bolsonaro afirma que uma retaliação comercial produziria resultado contrário ao pretendido por Washington. Na avaliação do senador, o Palácio do Planalto teria adotado uma estratégia de prolongar o impasse para transformar a tarifa dos EUA em instrumento de mobilização política interna.

Senador acusa governo de explorar crise com Washington

O documento sustenta que o governo brasileiro estaria evitando negociações efetivas e elevando o tom contra os Estados Unidos para construir uma narrativa de enfrentamento externo. Essa interpretação, porém, é uma posição política do senador e é contestada pelo governo federal, que afirma manter canais diplomáticos e comerciais abertos com Washington.

“O governo brasileiro vem protelando negociações sérias, provocando Washington para gerar uma retaliação e, em seguida, transformar essa retaliação em uma vitória política interna”, afirma a manifestação encaminhada pelo parlamentar.

Ao associar a tarifa dos EUA ao ambiente eleitoral, Flávio Bolsonaro tenta separar sua atuação política das consequências econômicas de uma eventual sobretaxação. Desde o anúncio da proposta, integrantes do governo e do PT passaram a responsabilizar membros da família Bolsonaro pela deterioração das relações com a administração Trump.

O senador, por sua vez, afirma que procurou autoridades norte-americanas para impedir a aplicação das tarifas. Em junho, ele já havia solicitado participação na audiência do USTR e informado que defenderia a suspensão da cobrança em nome de exportadores brasileiros, importadores dos Estados Unidos e consumidores dos dois países.

Na ocasião, Flávio pediu cinco minutos para apresentar seus argumentos. Também declarou ter tratado do assunto em encontros com Donald Trump, o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio. Segundo o senador, a tarifa dos EUA não corrigiria as práticas apontadas pela investigação e atingiria agentes econômicos sem responsabilidade direta pelas divergências entre os governos.

Relação bilateral entra no centro da manifestação

Outro eixo do documento é a defesa da relação histórica entre Brasil e Estados Unidos. Flávio Bolsonaro afirma que os dois países mantiveram uma parceria estratégica durante mais de oito décadas, mas que a política externa conduzida pelo governo Lula teria provocado um afastamento gradual de Washington.

“Por mais de oitenta anos, Estados Unidos e Brasil foram parceiros de primeira ordem. Apenas recentemente o governo brasileiro afastou o relacionamento do hemisfério ao qual o Brasil pertence”, diz o texto.

A afirmação reforça a tentativa do senador de apresentar a tarifa dos EUA não apenas como uma disputa comercial, mas como consequência de um desalinhamento político entre as duas maiores economias do continente americano.

O governo brasileiro rejeita essa leitura. O Palácio do Planalto e o Itamaraty afirmam que a política externa do país preserva a autonomia diplomática e busca manter relações com diferentes blocos econômicos, sem estabelecer alinhamento automático com qualquer potência.

Brasília também contesta as conclusões da investigação do USTR. O governo sustenta que a política comercial brasileira não discrimina empresas norte-americanas, não viola as normas internacionais vigentes e não impõe prejuízos deliberados ao comércio dos Estados Unidos.

O Planalto argumenta ainda que os Estados Unidos registram superávit nas trocas comerciais com o Brasil, condição usada pelo governo brasileiro para questionar a justificativa econômica da tarifa dos EUA. A administração Lula informou ter apresentado documentação ao USTR e mantém a posição de que o diálogo deve ocorrer diretamente entre os dois governos.

USTR aponta seis áreas de conflito comercial

A investigação norte-americana reúne temas que ultrapassam o comércio tradicional de mercadorias. O USTR aponta problemas em seis áreas: comércio digital e serviços eletrônicos de pagamento, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

No campo dos pagamentos digitais, o órgão afirma que políticas relacionadas ao Pix teriam favorecido o sistema administrado pelo Banco Central em detrimento de empresas norte-americanas que oferecem serviços concorrentes. O USTR sustenta que a atuação simultânea do Banco Central como regulador e operador do Pix criaria vantagens competitivas para a plataforma brasileira.

