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Inter (INTR) tenta conter queda de 20% após revisar plano estratégico e adiar meta de rentabilidade

Banco digital manteve recomendações de compra em parte das casas, mas analistas passaram a exigir mais evidências sobre ROE, crédito e custo de risco

por João Souza - Repórter de Negócios
12/05/2026 às 20h29 - Atualizado em 14/05/2026 às 16h57
em Empresas, Destaque, Notícias
Inter (Intr) Tenta Conter Queda De 20% Após Revisar Plano Estratégico E Adiar Meta De Rentabilidade - Gazeta Mercantil

Fachada do Banco Inter. Imagem: Divulgação

O Inter (INTR) tenta recompor a confiança dos investidores após uma queda acumulada de cerca de 20% em três pregões, provocada por resultados abaixo das expectativas e pela revisão de seu plano estratégico de longo prazo. O banco digital realizou encontro com investidores em Nova York, nesta terça-feira (11), para apresentar novas metas de crescimento, rentabilidade e eficiência, mas a reação inicial do mercado foi negativa, com novas revisões de projeções por bancos e corretoras.

A pressão sobre as ações do Inter (INTR) ocorreu em um momento sensível para a tese de investimento da companhia. Depois de forte valorização desde 2023, o mercado passou a reavaliar a velocidade de crescimento do banco, a qualidade da carteira de crédito, o custo de risco e a viabilidade de alcançar níveis mais elevados de retorno sobre o patrimônio líquido.

Segundo o texto-base, a ação voltou a cair cerca de 7% na sessão do evento com investidores, antes de ensaiar recuperação no dia seguinte, quando subia 4,82%, a US$ 6,29, por volta das 11h40. Mesmo com cortes de preço-alvo por parte de algumas instituições, parte relevante dos analistas manteve recomendação de compra para os papéis.

Inter adia meta 60-30-30 para 2029

O principal ponto de atenção foi a revisão da meta estratégica conhecida como “60-30-30”. Antes, o Inter (INTR) projetava alcançar, até 2027, 60 milhões de clientes, índice de eficiência de 30% e ROE de 30%.

A meta era considerada ambiciosa pelo mercado, especialmente diante do patamar atual de rentabilidade. O banco encerrou o primeiro trimestre com ROE em torno de 16%, o que exigiria praticamente dobrar o retorno em menos de dois anos para cumprir o objetivo original.

No novo plano, o Inter (INTR) adiou a meta para 2029 e passou a trabalhar com uma faixa de ROE entre 26% e 30%. A mudança foi interpretada como uma tentativa de calibrar expectativas e tornar o plano mais factível, ainda que tenha reforçado dúvidas sobre o ritmo de entrega nos próximos anos.

Para investidores, o adiamento representa uma sinalização importante. A administração reconhece que o ambiente de crescimento, crédito e rentabilidade exige mais tempo para maturação. Ao mesmo tempo, a revisão reduz a visibilidade de curto prazo sobre a trajetória de valorização da ação.

Banco aposta em “Rule of 50” a partir de 2026

Além da revisão da meta de longo prazo, o Inter (INTR) apresentou a chamada “Rule of 50”, válida a partir de 2026. A proposta combina crescimento de receita e rentabilidade, de forma que a soma dos dois indicadores alcance 50%.

A nova métrica tenta aproximar a comunicação do banco de modelos usados por empresas de tecnologia e plataformas digitais, nas quais crescimento e geração de resultado são analisados em conjunto. A estratégia, porém, foi recebida com cautela por parte do mercado.

Para sustentar essa expansão, a gestão indicou três pilares: o Single Smart Super App, uma base robusta de dados alimentada por milhões de transações diárias e a Seven, nova assistente de inteligência artificial do Inter.

A companhia também reforçou que o motor de crédito seguirá como elemento central da tese. A administração destacou governança centralizada de preços, processos mais sofisticados de concessão e uso de inteligência artificial na análise de crédito e no controle da inadimplência.

Segundo a empresa, a inteligência artificial já responde por cerca de 90% dos volumes analisados, com impacto positivo sobre os índices de calote. A promessa é que tecnologia e dados ajudem o banco a crescer sem deteriorar de forma significativa a qualidade dos ativos.

Crédito continua no centro da tese de crescimento

O crédito segue como a principal alavanca operacional do Inter (INTR), mas também como uma das maiores fontes de preocupação dos analistas. A expansão da carteira pode impulsionar margem financeira e receitas, mas aumenta a exposição a inadimplência e provisões.

