A publicação de Swan Song: Diana, My Sister, livro de memórias de Charles Spencer sobre a irmã, a princesa Diana, recolocou nesta semana episódios da crise que envolveu a família real britânica em 1997 no centro do debate público e provocou uma rara manifestação do Palácio de Buckingham. Trechos divulgados antes do lançamento de 22 de setembro relatam que o então príncipe Charles teria reagido de forma considerada por Spencer incompatível com o momento da morte de Diana e que, durante uma discussão sobre o funeral, teria dito que “logo vamos esquecê-la”. O Palácio contestou a narrativa de forma indireta, afirmando que o sofrimento provocado pela morte de um irmão pode afetar razão, julgamento e memória.
O episódio ganhou dimensão adicional porque ocorre 29 anos depois da morte de Diana e a poucos dias da chegada do livro às livrarias no Reino Unido. Publicado pela Penguin Michael Joseph no mercado britânico e pela Penguin Press nos Estados Unidos, o volume terá 384 páginas e foi anunciado para lançamento global em 22 de setembro. A editora informa que a obra será publicada em 12 idiomas e apresenta o relato de Spencer sobre a vida da irmã, sua relação familiar com ela e a semana de sua morte.
A controvérsia, portanto, não se limita a uma nova biografia sobre Diana. O livro parte de uma testemunha familiar direta dos acontecimentos e recupera uma disputa específica sobre a cerimônia fúnebre, ao mesmo tempo em que reabre questões sobre a relação entre Diana e Charles. Como o conteúdo central ainda está sendo conhecido por meio de trechos publicados antes da obra completa, as afirmações sobre conversas privadas devem ser tratadas como relatos de memória de Spencer, e não como fatos independentes estabelecidos.
Memórias de Spencer recolocam o funeral de Diana no centro da disputa
Segundo os trechos divulgados pela imprensa britânica, Spencer afirma que recebeu uma ligação de Charles após a morte da irmã e percebeu no então príncipe uma reação que descreveu como excessivamente animada diante da tragédia. Em outro episódio, o irmão de Diana relata uma discussão sobre a participação dos filhos dela, William e Harry, na procissão fúnebre e atribui a Charles a frase segundo a qual eles acabariam esquecendo Diana.
A questão do cortejo tem peso particular porque William tinha 15 anos e Harry, 12, quando a mãe morreu. Os dois caminharam atrás do caixão na procissão entre o Palácio de Kensington e a Abadia de Westminster, em 6 de setembro de 1997, ao lado de Charles, do avô, príncipe Philip, e de Spencer. O relato de Spencer sustenta que ele havia se oposto à participação dos sobrinhos por considerar que os adolescentes seriam expostos a uma pressão desnecessária.
O funeral tornou-se, posteriormente, uma das imagens mais marcantes da relação entre a monarquia e o público britânico. A presença dos dois príncipes adolescentes, acompanhados pelos adultos da família, foi televisionada internacionalmente e permanece associada à forma como a instituição lidou com a morte de Diana.
O novo livro acrescenta uma dimensão pessoal ao episódio ao apresentar a versão do irmão da princesa. Spencer não escreve como historiador externo ou biógrafo contratado pela Casa Real, mas como integrante da família que participou das decisões e dos conflitos daquele período. Essa posição também está no centro do contraponto apresentado pelo Palácio.
Palácio responde de forma incomum a relato de caráter pessoal
O Palácio de Buckingham afirmou que, em princípio, não comenta livros. Ainda assim, respondeu aos trechos antes da publicação integral da obra. A manifestação diz que o rei está consciente de que “a dor do luto entre irmãos” pode obscurecer a razão, afetar o julgamento e influenciar a memória, inclusive muitos anos depois da perda. A formulação não apresenta uma reconstrução detalhada dos acontecimentos de 1997, mas contesta a confiabilidade da lembrança apresentada por Spencer.
A escolha das palavras é relevante para a cobertura porque a instituição não confirmou os episódios narrados pelo irmão de Diana e também não apresentou, na manifestação pública divulgada, uma cronologia alternativa para as conversas privadas. O ponto formal levantado pelo Palácio é a possibilidade de distorção da memória causada pelo luto.
A reação ocorre quase duas décadas e meia depois de outra resposta que se tornou referência na comunicação da família real. Em 2021, durante a crise provocada pelas declarações públicas de Harry e Meghan, a então rainha Elizabeth II afirmou que “algumas lembranças podem variar”. A comparação ajuda a dimensionar a recorrência de uma estratégia em que a instituição evita entrar em confronto detalhado com versões individuais, mas registra sua discordância.
No caso atual, porém, a disputa é especialmente sensível porque envolve Diana, cuja morte provocou uma reação pública de enormes proporções no Reino Unido. O episódio também reaparece em um momento no qual seu filho Harry voltou a ocupar espaço público no país, enquanto o núcleo sênior da família mantém compromissos oficiais.