O governo brasileiro rejeita essa interpretação e considera o Pix uma infraestrutura pública de pagamentos, aberta a instituições nacionais e estrangeiras que cumpram as regras estabelecidas pelo Banco Central.

O USTR também questiona tarifas preferenciais concedidas pelo Brasil a produtos originários do México e da Índia. Segundo a agência, os acordos beneficiariam mercadorias desses países em áreas nas quais empresas norte-americanas também são competitivas, como veículos, autopeças, máquinas, produtos químicos e itens agrícolas.

Outros pontos incluem o tratamento dado às importações de etanol dos Estados Unidos, a demora na análise de patentes, a fiscalização de produtos falsificados e a aplicação das normas brasileiras contra a corrupção e o desmatamento ilegal.

Com base nessas conclusões, o USTR declarou que determinadas práticas brasileiras seriam “não razoáveis ou discriminatórias” e restringiriam o comércio norte-americano. A tarifa dos EUA aparece no processo como uma possível ação corretiva, embora a cobrança ainda não tenha sido definitivamente aprovada.

Rubio apontou audiência como canal institucional

A manifestação de Flávio Bolsonaro também cita uma carta enviada por Marco Rubio. Na resposta ao senador, o secretário de Estado indicou que a consulta pública e a audiência conduzidas pelo USTR constituíam os instrumentos institucionais disponíveis para discutir a tarifa dos EUA.

Rubio informou que empresas, entidades e demais interessados poderiam apresentar argumentos sobre os efeitos da medida. O prazo principal para manifestações escritas terminou em 1º de julho, enquanto a audiência está prevista para a próxima segunda-feira, 6.

Flávio Bolsonaro usa a correspondência para criticar a decisão do governo brasileiro de não enviar uma autoridade política à audiência. “É justamente essa via que o governo Lula se recusou a utilizar para defender as empresas brasileiras e o Brasil”, afirma o documento.

O Itamaraty apresenta uma explicação diferente. Segundo o ministério, audiências da Seção 301 são destinadas prioritariamente à participação do setor privado e da sociedade civil, enquanto governos estrangeiros mantêm negociações por canais diplomáticos diretos.

A Embaixada do Brasil em Washington deverá acompanhar a sessão, mas não está prevista a participação de ministros ou representantes políticos do Executivo como expositores. O governo afirma que participa da investigação desde sua abertura e que já apresentou formalmente seus argumentos às autoridades norte-americanas.

A resposta de Rubio, datada de 23 de junho, também reiterou as divergências identificadas pelos Estados Unidos em áreas como pagamentos eletrônicos, propriedade intelectual, etanol, tarifas preferenciais e desmatamento.

Tarifa pode atingir margens e contratos de exportadores

Caso seja confirmada, a tarifa dos EUA elevará o custo de entrada dos produtos brasileiros no mercado norte-americano. O impacto efetivo dependerá da lista final de mercadorias atingidas, das exceções concedidas e da capacidade de exportadores e importadores de renegociar preços e contratos.

Parte do custo pode ser absorvida pelas empresas brasileiras por meio da redução das margens. Outra parcela pode ser repassada aos compradores norte-americanos, aumentando o preço final de insumos e mercadorias. Também existe a possibilidade de divisão do impacto entre exportadores, importadores, distribuidores e consumidores.

Empresas com maior dependência dos Estados Unidos tendem a enfrentar exposição mais elevada à tarifa dos EUA. Companhias com mercados diversificados podem buscar redirecionar embarques, embora a substituição de destinos envolva custos logísticos, regras regulatórias e condições comerciais diferentes.

A incerteza também afeta decisões de investimento. Enquanto não houver uma definição, exportadores podem adiar contratos, revisar projeções de receita e reforçar mecanismos de proteção cambial. Importadores norte-americanos, por sua vez, podem antecipar compras ou procurar fornecedores em outros países.

