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Marcopolo (POMO4) encara perda de ritmo no transporte rodoviário e aposta em crédito, fretamento e mercado externo

Queda no número de passageiros, retração da frota autorizada e juros elevados pressionam a renovação de ônibus, enquanto novas linhas de financiamento e operações internacionais oferecem alternativas à fabricante.

por João Souza
20/07/2026 às 21h09
em Empresas
Marcopolo (Pomo4) - Gazeta Mercantil

A Marcopolo (POMO4) enfrenta um mercado doméstico mais seletivo para ônibus rodoviários. A redução do número de passageiros, a queda da frota autorizada e a perda de receita das operadoras diminuem a capacidade de renovação dos veículos e tornam as compras mais dependentes de crédito de longo prazo.

Os dados do transporte interestadual e internacional indicam que o setor entrou em uma fase de menor expansão. A frota autorizada recuou 2% em 2025, passando de aproximadamente 33 mil para 32,3 mil ônibus. O movimento mostra que a retirada de veículos superou os novos registros, algo que não havia ocorrido na série recente analisada pelo BTG Pactual.

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O número de passageiros também caiu. Foram transportadas 36,7 milhões de pessoas em 2025, redução de 9,7% em relação ao ano anterior. Em 2024, a retração havia sido de 5,8%.

A sequência de dois anos negativos aumenta a cautela das empresas do setor. Com menos usuários e menor geração de receita, as operadoras tendem a adiar a substituição dos veículos, reforçar a manutenção da frota existente e concentrar investimentos apenas nas linhas mais rentáveis.

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Para a Marcopolo, o cenário exige atenção porque os ônibus rodoviários figuram entre os produtos de maior valor agregado do portfólio. A companhia, entretanto, não depende exclusivamente desse mercado. Fretamento, exportações, operações internacionais, ônibus urbanos e serviços de pós-venda ajudam a reduzir a exposição à desaceleração das linhas regulares.

Receita das empresas de transporte volta a cair

A receita estimada do setor rodoviário passou de cerca de R$ 6,7 bilhões em 2023 para R$ 6,6 bilhões em 2024 e R$ 6,1 bilhões em 2025.

A queda ocorreu mesmo com reajustes nas tarifas. Isso indica que o menor volume de passageiros teve peso maior do que o aumento dos preços cobrados pelas viagens.

A perda de receita reduz o espaço financeiro para novos investimentos. Empresas de transporte precisam administrar simultaneamente despesas com combustível, salários, pedágios, seguros, manutenção, terminais e financiamento.

Em um ambiente de menor ocupação dos ônibus, a aquisição de veículos passa a concorrer com gastos considerados mais urgentes. Mesmo quando a frota está envelhecida, as operadoras podem prolongar a vida útil dos ônibus para preservar o caixa.

Esse comportamento atinge diretamente os fabricantes de carrocerias. Uma necessidade estrutural de renovação não se transforma automaticamente em novos pedidos quando o cliente não dispõe de crédito ou não consegue projetar crescimento da demanda.

Juros altos tornam a decisão mais difícil

O custo do financiamento continua sendo um dos principais obstáculos para o mercado de ônibus. Os veículos rodoviários exigem desembolsos elevados e normalmente são adquiridos com contratos de longo prazo.

Quanto maior a taxa de juros, maior a parcela mensal e mais difícil se torna justificar a compra diante de receitas em queda. Nesse cenário, as transportadoras podem optar por reformar veículos, reduzir a quantidade de unidades encomendadas ou esperar condições financeiras mais favoráveis.

Essa combinação ajuda a explicar a avaliação mais conservadora do BTG Pactual. O banco manteve recomendação neutra para POMO4 e preço-alvo de R$ 10.

A diferença entre o preço-alvo e a cotação observada no momento do relatório não representa uma previsão garantida de valorização. A classificação neutra mostra que a instituição reconhece ativos e oportunidades na companhia, mas entende que os riscos do mercado doméstico limitam uma recomendação mais positiva.

A demanda por ônibus pode reagir caso os juros diminuam, o crédito se torne mais acessível e o fluxo de passageiros volte a crescer. Até que esses sinais ganhem consistência, as operadoras tendem a preservar uma postura mais cautelosa.

Move Brasil tenta destravar a renovação da frota

O programa Move Brasil surge como uma tentativa de reduzir a restrição financeira enfrentada pelas empresas de transporte.

O BNDES abriu linhas para financiar a compra de caminhões, ônibus, micro-ônibus e implementos rodoviários produzidos no país. Parte dos recursos foi reservada especificamente para veículos destinados ao transporte de passageiros.

As condições ampliam o prazo de pagamento e podem reduzir o peso das prestações sobre o caixa das operadoras. Para fabricantes como a Marcopolo, isso aumenta a possibilidade de transformar uma demanda adiada em encomendas efetivas.

O benefício, entretanto, não resolve sozinho o problema do setor. O acesso ao crédito facilita a compra, mas as empresas ainda precisam demonstrar capacidade de pagamento e confiança na rentabilidade futura das linhas.

Uma operadora que transporta menos passageiros pode continuar evitando novos compromissos, mesmo diante de juros mais competitivos. O impacto do programa dependerá, portanto, da adesão das empresas, da velocidade de liberação dos financiamentos e da participação dos ônibus rodoviários nas operações aprovadas.

A exigência de produção nacional favorece a indústria instalada no Brasil. Veículos mais novos também atendem a padrões ambientais e de eficiência mais rígidos, o que pode acelerar a retirada de modelos antigos.

