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Mercado Livre (MELI) tem receita recorde, mas lucro cai 11% no 2º trimestre

Faturamento supera US$ 10 bilhões pela primeira vez, enquanto frete grátis, expansão do crédito e investimentos comerciais reduzem a margem operacional

por João Souza
07/08/2026 às 11h40
em Empresas
Mercado Livre - Gazeta Mercantil

O Mercado Livre (MELI) encerrou o segundo trimestre de 2026 com receita líquida e financeira recorde de US$ 10,169 bilhões, crescimento de 50% sobre o mesmo período do ano passado. O lucro líquido, porém, caiu 10,9%, para US$ 466 milhões, diante do aumento dos gastos com frete, incentivos comerciais, aquisição de clientes e provisões associadas à expansão da carteira de crédito.

O lucro operacional recuou 17,2%, de US$ 825 milhões para US$ 683 milhões. Como consequência, a margem operacional caiu de 12,2% para 6,7% em 12 meses, mantendo-se próxima dos 6,9% registrados nos três primeiros meses de 2026.

A queda da rentabilidade ocorreu mesmo com a aceleração das duas principais operações do grupo. O volume bruto de mercadorias negociadas na plataforma, conhecido como GMV, avançou 44%, para US$ 21,926 bilhões. Em bases cambiais constantes, o crescimento foi de 36%.

No Mercado Pago, o volume total de pagamentos alcançou US$ 100,952 bilhões, alta de 56% tanto em dólares quanto em moeda constante. A carteira de crédito superou US$ 16 bilhões, com expansão de 75%, impulsionada sobretudo pela emissão de cartões.

O contraste entre receita recorde e margem menor sintetiza a estratégia atual da companhia: utilizar a expansão operacional para financiar investimentos que ampliem frequência de compra, participação no mercado, oferta de crédito e integração entre comércio eletrônico e serviços financeiros.

Frete grátis acelera vendas no Brasil

O Brasil permaneceu como o principal motor do comércio eletrônico. O GMV brasileiro avançou 57% em dólares e 39% em moeda constante, enquanto o número de itens vendidos cresceu 56%.

A companhia atribuiu parte do desempenho à redução do valor mínimo exigido para a concessão de frete grátis, implementada em junho de 2025. A iniciativa tornou produtos de menor preço mais acessíveis, elevou a frequência de compra e ampliou o número de categorias consumidas por cada usuário.

A taxa de conversão — proporção de visitas que terminam em compra — aumentou 1,1 ponto percentual em 12 meses. A participação de consumidores que compraram produtos de três ou mais categorias também avançou 10 pontos percentuais desde a mudança no limite do frete.

Os benefícios comerciais vieram acompanhados de custos. A empresa passou a subsidiar mais entregas e registrou despesas logísticas que não foram integralmente compensadas pela receita gerada no mesmo período.

O Mercado Livre informou que as entregas gratuitas ou mais lentas já apresentam contribuição variável positiva em metade das faixas de preço entre R$ 19 e R$ 79. Isso significa que parte das vendas de menor valor já cobre os custos diretamente associados à transação, embora ainda pressione o resultado consolidado.

A companhia também introduziu descontos para pagamentos via Pix e reduziu determinadas tarifas cobradas dos vendedores que oferecem preços considerados competitivos. As medidas diminuem a receita por transação no curto prazo, mas procuram ampliar a oferta, melhorar preços e atrair mais compradores.

O número de vendedores ativos no Brasil aumentou 29% no trimestre. A empresa avalia que uma base maior de lojistas amplia a variedade de produtos, aumenta a concorrência dentro da plataforma e reforça o ciclo de crescimento entre oferta e demanda.

México cresce, mas custos de aquisição pressionam margem

No México, o GMV cresceu 42% em dólares e 26% em moeda constante. O número de itens vendidos avançou 34%, apesar dos efeitos de mudanças tributárias e de uma demanda mais moderada em algumas categorias.

A empresa intensificou os investimentos em aquisição de usuários do Mercado Pago e na distribuição de terminais de pagamento. O volume processado no negócio de adquirência mexicano cresceu 47% em moeda constante, com avanço próximo de 70% nas operações realizadas em estabelecimentos físicos.

O Mercado Pago alcançou 1,4 milhão de dispositivos ativos no México. Segundo a administração, esse número equivale à soma dos terminais ativos dos bancos tradicionais no país.

A expansão, contudo, aumentou despesas iniciais de aquisição de clientes. A alta internacional dos preços de componentes de memória também encareceu os terminais comercializados ou fornecidos aos lojistas.

