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Iene cai ao menor valor em 40 anos e aumenta pressão por intervenção do Japão

Moeda chegou a 161,96 por dólar, encarecendo energia e alimentos enquanto a diferença de juros favorece ativos dos Estados Unidos.

por Antônio Lima
29/06/2026 às 17h15
em Mundo
Iene - Gazeta Mercantil

O iene caiu nesta segunda-feira, 29 de junho, ao menor valor diante do dólar desde 1986, ampliando a pressão sobre o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi e sobre o Banco do Japão para conter a desvalorização da moeda. A cotação chegou a aproximadamente 161,96 ienes por dólar, em meio à força da divisa norte-americana, à ampla diferença entre os juros dos dois países e à percepção de que o aperto monetário promovido em Tóquio ainda é insuficiente para reverter o fluxo de capitais em direção aos Estados Unidos.

A nova mínima recoloca o mercado em alerta para uma intervenção cambial do Ministério das Finanças japonês, depois de o governo ter movimentado 11,73 trilhões de ienes entre o fim de abril e maio para comprar a moeda local e vender dólares. A operação interrompeu temporariamente a queda, mas não alterou a tendência de desvalorização.

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O enfraquecimento do iene beneficia companhias exportadoras, cujas receitas em dólares valem mais quando convertidas para a moeda japonesa. Ao mesmo tempo, encarece petróleo, gás natural, alimentos e matérias-primas adquiridos no exterior, pressionando a inflação e reduzindo o poder de compra das famílias.

O movimento cria um dilema para as autoridades. Uma reação mais agressiva do Banco do Japão poderia ajudar a fortalecer o iene, mas juros mais altos também encareceriam o financiamento do governo, das empresas e das famílias em uma economia marcada por crescimento modesto e elevada dívida pública.

Dólar supera barreira observada pelo mercado

A cotação próxima de 162 ienes por dólar ultrapassou a máxima registrada em julho de 2024 e levou a moeda japonesa ao menor nível em quatro décadas.

Operadores acompanham especialmente a velocidade da desvalorização, e não apenas um nível específico de câmbio. Movimentos abruptos costumam elevar a probabilidade de intervenção porque aumentam o risco de desorganização dos mercados e de repasse rápido para os preços domésticos.

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A faixa de 160 ienes por dólar já havia funcionado como uma espécie de limite informal para as autoridades japonesas em intervenções anteriores. O governo, no entanto, evita anunciar antecipadamente uma cotação exata que provocaria uma nova operação.

Ao manter essa margem de incerteza, o Ministério das Finanças tenta desestimular apostas especulativas contra a moeda. Na prática, porém, investidores continuam testando a disposição do governo de utilizar suas reservas internacionais para comprar ienes.

A pressão também decorre da valorização mais ampla do dólar. Dados econômicos fortes e expectativas de juros elevados nos Estados Unidos aumentaram a procura por ativos norte-americanos, ampliando a desvantagem das moedas de países que oferecem remuneração inferior.

Diferença de juros favorece saída de recursos

O principal fator por trás da fraqueza do iene é a diferença entre as taxas de juros do Japão e dos Estados Unidos.

Mesmo depois de o Banco do Japão elevar sua taxa para 1% em junho, a remuneração oferecida pelos títulos japoneses permanece abaixo da disponível nos Estados Unidos. Essa diferença estimula uma operação conhecida como carry trade.

Nesse tipo de estratégia, investidores tomam recursos emprestados em uma moeda de juros baixos, como o iene, e aplicam o dinheiro em ativos denominados em moedas que oferecem retornos maiores. Enquanto a taxa japonesa permanece reduzida e o dólar continua forte, a operação tende a pressionar o iene.

A expectativa de que os juros norte-americanos permaneçam altos por mais tempo reforçou esse movimento. Parte do mercado passou inclusive a considerar novos aumentos da taxa pelo Federal Reserve diante da resistência da inflação e da atividade econômica dos Estados Unidos.

Nesse ambiente, uma elevação de 0,25 ponto percentual promovida pelo Banco do Japão tem impacto limitado. Embora sinalize avanço na normalização monetária, a medida não elimina a diferença de remuneração entre os dois países.

A reação do câmbio mostrou essa limitação. A alta dos juros japoneses não impediu que o dólar se aproximasse de 162 ienes poucos dias depois.

Banco do Japão enfrenta margem limitada para reagir

O Banco do Japão encerrou em 2024 a política de juros negativos mantida por anos para combater a deflação e estimular a atividade. Desde então, iniciou uma normalização gradual da política monetária.

Em junho de 2026, a instituição elevou para 1% a taxa aplicada aos depósitos das instituições financeiras, maior nível em mais de três décadas.