Fretamento cresce na direção oposta

Enquanto o transporte regular perdeu passageiros, o fretamento de trabalhadores avançou 26,7% em 2025.

A modalidade atende empresas que contratam ônibus para transportar funcionários entre residências, fábricas, centros de distribuição, aeroportos, minas e outras unidades operacionais.

Esse mercado apresenta características diferentes das linhas regulares. Os contratos podem ter duração definida, receitas previsíveis e veículos adaptados às necessidades de cada cliente.

Ônibus de fretamento podem receber configurações específicas de assentos, climatização, conectividade, segurança e espaço interno. A maior personalização tende a elevar o valor do produto e, dependendo da estrutura do contrato, pode oferecer margens superiores.

Para a Marcopolo, o crescimento do fretamento abre espaço para compensar parte da fraqueza do transporte convencional. O nicho, no entanto, parte de uma base menor e não necessariamente substitui, em volume, a retração das linhas rodoviárias.

A expansão depende também da atividade econômica. Novas fábricas, centros logísticos, projetos de mineração e empreendimentos industriais podem ampliar a demanda por transporte de funcionários.

Mercado externo reduz concentração de risco

A Marcopolo possui operações fora do Brasil e atende diferentes mercados por meio de produção local, exportações e parcerias.

A presença internacional reduz a dependência do transporte rodoviário brasileiro. Um ciclo mais favorável em outros países pode compensar parcialmente a desaceleração doméstica.

A companhia também atua em ônibus urbanos, escolares, rodoviários, micro-ônibus e veículos destinados a aplicações específicas. Essa diversidade ajuda a distribuir os riscos entre diferentes clientes, regiões e segmentos.

O desempenho externo, contudo, também está sujeito a variáveis importantes. Câmbio, juros, atividade econômica, regras locais, disponibilidade de chassis e investimentos públicos influenciam a demanda.

A valorização do dólar pode favorecer receitas obtidas no exterior quando convertidas para reais. Ao mesmo tempo, componentes importados ficam mais caros e podem pressionar os custos.

As exportações realizadas a partir do Brasil ainda enfrentam despesas logísticas, tarifas e condições de financiamento nos mercados de destino.

Pós-venda ganha relevância quando a frota envelhece

A postergação da compra de ônibus novos pode aumentar a procura por peças, reformas e manutenção.

Esse movimento fortalece o mercado de pós-venda, conhecido como aftermarket. Os veículos que permanecem em circulação precisam de substituição de componentes, reparos estruturais e atualização de sistemas.

Para a Marcopolo, essa atividade ajuda a gerar receita recorrente em momentos de menor demanda por carrocerias novas. O pós-venda, porém, não compensa integralmente uma queda prolongada nas encomendas.

O envelhecimento da frota pode produzir dois efeitos em momentos diferentes. Inicialmente, as empresas gastam mais com manutenção para manter os ônibus em operação. Com o tempo, o aumento desses custos pode tornar a substituição mais econômica.

A questão central é quando essa necessidade acumulada será convertida em pedidos.

Se as linhas de crédito ganharem escala e a demanda de passageiros se estabilizar, parte das compras adiadas poderá voltar ao mercado. Caso a retração persista, a renovação tende a continuar lenta.

Avaliação da Marcopolo exige visão mais ampla

Os números do transporte rodoviário funcionam como um sinal de cautela, mas não resumem toda a operação da Marcopolo.

A empresa depende de uma combinação de fatores: volume de encomendas, preço dos insumos, disponibilidade de chassis, câmbio, margens, exportações, desempenho das unidades internacionais e condições de financiamento.

O mercado regular brasileiro continua relevante, principalmente por concentrar veículos de maior porte e valor. Uma queda prolongada no número de passageiros pode reduzir a urgência das operadoras em ampliar ou substituir a frota.

Ao mesmo tempo, o Move Brasil oferece uma alternativa para empresas que desejam renovar ônibus, mas enfrentam dificuldade de crédito. O crescimento do fretamento, as vendas no exterior e o pós-venda acrescentam outras fontes de receita.

A companhia também pode se beneficiar de uma eventual recuperação dos investimentos públicos em mobilidade e transporte coletivo. Projetos urbanos, escolares e de renovação ambiental podem ampliar a carteira além das linhas interestaduais.

O cenário, portanto, é de transição. A Marcopolo enfrenta perda de ritmo em uma de suas vitrines domésticas, mas mantém instrumentos para atravessar o ciclo e capturar oportunidades em segmentos menos pressionados.

Renovação depende de passageiros e financiamento

A idade das frotas cria uma necessidade de substituição que não desaparece com a queda temporária das encomendas. Ônibus antigos consomem mais combustível, exigem manutenção frequente e podem apresentar menor eficiência operacional.

O problema é que essa demanda potencial precisa de condições econômicas para se materializar. As empresas precisam transportar passageiros, gerar caixa e encontrar crédito compatível com a duração do investimento.

O mercado rodoviário brasileiro encerrou 2025 com sinais de enfraquecimento nesses três pontos. Houve queda na frota, redução de passageiros e perda de receita.

A reação dependerá da capacidade das operadoras de recuperar ocupação e reorganizar seus balanços. Também será necessário acompanhar a execução dos programas de financiamento e o ritmo de aprovação de novos projetos.

Para a Marcopolo, o desafio será manter as margens e diversificar as vendas enquanto o transporte regular não retoma uma trajetória mais consistente.

A expansão do fretamento mostra que existem áreas com demanda crescente. As operações internacionais e o aftermarket também oferecem proteção. Ainda assim, a renovação das grandes frotas rodoviárias continuará sendo uma peça importante para a evolução dos resultados da fabricante.

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