A margem de contribuição direta do México caiu aproximadamente 4 pontos percentuais em relação ao primeiro trimestre. Pouco menos da metade dessa redução foi associada ao negócio de adquirência. O restante decorreu de incentivos comerciais e da menor diluição de custos fixos.

Na Argentina, o GMV avançou 13% em dólares e 38% em moeda constante. O número de itens vendidos cresceu 22%, mas a companhia apontou desaceleração do consumo e menor crescimento dos pagamentos presenciais.

A margem de contribuição argentina caiu quase 2 pontos percentuais na comparação trimestral. O aumento do custo dos terminais e o ritmo mais fraco da atividade limitaram a absorção dos gastos fixos.

Usuários integrados sustentam expansão do ecossistema

O Mercado Livre encerrou o trimestre com 89 milhões de compradores únicos, crescimento de aproximadamente 26% sobre os 71 milhões registrados um ano antes. O número de itens vendidos passou de 550 milhões para 795 milhões, alta de 44,5%.

Os usuários mensais ativos do Mercado Pago chegaram a 88 milhões, ante 68 milhões no segundo trimestre de 2025. O avanço de 30% foi liderado por Brasil e México, com aumentos de 38% e 45%, respectivamente.

A companhia destacou o crescimento dos chamados usuários ecossistêmicos, que utilizam simultaneamente o comércio eletrônico e os serviços financeiros. Esse grupo aumentou 37% e apresentou ritmo superior ao dos consumidores vinculados a apenas uma das plataformas.

Na comparação com usuários exclusivos do marketplace, os clientes integrados geraram 70% mais GMV e compraram 55% mais itens por pessoa. No Mercado Pago, movimentaram quase 90% mais recursos e mantiveram mais que o dobro do volume médio aplicado.

A administração considera esse grupo mais valioso porque o uso combinado amplia frequência, permanência no ecossistema e rentabilidade. Usuários que possuem cartão do Mercado Pago apresentam probabilidade de duas a três vezes maior de continuar utilizando simultaneamente os dois negócios.

O programa de assinatura MELI+ também ganhou escala. O número de assinantes aumentou 72% em 12 meses, apoiado por benefícios relacionados a entregas, conteúdo e serviços financeiros.

Carteira de crédito supera US$ 16 bilhões

A carteira de crédito do Mercado Pago cresceu 75% e ultrapassou US$ 16 bilhões. Os cartões responderam por 47% do portfólio, ante participação de 43% no segundo trimestre do ano anterior.

A companhia emitiu 2,6 milhões de novos cartões entre abril e junho. No mesmo período de 2025, haviam sido emitidos 1,6 milhão. O aumento acelerado de novas safras pressionou temporariamente o resultado financeiro da modalidade.

A margem financeira líquida após perdas, conhecida pela sigla NIMAL, ficou negativa em 2,5% para os cartões. Um ano antes, o indicador estava próximo do equilíbrio.

Segundo o Mercado Livre, o desempenho negativo não representa deterioração generalizada da qualidade dos ativos. Novos usuários costumam gerar custos de aquisição e provisões antes de formar um histórico de receitas, tornando as safras recentes menos rentáveis durante os primeiros meses.

Na carteira consolidada, a NIMAL ficou em 20,7%, ante 23% no segundo trimestre de 2025. A redução também refletiu a maior participação dos cartões, produto que oferece margem menor do que os empréstimos pessoais e o crédito concedido a comerciantes.

A inadimplência entre 15 e 90 dias atingiu 7% da carteira total. O indicador aumentou 0,3 ponto percentual em relação ao ano anterior, mas caiu 1 ponto percentual na comparação com o primeiro trimestre.

Nos cartões, a inadimplência entre 15 e 90 dias ficou em 4,6%, patamar classificado pela companhia como próximo das mínimas históricas. A mudança da composição em direção a clientes de menor risco ajudou a preservar a qualidade do portfólio.

Provisões avançam 85% e pressionam resultado

As provisões para créditos de liquidação duvidosa atingiram US$ 1,276 bilhão, aumento de 84,9% sobre os US$ 690 milhões contabilizados no segundo trimestre de 2025.

O crescimento das provisões foi significativamente superior ao avanço de 50% da receita consolidada. O movimento decorreu da expansão de 75% da carteira de crédito e da emissão acelerada de novos cartões.

As provisões passaram a representar cerca de 12,5% da receita, ante pouco mais de 10% um ano antes. Esse aumento foi um dos principais fatores da redução da margem operacional.

O Mercado Livre argumenta que a carteira permanece lucrativa quando as receitas de crédito são descontadas das provisões e dos custos de financiamento. A empresa afirma que a contribuição líquida do segmento aumentou como proporção da receita consolidada.

