A última rodada da pesquisa BTG Pactual/Nexus colocou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) novamente dentro da margem de erro na corrida presidencial, em um momento no qual a situação das contas públicas ganha peso no debate econômico para 2027. No cenário estimulado de primeiro turno, Lula registra 40% das intenções de voto e Flávio aparece com 37%, diferença de três pontos percentuais diante de uma margem de erro de dois pontos para mais ou para menos. Augusto Cury (Avante) tem 6%, Ronaldo Caiado (PSD), 5%, Renan Santos (Missão), 3%, enquanto Romeu Zema (Novo) e Samara Martins (UP) aparecem com 1% cada.
No eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, o levantamento registra 46% para o presidente e 45% para o senador, também dentro da margem de erro. Lula aparece com 44% contra 43% de Augusto Cury e empata numericamente com Ronaldo Caiado, em 45% a 45%. A pesquisa ouviu 2.006 eleitores por telefone entre 18 e 20 de setembro, tem nível de confiança de 95% e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-00485/2026. Os resultados são uma fotografia das intenções declaradas no período pesquisado, e não uma previsão do resultado da eleição.
A proximidade entre os candidatos ocorre enquanto investidores, bancos e consultorias discutem qual combinação de medidas será necessária para estabilizar a dívida pública nos próximos anos. O Brasil mantém déficit primário, suporta um volume elevado de juros e apresenta crescimento da relação entre dívida e Produto Interno Bruto.
A Empiricus Research, em relatório citado no material que acompanha a pesquisa, estima que a estabilização da dívida exigiria superávit primário recorrente entre 1,5% e 2% do PIB. A casa também defende desaceleração de despesas obrigatórias, revisão de indexações e benefícios, menor número de exceções às regras fiscais e metas verificáveis. Essas propostas representam a avaliação da própria instituição, e não uma conclusão da pesquisa BTG/Nexus nem uma projeção oficial.
Déficit nominal chegou a 9,99% do PIB em 12 meses
Nos 12 meses encerrados em junho de 2026, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 157,2 bilhões, equivalente a 1,19% do PIB. No mesmo período, os juros nominais atingiram R$ 1,1605 trilhão, ou 8,80% do PIB. Somados, esses componentes produziram déficit nominal de R$ 1,3178 trilhão, equivalente a 9,99% do PIB.
A diferença entre resultado primário e nominal ajuda a dimensionar o desafio. O resultado primário compara receitas e despesas antes dos juros, enquanto o nominal incorpora também o custo financeiro da dívida. Assim, mesmo uma melhora do resultado primário não interrompe necessariamente o avanço do endividamento quando os juros permanecem elevados.
Em junho, a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou 81,9% do PIB, cerca de R$ 10,8 trilhões. Apenas naquele mês, a incorporação de juros acrescentou aproximadamente 0,8 ponto percentual do PIB à dívida bruta.
É nesse contexto que analistas discutem a necessidade de resultados primários positivos nos próximos anos. A magnitude do esforço necessário, porém, varia conforme crescimento econômico, juros, estoque da dívida, receitas e despesas. A estimativa da Empiricus de superávit entre 1,5% e 2% do PIB deve ser lida como uma hipótese construída a partir do cenário da instituição.
Mercado melhora projeção para o déficit de 2026
O Prisma Fiscal de setembro mostrou melhora nas expectativas para o resultado primário do Governo Central. A mediana para o déficit de 2026 caiu de R$ 59,145 bilhões em agosto para R$ 52,271 bilhões em setembro. Para 2027, a projeção passou de R$ 55 bilhões para R$ 45,35 bilhões.
Ao mesmo tempo, a expectativa para a dívida continuou subindo. A mediana para a Dívida Bruta do Governo Geral em 2026 avançou de 83% para 83,2% do PIB. Para 2027, passou de 86,77% para 87%.
O resultado mensal também apresenta oscilações importantes. O Governo Central registrou superávit primário de R$ 10,8 bilhões em julho, depois do déficit de R$ 48,2 bilhões observado em junho. De janeiro a julho, porém, o saldo acumulado permaneceu negativo em R$ 81,3 bilhões, ante déficit de R$ 70,3 bilhões no mesmo período de 2025.
Esses números usam conceitos diferentes e não devem ser confundidos. O déficit de 9,99% do PIB corresponde ao resultado nominal do setor público consolidado acumulado em 12 meses até junho e inclui juros. Já a projeção de pouco mais de R$ 52 bilhões para 2026 se refere ao resultado primário do Governo Central.
Também exige cautela a leitura das despesas excluídas da meta fiscal. O decreto de programação considera R$ 62,779 bilhões em deduções para 2026. Essas exclusões alteram a apuração formal do cumprimento da meta, mas as despesas continuam sendo realizadas e financiadas.
Composição do ajuste importa
Um eventual ajuste das contas públicas pode combinar aumento de receitas, contenção de despesas, revisão de benefícios tributários, mudanças em indexações e reformas estruturais. Os efeitos econômicos variam conforme a composição escolhida.
A Empiricus argumenta que um programa com etapas, gatilhos e metas intermediárias poderia aumentar a previsibilidade da trajetória fiscal. A implementação de qualquer programa, porém, depende de decisões políticas, desenho legislativo e dos efeitos sobre crescimento, emprego, renda e arrecadação.
Para os mercados, a atenção tende a se concentrar na capacidade de o próximo governo apresentar uma trajetória de receitas e despesas compatível com a estabilização da dívida e executá-la de forma crível.
Pesquisa eleitoral não determina política fiscal
A pesquisa BTG/Nexus mostra uma disputa apertada, mas não permite concluir qual candidatura produziria maior ou menor ajuste fiscal. Essa avaliação depende das propostas econômicas, das medidas efetivamente apresentadas por cada campanha, da composição do Congresso e das condições encontradas pelo governo em 2027.
No caso de Lula, a análise pode partir da política fiscal adotada no atual mandato, do arcabouço vigente, das metas propostas pelo Executivo e dos resultados observados. Para Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Ronaldo Caiado e os demais candidatos, a comparação exige examinar propostas formalizadas para receitas, despesas, Previdência, benefícios tributários, salário mínimo, investimento público e gestão da dívida.
A pesquisa indica que Lula e Flávio Bolsonaro permanecem dentro da margem de erro nos principais cenários testados. Paralelamente, os dados fiscais mostram déficit primário, juros nominais elevados e expectativa de aumento da dívida como proporção do PIB. São informações que ajudam a descrever o ambiente eleitoral e econômico de 2026, mas não estabelecem, por si só, uma relação causal entre intenção de voto e resultado fiscal futuro.
Fontes:
BTG Pactual/Nexus — 15ª rodada da pesquisa de intenção de voto para presidente, setembro de 2026
Banco Central do Brasil — Estatísticas Fiscais
Secretaria do Tesouro Nacional — Resultado do Tesouro Nacional
Ministério da Fazenda — Prisma Fiscal de setembro de 2026
Presidência da República — Decreto de programação orçamentária e financeira de 2026
Empiricus Research — relatório “E se o governo ajustar as contas públicas?”









