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Governo central acumula déficit de R$ 44,4 bilhões até maio, pior resultado para o período desde 2020

Avanço das despesas com precatórios, Previdência e emendas parlamentares supera crescimento da arrecadação e mantém a política fiscal sob atenção do mercado.

por Camila Braga
29/06/2026 às 13h06
em Economia
Governo Central Acumula Déficit De R$ 44,4 Bilhões Até Maio, Pior Resultado Para O Período Desde 2020-Gazeta Mercantil

Ministério da Fazenda / Foto: reprodução/Marcelo Camargo

O governo federal registrou déficit primário de R$ 44,4 bilhões nas contas do governo central entre janeiro e maio de 2026, resultado que representa o pior desempenho para o período desde 2020 em valores corrigidos pela inflação. Os números, divulgados nesta segunda-feira pelo Tesouro Nacional, mostram que o crescimento das despesas públicas superou o avanço da arrecadação, em um cenário marcado por pagamentos antecipados de precatórios, aceleração da execução de emendas parlamentares e expansão dos benefícios previdenciários.

Somente em maio, o resultado primário foi negativo em R$ 53,3 bilhões, refletindo uma concentração de desembolsos prevista no calendário fiscal deste ano. Apesar do desempenho, integrantes da equipe econômica afirmam que o comportamento das contas permanece compatível com as projeções oficiais e não altera, até o momento, a expectativa de cumprimento das regras fiscais vigentes.

Leia também: Aprovação de Lula cai para 43% e Quaest mostra pior nível desde julho de 2025.

O resultado engloba as contas do Tesouro Nacional, da Previdência Social e do Banco Central e passa a ser acompanhado de perto por investidores, economistas e agentes do mercado financeiro em um momento em que o governo busca preservar a credibilidade do novo arcabouço fiscal.

Pagamento antecipado de precatórios elevou despesas em maio

Entre os fatores que mais contribuíram para o déficit está a antecipação do pagamento das sentenças judiciais da União.

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Neste exercício, parte relevante dos precatórios foi quitada em maio, enquanto, no ano anterior, esses desembolsos ocorreram em junho. A mudança no calendário elevou artificialmente as despesas do mês e tornou a comparação anual mais desfavorável.

Os pagamentos afetaram diferentes grupos de despesas, incluindo benefícios previdenciários, gastos com pessoal e encargos sociais, além de outras obrigações decorrentes de decisões judiciais.

Na avaliação do Tesouro Nacional, trata-se de um efeito de natureza temporal, sem representar necessariamente deterioração estrutural das contas públicas.

Emendas parlamentares ampliam desembolsos no primeiro semestre

Outro fator relevante para a expansão das despesas foi a execução acelerada das emendas parlamentares impositivas.

A Lei de Diretrizes Orçamentárias estabeleceu que parcela significativa dessas emendas deve ser liberada ainda no primeiro semestre, regra que levou o Executivo a antecipar pagamentos em ano eleitoral.

Embora o Tesouro não tenha detalhado o volume efetivamente desembolsado até maio, técnicos da área econômica reconhecem que a alteração do cronograma influenciou diretamente os gastos discricionários, que incluem investimentos públicos e despesas de custeio da máquina administrativa.

A antecipação desses pagamentos modifica a distribuição das despesas ao longo do exercício e tende a produzir resultados mensais mais pressionados no início do ano.

Previdência mantém trajetória de crescimento

Os gastos previdenciários também permaneceram entre os principais componentes de expansão das despesas públicas.

Além do pagamento de precatórios relacionados ao sistema previdenciário, houve aumento na concessão de benefícios em razão da redução da fila de requerimentos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A aceleração das análises e liberações de benefícios amplia naturalmente a despesa obrigatória da União, uma vez que novos pagamentos passam a integrar a folha mensal da Previdência.

Como se trata de despesas de caráter obrigatório, esse crescimento reduz o espaço disponível para outras políticas públicas dentro do limite fiscal.

Receitas cresceram, mas em ritmo inferior às despesas

Apesar do resultado negativo, a arrecadação federal continuou apresentando crescimento real ao longo do ano.

Entre janeiro e maio, a receita líquida registrou expansão impulsionada principalmente pelo desempenho do Imposto de Renda, do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e da Cofins.

Também contribuíram para o resultado receitas extraordinárias associadas às exportações de petróleo e à recuperação da atividade econômica em determinados segmentos.

Ainda assim, o avanço das receitas foi insuficiente para compensar a elevação das despesas obrigatórias e discricionárias observadas no período.

Essa diferença explica a deterioração do resultado primário acumulado até maio.

Queda temporária dos dividendos afeta resultado

Outro componente relevante foi a redução temporária da arrecadação proveniente de dividendos pagos por empresas estatais.

Segundo o Tesouro Nacional, a queda decorre principalmente de uma alteração no calendário de distribuição desses recursos, com expectativa de maior concentração no segundo semestre.

A equipe econômica mantém a projeção de arrecadação anual compatível com as estimativas previstas no Orçamento.

Caso esse cronograma seja confirmado, parte da diferença observada nos primeiros meses do ano poderá ser compensada ao longo do restante do exercício.

Meta fiscal continua no centro das atenções

Mesmo com o déficit acumulado, o governo mantém oficialmente a projeção de encerramento do ano dentro dos parâmetros estabelecidos pelo novo regime fiscal.

A meta prevê resultado primário positivo, mas a legislação admite uma faixa de tolerância que permite desempenho inferior sem caracterizar descumprimento formal.

Além disso, decisões legislativas e judiciais autorizam a exclusão de determinadas despesas do cálculo da meta, reduzindo a pressão imediata sobre o resultado oficial.

Esse mecanismo continua sendo alvo de debate entre economistas, que divergem sobre o impacto das exclusões na transparência e na credibilidade da política fiscal.

Mercado acompanha impacto sobre juros e dívida pública

Os números divulgados pelo Tesouro reforçam a atenção dos agentes financeiros em relação ao equilíbrio das contas públicas.

A trajetória fiscal influencia diretamente as expectativas para inflação, taxa básica de juros, custo de financiamento da dívida pública e percepção de risco do país.

Quanto maior a dificuldade para estabilizar o resultado primário, maior tende a ser a necessidade de manutenção de juros elevados por período prolongado, caso o Banco Central identifique riscos adicionais para a inflação.

Ao mesmo tempo, o comportamento das contas públicas permanece como um dos principais indicadores observados por investidores nacionais e estrangeiros na avaliação da sustentabilidade fiscal brasileira.

Evolução das despesas mantém política fiscal sob escrutínio do mercado

Os dados de maio reforçam que o principal desafio da política econômica em 2026 continua sendo equilibrar o crescimento das despesas obrigatórias com o aumento da arrecadação sem comprometer o cumprimento das regras fiscais.

Embora a equipe econômica sustente que o resultado permanece dentro das projeções oficiais, o desempenho das contas públicas continuará sendo acompanhado de perto ao longo dos próximos meses. A evolução da arrecadação, o comportamento das despesas previdenciárias, a execução do Orçamento e o pagamento de dividendos de estatais deverão determinar se o governo conseguirá encerrar o ano dentro da meta fiscal e preservar a confiança dos agentes econômicos.

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