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Lucro da Samsung dispara 19 vezes, mas tombo na Bolsa acende alerta sobre IA

Gigante sul-coreana superou estimativas no 2º trimestre com chips de memória, mas investidores reagiram ao risco de desaceleração nos gastos com data centers de inteligência artificial

por João Souza
07/07/2026 às 10h44
em Empresas
Lucro Da Samsung Dispara 19 Vezes, Mas Tombo Na Bolsa Acende Alerta Sobre Ia - Gazeta Mercantil

A Samsung Electronics projetou nesta terça-feira, 7 de julho de 2026, em Seul, um salto de 19 vezes no lucro operacional do segundo trimestre, para 89,4 trilhões de won, impulsionada pela demanda por chips de memória usados em inteligência artificial, mas suas ações caíram com força diante da preocupação de investidores sobre a continuidade do boom da IA e dos preços elevados dos semicondutores.

A prévia operacional da maior fabricante mundial de chips de memória veio acima das expectativas do mercado. A estimativa superou a projeção de 87,3 trilhões de won da LSEG SmartEstimate e ficou muito acima dos 4,7 trilhões de won registrados no mesmo período do ano anterior.

Leia também: Ibovespa cai com tombo do petróleo e pressão de Petrobras (PETR3;PETR4); dólar recua abaixo de R$ 5.

A receita também deve ter avançado de forma expressiva. Segundo a companhia, o faturamento do trimestre encerrado em junho deve alcançar 171 trilhões de won, alta de 129% na comparação anual.

Ainda assim, o resultado não foi suficiente para sustentar as ações. Os papéis da Samsung chegaram a cair mais de 10% durante o pregão e fecharam em baixa de 6,9%, eliminando mais de US$ 80 bilhões em valor de mercado. A rival SK Hynix, também exposta ao ciclo de memória para inteligência artificial, recuou 6%.

A reação negativa contaminou a Bolsa da Coreia do Sul. O índice Kospi, referência do mercado acionário local, fechou em queda de 4,9%, pressionado por empresas de tecnologia e semicondutores.

Lucro recorde já estava no preço das ações

O lucro da Samsung veio forte, mas o mercado esperava um desempenho robusto. Nos meses anteriores, as ações de fabricantes de semicondutores haviam subido com a tese de que a expansão dos data centers de inteligência artificial manteria a demanda por chips em patamar elevado.

Essa antecipação reduziu o espaço para uma reação positiva ao balanço preliminar. Para parte dos investidores, o lucro da Samsung confirmou a força do ciclo atual, mas não eliminou a dúvida central: por quanto tempo os preços de memória continuarão subindo.

A dinâmica é típica de setores cíclicos. Quando a melhora de preços é muito rápida, o mercado passa a questionar se o ganho é estrutural ou temporário. No caso da Samsung, a leitura ficou ainda mais sensível porque a valorização recente dos papéis já embutia expectativas altas para o segundo semestre.

Analistas atribuíram o tombo das ações à combinação de três fatores: resultado forte já precificado, temor de desaceleração nos investimentos em infraestrutura de IA e incerteza sobre a continuidade da alta dos preços de DRAM e NAND.

O investidor deixou de olhar apenas para o trimestre encerrado em junho e passou a avaliar o risco de uma acomodação no ciclo de chips.

Chips de memória sustentam virada da Samsung

A melhora do lucro da Samsung foi puxada principalmente pela disparada dos preços de chips de memória. A expansão de data centers voltados à inteligência artificial elevou a procura por componentes capazes de armazenar e processar grandes volumes de dados em servidores de alto desempenho.

A demanda mais visível está na memória de alta largura de banda, conhecida como HBM, usada em conjunto com aceleradores de IA. Esse tipo de chip se tornou estratégico para empresas que desenvolvem grandes modelos de linguagem, sistemas de busca, ferramentas corporativas e aplicações avançadas de automação.

Mas o impacto não ficou restrito à HBM. O aumento da produção de memórias avançadas reduziu a disponibilidade relativa de produtos convencionais, como DRAM e NAND, usados em smartphones, computadores, servidores corporativos e equipamentos de armazenamento.

Com menos oferta em algumas linhas e demanda aquecida em várias frentes, os preços subiram de forma acelerada. Segundo estimativas de mercado citadas por analistas, os preços médios de venda de DRAM e NAND avançaram 44% e 53%, respectivamente, no segundo trimestre ante os três meses anteriores.

Essa combinação explica a magnitude do lucro da Samsung. Depois de enfrentar um ciclo prolongado de excesso de oferta e margens comprimidas, a companhia voltou a se beneficiar de um mercado global de memória mais apertado.

Receita reacende dúvida sobre ritmo dos preços

Apesar do avanço expressivo, a estimativa de receita da Samsung foi vista por parte do mercado como menos forte do que o lucro operacional sugeria. Esse ponto pesou sobre as ações porque pode indicar que os aumentos de preços foram mais moderados do que investidores esperavam.

A leitura é relevante para o setor. Em semicondutores, a rentabilidade depende tanto do volume vendido quanto do preço médio dos componentes. Se os preços começam a desacelerar, mesmo em patamar elevado, o mercado tende a revisar expectativas para os trimestres seguintes.

