O Inter&Co (INBR32) registrou lucro líquido atribuível aos acionistas de R$ 421,1 milhões no segundo trimestre de 2026, avanço de 33,6% sobre os R$ 315,1 milhões apurados no mesmo período do ano passado. O retorno anualizado sobre o patrimônio líquido médio, o ROE, subiu 2,4 pontos percentuais, de 13,9% para 16,3%.
A melhora da rentabilidade foi sustentada pela expansão da carteira de crédito, pelo aumento das receitas com juros e pela redução do índice de eficiência. A receita líquida alcançou R$ 2,636 bilhões, crescimento de 31,6%, enquanto as despesas operacionais avançaram em ritmo menor, de 19%, segundo os indicadores gerenciais divulgados pelo banco digital.
O resultado, porém, também mostrou aumento do risco de crédito. As perdas por redução ao valor recuperável de ativos financeiros — que incluem as provisões para empréstimos com risco de inadimplência — subiram 51,2%, de R$ 569,2 milhões para R$ 860,4 milhões. A alta foi superior ao crescimento da receita e refletiu principalmente a expansão acelerada do consignado privado e da carteira de cartões.
A inadimplência acima de 90 dias alcançou 5,3% na carteira bruta, ante 4,6% no primeiro trimestre e 4,6% um ano antes. Na carteira expandida, que também incorpora determinados títulos privados, o indicador passou de 4,4% no segundo trimestre de 2025 para 5% em junho de 2026.
Receita financeira cresce com crédito e títulos
A receita contábil consolidada do Inter atingiu R$ 2,636 bilhões no trimestre, ante R$ 2,003 bilhões no mesmo período de 2025. A principal contribuição veio da soma da margem financeira com os resultados de títulos, derivativos e operações cambiais, que aumentou 39,1%, para R$ 2,044 bilhões.
A receita de juros totalizou R$ 2,605 bilhões, alta de 22,4%. As despesas com juros cresceram 27,2%, para R$ 1,811 bilhão, em um ambiente ainda marcado por taxas elevadas no Brasil. O resultado com títulos, derivativos e câmbio avançou 63,4%, para R$ 1,251 bilhão.
O crescimento da margem financeira foi impulsionado pelo aumento das operações de crédito remuneradas, especialmente cartões e empréstimos pessoais. A receita de juros com cartões alcançou R$ 733,6 milhões, 64,3% acima dos R$ 446,5 milhões registrados no segundo trimestre do ano anterior. Nos empréstimos pessoais, a receita subiu 21,5%, para R$ 740,2 milhões.
A margem financeira gerencial denominada pelo banco como NIM 2.0 chegou a 10,12%, contra 9,07% no segundo trimestre de 2025. A instituição atribuiu a alta de 1,05 ponto percentual à reprecificação da carteira, à expansão do consignado privado e ao aumento da receita de juros dos cartões. O trimestre também recebeu um efeito positivo não recorrente relacionado à proteção contra a inflação medida pelo IPCA.
As receitas líquidas de serviços e comissões cresceram de R$ 495,1 milhões para R$ 531,7 milhões, alta de 7,4% pela demonstração financeira consolidada. O Inter destacou contribuições das receitas de intercâmbio de cartões, seguros e outros serviços relacionados ao crescimento da base de clientes.
Carteira de crédito alcança R$ 55,4 bilhões
A carteira de crédito expandida encerrou junho em R$ 55,4 bilhões, crescimento de 23,4% em 12 meses e de 4,7% em relação ao primeiro trimestre. Desse total, R$ 51,9 bilhões correspondiam à carteira bruta de crédito e R$ 3,5 bilhões a títulos privados.
Quando considerados apenas os empréstimos e financiamentos, sem os títulos privados, o crescimento anual foi de 29,1%. A carteira imobiliária avançou 37,1%, para R$ 18,25 bilhões, enquanto cartões de crédito cresceram 23,3%, para R$ 16,02 bilhões.