Para 2026, a administração sinalizou expansão da margem financeira em torno de 35%, crescimento do crédito com melhora do mix de produtos, margem líquida próxima de 10% e custo de risco ao redor de 6%.

Esse custo de risco é um dos pontos mais sensíveis do plano. Em bancos digitais, a capacidade de escalar crédito com controle de inadimplência costuma ser decisiva para sustentar múltiplos mais elevados. Quando o custo de risco sobe ou permanece pressionado, a leitura sobre rentabilidade futura fica mais conservadora.

O Inter (INTR) tenta mostrar que tecnologia, dados e gestão de preços podem reduzir esse risco. O mercado, porém, ainda cobra evidências mais concretas de que a instituição conseguirá crescer em crédito sem comprometer retorno sobre patrimônio.

ROE terá de subir mais de 10 pontos percentuais

O salto de rentabilidade previsto no plano é expressivo. O Inter (INTR) pretende elevar o ROE dos atuais níveis próximos de 15% a 16% para uma faixa entre 26% e 30% até 2029.

Segundo a administração, essa melhora viria de diferentes fontes. A eficiência de capital poderia contribuir com 1 a 2 pontos percentuais, por meio do aumento da alavancagem de 9,6 vezes para 11 vezes. A otimização de tesouraria, principalmente com maior alocação em FIDCs, poderia adicionar de 2 a 3 pontos percentuais. Já a eficiência operacional e a diluição de custos poderiam gerar de 2 a 4 pontos percentuais.

Do ganho total implícito, a gestão espera entregar entre 2 e 3 pontos percentuais no curto prazo. A parcela restante, estimada em 8 a 12 pontos percentuais, dependeria de execução gradual nos próximos anos e de melhora do ambiente macroeconômico.

Essa dependência de fatores externos ajuda a explicar a cautela dos analistas. A trajetória do ROE não depende apenas de eficiência interna. Ela também está ligada a juros, inadimplência, apetite por crédito, concorrência, custo de funding e qualidade da base de clientes.

UBS vê desafio para alcançar retorno estrutural de 30%

O UBS BB avaliou que o mercado nunca incorporou plenamente um ROE estrutural de 30% nas ações do Inter (INTR) e provavelmente continuará sem incorporar até que o banco mostre avanços concretos.

A instituição manteve visão cautelosa sobre a viabilidade da meta, afirmando que o objetivo provavelmente seguirá sendo um desafio. O banco também revisou projeções para baixo, reduzindo estimativas em cerca de 4% para 2026 e em média 5% para 2027 e 2028.

Segundo o UBS BB, o corte reflete principalmente provisões maiores do que o esperado. A instituição estima lucro de R$ 1,8 bilhão em 2026 e R$ 2,2 bilhões em 2027, com ROAE de 16,2% em 2026 e 18% em 2027.

Para 2029, o UBS projeta ROE de 20%, abaixo da meta apresentada pela administração do Inter (INTR). Essa diferença mostra a distância entre o discurso estratégico da companhia e as projeções mais conservadoras de parte do mercado.

Bradesco BBI corta estimativas, mas mantém compra

O Bradesco BBI também revisou suas projeções para o Inter (INTR). A instituição cortou a estimativa de lucro líquido para R$ 1,7 bilhão em 2026, queda de 8,4%, e para R$ 2,3 bilhões em 2027, redução de 11,8%.

Com os novos números, as projeções do banco ficaram 8,8% e 7,7% abaixo do consenso de mercado para 2026 e 2027, respectivamente. As estimativas implicam ROE de 15,8% em 2026 e 18,8% em 2027.

Mesmo com a revisão, o Bradesco BBI manteve recomendação de compra para os papéis. A avaliação é que a queda recente pode ter criado ponto de entrada atrativo, considerando o potencial de execução e uma assimetria positiva no médio e longo prazo.

O banco também apontou que o papel continua negociando a múltiplos considerados baixos, em torno de 7,8 vezes preço/lucro e 1,2 vez preço/valor patrimonial. O preço-alvo foi ajustado para R$ 41 para os BDRs.

BTG e JPMorgan também veem queda excessiva

O BTG manteve recomendação de compra para o Inter (INTR), embora tenha reduzido o preço-alvo de R$ 60 para R$ 51. A instituição projeta crescimento de receita bruta em torno de 20% entre 2026 e 2028, abaixo do necessário para cumprir integralmente a “Rule of 50” e as ambições de ROE apresentadas pela administração.

