O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta terça-feira, 19 de maio de 2026, em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, que a criação de novas carteiras de investimentos pelo Banco Master em meio à crise de liquidez da instituição foi o ponto que acendeu o alerta da autoridade monetária sobre problemas na gestão do banco de Daniel Vorcaro. Segundo Galípolo, a prática chamou atenção porque uma instituição com dificuldade de caixa normalmente busca vender ativos já existentes, e não formar novas carteiras para captar recursos no mercado.
A declaração foi feita durante sessão convocada para discutir a atuação do Banco Central no caso do Banco Master, liquidado extrajudicialmente em 18 de novembro de 2025, após a negativa do BC à tentativa de compra da instituição pelo Banco Regional de Brasília (BRB), banco público ligado ao Governo do Distrito Federal. A liquidação ocorreu em meio a investigações sobre supostas fraudes bilionárias no sistema financeiro.
Galípolo defendeu a atuação do Banco Central no episódio e afirmou que a autarquia monitorou a deterioração das condições de governança, capital e liquidez do Master. De acordo com o presidente do BC, a instituição havia firmado em novembro de 2024 um termo de compromisso para adequar sua situação em prazo de seis meses, mas passou a buscar alternativas de captação em meio à deterioração financeira.
Carteiras novas levantaram suspeita no BC
A principal explicação de Galípolo aos senadores foi que a formação de novas carteiras de investimentos não era compatível com o quadro de dificuldade de liquidez apresentado pelo Banco Master. Liquidez bancária é a capacidade de uma instituição honrar obrigações de curto prazo, pagar resgates, atender correntistas e manter recursos disponíveis para operações ordinárias.
Segundo o presidente do BC, um banco pressionado por falta de dinheiro tende a vender carteiras já existentes para levantar caixa. A criação de uma carteira nova, em contrapartida, sugeria uma tentativa de captar recursos por meio de operações que exigiam análise mais detalhada da origem, qualidade e lastro dos ativos.
Galípolo afirmou que esse comportamento levou o Banco Central a agir de forma imediata. A partir de janeiro de 2025, quando o Master passou a formar novas carteiras mesmo em meio a problemas de liquidez, a autoridade monetária criou um grupo específico para examinar essas operações.
O movimento reforçou a preocupação do BC com a estrutura financeira da instituição. Para a autoridade monetária, o problema não estava apenas na dificuldade de liquidez, mas na tentativa de gerar novos instrumentos de captação quando o banco já enfrentava restrições no mercado.
Termo de compromisso previa ajustes em seis meses
Na audiência, Galípolo afirmou que o Banco Central assinou um termo de compromisso com o Master em novembro de 2024. Pelo acordo, o banco teria seis meses para promover ajustes relacionados a governança, capital e liquidez.
O termo indicava que a autoridade monetária já acompanhava a instituição antes da liquidação. A partir desse momento, segundo Galípolo, o Master buscou captar recursos no mercado com garantias do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo privado que protege investidores e correntistas dentro de limites estabelecidos.
Com o avanço da crise, o banco começou a enfrentar restrições para captar recursos com o apelo da cobertura do FGC. Em seguida, tentou captar dinheiro junto a fundos de investimento, mas não teve sucesso, conforme relatou o presidente do BC.
Diante desse cenário, o Master intensificou operações de venda de carteiras, estratégia que já vinha sendo usada desde 2023, especialmente em transações com o BRB. Esse histórico passou a ser examinado com maior atenção por órgãos de controle e investigação.
Operações com BRB são investigadas pela Polícia Federal
A venda de carteiras do Banco Master ao BRB está sob investigação da Polícia Federal. A suspeita envolve possível fraude em cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos vendidos à instituição pública do Distrito Federal, conforme informações divulgadas pela Agência Brasil e por veículos que acompanham o caso.
As investigações ainda estão em andamento. Os citados têm direito à defesa, e tanto o BRB quanto os envolvidos nas operações podem contestar as suspeitas nos procedimentos competentes. A existência de apuração não representa condenação.
O ponto central da investigação é verificar se os créditos vendidos pelo Master ao BRB tinham lastro, valor e documentação compatíveis com as condições apresentadas. A Polícia Federal apura se houve operações fraudulentas ou créditos sem validade econômica suficiente.
O BRB chegou a tentar comprar o Banco Master, mas a operação não foi autorizada pelo Banco Central. A negativa do BC ocorreu antes da liquidação extrajudicial da instituição de Daniel Vorcaro, em novembro de 2025.
FGC entrou no centro da crise do Master
O Fundo Garantidor de Créditos teve papel central na crise do Banco Master porque a instituição captava recursos no mercado oferecendo produtos bancários cobertos pelo mecanismo de garantia. O FGC protege aplicações elegíveis até determinado limite por CPF ou CNPJ, conforme as regras vigentes.
Na prática, a cobertura do FGC pode tornar determinados produtos mais atraentes para investidores, mesmo quando a instituição emissora oferece remuneração elevada. Esse modelo foi um dos fatores que impulsionaram o crescimento do Master no mercado de CDBs e outros instrumentos de captação.
Após a liquidação, o FGC passou a enfrentar uma das maiores obrigações de pagamento de sua história recente. Reportagem da Reuters apontou que o fundo poderia reembolsar R$ 40,6 bilhões a cerca de 800 mil investidores ligados ao Banco Master.
O volume chamou atenção porque evidenciou o tamanho da exposição de investidores à instituição. Também reacendeu o debate sobre os limites do uso da garantia como instrumento de captação agressiva por bancos de menor porte.
