O Inter (INTR) tenta reconstruir a confiança dos investidores nesta terça-feira, 12 de maio, depois de acumular queda próxima de 20% em três pregões em meio à frustração com os resultados recentes e à revisão de seu plano estratégico de longo prazo.
O banco digital realizou na segunda-feira, 11, um encontro com investidores em Nova York para detalhar novas metas de crescimento, rentabilidade e eficiência. A apresentação, contudo, não foi suficiente para afastar imediatamente as dúvidas do mercado. As ações chegaram a cair cerca de 7% durante a sessão do evento, ampliando a sequência de perdas.
Nesta terça-feira, os papéis ensaiam recuperação. Por volta das 11h40, a ação avançava 4,82%, para US$ 6,29, depois da forte correção dos últimos dias.
O movimento ocorre enquanto bancos e corretoras revisam suas projeções para a companhia. Apesar dos cortes nas estimativas de lucro e nos preços-alvo, uma parcela relevante das instituições mantém recomendação de compra para o Inter, indicando que há divergência sobre se a desvalorização recente representa uma oportunidade ou apenas uma adaptação do preço a expectativas menos ambiciosas.
No centro do debate está a capacidade do banco de aumentar significativamente sua rentabilidade sem comprometer a qualidade da carteira de crédito. Depois da forte valorização observada desde 2023, investidores passaram a exigir evidências mais concretas de que crescimento, controle de inadimplência e retorno sobre patrimônio podem avançar simultaneamente.
Inter adia meta 60-30-30 para 2029
A principal mudança apresentada pela administração foi o adiamento da meta conhecida como 60-30-30.
O plano original previa que o Inter alcançasse, até 2027, uma base de 60 milhões de clientes, índice de eficiência de 30% e retorno sobre o patrimônio líquido, o ROE, de 30%.
A administração agora transferiu o horizonte para 2029 e passou a trabalhar com uma faixa de ROE entre 26% e 30%.
A revisão reduz a exigência de uma aceleração muito intensa da rentabilidade no curto prazo.
O Inter encerrou o primeiro trimestre deste ano com ROE próximo de 16%. Para atingir o objetivo anterior de 30% até 2027, seria necessário praticamente dobrar o retorno sobre o patrimônio em menos de dois anos.
Ao ampliar o horizonte, o banco reconhece que a maturação de suas iniciativas de crédito, eficiência e monetização da base de clientes exigirá mais tempo.
Para os investidores, entretanto, a mudança também significa menor visibilidade sobre quando a companhia será capaz de alcançar níveis de rentabilidade comparáveis aos projetados pela administração.
Banco apresenta “Rule of 50” como nova referência
Além da revisão do plano 60-30-30, o Inter passou a apresentar uma nova métrica denominada “Rule of 50”, válida a partir de 2026.
A lógica proposta pela administração é combinar crescimento de receita e rentabilidade de forma que a soma dos dois indicadores alcance 50%.
O conceito se aproxima de métricas utilizadas na análise de empresas de tecnologia e plataformas digitais, nas quais crescimento e geração de resultado são avaliados conjuntamente.
A administração indicou três pilares para sustentar essa expansão: o Single Smart Super App, o uso da ampla base de dados gerada pelas transações dos clientes e a Seven, assistente de inteligência artificial desenvolvida pelo Inter.
A inteligência artificial também deverá desempenhar papel crescente na concessão de crédito e no gerenciamento de riscos.
Segundo a companhia, aproximadamente 90% dos volumes analisados já passam por ferramentas de inteligência artificial, com resultados que a administração considera positivos sobre inadimplência.
A tese apresentada aos investidores é que a combinação de dados, automação e maior precisão na definição de preços permitirá expandir crédito sem deteriorar de forma significativa a qualidade dos ativos.
É justamente essa promessa que o mercado deverá testar nos próximos trimestres.
Crédito é principal motor e também principal risco
A carteira de crédito permanece no centro da estratégia do Inter.
A expansão dos empréstimos pode elevar a margem financeira e aumentar receitas, mas também amplia a exposição do banco a inadimplência e necessidade de provisões.
Para 2026, a administração indicou expectativa de crescimento da margem financeira em torno de 35%, expansão da carteira com melhora do mix de produtos, margem líquida próxima de 10% e custo de risco ao redor de 6%.
O custo de risco será um dos indicadores mais acompanhados pelo mercado.
Instituições financeiras digitais frequentemente conseguem crescer rapidamente ao ampliar a concessão de crédito, mas a qualidade desse crescimento depende de quanto será perdido com atrasos e inadimplência.
Se as provisões aumentarem mais rapidamente que as receitas, a expansão da carteira pode não se traduzir em maior rentabilidade.