Apesar dessa avaliação, a velocidade de crescimento exige acompanhamento das novas safras. O desempenho futuro dependerá da capacidade de transformar a expansão dos cartões em receitas recorrentes sem aumento desproporcional da inadimplência e das perdas efetivas.

Margem bruta cai com logística e incentivos

O lucro bruto aumentou 34,4%, de US$ 3,094 bilhões para US$ 4,159 bilhões. Como o crescimento ficou abaixo do avanço da receita, a margem bruta recuou de 45,6% para 40,9%.

A compressão trimestral foi atribuída principalmente aos descontos comerciais no Brasil, ao aumento dos custos de entrega e aos investimentos em aquisição de usuários do Mercado Pago. O encarecimento dos terminais de pagamento também afetou México e Argentina.

As despesas com vendas e marketing subiram 50,6%, para US$ 1,131 bilhão. Os gastos com desenvolvimento de produtos e tecnologia cresceram 28,6%, para US$ 729 milhões, enquanto as despesas gerais e administrativas avançaram 30,3%, para US$ 340 milhões.

Mesmo com o aumento nominal dos investimentos em tecnologia, essa rubrica caiu de 8,4% para 7,2% da receita. A companhia atribuiu a redução relativa a ganhos de produtividade relacionados à adoção de ferramentas de inteligência artificial.

Os investimentos em IA aumentaram aproximadamente US$ 80 milhões na comparação anual. A empresa informou que submissões de código cresceram 110%, enquanto implementações de sistemas avançaram quase 75%, sem aumento equivalente da estrutura de engenharia.

Publicidade supera 10% do mercado regional

O negócio de publicidade registrou crescimento de 62% em moeda constante. Pela primeira vez, o Mercado Livre afirmou ter superado participação de 10% no mercado latino-americano de publicidade digital.

A expansão foi apoiada por campanhas automatizadas, anúncios em vídeo e maior participação de marcas internacionais e vendedores estrangeiros. A integração com a HBO Max ampliou em aproximadamente 50% a audiência potencial do inventário de vídeo.

O comércio transfronteiriço também avançou. O GMV de produtos vendidos entre diferentes países cresceu 60% em moeda constante, com taxas de três dígitos no Brasil, na Argentina e nos mercados menores.

O centro de distribuição dedicado a vendedores chineses ganhou escala. O volume processado na estrutura cresceu 170% em relação ao primeiro trimestre, contribuindo para reduzir prazos de entrega e cancelamentos.

Fluxo de caixa absorve expansão do crédito

O fluxo de caixa livre ajustado foi de US$ 214 milhões no trimestre. O resultado foi apurado depois de US$ 441 milhões em investimentos de capital e US$ 2,1 bilhões direcionados à ampliação da carteira de crédito.

Parte da necessidade de recursos foi compensada por US$ 560 milhões em fontes de financiamento ligadas à operação financeira. No semestre, os investimentos de capital alcançaram US$ 712 milhões, ante US$ 543 milhões no mesmo período de 2025.

O lucro líquido acumulado nos seis primeiros meses caiu de US$ 1,017 bilhão para US$ 883 milhões. A receita semestral, por outro lado, avançou 49,4%, para US$ 19,014 bilhões.

Os ativos totais chegaram a US$ 51,356 bilhões no fim de junho, crescimento de 20,4% em relação a dezembro. A expansão refletiu principalmente o aumento dos recebíveis de cartões, empréstimos e recursos mantidos em contas de clientes.

Ações caem quase 5% em Nova York

As ações do Mercado Livre fecharam esta quinta-feira, 6 de agosto, em queda de 4,72%, cotadas a US$ 1.830 na Nasdaq. Os papéis chegaram a recuar até US$ 1.766,68 durante o pregão, depois de abrirem a US$ 1.815,59.

O movimento ocorreu apesar do avanço de 50% da receita e da expansão dos principais indicadores operacionais. A reação refletiu a preocupação com a redução da margem, o crescimento das provisões e a manutenção de uma estratégia de reinvestimento intensivo.

A administração indicou que continuará priorizando crescimento, engajamento e ganhos de participação em detrimento da maximização do lucro de curto prazo. Essa estratégia pode ampliar a escala e fortalecer as barreiras competitivas, mas mantém a rentabilidade sensível aos custos logísticos, comerciais e financeiros.

Os próximos balanços deverão mostrar se o crescimento dos usuários integrados, dos cartões e das vendas de menor valor será suficiente para compensar a redução das margens por transação. A evolução da inadimplência e da rentabilidade das novas safras de crédito permanecerá entre os principais indicadores para avaliar a sustentabilidade do modelo.

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