Ainda assim, o banco avalia que períodos de ceticismo já criaram oportunidades de compra no papel em ciclos anteriores. Essa leitura sugere que parte das casas enxerga a correção recente como exagerada, desde que a execução operacional siga avançando.

O JPMorgan também manteve recomendação de compra e preço-alvo de R$ 48. Para a instituição, muitos investidores devem aguardar os resultados do segundo trimestre de 2026 para ter maior visibilidade sobre margem de intermediação financeira, custo de receita e dinâmica da folha de pagamento privada.

Mesmo com essa cautela, o JPMorgan avaliou que a queda acumulada das ações foi excessiva quando comparada ao desempenho do EWZ, principal ETF de ações brasileiras negociado no exterior. Desde 6 de maio, o Inter (INTR) acumulava baixa de 23,5%, enquanto o EWZ recuava 3%.

Safra e XP preferem postura neutra

Nem todas as casas enxergam a correção como oportunidade clara. O Safra manteve recomendação neutra e reforçou uma visão mais conservadora sobre a trajetória de rentabilidade do banco.

Para os analistas, não faz sentido recorrer a narrativas típicas de empresas de tecnologia justamente em um momento em que o ROE desacelera e crescem questionamentos sobre qualidade de ativos e custo de risco.

Ainda assim, o Safra reconheceu pontos positivos no plano do Inter (INTR), como crescimento de 30% na base de clientes principais, rentabilidade da carteira de cartões e confiança da gestão em atingir as novas metas de longo prazo.

A XP também manteve postura neutra. Na visão da corretora, o debate sobre o Inter (INTR) mudou. Antes, a principal dúvida era se o modelo funcionava. Agora, a discussão passou a ser quanto de rentabilidade adicional ainda é possível extrair da plataforma.

A XP avaliou que, diante da reação do mercado e da recalibração das expectativas de médio prazo, é mais prudente manter cautela com o papel neste momento.

Recomendações mostram mercado dividido sobre Inter

Entre as casas citadas no levantamento, o sentimento em relação ao Inter (INTR) segue dividido. Bradesco BBI, BTG, UBS BB e JPMorgan mantiveram recomendação de compra. Safra e XP ficaram neutros.

Os preços-alvo variam de R$ 41, no Bradesco BBI, a R$ 51, no BTG, além de US$ 10,40 no UBS BB e R$ 48 no JPMorgan. A XP indicou preço-alvo de R$ 45, mas com recomendação neutra. O Safra manteve avaliação neutra sem preço-alvo informado no texto-base.

A divergência reflete a complexidade da tese. Para parte dos analistas, a ação caiu demais e passou a embutir cenário excessivamente pessimista. Para outros, a revisão do plano estratégico e a desaceleração do ROE exigem mais cautela antes de uma visão construtiva.

O ponto comum entre as leituras é que o mercado passou a exigir execução. O Inter (INTR) precisará mostrar evolução consistente em margem financeira, controle de inadimplência, eficiência operacional e expansão da base de clientes rentáveis.

Ação depende de prova concreta sobre rentabilidade

A queda recente colocou o Inter (INTR) em uma fase de teste. O novo plano estratégico oferece uma narrativa de crescimento apoiada em tecnologia, dados, inteligência artificial e ampliação da rentabilidade. Mas, para investidores, a entrega dos próximos trimestres será mais relevante que as metas de longo prazo.

O adiamento da meta 60-30-30 para 2029 reduziu a pressão imediata sobre a administração, mas também tornou mais claro que o caminho até um ROE próximo de 30% será longo e sujeito a riscos. A carteira de crédito, o custo de risco e a capacidade de escalar receitas sem perda de eficiência devem concentrar a atenção do mercado.

A manutenção de recomendações de compra por parte de grandes casas indica que a tese não foi descartada. Ao mesmo tempo, a postura neutra de Safra e XP mostra que há resistência em atribuir ao banco uma melhora estrutural antes de resultados mais robustos.

Para o Inter (INTR), a próxima etapa será transformar o novo plano em evidências operacionais. Depois de uma correção de 20%, a ação pode até recuperar parte das perdas no curto prazo, mas a sustentação de uma retomada dependerá da capacidade do banco de provar que crescimento, crédito e rentabilidade podem avançar juntos.

Tags: açõesanalistasbanco digitalBanco InterBDRsBradesco BBIBTGcréditocusto de riscoEmpresasInterINTRJPMorganROEsafraUBS BBXP

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