A administração procura convencer investidores de que seus modelos de dados e inteligência artificial permitirão evitar esse problema.
Os analistas, por enquanto, demonstram cautela.
Inter precisa elevar ROE em mais de 10 pontos percentuais
A distância entre a rentabilidade atual e o objetivo estabelecido para 2029 continua significativa.
O banco trabalha hoje com ROE em torno de 15% a 16% e pretende alcançar entre 26% e 30% dentro de aproximadamente três anos.
Para justificar essa evolução, a administração detalhou diferentes fontes potenciais de ganho.
Uma utilização mais eficiente do capital, com elevação da alavancagem dos atuais 9,6 vezes para aproximadamente 11 vezes, poderia adicionar entre 1 e 2 pontos percentuais ao ROE.
A otimização da tesouraria, especialmente com maior alocação em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), poderia contribuir com mais 2 a 3 pontos percentuais.
Já os ganhos de eficiência operacional e a diluição de custos poderiam acrescentar entre 2 e 4 pontos percentuais ao retorno.
A administração estima conseguir entregar de 2 a 3 pontos percentuais dessa melhora no curto prazo.
A maior parcela, entre aproximadamente 8 e 12 pontos percentuais, dependeria de execução ao longo dos próximos anos e também de um ambiente macroeconômico mais favorável.
Essa dependência ajuda a explicar a reação cautelosa dos investidores.
Juros, inadimplência, demanda por crédito, concorrência e custo de captação são variáveis que não estão inteiramente sob controle da administração.
UBS vê meta de 30% como desafio
O UBS BB está entre as instituições que demonstraram maior cautela em relação aos objetivos apresentados pelo Inter.
Na avaliação do banco, o mercado nunca precificou integralmente um ROE estrutural de 30% para a companhia e provavelmente continuará sem fazê-lo enquanto não houver evidências operacionais que sustentem essa possibilidade.
O UBS reduziu suas estimativas em aproximadamente 4% para 2026 e em média 5% para 2027 e 2028, principalmente devido à expectativa de provisões maiores.
A instituição projeta lucro de aproximadamente R$ 1,8 bilhão em 2026 e R$ 2,2 bilhões em 2027, com ROAE de 16,2% neste ano e 18% no próximo.
Para 2029, o UBS estima ROE próximo de 20%.
A projeção está consideravelmente abaixo da faixa de 26% a 30% estabelecida pela administração do Inter.
A diferença resume parte da discussão em torno da ação: o banco apresenta uma trajetória de forte expansão da rentabilidade, enquanto alguns analistas exigem provas adicionais antes de incorporar essa melhora aos modelos de avaliação.
Bradesco BBI reduz projeções, mas continua recomendando compra
O Bradesco BBI também revisou para baixo suas estimativas.
O banco reduziu a previsão de lucro líquido do Inter para R$ 1,7 bilhão em 2026, corte de 8,4%, e para R$ 2,3 bilhões em 2027, redução de 11,8%.
As novas projeções ficaram, respectivamente, 8,8% e 7,7% abaixo do consenso de mercado para os dois períodos.
O BBI calcula ROE de 15,8% em 2026 e 18,8% em 2027.
Mesmo depois das revisões, a instituição manteve recomendação de compra.
A avaliação é de que a desvalorização dos últimos pregões pode ter tornado a relação entre risco e retorno mais atraente para investidores dispostos a assumir uma visão de médio e longo prazo.
O BBI estima que os papéis estejam negociando perto de 7,8 vezes o lucro e aproximadamente 1,2 vez o valor patrimonial.
O preço-alvo para os BDRs foi ajustado para R$ 41.
BTG considera correção exagerada
O BTG Pactual também permanece entre as casas com recomendação positiva.
A instituição manteve a indicação de compra, embora tenha reduzido o preço-alvo de R$ 60 para R$ 51.
O banco trabalha com crescimento médio da receita bruta próximo de 20% entre 2026 e 2028, patamar inferior ao que seria necessário para que o Inter cumpra integralmente as ambições associadas à Rule of 50 e à meta de ROE.
Ainda assim, o BTG avalia que períodos anteriores de forte ceticismo com o Inter acabaram criando oportunidades para investidores quando os resultados operacionais voltaram a melhorar.
Essa leitura sustenta a avaliação de que a queda recente pode ter ido além da deterioração efetiva dos fundamentos.
A tese, no entanto, depende de o banco continuar crescendo e evitar uma piora material do custo de crédito.
JPMorgan espera resultados do segundo trimestre
O JPMorgan também manteve recomendação de compra e preço-alvo de R$ 48.
Na visão da instituição, muitos investidores deverão esperar os números do segundo trimestre de 2026 antes de assumir posições mais agressivas.