A proposta do USTR prevê exceções para determinadas categorias de produtos. A abrangência final, no entanto, dependerá da avaliação das manifestações recebidas, da audiência pública e das negociações mantidas entre Brasília e Washington.

O efeito sobre a economia brasileira também será determinado pelo volume de exportações efetivamente alcançado. Uma tarifa dos EUA concentrada em poucos produtos produziria impacto setorial. Uma aplicação mais ampla aumentaria a pressão sobre comércio exterior, atividade industrial e cadeias produtivas ligadas ao mercado norte-americano.

Impasse comercial ganha dimensão eleitoral

A discussão deixou de ser restrita à política comercial e passou a integrar a disputa política brasileira. O governo Lula afirma que a medida norte-americana possui componentes políticos e acusa aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro de atuar no exterior contra interesses nacionais.

Flávio Bolsonaro nega ter defendido punições econômicas contra o Brasil. O senador sustenta que suas reuniões nos Estados Unidos buscaram evitar que divergências políticas entre os governos se convertessem em prejuízos para empresas e trabalhadores brasileiros.

Ao dizer que a tarifa dos EUA fortaleceria Lula, o parlamentar reconhece o risco de a medida alimentar um discurso de defesa da soberania nacional. Uma retaliação imposta por Washington poderia permitir ao Planalto apresentar a disputa como uma pressão externa sobre o país.

A oposição também enfrenta o desafio de manter proximidade política com Donald Trump sem assumir responsabilidade pela decisão comercial norte-americana. Essa tensão explica a ênfase de Flávio na suspensão da tarifa dos EUA e na necessidade de preservar as relações econômicas entre os dois países.

Para o governo, a atuação do senador representa uma tentativa de estabelecer uma interlocução paralela com Washington. Para Flávio, sua presença na audiência decorre da ausência de representantes políticos do Executivo em um espaço institucional que poderia ser utilizado para contestar a medida.

As duas versões deverão continuar em disputa mesmo depois da audiência. Qualquer decisão da administração Trump terá repercussões econômicas e será incorporada imediatamente ao debate político brasileiro.

Audiência de 6 de julho concentra disputa antes do prazo final

O calendário do USTR impõe uma janela curta para negociação. A audiência de 6 de julho será realizada na sede da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos, em Washington, e poderá se estender pelo dia útil seguinte caso o número de participantes exija mais tempo.

Depois da sessão, o escritório comercial avaliará os depoimentos, as manifestações escritas e os pedidos de exclusão de produtos. A investigação foi aberta em 15 de julho de 2025, e o USTR indicou a mesma data de 2026 como prazo estatutário para a adoção de uma resposta.

A definição formal caberá ao governo Donald Trump. A administração norte-americana poderá confirmar a tarifa dos EUA, modificar a alíquota, ampliar ou reduzir a lista de exceções, adiar a cobrança ou suspender a medida em razão de um acordo com o Brasil.

Até lá, a estratégia de Flávio Bolsonaro será defender que Washington não transforme divergências diplomáticas e regulatórias em uma sanção comercial ampla. O senador sustenta que empresas e consumidores seriam os principais afetados e que a medida poderia gerar um resultado político oposto ao esperado pelos Estados Unidos.

O governo Lula seguirá apostando na interlocução direta entre os dois Executivos e na contestação técnica das acusações do USTR. Brasília afirma que a ausência de ministros na audiência não representa abandono das negociações e que os interesses brasileiros vêm sendo tratados pelos canais oficiais.

Com a proximidade do prazo final, a tarifa dos EUA mantém empresas em estado de atenção e coloca a relação entre Brasília e Washington sob nova pressão. A audiência de segunda-feira será a última etapa pública relevante antes de a administração Trump decidir se transforma a ameaça comercial em uma sobretaxa efetiva sobre produtos brasileiros.

Tags: Brasilcomércio exteriorDonald TrumpEleições 2026Estados UnidosFlávio BolsonaroLulaPolíticatarifa dos EUAUSTR

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