Os empréstimos pessoais, grupo que inclui diferentes modalidades, aumentaram 29,8%, para R$ 12,92 bilhões. A carteira destinada a pequenas e médias empresas, incluindo operações do agronegócio, atingiu R$ 4,73 bilhões, alta de 16,3%.
O crédito por cliente ativo subiu 11% na comparação anual. O banco encerrou o período com 26,4 milhões de clientes ativos, 3,7 milhões a mais do que em junho de 2025, e uma base total de 45,3 milhões de clientes. A taxa de ativação ficou em 58,3%.
O volume de transações realizadas por Pix, cartões de débito e crédito chegou a R$ 453 bilhões no trimestre. A instituição informou uma média de 32 milhões de transações financeiras diárias e participação próxima de 9% no número de operações nacionais feitas pelo Pix.
Consignado privado pressiona qualidade dos ativos
O consignado privado foi o principal fator de deterioração da qualidade do crédito. A carteira da modalidade passou de aproximadamente R$ 700 milhões para R$ 2,8 bilhões em 12 meses, quadruplicando no período. O produto alcançou cerca de 629 mil clientes e participação estimada pelo banco em 2,5% do mercado.
Segundo o Inter, parte relevante dos atrasos ocorre quando o trabalhador muda de emprego e o vínculo necessário para o desconto das parcelas deixa de funcionar. Como a modalidade ainda é relativamente nova, os processos de cobrança e reconexão do contrato com o novo empregador ainda não estariam plenamente automatizados.
O consignado privado respondeu por 0,53 ponto percentual do aumento anual da inadimplência superior a 90 dias na carteira expandida. Os demais produtos, considerados em conjunto, contribuíram com 0,12 ponto percentual. Dessa forma, o índice passou de 4,4% para 5% entre o segundo trimestre de 2025 e junho de 2026.
A administração afirmou ter adotado critérios mais seletivos na concessão, com prioridade para clientes de melhor qualidade. O banco também anunciou a introdução de um seguro vinculado ao consignado privado, destinado a reduzir o risco de interrupção dos pagamentos e melhorar o retorno da modalidade.
A estratégia depende de o crescimento das receitas compensar o aumento das perdas. O Inter afirmou que, mesmo com a inadimplência acima do inicialmente previsto, a modalidade continua apresentando retorno sobre o capital considerado atrativo pela administração. Essa é uma avaliação da companhia e ainda precisa ser confirmada pelo comportamento das safras de crédito nos próximos trimestres.
Cartões também elevam provisões
A expansão da carteira remunerada de cartões foi outro fator de aumento do risco. O banco ampliou a oferta de compras parceladas e de operações que geram juros, estratégia que elevou a receita financeira do produto, mas também aumentou a exposição a clientes com maior probabilidade de atraso.
Durante o trimestre, a instituição alterou sua política de baixa contábil de créditos inadimplentes em cartões. A mudança provocou impacto não recorrente de 0,30 ponto percentual na inadimplência acima de 90 dias, mas, segundo o Inter, não afetou o nível de provisões nem o custo de risco.
O custo de risco consolidado subiu para 5,9%, ante 5% no segundo trimestre de 2025 e 5,6% nos três primeiros meses de 2026. Quando excluído o consignado privado, o indicador ficou em 5,5%, o que demonstra que a modalidade respondeu por parte, mas não por toda a deterioração.
O índice de cobertura, que relaciona as provisões ao saldo de créditos vencidos há mais de 90 dias, recuou para 134%. O percentual era de 143% um ano antes e de 137% no primeiro trimestre. A redução indica que o crescimento da inadimplência ocorreu mais rapidamente do que o aumento da proteção contábil acumulada.
Despesas crescem abaixo da receita
As despesas administrativas aumentaram 15,3%, para R$ 622,6 milhões. Os gastos com pessoal avançaram 18%, para R$ 303 milhões, enquanto depreciação e amortização cresceram 44%, para R$ 110,3 milhões, devido principalmente aos investimentos realizados no aplicativo e em infraestrutura tecnológica.
A soma das principais despesas operacionais atingiu R$ 1,036 bilhão, crescimento de 18,7% sobre o segundo trimestre de 2025. Apesar do avanço, o ritmo permaneceu inferior ao aumento de 31,6% da receita líquida.