O lucro da Samsung também foi influenciado por provisões relacionadas a bônus de funcionários da área de semicondutores. Em maio, a empresa fechou acordo salarial que vinculou parte da remuneração ao lucro operacional. Analistas estimam que, sem esses encargos, o resultado poderia ter superado 100 trilhões de won.

Mesmo com esse efeito, o desempenho da divisão de memória foi considerado forte. O problema, para investidores, é que o lucro excepcional do trimestre não garante repetição automática.

A dúvida está concentrada no comportamento das grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos, que têm liderado os gastos globais em data centers, servidores, GPUs e infraestrutura de inteligência artificial.

Big techs viram risco para fornecedores de chips

Microsoft (MSFT), Amazon (AMZN), Alphabet (GOOGL), Meta Platforms (META) e outros grupos globais ampliaram fortemente seus investimentos em infraestrutura de IA desde 2023. Esse movimento beneficiou toda a cadeia de semicondutores, de fabricantes de GPUs, como Nvidia (NVDA), a produtores de memória, armazenamento e equipamentos.

A Samsung está entre as empresas mais expostas a esse ciclo. Quando as big techs aumentam encomendas para data centers, a demanda por chips de memória cresce em paralelo. Quando há qualquer sinal de revisão de gastos, o mercado antecipa pressão sobre fabricantes.

O receio atual é que parte dos investimentos em IA passe por uma fase de maior disciplina financeira. As grandes companhias de tecnologia precisam demonstrar retorno sobre volumes bilionários de capital aplicados em infraestrutura, enquanto investidores cobram monetização mais clara dos produtos baseados em inteligência artificial.

Essa preocupação não significa retração imediata da demanda. O mercado de IA segue em expansão, e a necessidade de capacidade computacional permanece elevada. A questão é o ritmo. Se os investimentos deixarem de crescer na mesma velocidade, os preços de memória podem perder força.

Foi essa leitura que derrubou as ações da Samsung mesmo após um lucro histórico.

Fundição ainda limita leitura positiva do balanço

Outro ponto observado pelo mercado está fora do negócio de memória. A Samsung também atua em fundição e chips lógicos, áreas que seguem sob pressão e devem apresentar perdas maiores no trimestre, segundo analistas.

A fundição é o segmento em que a Samsung fabrica chips desenhados por outras empresas. É um mercado estratégico, mas altamente competitivo, dominado pela Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSM), mais conhecida como TSMC.

A Samsung tenta reduzir a distância em relação à rival taiwanesa, mas o negócio exige investimentos pesados, tecnologia de ponta e capacidade de atrair grandes clientes globais. O retorno é mais incerto do que no ciclo atual de memória.

Essa diferença importa porque a divisão de semicondutores da Samsung não é composta apenas por DRAM, NAND e HBM. As áreas de fundição e chips lógicos consomem capital e podem reduzir parte do ganho obtido com os preços elevados de memória.

O balanço completo, previsto para 30 de julho, deve mostrar com mais clareza quanto cada divisão contribuiu para o resultado consolidado. Até lá, investidores devem seguir calibrando expectativas para a margem da companhia no segundo semestre.

Mercado testa limite da euforia com inteligência artificial

A reação à prévia da Samsung mostra que o mercado de tecnologia entrou em uma fase mais exigente. Durante meses, empresas ligadas à inteligência artificial foram beneficiadas por uma tese simples: quanto maior a demanda por IA, maior a necessidade de chips, servidores e data centers.

Agora, o investidor passou a separar empresas com crescimento já contratado daquelas que dependem da manutenção de preços excepcionalmente altos. No caso da Samsung, o resultado recorde confirmou a força da demanda, mas também elevou a cobrança por sinais de continuidade.

O setor de semicondutores historicamente passa por ciclos de escassez e excesso de oferta. A diferença, desta vez, é que a inteligência artificial criou uma nova fonte de demanda em escala global. Mesmo assim, a memória continua sujeita a oscilações de preço, planejamento de capacidade e mudanças no ritmo de encomendas.

Para acionistas, o lucro da Samsung mostra que a companhia voltou ao centro do ciclo global de tecnologia. Para o mercado, a queda das ações indica que o preço dos papéis já refletia boa parte desse otimismo.

A prévia também reforça a sensibilidade das Bolsas asiáticas ao tema. Samsung e SK Hynix são peças centrais na cadeia de memória, e seus movimentos afetam índices, fundos setoriais e a percepção de risco sobre empresas de semicondutores.

Queda da Samsung coloca chips no centro do risco global

O tombo das ações da Samsung não apaga o desempenho operacional da companhia, mas altera a forma como investidores avaliam o ciclo de inteligência artificial. O lucro da Samsung cresceu em escala rara, sustentado por preços elevados de memória e demanda de data centers, enquanto a Bolsa reagiu à possibilidade de que o melhor momento dos ganhos esteja mais próximo do pico.

A divulgação detalhada de 30 de julho será decisiva para medir a qualidade do resultado. O mercado buscará sinais sobre margens na divisão de memória, perdas em fundição, encomendas de HBM, estoques e perspectivas para o segundo semestre.

Até lá, a Samsung seguirá como termômetro da confiança global no boom da IA. O avanço de 19 vezes no lucro operacional mostra a força do ciclo atual; a perda de mais de US$ 80 bilhões em valor de mercado revela que investidores já não compram crescimento sem perguntar quanto dele ainda pode se repetir.

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