Em condições normais, juros mais altos tenderiam a fortalecer a moeda, porque aumentariam a atratividade dos ativos denominados em ienes. O efeito, entretanto, foi neutralizado pela distância ainda existente em relação aos retornos oferecidos no exterior.

O banco central também precisa considerar os efeitos internos de um aperto mais rápido. A economia japonesa ainda apresenta crescimento moderado, e uma elevação agressiva poderia reduzir investimentos, pressionar o mercado imobiliário e aumentar o custo do crédito.

Há ainda o impacto sobre as finanças públicas. O Japão possui uma das maiores dívidas governamentais em proporção ao Produto Interno Bruto entre as economias desenvolvidas. Juros mais altos aumentam gradualmente a despesa do Tesouro com o refinanciamento dessa dívida.

Por isso, o Banco do Japão tenta equilibrar três objetivos: conter a inflação, evitar uma desvalorização desordenada do iene e não provocar uma desaceleração excessiva da economia.

Moeda fraca encarece energia e alimentos

Para os consumidores japoneses, o efeito mais imediato aparece no preço dos produtos importados.

O Japão depende do exterior para obter parcela relevante da energia consumida. Petróleo, gás natural liquefeito e carvão são negociados principalmente em dólares, o que significa que a desvalorização do iene aumenta o custo dessas compras mesmo quando a cotação internacional da matéria-prima permanece estável.

Esse aumento alcança as famílias por diferentes canais. Contas de eletricidade e gás podem subir, enquanto empresas transportadoras e indústrias enfrentam despesas maiores com combustíveis e insumos.

A pressão não se limita à energia. Alimentos, rações, fertilizantes, componentes eletrônicos e matérias-primas industriais também ficam mais caros quando convertidos para a moeda japonesa.

Empresas podem absorver uma parte do aumento por algum tempo, reduzindo suas margens. Quando a desvalorização persiste, porém, cresce a tendência de repasse aos consumidores.

O fenômeno é particularmente sensível para o Japão porque os salários demoraram a acompanhar integralmente o avanço do custo de vida. Mesmo quando há reajustes nominais, a renda real pode permanecer pressionada se os preços crescerem no mesmo ritmo ou mais rapidamente.

A perda de poder aquisitivo se transforma em problema político para o governo, especialmente em um país que passou décadas convivendo com inflação muito baixa e onde consumidores não estavam habituados a aumentos contínuos de preços.

Exportadoras e Bolsa se beneficiam da desvalorização

O efeito do iene fraco não é uniforme. Grandes companhias exportadoras tendem a se beneficiar.

Montadoras, fabricantes de máquinas, grupos de eletrônicos e empresas com receitas expressivas no exterior recebem dólares, euros e outras moedas. Quando esses recursos são convertidos para ienes, o valor contábil das vendas aumenta.

Esse mecanismo pode elevar receitas e lucros mesmo sem crescimento equivalente no volume comercializado. Também torna produtos japoneses mais competitivos em mercados internacionais, desde que as empresas não elevem seus preços na mesma proporção.

A melhora nas perspectivas de resultados ajuda a sustentar as ações de exportadoras na Bolsa de Tóquio. Investidores antecipam que a conversão cambial poderá favorecer os balanços corporativos.

Parte das empresas também mantém produção fora do Japão, o que reduz o efeito direto do câmbio sobre as exportações. Ainda assim, a tradução das receitas internacionais para ienes costuma produzir impacto positivo nos demonstrativos financeiros.

O benefício corporativo, porém, contrasta com a pressão sobre famílias e pequenas empresas voltadas ao mercado interno. Negócios que dependem de insumos importados, mas vendem apenas no Japão, enfrentam custos maiores sem contar com receitas em moeda estrangeira.

Governo gastou ¥11,73 trilhões para defender o iene

O Japão já demonstrou disposição para atuar diretamente no mercado.

Entre 28 de abril e 27 de maio, o Ministério das Finanças movimentou 11,7349 trilhões de ienes em operações cambiais, o equivalente a aproximadamente US$ 73 bilhões na cotação do período.

A intervenção ocorre quando o governo vende parte de suas reservas em dólares e utiliza os recursos para comprar ienes. Ao criar uma procura artificial pela moeda local, a operação pode provocar uma valorização rápida.

No fim de abril, uma dessas ações levou o dólar a recuar de mais de 160 ienes para perto de 155 em pouco tempo. O movimento, no entanto, não se sustentou.

A moeda voltou a perder valor nas semanas seguintes porque os fatores que favorecem o dólar permaneceram presentes. A diferença de juros continuou ampla, e os investidores retomaram as posições contra o iene.

