O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira, 12 de maio, que convidou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a cooperar com o Brasil no combate ao crime organizado, mas ressaltou que qualquer atuação estrangeira deve ocorrer “em consonância” com as decisões do governo brasileiro e das autoridades nacionais. A declaração foi feita durante o lançamento do programa Brasil Contra o Crime Organizado, no Palácio do Planalto, em Brasília, iniciativa federal voltada à desarticulação financeira de facções, milícias e redes criminosas que atuam no país.
Lula disse ter tratado com Trump de temas como lavagem de dinheiro, contrabando de armas e brasileiros investigados ou suspeitos de envolvimento com atividades criminosas que estariam vivendo nos Estados Unidos. O presidente também citou o Estado de Delaware, conhecido por sua legislação societária flexível, ao falar sobre estruturas usadas por brasileiros em operações de lavagem de dinheiro.
“Eu disse ao presidente Trump: se você quiser combater o crime organizado de verdade, você tem que começar a entregar alguns dos nossos que estão morando em Miami. É só querer discutir”, afirmou Lula, em discurso no evento.
Segundo o presidente, há espaço para colaboração entre Brasil e Estados Unidos, mas dentro dos limites definidos pelo Estado brasileiro. “Disse ao presidente Trump: se você quiser colaborar, tem espaço para vocês participarem conosco no combate ao crime organizado, à lavagem de dinheiro e ao contrabando de armas nas fronteiras. Agora, vai trabalhar em consonância com a decisão do governo e da polícia brasileira”, declarou.
Cooperação com os EUA entra na agenda de segurança pública
A fala de Lula ocorre em um momento em que o governo federal tenta reposicionar a pauta da segurança pública como prioridade política e institucional. O tema ganhou força diante do crescimento da atuação de facções criminosas, da sofisticação de mecanismos de lavagem de dinheiro e da presença de redes ilegais em atividades econômicas formais.
Nos últimos meses, integrantes do governo brasileiro vinham indicando que o combate ao crime organizado seria um dos temas tratados nas conversas com os Estados Unidos. A agenda bilateral inclui preocupações com armas, drogas, fluxo financeiro ilícito e cooperação entre órgãos de inteligência e fiscalização.
Ao mencionar Trump, Lula procurou delimitar o tipo de colaboração defendida pelo Planalto. O governo brasileiro aceita cooperação internacional em inteligência, rastreamento financeiro, controle de fronteiras e combate ao tráfico de armas, mas resiste a iniciativas que possam ser interpretadas como interferência externa na segurança interna do país.
Esse ponto é sensível porque parte do debate nos Estados Unidos envolve propostas de enquadramento de facções criminosas latino-americanas como organizações terroristas estrangeiras. O Brasil, no entanto, tem sustentado que a repressão a grupos criminosos deve obedecer ao marco jurídico nacional e às instituições brasileiras de segurança e Justiça.
Lula diz que crime organizado está em setores formais da sociedade
Durante o discurso, Lula afirmou que o crime organizado não está restrito às áreas periféricas ou aos territórios dominados por facções. Segundo ele, organizações criminosas também se infiltram em setores formais da economia e em espaços de poder.
O presidente disse que o crime está presente no meio empresarial, no Judiciário, no Congresso e até no futebol. A declaração foi feita em tom de crítica à visão, segundo ele limitada, de que o problema da criminalidade está concentrado apenas nas comunidades pobres.
Lula afirmou que, muitas vezes, a polícia olha para a favela enquanto integrantes do crime organizado observam “de um apartamento com cobertura”. A frase resume a tentativa do governo de deslocar o centro da discussão da repressão territorial para a investigação de estruturas financeiras, empresariais e patrimoniais usadas por facções e milícias.
A estratégia tem impacto direto sobre órgãos como Polícia Federal, Receita Federal, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, Ministério da Justiça e Segurança Pública, além de autoridades estaduais. O combate à lavagem de dinheiro exige cruzamento de dados, rastreamento de empresas, bloqueio de ativos e cooperação judicial.
Programa mira finanças de facções e redes de lavagem
O programa Brasil Contra o Crime Organizado foi apresentado pelo governo como uma resposta federal à expansão de facções, milícias e organizações ilegais. A iniciativa prevê ações de inteligência, repressão financeira, integração de bancos de dados, fortalecimento de presídios e apoio a estados e municípios. Informações divulgadas sobre o pacote apontam valores bilionários entre investimentos diretos e linhas de crédito para segurança pública.
A lógica central do plano é atingir a base econômica das organizações criminosas. Em vez de concentrar a atuação apenas em prisões individuais ou apreensões pontuais, o governo quer aumentar a capacidade do Estado de identificar empresas, operadores financeiros, laranjas, imóveis, veículos, contas e estruturas usadas para movimentar recursos ilícitos.
Essa abordagem aproxima a segurança pública de temas econômicos. Facções e milícias deixaram de atuar apenas em atividades tradicionais, como tráfico de drogas e armas, e passaram a disputar mercados formais e informais, incluindo combustíveis, transporte, comércio, apostas, imóveis, serviços e contratos locais.