Com isso, o índice de eficiência caiu de 47,1% para 42,1% em 12 meses e atingiu o menor nível da série divulgada pela instituição. Nesse indicador, percentuais menores representam melhor eficiência, pois mostram que o banco precisa consumir uma parcela menor da receita para sustentar suas operações.
O número de funcionários permaneceu próximo de 4 mil. O Inter afirmou que a estrutura passou a contar com profissionais mais experientes e que os custos também foram influenciados pela participação nos lucros vinculada à melhora do resultado.
“Rule of 50” ainda soma 48%
A administração voltou a apresentar a chamada “Rule of 50” como referência para sua estratégia. A métrica interna soma o crescimento anual da receita líquida ao ROE e estabelece como objetivo alcançar um resultado igual ou superior a 50 pontos percentuais.
No segundo trimestre, a receita líquida cresceu 31,7% e o ROE atingiu 16,3%. A soma resulta em 48%, ainda 2 pontos percentuais abaixo da meta de 50%. Portanto, embora o banco tenha afirmado que a estratégia está “em ação”, os próprios números mostram que o patamar formal ainda não foi alcançado.
A diferença é relevante porque a métrica combina duas variáveis com características distintas. O crescimento da receita mede a expansão operacional, enquanto o ROE indica o retorno gerado sobre o patrimônio. Para atingir 50%, o banco precisará ampliar uma dessas frentes sem produzir deterioração excessiva da qualidade do crédito ou aumento desproporcional do capital empregado.
O ROE de 16,3% já representa avanço significativo sobre os 13,9% do segundo trimestre de 2025. O retorno sobre o patrimônio tangível, que exclui apenas o ágio, chegou a 17,6%, de acordo com a métrica gerencial apresentada pela companhia.
Captação cresce e custo permanece abaixo do CDI
O volume total de captação atingiu R$ 77,2 bilhões, alta de 24% em 12 meses. Os depósitos a prazo cresceram 27%, e o produto denominado Meu Porquinho acumulou R$ 10,3 bilhões aplicados por mais de 4 milhões de clientes.
O custo de captação ficou equivalente a 65,9% do CDI, ante 64,8% no segundo trimestre de 2025. Embora tenha aumentado em termos relativos, o percentual permanece abaixo da taxa de referência e constitui uma vantagem para a margem financeira, sobretudo em um período de juros elevados.
Os ativos totais superaram pela primeira vez R$ 100 bilhões e encerraram junho em R$ 102,9 bilhões. O patrimônio líquido consolidado somou R$ 10,63 bilhões, enquanto os depósitos de clientes atingiram R$ 56,7 bilhões nas demonstrações preparadas de acordo com as normas internacionais de contabilidade.
O índice de Basileia do Banco Inter ficou em 14,4%, acima dos 14% registrados em março, mas abaixo dos 15,7% de junho de 2025. A holding informou possuir R$ 2,3 bilhões em capital excedente fora do conglomerado prudencial do banco.
Evolução do crédito será o principal teste
O balanço do segundo trimestre confirmou a continuidade da expansão do lucro, da receita e da rentabilidade do Inter. A melhora da eficiência e o custo de captação abaixo do CDI ajudam a instituição a ampliar sua margem e financiar o crescimento com uma base diversificada de depósitos.
O principal ponto de atenção passou a ser a velocidade de deterioração dos indicadores de crédito. O aumento de 51% das perdas por redução ao valor recuperável, o custo de risco de 5,9% e a queda do índice de cobertura mostram que o avanço da carteira já produz efeitos concretos sobre as provisões.
Nos próximos trimestres, o desempenho dependerá da capacidade de reduzir os atrasos do consignado privado, estabilizar a inadimplência dos cartões e manter o crescimento das receitas acima das despesas e das perdas esperadas. A recuperação da qualidade dos ativos será necessária para que o aumento do ROE seja sustentável e para que a “Rule of 50” ultrapasse efetivamente o limite definido pela própria companhia.