Intervenções também foram realizadas em 2022 e 2024. Em todos esses episódios, as operações conseguiram alterar a cotação no curto prazo, mas não produziram uma reversão duradoura.

Isso ocorre porque a intervenção atua diretamente sobre a oferta e a procura de moeda, mas não modifica sozinha os juros, o crescimento econômico ou as expectativas do mercado.

Nova intervenção pode ter efeito temporário

Com o dólar novamente próximo de 162 ienes, aumentaram as apostas de que o governo voltará a agir.

Uma nova intervenção poderá provocar forte oscilação, sobretudo em horários de menor liquidez, quando um volume elevado de compras de ienes produz impacto maior sobre as cotações.

A efetividade, entretanto, dependerá da coordenação com a política monetária e das expectativas sobre os Estados Unidos.

Se o Federal Reserve mantiver uma postura mais dura e o Banco do Japão sinalizar cautela, os investidores poderão aproveitar qualquer valorização temporária do iene para retomar operações de carry trade.

O governo também precisa considerar o custo da estratégia. O Japão possui reservas internacionais suficientes para intervir, mas o uso repetido desses recursos não resolve as causas estruturais da desvalorização.

Uma operação coordenada com os Estados Unidos teria maior força, mas esse tipo de ação exige acordo entre os dois governos. Washington costuma tolerar intervenções destinadas a conter movimentos desordenados, mas evita apoiar tentativas de estabelecer artificialmente um valor específico para uma moeda.

Fraqueza do iene expõe problemas estruturais

A queda do iene vai além da diferença momentânea de juros.

O Japão enfrenta envelhecimento populacional, redução da força de trabalho, baixa produtividade em determinados setores e crescimento econômico limitado. Esses fatores reduzem as expectativas de retorno sobre investimentos no país.

A elevada dívida pública também restringe a capacidade do governo de adotar medidas sem aumentar os riscos fiscais. Embora grande parte dos títulos esteja nas mãos de investidores domésticos e do próprio Banco do Japão, o aumento dos juros amplia o custo de financiamento ao longo do tempo.

O governo de Sanae Takaichi apresentou uma estratégia para elevar o crescimento real da economia e estimular investimentos públicos e privados. A política busca fortalecer a capacidade produtiva, ampliar despesas de capital e elevar o crescimento nominal.

Parte do mercado, contudo, avalia que uma política fiscal expansionista combinada com juros ainda baixos pode manter pressão sobre o iene, especialmente se aumentar a necessidade de emissão de dívida.

O desafio é promover crescimento sem agravar as preocupações com as contas públicas e sem alimentar ainda mais a inflação importada.

Turismo estrangeiro ganha força, mas japoneses perdem poder no exterior

O câmbio também produz efeitos sobre o turismo.

Para visitantes estrangeiros, o Japão se torna relativamente mais barato. Hotéis, restaurantes, transporte e compras custam menos quando os preços em ienes são convertidos para dólares ou euros.

Esse movimento favorece companhias aéreas, redes de hotéis, varejistas e destinos turísticos. O aumento do fluxo internacional ajuda a compensar parte da fraqueza do consumo doméstico.

Para os japoneses, ocorre o oposto. Viagens ao exterior, produtos importados e serviços cobrados em moeda estrangeira se tornam mais caros.

Estudantes, empresas que enviam funcionários para outros países e famílias que consomem produtos internacionais sentem diretamente a perda de poder de compra.

Esse contraste reforça a divisão entre setores beneficiados e prejudicados pela moeda fraca.

Pressão sobre o governo deve continuar

O governo japonês deverá manter as advertências ao mercado e preparar uma eventual nova intervenção caso a desvalorização acelere.

Ao mesmo tempo, o Banco do Japão será pressionado a indicar se pretende continuar elevando os juros e em qual velocidade. Uma sinalização mais firme poderia oferecer algum apoio ao iene, mas aumentaria os riscos para a atividade e para as contas públicas.

No curto prazo, o comportamento da moeda dependerá principalmente das expectativas sobre os juros dos Estados Unidos, dos próximos indicadores econômicos norte-americanos e da disposição das autoridades japonesas de voltar ao mercado.

A cotação próxima de 162 ienes por dólar coloca Tóquio diante de uma escolha difícil. Intervir pode conter a queda por alguns dias ou semanas, mas não garante uma recuperação permanente. Elevar os juros mais rapidamente pode fortalecer a moeda, porém aumenta o custo do crédito e da dívida pública.

Enquanto essa combinação persistir, o iene deverá continuar sujeito a forte volatilidade. Para o governo de Sanae Takaichi, o problema deixou de ser apenas cambial: a desvalorização afeta inflação, renda, consumo e confiança política, transformando a moeda em uma das principais fontes de pressão sobre a economia japonesa.

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