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Marabraz pede recuperação judicial para renegociar dívida de R$ 140 milhões

Rede paulista de móveis e eletrodomésticos atribui crise à restrição de crédito, juros elevados e ruptura da estrutura familiar que sustentava as operações; pedido envolve cinco empresas

por João Souza
17/08/2026 às 15h44
em Empresas
Marabraz Pede Recuperação Judicial Para Renegociar Dívida De R$ 140 Milhões - Gazeta Mercantil

A Marabraz entrou com pedido de recuperação judicial em São Paulo para renegociar aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas, em mais um sinal das dificuldades financeiras enfrentadas por empresas do varejo dependentes de crédito e capital de giro. A rede afirma que continuará funcionando normalmente enquanto busca reorganizar suas obrigações e preservar empregos, fornecedores e clientes.

O pedido reúne cinco empresas ligadas à operação: Comercial de Móveis Jordanésia, S.V.C. Jaraguá Comercial, Comercial Móveis das Nações, Comercial Zena Móveis e Monta Móveis Prestadora de Serviços. A Comercial de Móveis Jordanésia é uma das principais sociedades vinculadas à atividade desenvolvida sob a marca Marabraz.

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A companhia atribui a deterioração financeira a uma combinação de fatores. Além do ambiente de juros elevados e crédito mais restrito, a empresa aponta uma ruptura na estrutura familiar que historicamente dava suporte patrimonial às operações do grupo, reduzindo sua capacidade de obter financiamento.

“Diante dos desafios enfrentados pelo setor varejista e com objetivo de preservar a continuidade de suas atividades, a Marabraz ajuizou pedido de recuperação judicial”, afirmou o diretor da empresa, Nasser Fares.

Segundo ele, a medida busca reorganizar compromissos financeiros e criar condições para a continuidade da operação. O pedido judicial ainda não equivale, por si só, à concessão da recuperação: a legislação estabelece uma etapa de análise do cumprimento dos requisitos legais antes do deferimento do processamento pelo juízo competente.

Restrição de crédito aparece no centro da crise

O ponto mais relevante na explicação apresentada pela Marabraz está na disponibilidade de financiamento. O varejo de móveis e eletrodomésticos exige capital de giro para financiar estoques, centros de distribuição, lojas e o intervalo entre a compra da mercadoria e o recebimento das vendas.

Historicamente, segundo a versão apresentada pela companhia, estruturas patrimoniais ligadas à família controladora ajudavam a oferecer garantias para empréstimos e outras operações financeiras. A ruptura desse arranjo teria diminuído a quantidade de ativos disponíveis como garantia, dificultando a renovação das linhas existentes e a contratação de novos créditos.

Esse mecanismo transforma uma disputa societária ou familiar em problema operacional. Quando uma empresa perde garantias, bancos podem reduzir limites, exigir spreads maiores, encurtar prazos ou simplesmente não renovar determinadas operações.

A situação se torna ainda mais sensível quando o custo básico do dinheiro já está elevado. O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14% ao ano neste mês, com vigência a partir de 6 de agosto. Apesar do ciclo de cortes, a taxa continua em nível restritivo para consumidores e empresas.

Em junho, a taxa média de juros no crédito livre às pessoas físicas estava em 63% ao ano, segundo o Banco Central. Para uma rede cuja atividade está ligada a produtos de maior valor e frequentemente adquiridos de forma parcelada, o custo do crédito atinge simultaneamente a demanda e o financiamento da própria operação.

Marabraz já negociava passivos tributários antes do pedido

Documentos públicos mostram que a reorganização de passivos do grupo antecede a recuperação judicial.

Um termo de transação tributária firmado com a Receita Federal reúne, entre outras empresas e partes relacionadas, a Comercial de Móveis Jordanésia, a S.V.C. Jaraguá Comercial e a Comercial Zena Móveis. O acordo prevê condições específicas de pagamento de débitos fiscais e previdenciários e consolidação de determinadas obrigações no CNPJ da Comercial de Móveis Jordanésia.

O documento prevê pagamento parcelado e atualização pela Selic. Também registra a existência de imóveis oferecidos como garantias para a transação e menciona bens que já haviam sido utilizados em acordo com a Fazenda Nacional envolvendo débitos inscritos em dívida ativa.

A existência dessa negociação tributária não significa que os débitos incluídos nela correspondam aos R$ 140 milhões abrangidos pelo novo pedido judicial. São estruturas jurídicas diferentes e não se deve somar automaticamente os valores.

O documento é relevante, porém, porque mostra que sociedades ligadas à Marabraz já vinham utilizando mecanismos formais de reorganização de obrigações financeiras antes da atual crise.

Lojas devem continuar funcionando

A Marabraz afirma que as lojas permanecerão abertas durante o processo. A continuidade da atividade é justamente um dos objetivos centrais do instituto da recuperação judicial.

“A empresa permanece em operação, com lojas abertas, e reafirma seu compromisso com a transparência e com o cumprimento das etapas previstas na legislação”, afirmou a companhia.

A Lei 11.101 estabelece que a recuperação judicial busca viabilizar a superação da situação de crise econômico-financeira, permitindo a manutenção da atividade produtiva, dos empregos e dos interesses dos credores quando a empresa apresenta condições de continuar funcionando.