O próximo balanço poderá oferecer novas evidências sobre margem de intermediação financeira, custo de receita e comportamento da carteira relacionada à folha de pagamento privada.
Mesmo com essa postura de espera, o JPMorgan considera que a queda das ações foi excessiva.
Desde 6 de maio, segundo os números apresentados pela instituição, o Inter acumulava baixa de 23,5%, enquanto o EWZ, ETF que acompanha ações brasileiras no mercado americano, recuava aproximadamente 3% no mesmo período.
A diferença mostra que a desvalorização recente foi muito mais associada a questões específicas do banco do que ao comportamento geral dos ativos brasileiros.
Safra questiona narrativa semelhante à de empresas de tecnologia
Nem todas as instituições enxergam a queda como oportunidade de compra.
O Safra manteve recomendação neutra e adotou postura mais conservadora sobre a trajetória de rentabilidade.
Um dos pontos questionados é justamente a utilização de métricas e narrativas semelhantes às de empresas de tecnologia em um momento no qual o ROE do banco desacelerou e cresceram as dúvidas sobre qualidade de ativos e custo de risco.
Apesar da cautela, os analistas identificaram fatores positivos.
Entre eles estão o crescimento de aproximadamente 30% na base de clientes principais, a rentabilidade da carteira de cartões e a confiança demonstrada pela administração em relação às novas metas de longo prazo.
Para o Safra, entretanto, esses fatores ainda não justificam uma recomendação mais agressiva.
XP diz que discussão sobre Inter mudou
A XP também manteve recomendação neutra.
Na avaliação da corretora, a discussão sobre o Inter passou por uma transformação.
Durante uma etapa anterior da companhia, a principal pergunta dos investidores era se o modelo de banco digital seria capaz de gerar resultado de forma sustentável.
Agora, segundo a XP, o debate deixou de ser sobre a viabilidade do modelo e passou a se concentrar em quanto de rentabilidade adicional ainda poderá ser extraído da plataforma.
Essa mudança é importante.
O mercado parece reconhecer que o Inter conseguiu construir uma operação relevante, mas passou a cobrar maior retorno sobre o capital utilizado.
A XP considera prudente aguardar novas evidências antes de adotar visão mais positiva sobre os papéis.
Mercado está dividido sobre as ações do Inter
As recomendações divulgadas após o encontro com investidores deixam clara a divisão entre os analistas.
Bradesco BBI, BTG, UBS BB e JPMorgan mantêm recomendações de compra.
Safra e XP permanecem neutros.
Os preços-alvo também apresentam dispersão significativa, refletindo diferenças nas hipóteses de crescimento e rentabilidade utilizadas pelas casas.
Entre as estimativas mencionadas estão R$ 41 pelo Bradesco BBI, R$ 51 pelo BTG, R$ 48 pelo JPMorgan, R$ 45 pela XP e US$ 10,40 pelo UBS BB.
O Safra mantém recomendação neutra, sem preço-alvo informado no material disponível.
A divergência mostra que o mercado ainda não encontrou consenso sobre qual cenário deve prevalecer.
Para os analistas otimistas, a correção recente já incorpora boa parte dos riscos e criou uma avaliação atraente.
Para os mais cautelosos, os múltiplos menores são consequência de expectativas mais fracas e não necessariamente representam uma oportunidade imediata.
Próximos resultados terão peso maior que novas metas
A principal consequência do encontro com investidores é que o Inter passa a enfrentar um período de comprovação.
A administração apresentou um plano baseado em maior uso de tecnologia, inteligência artificial, dados, expansão da carteira de crédito e ganhos de eficiência.
Mas o mercado parece disposto a atribuir valor a essas iniciativas somente à medida que elas aparecerem nos balanços.
O adiamento da meta 60-30-30 para 2029 tornou o objetivo mais factível, mas também evidenciou a distância entre a rentabilidade atual e aquilo que o banco espera alcançar.
Carteira de crédito, custo de risco, margem financeira, eficiência operacional e capacidade de ampliar a proporção de clientes rentáveis deverão ocupar o centro das atenções nos próximos trimestres.
A recuperação observada nesta terça-feira pode aliviar parte das perdas recentes, mas ainda é cedo para afirmar que o movimento representa uma mudança de tendência.
Depois de uma queda próxima de 20% em três sessões, o desafio do Inter não é apenas convencer investidores de que existe espaço para crescimento.
O banco precisa demonstrar que consegue transformar esse crescimento em rentabilidade sustentável.
Até lá, o mercado deverá continuar dividido entre quem vê a correção como uma oportunidade de entrada e quem prefere esperar por evidências de que o Inter realmente conseguirá aproximar seu ROE dos níveis prometidos para 2029.










