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Musculação pode reduzir risco de demência e preservar autonomia no Alzheimer

Treino de força favorece mobilidade, equilíbrio e independência durante o envelhecimento, mas especialistas alertam que o exercício não impede sozinho nem interrompe a progressão da doença.

por Isabel Alves
29/06/2026 às 19h32
em Saúde
Musculação Pode Reduzir Risco De Demência E Preservar Autonomia No Alzheimer - Gazeta Mercantil

A musculação pode ocupar um papel importante na proteção da saúde cerebral e na preservação da independência de pessoas diagnosticadas com Alzheimer. Ao combater a perda de massa muscular, melhorar o equilíbrio e facilitar movimentos cotidianos, o treinamento de força ajuda idosos a permanecerem ativos por mais tempo e pode integrar estratégias destinadas a reduzir fatores associados ao declínio cognitivo.

A evidência científica, entretanto, exige cautela. Não é possível afirmar que levantar pesos previna sozinho o Alzheimer ou interrompa a evolução biológica da doença. Os resultados mais consistentes mostram benefícios sobre força, mobilidade, autonomia, sono, humor, saúde cardiovascular e qualidade de vida.

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Para pessoas sem diagnóstico, a atividade física regular faz parte de um conjunto de hábitos relacionados a menor risco de demência. Para quem já vive com Alzheimer, o exercício pode reduzir o impacto funcional da doença e ajudar a preservar a capacidade de levantar-se, caminhar, subir escadas e realizar tarefas pessoais.

Foi esse efeito que levou o aposentado Rogério Beck, de 59 anos, a incorporar a musculação ao tratamento depois de receber o diagnóstico de Alzheimer.

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Ele deixou a corrida e passou a treinar de três a quatro vezes por semana, dividindo os exercícios por grupos musculares. Rogério percebe mudanças no humor e no sono quando não consegue comparecer à academia.

Sua esposa, Karin Beck, de 55 anos, também mantém uma rotina ativa, mas com objetivo preventivo. Depois de acompanhar a mãe enfrentar a doença, ela passou a praticar pilates duas vezes por semana e acrescentou caminhadas ao planejamento semanal.

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As experiências do casal ilustram duas aplicações diferentes do exercício: a redução de fatores de risco ao longo da vida e a preservação da funcionalidade após o diagnóstico.

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Sedentarismo está entre os fatores modificáveis de demência

O Alzheimer não possui uma causa única. Idade, genética, doenças cardiovasculares, ambiente e estilo de vida interagem durante décadas antes do aparecimento dos sintomas.

Alguns desses elementos não podem ser modificados, como a idade e determinadas variantes genéticas. Outros podem ser reduzidos ou controlados.

A Comissão Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidado em demência identificou 14 fatores potencialmente modificáveis associados ao risco da doença ao longo da vida. A lista inclui inatividade física, hipertensão, diabetes, tabagismo, obesidade, perda auditiva, isolamento social, depressão e colesterol LDL elevado.

O relatório estima que a atuação conjunta sobre esses fatores poderia evitar ou adiar uma parcela relevante dos casos de demência no mundo.

Isso não significa que uma pessoa ativa esteja completamente protegida. Também não quer dizer que alguém que desenvolveu Alzheimer tenha sido responsável pelo diagnóstico por não se exercitar.

Os fatores modificáveis alteram probabilidades populacionais. Eles não funcionam como garantia individual.

Ainda assim, reduzir o sedentarismo oferece benefícios amplos e pode atuar simultaneamente sobre condições que afetam a saúde cerebral, como pressão alta, resistência à insulina, excesso de peso, inflamação e doenças cardiovasculares.

Musculação combate a perda de força durante o envelhecimento

A massa muscular diminui naturalmente com o avanço da idade. Quando essa perda se torna acentuada e vem acompanhada de redução de força ou desempenho físico, pode caracterizar a sarcopenia.

O problema aumenta o risco de quedas, fraturas, hospitalizações, dependência e dificuldade para executar atividades simples.

Em pessoas com Alzheimer, a perda muscular pode avançar junto com alterações de comportamento, redução da mobilidade, dificuldades alimentares e menor participação nas atividades cotidianas.

A musculação oferece estímulos capazes de preservar ou ampliar força e massa muscular. O treino também melhora a capacidade de realizar movimentos fundamentais, como levantar-se de uma cadeira, carregar objetos e caminhar em terrenos irregulares.

Esses ganhos podem representar uma diferença significativa na rotina de uma pessoa com comprometimento cognitivo.

Manter a capacidade de ir ao banheiro, trocar de roupa, alimentar-se e deslocar-se com menor assistência reduz a dependência e pode aliviar parte da sobrecarga física dos familiares e cuidadores.

Benefício mais claro está na funcionalidade

Os estudos disponíveis apresentam resultados variados quando analisam o efeito do exercício diretamente sobre a cognição e a progressão do Alzheimer.

