A percepção dos brasileiros sobre a economia segue predominantemente negativa, segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (10). O levantamento aponta que 44% dos entrevistados consideram que a economia piorou nos últimos 12 meses, enquanto apenas 20% afirmam que houve melhora no período. A avaliação é influenciada principalmente pela alta dos preços dos alimentos, pela redução do poder de compra das famílias e pela percepção de maior dificuldade para conseguir emprego.
Realizada entre os dias 5 e 8 de junho, a pesquisa ouviu 2.004 pessoas em entrevistas presenciais em todo o país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
Os números revelam um cenário de cautela entre os consumidores, mesmo diante de indicadores econômicos que, em alguns segmentos, apontam para crescimento da atividade e avanço da ocupação formal. A distância entre os dados macroeconômicos e a percepção da população tem sido um dos principais desafios para governos e formuladores de políticas públicas.
Na comparação com o levantamento realizado em maio, houve leve recuo de dois pontos percentuais no grupo que avalia que a economia piorou. Apesar disso, o percentual permanece elevado e dentro da margem de erro, indicando estabilidade no sentimento predominante entre os brasileiros.
Já a parcela que considera que a situação econômica permanece igual à de um ano atrás avançou de 30% para 33%. O grupo que percebe melhora recuou de 22% para 20%.
Alta dos alimentos continua pressionando avaliação da economia
Entre os fatores que ajudam a explicar a visão negativa sobre a economia, a inflação percebida pelos consumidores aparece como elemento central.
Segundo a pesquisa, 69% dos entrevistados afirmam que os preços dos alimentos aumentaram nos últimos 12 meses. Outros 22% disseram que os preços permaneceram estáveis, enquanto apenas 7% relataram queda.
O resultado reforça a importância dos alimentos na formação da percepção econômica da população. Mesmo quando índices gerais de inflação mostram desaceleração em determinados períodos, produtos consumidos diariamente exercem impacto direto sobre o orçamento das famílias.
Especialistas em comportamento econômico frequentemente destacam que alimentos, combustíveis e contas básicas possuem peso maior na avaliação popular da economia porque representam despesas recorrentes e facilmente percebidas pelos consumidores.
Nos últimos anos, oscilações em itens essenciais têm influenciado de maneira significativa os indicadores de confiança do consumidor e as avaliações sobre a situação econômica do país.
Poder de compra registra deterioração na visão da população
Outro dado que chama atenção no levantamento é a percepção sobre a renda disponível das famílias.
Para 67% dos entrevistados, o poder de compra dos brasileiros é hoje menor do que era há um ano. Apenas 13% afirmam que a capacidade de consumo aumentou no período, enquanto 19% consideram que permaneceu igual.
O indicador sugere que parte relevante da população ainda sente dificuldades para acompanhar a evolução dos preços, mesmo em um ambiente de crescimento da massa salarial e de expansão do emprego formal observados em diferentes momentos recentes da economia brasileira.
A percepção de perda de poder aquisitivo costuma estar diretamente relacionada ao comportamento dos preços dos produtos essenciais. Quando alimentos, energia, transporte e serviços básicos avançam acima da renda disponível, consumidores tendem a avaliar negativamente a situação econômica.
Além disso, juros elevados ao longo dos últimos anos também contribuíram para encarecer o crédito, afetando decisões de consumo e investimentos das famílias.
A combinação desses fatores ajuda a explicar por que a avaliação da economia permanece mais negativa do que alguns indicadores econômicos poderiam sugerir.
Mercado de trabalho ainda inspira preocupação
A pesquisa também investigou a percepção dos brasileiros sobre as condições do mercado de trabalho.
Segundo os dados, 53% dos entrevistados acreditam que está mais difícil conseguir emprego atualmente do que há um ano. Para 36%, a situação melhorou, enquanto 6% avaliam que permanece igual.
O resultado mostra que, embora o mercado de trabalho tenha registrado avanços em diferentes indicadores nos últimos anos, uma parcela significativa da população ainda percebe obstáculos para encontrar ocupação ou recolocação profissional.
A avaliação sobre emprego costuma exercer forte influência sobre o sentimento econômico geral. Quando trabalhadores identificam maior insegurança em relação à geração de renda futura, o consumo tende a desacelerar e as perspectivas econômicas tornam-se mais conservadoras.
O levantamento sugere que essa percepção continua presente entre grande parte dos brasileiros.
Além da disponibilidade de vagas, fatores como qualidade do emprego, nível salarial, informalidade e estabilidade das contratações também influenciam a forma como a população avalia o mercado de trabalho.
Expectativas para os próximos 12 meses permanecem mais favoráveis
Apesar da avaliação predominantemente negativa sobre a situação atual, a pesquisa aponta um cenário mais otimista quando os entrevistados projetam o futuro da economia.
Segundo o levantamento, 39% acreditam que a economia estará melhor daqui a um ano. Já 29% afirmam que a situação deve piorar, enquanto 26% esperam estabilidade.
Os números mostram que, embora exista insatisfação com o momento atual, parte relevante da população ainda mantém expectativa de melhora para os próximos meses.
Esse comportamento é relativamente comum em pesquisas de percepção econômica. Em muitos casos, consumidores avaliam negativamente o presente, mas demonstram confiança de que políticas públicas, investimentos, geração de empregos ou mudanças nas condições econômicas possam produzir resultados positivos adiante.
A diferença de dez pontos percentuais entre os que esperam melhora e aqueles que projetam piora indica que o sentimento de expectativa positiva continua predominante.
Ainda assim, a proporção de entrevistados que prevê deterioração da economia permanece significativa e evidencia que a confiança dos consumidores segue condicionada ao comportamento da inflação, da renda e do mercado de trabalho.
Percepção econômica segue relevante para o ambiente político
Os resultados da Genial/Quaest surgem em um momento em que indicadores econômicos continuam ocupando posição central no debate público e político.
Historicamente, avaliações sobre inflação, renda familiar, emprego e custo de vida exercem forte influência sobre a aprovação de governos e sobre a percepção dos eleitores em relação à condução da política econômica.
O levantamento mostra que os preços dos alimentos permanecem como um dos principais fatores de preocupação para a população. A combinação entre custo de vida elevado e sensação de perda de poder de compra ajuda a explicar por que a economia continua sendo um dos temas mais sensíveis para os brasileiros.
Ao mesmo tempo, o fato de uma parcela maior dos entrevistados esperar melhora da economia nos próximos 12 meses sugere que ainda existe espaço para mudanças na percepção popular caso indicadores relacionados à inflação, emprego e renda apresentem evolução favorável.
Com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%, a pesquisa oferece um retrato relevante do humor econômico da população brasileira em junho. Os dados indicam que, apesar da expectativa relativamente mais positiva para o futuro, a avaliação sobre a economia continua marcada pela pressão dos preços, pela redução do poder de compra e pelas incertezas percebidas no mercado de trabalho, fatores que permanecem no centro das preocupações dos consumidores e do debate nacional.









