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Guerra entre EUA e Irã derruba ações de viagens e pressiona setor aéreo global

por Ana Luiza Farias
02/03/2026 às 14h20
em Negócios
Guerra Entre Eua E Irã Derruba Ações De Viagens E Pressiona Setor Aéreo Global - Gazeta Mercantil

Tensões no Oriente Médio derrubam ações de viagens e reacendem alerta no mercado global

A escalada da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã provocou um choque imediato no setor global de turismo e aviação, levando a uma das quedas mais expressivas nas ações de viagens desde o início da pandemia de covid-19. O agravamento do conflito no Oriente Médio, com fechamento de espaços aéreos estratégicos e suspensão de rotas internacionais, desencadeou uma reação em cadeia nos mercados financeiros e reacendeu o temor de um novo ciclo de instabilidade para companhias aéreas, operadoras de turismo, redes hoteleiras e empresas de cruzeiros.

Nesta segunda-feira (02), investidores reagiram com forte aversão ao risco diante da intensificação das tensões geopolíticas. O impacto foi sentido de forma contundente nas bolsas europeias, asiáticas e norte-americanas, com perdas generalizadas entre empresas ligadas ao setor de viagens.

Leia também: BNDES vende ações de Petrobras (PETR4) e Axia (AXIA3) e acelera saída de ativos maduros.

Mercado reage com forte correção nas ações de viagens

Na Europa, os papéis da TUI (TUI1), maior grupo de turismo do continente, recuaram 8,5% nas negociações da manhã. A Lufthansa (LHA) acumulava baixa de 6,5%, enquanto a IAG (IAG) — controladora da British Airways — registrava queda de 4,8%. A rede hoteleira Accor (AC) e a operadora de cruzeiros Carnival (CCL) também apresentaram perdas relevantes, refletindo o receio de redução na demanda e aumento nos custos operacionais.

Nos Estados Unidos, companhias aéreas como Delta Air Lines (DAL), American Airlines (AAL) e United Airlines (UAL) operavam com desvalorização próxima de 5% nas negociações pré-mercado, sinalizando que o impacto da crise ultrapassa as fronteiras da região diretamente envolvida no conflito.

Leia também: Seguro de vida cresce 12,13% e impulsiona o setor de seguros em 2025.

O movimento negativo ocorre em meio ao fechamento de aeroportos estratégicos no Oriente Médio. Dubai, que se consolidou como o aeroporto internacional mais movimentado do mundo em 2024, com 92 milhões de passageiros, e Doha permanecem fechados pelo terceiro dia consecutivo. A Jordânia também anunciou restrições parciais ao seu espaço aéreo.

Fechamento de espaço aéreo cria efeito dominó na aviação

A paralisação de hubs estratégicos tem provocado uma desorganização global na malha aérea. Aeronaves e tripulações ficaram dispersas em diferentes aeroportos, sem previsibilidade clara de retomada das operações. Companhias foram obrigadas a cancelar voos, alterar rotas e oferecer remarcações emergenciais, elevando custos e pressionando margens.

Na Ásia, o impacto também foi significativo. As ações de ANA Holdings (9202.T), Air China (601111.SS), China Southern Airlines (600029.SS) e China Eastern Airlines (600115.SS) recuaram ao menos 4%. A Cathay Pacific (0293.HK) suspendeu voos para destinos como Dubai e Riad, além de eliminar taxas de remarcação para passageiros afetados.

A Singapore Airlines (C6L.SI) cancelou operações entre Dubai e seus principais hubs até 7 de março, enquanto a Japan Airlines (9201.T) interrompeu temporariamente a rota entre Tóquio e Doha.

Dados da VariFlight apontam que companhias da China continental cancelaram 26,5% das operações entre o país e o Oriente Médio no período de 2 a 8 de março, configurando uma interrupção relevante no curto prazo.

Petróleo em alta amplia pressão sobre margens

Além da desorganização operacional, o setor enfrenta a escalada do petróleo, que avançou 7% e atingiu o maior nível em meses. O combustível representa uma das principais despesas das companhias aéreas, e qualquer movimento abrupto na commodity impacta diretamente a rentabilidade.