Algumas pesquisas encontraram melhorias em testes de memória, atenção e funções executivas. Outras identificaram efeitos pequenos ou inconclusivos, especialmente quando considerados o tipo de exercício, a duração do programa e o estágio da doença.

As evidências são mais consistentes quando o resultado avaliado é físico e funcional.

Programas que combinam fortalecimento muscular, atividade aeróbica, equilíbrio e flexibilidade podem melhorar a capacidade de realizar atividades da vida diária em pessoas com Alzheimer.

O exercício também pode contribuir para diminuir o risco de quedas e preservar a estabilidade postural.

Isso é relevante porque uma fratura ou internação prolongada pode acelerar a perda de autonomia em idosos com demência.

Portanto, o objetivo do treinamento não deve ser apenas aumentar músculos ou levantar cargas maiores. A prioridade é manter movimentos úteis para a vida cotidiana.

Exercício multicomponente tende a oferecer mais benefícios

Especialistas defendem que o programa mais adequado ao envelhecimento cerebral não deve depender de uma única modalidade.

O chamado treinamento multicomponente reúne exercícios de força, atividades aeróbicas, equilíbrio, mobilidade e coordenação.

A musculação fortalece grandes grupos musculares. Caminhadas, bicicleta e outras atividades aeróbicas estimulam o sistema cardiovascular. Exercícios de equilíbrio ajudam a prevenir quedas, enquanto práticas de mobilidade preservam a amplitude dos movimentos.

A combinação também oferece maior variedade de estímulos e pode facilitar a adaptação do programa às limitações de cada pessoa.

Para alguém com Alzheimer, atividades muito complexas podem provocar insegurança ou frustração. O planejamento precisa considerar capacidade de compreensão, estágio da doença, condições físicas e nível anterior de treinamento.

Instruções simples, ambiente conhecido, repetição dos movimentos e acompanhamento próximo podem aumentar a segurança e a adesão.

Em determinados casos, a participação de um cuidador ou familiar também facilita a manutenção da rotina.

Estudo combinou exercício, alimentação e treino cognitivo

Uma das pesquisas mais citadas sobre prevenção do declínio cognitivo é o estudo FINGER, realizado na Finlândia.

O trabalho acompanhou 1.260 pessoas entre 60 e 77 anos que apresentavam risco aumentado de desenvolver comprometimento cognitivo.

Durante dois anos, parte dos participantes realizou uma intervenção que combinava alimentação saudável, atividade física, treinamento cognitivo e acompanhamento de fatores cardiovasculares.

O grupo submetido ao programa apresentou melhor desempenho cognitivo em comparação com o grupo de controle.

O resultado reforçou a hipótese de que uma estratégia ampla de estilo de vida pode ajudar a preservar a cognição em pessoas de maior risco.

A pesquisa, porém, não permite atribuir o resultado somente à musculação. Os participantes receberam intervenções simultâneas em diferentes áreas.

A principal mensagem é que saúde cerebral depende de um conjunto de fatores. Exercício, alimentação, controle da pressão, convívio social, estímulo cognitivo e tratamento de doenças precisam atuar de maneira integrada.

Treinamento resistido apresentou ganhos em comprometimento leve

Outro estudo acompanhou cem adultos com comprometimento cognitivo leve, condição que pode anteceder alguns casos de demência, embora nem todas as pessoas evoluam para Alzheimer.

Os participantes realizaram um programa de treinamento resistido progressivo durante seis meses.

A pesquisa identificou melhora na força muscular e em medidas de desempenho cognitivo. A análise também encontrou relação entre o aumento de força e a melhora observada na cognição.

Os achados indicam que o treinamento resistido pode oferecer benefícios além do sistema muscular.

O número de participantes e a duração da pesquisa, contudo, não permitem afirmar que a musculação impeça a conversão do comprometimento cognitivo leve em Alzheimer.

Estudos maiores e mais longos são necessários para determinar quais modalidades, intensidades e frequências produzem os melhores resultados.

Músculos também liberam substâncias durante o exercício

O músculo não atua apenas na locomoção. Durante a contração, o tecido muscular produz e libera substâncias conhecidas como miocinas.

Essas moléculas participam de processos metabólicos, inflamatórios e de comunicação entre diferentes órgãos.

Pesquisadores investigam como algumas miocinas podem influenciar o sistema nervoso, a plasticidade cerebral e a formação ou manutenção das conexões entre neurônios.

O exercício também favorece o controle da glicose, melhora a sensibilidade à insulina e contribui para a circulação sanguínea.

Esses efeitos são relevantes porque diabetes, hipertensão, obesidade e problemas vasculares estão associados a maior risco de declínio cognitivo.

A atividade física pode ainda reduzir processos inflamatórios crônicos que prejudicam diferentes tecidos ao longo do envelhecimento.