Retorno de Harry adiciona uma segunda frente à exposição da família
Em 17 de setembro, Harry fez em Londres sua primeira aparição pública desde o retorno ao Reino Unido com a família. Ele participou da primeira edição do Invictus Spirit Awards, evento ligado ao movimento que criou para homenagear militares, veteranos e outras pessoas afetadas por doenças ou ferimentos. A organização Invictus Games Foundation confirmou que a cerimônia inaugural ocorreu em Londres neste mês.
A aparição ocorreu poucos dias depois de Charles ter reafirmado oficialmente a posição de Harry e Meghan dentro da estrutura real. Em 7 de setembro, uma carta encaminhada a autoridades governamentais e militares esclareceu que o casal continua fora das funções oficiais da monarquia e que seus trabalhos filantrópicos são desenvolvidos em caráter privado. O documento também reiterou que os estilos de tratamento de “His Royal Highness” e “Her Royal Highness” permanecem sem uso.
O calendário da família em 17 de setembro mostrou a separação entre os compromissos oficiais e a agenda do duque de Sussex. No mesmo dia, Charles participou de um fórum sobre inteligência artificial na Escócia, realizado em Dumfries House, enquanto William e Catherine, princesa de Gales, cumpriram compromissos oficiais na Ilha de Bute. Os registros oficiais da Casa Real confirmam os eventos.
A coincidência temporal não estabelece uma relação formal entre o lançamento do livro e a agenda de Harry. Ela, no entanto, coloca duas narrativas familiares relacionadas a Diana no mesmo espaço público: de um lado, a memória da princesa reconstruída pelo irmão; de outro, o retorno de um de seus filhos ao país e a tentativa da monarquia de delimitar sua condição institucional.
Livro chega antes de uma nova onda de atenção à memória de Diana
A escolha do momento para a publicação também ajuda a explicar o interesse gerado em torno da obra. A Penguin afirma que Spencer decidiu registrar suas próprias lembranças diante da proximidade do trigésimo aniversário da morte da irmã. Na apresentação editorial, o autor diz que recebeu sucessivos pedidos para falar sobre Diana e decidiu colocar no papel suas memórias em vez de continuar lendo interpretações de terceiros.
Esse intervalo cria um ciclo prolongado de exposição pública da memória da princesa. O aniversário de 30 anos da morte de Diana será em 31 de agosto de 2027, mas os preparativos editoriais e comerciais já começaram a mobilizar o mercado britânico.
Um exemplo está fora da literatura. A Sotheby’s anunciou em setembro que o vestido preto usado por Diana em 29 de junho de 1994, posteriormente conhecido como “vestido da vingança”, será levado a leilão em Nova York em 9 de dezembro. A estimativa da casa para a peça está entre US$ 150 mil e US$ 300 mil.
A concentração de eventos relacionados à princesa mostra que a memória de Diana continua tendo impacto simultaneamente editorial, cultural e comercial quase três décadas após sua morte. No caso do livro de Spencer, entretanto, a exposição envolve também a relação entre dois integrantes de uma família que permanece sob observação mundial.
A obra não representa uma biografia autorizada pela família real nem um documento oficial sobre a morte de Diana. Trata-se de uma memória pessoal, produzida a partir da perspectiva de um dos irmãos da princesa. A reação do Palácio deixa claro que as lembranças apresentadas por Spencer não são aceitas como registro consensual dos acontecimentos.
A publicação integral em 22 de setembro deverá ampliar o conjunto de episódios conhecidos e permitir a avaliação do contexto em que cada relato é apresentado. Até lá, as informações mais contundentes sobre Charles permanecem vinculadas aos trechos antecipados e à narrativa de Spencer. O Palácio, por sua vez, já registrou publicamente sua objeção central: a distância de quase 30 anos e o impacto do luto podem interferir na forma como acontecimentos privados são lembrados.
Fontes:
Penguin Random House – anúncio editorial de Swan Song: Diana, My Sister, data de lançamento, proposta da obra e declaração de Charles Spencer
Penguin Michael Joseph – informações editoriais de Swan Song, de Charles Spencer, e data de publicação no Reino Unido
The Royal Family – discurso de Charles no fórum sobre inteligência artificial realizado em Dumfries House em 17 de setembro de 2026
The Royal Family – Court Circular com os compromissos oficiais de Charles, William e Catherine em 17 de setembro de 2026
Invictus Games Foundation – informações sobre a primeira edição dos Invictus Spirit Awards em Londres
Buckingham Palace – manifestação divulgada em resposta aos relatos de Charles Spencer sobre Diana e os acontecimentos posteriores à morte da princesa
Sotheby’s – anúncio do leilão do vestido usado por Diana em 1994 e estimativa de valor da peça