Depois do eventual deferimento do processamento, a companhia precisa apresentar e negociar um plano com os credores dentro do rito estabelecido pela legislação. A recuperação pode envolver alongamento de prazos, descontos, venda de ativos, alteração das condições de dívida, reorganização operacional e outras medidas.

Ela não elimina, entretanto, a necessidade de gerar caixa.

Uma empresa pode reduzir o peso financeiro das dívidas e ainda fracassar posteriormente se sua operação não conseguir produzir recursos suficientes para financiar estoques, fornecedores, funcionários, tributos e despesas correntes.

Varejo de móveis ainda cresce, mas crédito muda a disputa

O pedido da Marabraz ocorre em um momento em que os números agregados do varejo não mostram uma crise generalizada.

As vendas do comércio varejista brasileiro cresceram 0,5% em junho sobre maio e acumularam avanço no primeiro semestre. Especificamente em móveis e eletrodomésticos, o volume vendido avançou 3,8% nos seis primeiros meses de 2026 e 4,5% na comparação acumulada de 12 meses, segundo o IBGE.

Isso cria uma distinção importante: o problema enfrentado pela Marabraz não pode ser explicado simplesmente pela ausência de consumidores.

O setor continua vendendo, mas a capacidade de transformar essas vendas em caixa varia muito entre as empresas. Redes mais endividadas ou dependentes de linhas bancárias podem enfrentar dificuldades mesmo em um mercado que registra crescimento de volume.

Em móveis e eletrodomésticos, esse efeito é especialmente relevante porque existe crédito nas duas pontas. O consumidor frequentemente parcela a compra, enquanto o varejista precisa financiar estoque e operação.

Se os juros permanecem altos, o cliente se torna mais seletivo e o lojista paga mais para sustentar o capital empregado.

Estrutura familiar se torna variável financeira

A inclusão das questões familiares entre as causas da recuperação diferencia o caso Marabraz de uma deterioração puramente macroeconômica.

A própria companhia afirma que a ruptura da estrutura que historicamente apoiava os negócios prejudicou seu acesso ao crédito. Na prática, ativos patrimoniais ligados à família tinham função econômica porque podiam sustentar garantias de operações financeiras.

A retirada dessas garantias altera a avaliação de risco feita pelo credor mesmo que a quantidade de lojas ou o volume de vendas não tenham mudado.

O termo tributário consultado pela reportagem reforça a importância que os imóveis já tiveram na estrutura financeira do grupo: o documento da Receita Federal prevê expressamente propriedades oferecidas como garantias do acordo.

Esse é um dos elementos que deverão ganhar importância à medida que o processo avançar. Credores precisarão avaliar não apenas quanto a Marabraz deve, mas quais ativos estão disponíveis, que garantias já foram oferecidas em outras operações, qual capacidade de geração de caixa permanece na rede e quanto capital será necessário para manter as lojas abastecidas.

Recuperação tenta evitar que crise financeira alcance operação

Fundada a partir de uma atividade comercial iniciada por uma família de origem libanesa, a Marabraz construiu sua presença principalmente no Estado de São Paulo e se tornou uma marca conhecida no segmento de móveis e eletrodomésticos.

Agora, a prioridade declarada é impedir que as restrições financeiras comprometam a continuidade do negócio.

“O processo terá como prioridades a preservação de empregos e a manutenção das relações construídas ao longo de sua história com clientes, fornecedores e parceiros”, afirmou a companhia.

A recuperação judicial oferece um ambiente para a renegociação, mas a preservação dessas relações será decisiva. Para uma varejista, fornecedor não representa apenas um credor: é também quem entrega a mercadoria que permitirá gerar as próximas receitas.

O mesmo vale para bancos e demais financiadores. Mesmo que obrigações antigas sejam reorganizadas, a operação pode continuar necessitando de crédito novo e capital de giro.

A Marabraz afirma pretender usar o processo para reorganizar sua estrutura financeira e voltar posteriormente a um ciclo de expansão.

“A Marabraz está empenhada em atravessar este período com responsabilidade para preservar sua operação e se fortalecer para um novo ciclo de crescimento”, declarou a companhia.

Antes disso, entretanto, a rede terá de enfrentar a etapa mais imediata: obter o processamento da recuperação, apresentar sua estrutura de passivos, negociar com os credores e demonstrar que a operação consegue gerar caixa suficiente para sustentar o negócio depois da reorganização.

O tamanho relativamente menor da dívida, em comparação com grandes recuperações recentes do varejo, não torna o processo simples. No caso da Marabraz, a questão central não é apenas o passivo de aproximadamente R$ 140 milhões, mas o acesso ao crédito necessário para manter funcionando uma operação intensiva em estoque e capital de giro.

Fontes:

Banco Central do Brasil — decisão do Copom e estatísticas de juros e crédito

IBGE — Pesquisa Mensal de Comércio referente a junho de 2026

Receita Federal — termo de transação tributária envolvendo empresas do Grupo Marabraz

Presidência da República — Lei nº 11.101, que disciplina recuperação judicial, recuperação extrajudicial e falência

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