Esses mecanismos ajudam a explicar por que os benefícios do exercício podem ultrapassar os músculos. Ainda assim, a distância entre um mecanismo biológico promissor e a prevenção comprovada de uma doença é grande.

Treino pode melhorar humor e sono

A prática regular de exercícios também pode beneficiar aspectos emocionais e comportamentais.

Atividade física está associada a melhora do sono, redução de sintomas de ansiedade e depressão e maior sensação de bem-estar.

Esses efeitos podem ser importantes para pessoas com Alzheimer, que frequentemente apresentam alterações no ciclo de sono, irritabilidade, apatia ou agitação.

A academia ou o ambiente de exercício também pode criar uma rotina estruturada, estimular contato social e aumentar a exposição à luz durante o dia.

Para cuidadores, uma rotina previsível pode facilitar a organização das atividades e melhorar o comportamento em determinados períodos.

Os resultados variam entre indivíduos, e o exercício não substitui avaliação médica ou tratamento de alterações psiquiátricas e comportamentais.

Alimentação e saúde cardiovascular completam a estratégia

Karin também incorporou à rotina familiar uma alimentação próxima ao padrão mediterrâneo.

O modelo prioriza frutas, verduras, legumes, grãos integrais, azeite, peixes, castanhas e alimentos pouco processados. Carnes vermelhas, açúcares e ultraprocessados aparecem em menor quantidade.

Esse padrão alimentar está associado a benefícios cardiovasculares e integra diversas estratégias de envelhecimento saudável.

A proteção do cérebro está diretamente relacionada à saúde dos vasos sanguíneos. Pressão arterial elevada, diabetes, colesterol alto e histórico de acidente vascular cerebral podem contribuir para danos cognitivos.

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Por isso, o cuidado preventivo inclui acompanhamento médico, controle de doenças crônicas, sono adequado, alimentação equilibrada, convívio social e atividade física.

Rogério também realiza acompanhamento cognitivo com uma neuropsicóloga, separado das sessões de musculação.

O exercício compõe o cuidado, mas não substitui medicamentos, terapias, acompanhamento neurológico ou outras intervenções prescritas.

Quanto exercício é recomendado

As diretrizes internacionais recomendam que adultos realizem pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica moderada por semana ou 75 minutos de atividade vigorosa.

Para benefícios adicionais, a atividade moderada pode alcançar entre 150 e 300 minutos semanais.

Exercícios de fortalecimento dos principais grupos musculares devem ser realizados em dois ou mais dias por semana.

Idosos com mobilidade reduzida também precisam incluir atividades de equilíbrio, especialmente quando existe maior risco de quedas.

Essas recomendações são gerais. Pessoas com Alzheimer, problemas cardíacos, limitações articulares, histórico de quedas ou longo período de sedentarismo precisam de avaliação individual.

O programa pode começar com cargas leves, exercícios guiados e sessões mais curtas. A progressão deve ocorrer conforme a resposta do praticante.

Dor intensa, falta de ar fora do esperado, tontura, queda, confusão acentuada ou alteração súbita de comportamento exigem interrupção da atividade e avaliação profissional.

Regularidade importa mais do que carga elevada

Para preservar a funcionalidade, não é necessário treinar como um atleta ou buscar hipertrofia máxima.

A consistência tende a ser mais importante do que cargas muito elevadas.

Exercícios simples, como sentar e levantar de uma cadeira, empurrar, puxar, carregar objetos leves e elevar os calcanhares, podem ser adaptados para trabalhar movimentos utilizados diariamente.

Máquinas de musculação oferecem estabilidade e podem facilitar o aprendizado. Pesos livres, elásticos e exercícios com o próprio corpo também podem ser utilizados quando adequados.

A escolha depende da condição física, da capacidade cognitiva e do ambiente disponível.

Para pessoas com Alzheimer, supervisão profissional torna-se especialmente importante. Um educador físico ou fisioterapeuta pode adaptar instruções, reduzir riscos e acompanhar a evolução.

Musculação não cura nem interrompe o Alzheimer

A principal ressalva é que a musculação não cura o Alzheimer e não deve ser divulgada como substituta de tratamento médico.

Também não existem evidências suficientes para garantir que o treinamento de força, isoladamente, impeça o aparecimento da doença.

O que a ciência mostra com maior segurança é que manter-se fisicamente ativo beneficia o organismo, reduz fatores associados à demência e ajuda a preservar força e autonomia.

Em pessoas diagnosticadas, esses ganhos podem significar mais tempo de independência, menor risco de quedas e melhor qualidade de vida.

Para quem ainda não apresenta sintomas, a atividade física integra uma estratégia preventiva mais ampla, ao lado do controle cardiovascular, da alimentação, do sono, do estímulo cognitivo e do convívio social.

O efeito mais importante pode não ser medido apenas em testes de memória, mas na capacidade de continuar realizando tarefas, participando da vida familiar e mantendo liberdade de movimento durante o envelhecimento.

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