Embora muitas empresas utilizem instrumentos de hedge para mitigar oscilações, analistas alertam que a persistência da crise pode reduzir a eficácia dessas estratégias. Bancos como JP Morgan e Citi avaliam que companhias com maior exposição a Israel e ao Oriente Médio tendem a sofrer impacto mais intenso, citando a Wizz Air (WIZZ) como exemplo de vulnerabilidade regional.

O aumento no preço do combustível, combinado com cancelamentos em cadeia e necessidade de redirecionamento de rotas, cria um ambiente de elevada incerteza financeira, semelhante ao observado nos primeiros meses da pandemia.

Índia e rotas estratégicas sob pressão

A Índia surge como um dos pontos mais sensíveis no atual cenário. O país mantém intenso fluxo aéreo com o Oriente Médio, especialmente no transporte de trabalhadores migrantes. Além disso, restrições ao uso do espaço aéreo do Paquistão em rotas para a Europa ampliam a complexidade operacional.

A Air India (AI) suspendeu ligações entre a Índia e cidades como Zurique, Copenhague e Birmingham, além de destinos no Oriente Médio. A empresa informou que voos para Nova York e Newark passaram a realizar escala técnica em Roma para reabastecimento, elevando custos e tempo de viagem.

Esse redesenho emergencial das rotas evidencia como a crise regional tem repercussão global, afetando inclusive mercados geograficamente distantes do epicentro do conflito.

Passageiros enfrentam incertezas e transtornos

O impacto vai além dos balanços corporativos. Passageiros relataram dificuldades para obter informações claras e reorganizar itinerários. Em Sydney, clientes da Qatar Airways enfrentaram incertezas após cancelamentos abruptos. Uma família italiana que viajaria para Milão com conexão em Doha precisou encontrar rota alternativa via Los Angeles.

Casos semelhantes foram registrados com passageiros australianos que seguiam para a Europa e tiveram seus trajetos alterados após o fechamento do espaço aéreo. Filas extensas, falta de informações e mudanças de última hora passaram a compor o cotidiano de quem depende do transporte aéreo internacional.

Setor revive memórias da pandemia

Especialistas do setor afirmam que o atual cenário remete aos primeiros meses da covid-19, quando o fechamento repentino de fronteiras e aeroportos desorganizou a aviação global. A diferença agora é que a crise tem origem geopolítica, mas seus efeitos econômicos podem ser igualmente profundos se houver prolongamento do conflito.

A dispersão de aeronaves e tripulações, associada à incerteza sobre reabertura de rotas estratégicas, eleva o risco de cancelamentos adicionais e pressiona a confiança do consumidor. Historicamente, episódios de instabilidade geopolítica tendem a reduzir a demanda por viagens internacionais, sobretudo para regiões percebidas como inseguras.

Operadoras de turismo e redes hoteleiras monitoram atentamente o ritmo das reservas e eventuais pedidos de cancelamento. A recuperação do setor após a pandemia vinha ocorrendo de forma consistente, impulsionada pela retomada da mobilidade global. O novo choque, entretanto, pode interromper essa trajetória.

Investidores reavaliam risco global

Do ponto de vista financeiro, o mercado passou a precificar um cenário de maior volatilidade. O setor de viagens, altamente sensível a choques externos, tornou-se um dos primeiros alvos da aversão ao risco.

Fundos internacionais reduziram exposição a empresas com operação concentrada no Oriente Médio, enquanto investidores buscam ativos considerados mais defensivos. A reação demonstra que, em um ambiente de incerteza geopolítica, ativos ligados a mobilidade e turismo figuram entre os mais vulneráveis.

O comportamento das ações de viagens nos próximos dias dependerá da evolução do conflito e da eventual reabertura dos espaços aéreos estratégicos. Enquanto não houver sinais claros de estabilização, a tendência é de manutenção da volatilidade.

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