O combate a esse tipo de organização exige uma frente mais ampla do que a repressão policial convencional. Para funcionar, depende de investigação financeira, cooperação entre órgãos, capacidade tecnológica, compartilhamento de informações e atuação coordenada com o sistema de Justiça.
Delaware e Miami entram no discurso presidencial
Ao citar Miami e Delaware, Lula trouxe para o centro do debate a dimensão internacional do crime organizado brasileiro. Miami é frequentemente mencionada no debate público brasileiro como destino de empresários, investigados e operadores com patrimônio no exterior. Delaware, por sua vez, é conhecido pela facilidade de abertura de empresas e pelo uso de estruturas societárias que podem dificultar a identificação de beneficiários finais.
A menção do presidente não significa, por si só, acusação formal contra pessoas específicas. No discurso, Lula usou os exemplos para defender cooperação internacional no rastreamento de recursos, na identificação de estruturas empresariais e na eventual responsabilização de brasileiros que tenham cometido crimes no país e buscado proteção patrimonial ou pessoal fora do território nacional.
A cooperação com os Estados Unidos pode envolver troca de informações fiscais, aduaneiras e financeiras, além de pedidos de assistência jurídica internacional. Esse tipo de colaboração é relevante em investigações que envolvem lavagem de dinheiro, empresas offshore, remessas internacionais, compra de bens no exterior e contrabando de armas.
O tema também se conecta à preocupação do governo brasileiro com o fluxo de armas ilegais. Autoridades federais têm sustentado que parte relevante do armamento apreendido no Brasil tem origem externa, especialmente em rotas que passam pelos Estados Unidos e por países vizinhos.
PEC da Segurança volta ao centro da articulação
Lula também voltou a defender a aprovação da PEC da Segurança Pública no Congresso Nacional. Segundo o presidente, assim que a proposta for aprovada, o governo criará o Ministério da Segurança Pública.
A criação de uma pasta específica para o setor é uma promessa que o Planalto associa à necessidade de coordenação nacional. Hoje, a área está vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. A separação permitiria, segundo defensores da ideia, maior foco administrativo, orçamento próprio e comando político dedicado exclusivamente à segurança.
A PEC da Segurança é uma das principais apostas do governo para ampliar o papel da União na formulação de políticas nacionais para o setor. O tema, porém, enfrenta resistências federativas e políticas. Governadores costumam defender autonomia sobre suas polícias e políticas estaduais, enquanto parlamentares discutem os limites da coordenação federal.
O avanço da proposta dependerá de articulação com Câmara e Senado. Por se tratar de emenda constitucional, a PEC exige votação em dois turnos nas duas Casas, com apoio de três quintos dos parlamentares. O governo tenta vincular a medida ao enfrentamento de facções, mas a pauta de segurança também será disputada no ambiente eleitoral.
Segurança vira tema estratégico para o governo
A ofensiva de Lula na segurança pública ocorre em um contexto de pressão crescente sobre o governo. O avanço de facções, a violência urbana, o controle territorial por milícias e a atuação de redes criminosas em atividades econômicas ampliaram a cobrança por respostas federais.
Historicamente, segurança pública é uma área de forte protagonismo dos estados. Polícias militares e civis são comandadas pelos governos estaduais, enquanto a União atua principalmente por meio da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional, sistema penitenciário federal e políticas de financiamento.
Com o novo programa, o Planalto tenta aumentar sua presença no tema sem assumir integralmente a responsabilidade operacional pela segurança nos estados. A aposta está na coordenação nacional, no combate financeiro e na integração de inteligência.
Politicamente, a pauta tem peso relevante. A segurança pública é um dos temas de maior sensibilidade para a população e costuma ser explorada por governos e oposição. Ao associar o crime organizado a estruturas econômicas, empresariais e internacionais, Lula tenta reposicionar o debate para além da repressão policial em territórios pobres.
Discurso amplia pressão sobre Congresso e sistema de Justiça
A declaração de Lula de que o crime organizado alcança setores empresariais, o Judiciário, o Congresso e o futebol deve gerar repercussão política. Embora o presidente não tenha citado nomes específicos, a fala amplia a pressão sobre instituições e setores que podem ser alvo de investigações, mudanças regulatórias e medidas de controle.
No Congresso, a tramitação da PEC da Segurança Pública tende a ganhar novo peso após o lançamento do programa. O governo deve usar a pauta para cobrar apoio a uma estrutura federal mais robusta de combate ao crime organizado. Parlamentares, por sua vez, devem disputar o alcance da proposta e os limites da atuação da União.
No sistema de Justiça, o foco em lavagem de dinheiro e estruturas empresariais reforça a necessidade de operações complexas, com bloqueio de bens, quebra de sigilos mediante autorização judicial, cooperação internacional e responsabilização de operadores financeiros. A efetividade do programa dependerá menos de anúncios e mais da capacidade de produzir investigações consistentes.
Ao citar Trump, Miami, Delaware e a necessidade de cooperação internacional, Lula procurou apresentar o crime organizado como um problema transnacional, econômico e institucional. A mensagem central do Planalto é que o combate às facções não se limitará ao confronto armado nas ruas, mas buscará atingir patrimônio, redes empresariais e canais financeiros usados para sustentar a expansão do crime.