Galípolo nega risco sistêmico no mercado financeiro
Durante a audiência no Senado, Galípolo voltou a afirmar que a liquidação do Banco Master não representava risco sistêmico para o mercado financeiro. Segundo ele, o banco correspondia a menos de 0,5% do sistema bancário, proporção considerada insuficiente para provocar uma crise generalizada no setor.
A avaliação do Banco Central é relevante porque a liquidação extrajudicial de uma instituição financeira pode, em tese, gerar contágio se houver perda de confiança em outros bancos, corrida por saques ou dúvidas sobre a solidez do sistema. No caso do Master, a autoridade monetária sustentou que o problema estava concentrado na própria instituição.
O Comitê de Estabilidade Financeira do Banco Central já havia indicado que a liquidação do Banco Master não trazia risco sistêmico. A avaliação oficial reforçou a leitura de que o impacto era relevante para credores, investidores e o FGC, mas não ameaçava a estabilidade do sistema bancário como um todo.
Galípolo afirmou que o que mais chamou atenção no caso foi o uso do dinheiro que estava no Banco Master. A declaração desloca o foco da audiência para a qualidade das operações, a destinação dos recursos captados e a governança da instituição.
Presidente do BC diz que liquidação não é punição
Galípolo também afirmou aos senadores que a liquidação extrajudicial de um banco não deve ser entendida como punição direta aos gestores. Segundo ele, liquidar uma instituição atinge correntistas, credores e investidores, que também são vítimas quando há má gestão ou irregularidades.
O presidente do BC sustentou que a medida só é adotada quando a instituição chega a um ponto específico de inviabilidade. A liquidação, portanto, seria uma decisão voltada a proteger o sistema e organizar o encerramento das atividades, e não um mecanismo de responsabilização penal ou administrativa dos administradores.
Essa distinção é importante no caso do Master. A responsabilização de gestores, controladores ou terceiros depende de investigações próprias, com apuração de condutas, provas, contraditório e direito de defesa. Já a liquidação extrajudicial tem natureza regulatória e busca lidar com a insolvência ou inviabilidade da instituição.
A fala de Galípolo também procura responder a críticas sobre uma suposta demora do Banco Central em agir. Ao detalhar as etapas de monitoramento, o termo de compromisso e a criação de grupo específico para analisar carteiras, o presidente do BC tentou demonstrar que a autarquia acompanhou a deterioração do banco antes da intervenção final.
Supostos investidores árabes foram citados em proposta de saída
Antes da liquidação, o Banco Master ainda teria apresentado uma proposta de saída organizada do mercado. Segundo Galípolo, a alternativa envolveria supostos investidores árabes que assumiriam uma espécie de autoliquidação da instituição.
O presidente do Banco Central afirmou, porém, que jamais teve conhecimento direto de quem seriam esses investidores. A declaração expõe mais um ponto de incerteza na tentativa do Master de encontrar uma solução privada antes da liquidação extrajudicial.
De acordo com o relato, após a rejeição da compra pelo BRB, o banco apresentou um segundo pedido de carta ao FGC e ao Banco Central, afirmando que faria uma saída organizada do mercado. Na avaliação de Galípolo, esse movimento equivalia a reconhecer que o banco já não era mais viável.
A ausência de informações concretas sobre os supostos investidores reforçou a posição do BC de que a solução proposta não oferecia segurança suficiente. Sem identificação clara dos financiadores, capacidade de execução e garantias de cumprimento, a alternativa não avançou.
Caso Master amplia pressão sobre regulação bancária
O caso Banco Master deve ampliar o debate sobre regulação de liquidez, captação bancária, governança e uso do FGC como instrumento de atração de investidores. A crise expôs a necessidade de acompanhar com maior rigor instituições que crescem rapidamente com produtos de alta remuneração e forte apelo de garantia.
Para investidores, o episódio reforça que a cobertura do FGC reduz risco de crédito até os limites previstos, mas não elimina riscos operacionais, prazos de ressarcimento, concentração de recursos e efeitos indiretos de uma liquidação. A remuneração elevada continua exigindo análise sobre a saúde da instituição emissora.
Para bancos médios e pequenos, a repercussão pode resultar em maior escrutínio sobre estrutura de ativos, composição de carteiras, qualidade de crédito e compatibilidade entre captação e liquidez. O BC tende a enfrentar pressão para aperfeiçoar mecanismos de supervisão e reduzir brechas regulatórias.
No Congresso, a audiência com Galípolo ocorre em um ambiente de cobrança por transparência nas operações envolvendo Master e BRB. Parlamentares querem esclarecer o papel do Banco Central, a atuação do FGC, as operações de venda de carteiras e os impactos para investidores e instituições públicas.
Venda de carteiras mantém Master no centro das investigações
A explicação de Galípolo coloca a venda e a formação de carteiras no centro da crise do Banco Master. Para o Banco Central, o sinal de alerta apareceu quando a instituição, já pressionada por liquidez, passou a estruturar novas carteiras para captar dinheiro no mercado.
A sequência de fatos relatada pelo presidente do BC indica que a autoridade monetária acompanhou a deterioração da instituição ao longo de 2025, da tentativa de adequação por termo de compromisso à análise específica das carteiras e à posterior negativa da compra pelo BRB.
O caso ainda deve produzir desdobramentos regulatórios, políticos e criminais. A Polícia Federal apura suspeitas de fraude nas operações de crédito vendidas ao BRB, enquanto o Banco Central busca defender sua atuação diante de questionamentos no Senado.
A liquidação extrajudicial encerrou a operação do Master como instituição viável, mas não encerrou as discussões sobre responsabilidades. A partir de agora, o foco recai sobre a origem dos ativos, a qualidade das carteiras, a atuação dos gestores, o papel do BRB e os mecanismos de proteção usados para captar recursos no mercado.








