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UNICEF aponta por que 7 em cada 10 brasileiras preferem parto normal, mas acabam em cesáreas

Estudo com 131 gestantes, puérperas e profissionais de saúde identifica falhas no pré-natal, acesso restrito à analgesia, pressão da rede de apoio e incentivos institucionais que dificultam o parto normal.

por Isabel Alves
13/07/2026 às 19h34
em Saúde
Unicef Aponta Por Que 7 Em Cada 10 Brasileiras Preferem Parto Normal, Mas Acabam Em Cesáreas - Gazeta Mercantil

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) divulgou nesta segunda-feira (13), em Brasília, um estudo que investiga por que mulheres brasileiras que iniciam a gestação com preferência pelo parto normal terminam submetidas a cesarianas, inclusive sem indicação médica. Realizada em Belém (PA) e São Paulo (SP), a pesquisa ouviu 131 gestantes, puérperas e profissionais das redes pública e privada e concluiu que a mudança da via de nascimento não decorre apenas de uma decisão individual: ela é influenciada pela qualidade do pré-natal, pelo acesso ao controle da dor, pela participação do acompanhante e pela organização econômica dos serviços de saúde.

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Intitulado “Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes”, o levantamento parte de um contraste persistente na assistência obstétrica brasileira. Segundo o UNICEF, dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indicam que sete em cada dez mulheres manifestam preferência pelo parto normal no início da gravidez. Ao fim da gestação, porém, a cesariana é a forma de nascimento mais frequente no país.

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A diferença entre a intenção inicial e o procedimento realizado levou os pesquisadores a examinar medos, expectativas, experiências anteriores e as condições oferecidas por hospitais, maternidades, planos de saúde e equipes. Para o UNICEF, informação é necessária, mas não basta: a autonomia depende de orientação clínica clara, acolhimento, garantia de direitos e recursos que permitam atravessar o trabalho de parto com segurança. Sem essas condições, a preferência pelo parto normal pode ser enfraquecida ao longo dos meses.

Preferência pelo parto normal se perde durante o pré-natal

A pesquisa mostra que muitas mulheres chegam ao pré-natal favoráveis ao parto normal, mas recebem explicações superficiais sobre as etapas do trabalho de parto, as formas de alívio da dor e as situações em que uma cesariana é necessária. A falta de orientação detalhada amplia a insegurança e abre espaço para relatos negativos, pressões familiares e decisões tomadas sob estresse.

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Quando temas como analgesia, Plano de Parto, liberdade de posição, presença de acompanhante e métodos não farmacológicos são discutidos apenas perto do nascimento, a gestante tem menos tempo para esclarecer dúvidas e alinhar expectativas com a equipe responsável.

O Plano de Parto aparece como um instrumento ainda pouco conhecido. O documento registra desejos e decisões da gestante sobre a assistência, sem substituir a avaliação médica nem impedir mudanças diante de uma emergência. Seu uso pode melhorar a comunicação e reduzir decisões relevantes sem diálogo. Para o UNICEF, a escolha pelo parto normal precisa ser construída durante toda a gravidez, com consentimento informado e avaliação individual dos riscos.

Dor e falta de analgesia alteram a escolha da gestante

O medo da dor é um dos fatores mais relevantes identificados pelo levantamento. Em serviços onde a analgesia obstétrica é pouco disponível, incerta ou apresentada como excepcional, algumas gestantes passam a considerar a cesariana a única forma previsível de evitar sofrimento intenso. Nesse cenário, o parto normal deixa de ser percebido como alternativa acompanhada e segura.

Banho morno, massagens, mobilidade, técnicas de respiração, presença de acompanhante e analgesia, quando indicada e desejada, integram medidas capazes de mudar a experiência da mulher. O estudo sustenta que promover o parto normal exige suporte concreto, e não apenas explicações abstratas sobre seus benefícios.

A cesariana é uma cirurgia essencial quando existe indicação clínica e pode salvar a vida da mulher e do bebê. O alerta se concentra nos procedimentos sem necessidade médica. A Organização Mundial da Saúde relaciona cesarianas desnecessárias a riscos como sangramento, infecção, recuperação mais lenta e maior probabilidade de complicações futuras.

O debate, portanto, não opõe parto normal e cesariana de forma absoluta, mas exige que cada via seja adotada com base em evidências, avaliação clínica e consentimento informado.

Laqueadura pode funcionar como incentivo indireto à cesariana

Outro achado envolve mulheres que desejam realizar laqueadura após o nascimento. Segundo o estudo, a baixa oferta de planejamento reprodutivo e de métodos contraceptivos associados ao parto normal pode induzir a percepção de que a cesariana facilita ou garante o procedimento.

Essa associação cria incentivo indireto à cirurgia mesmo sem indicação obstétrica. O UNICEF recomenda que o pré-natal inclua orientação sobre planejamento reprodutivo, métodos reversíveis de longa duração e possibilidades de esterilização após parto vaginal, respeitados os critérios legais e clínicos.

Quando a mulher não encontra acesso confiável a contracepção ou recebe informações incompletas, a escolha da via de nascimento passa a incorporar falhas de outras áreas da assistência. O fortalecimento do planejamento reprodutivo pode impedir que o parto normal seja descartado por razões administrativas.

Modelo do setor privado favorece procedimentos agendados

A dimensão econômica ganha peso especial na saúde suplementar. Profissionais ouvidos pelo UNICEF relataram que a previsibilidade da cesariana, a possibilidade de agendamento e o custo de manter equipes disponíveis durante trabalhos de parto prolongados podem desestimular a oferta do parto normal.

A cirurgia permite organizar agenda médica, sala cirúrgica e internação em horário definido. O parto normal exige disponibilidade por período incerto, acompanhamento contínuo e capacidade de resposta diante de intercorrências. Quando a remuneração não reconhece essa diferença, o desenho financeiro pode favorecer o procedimento mais previsível.

Dados oficiais da Agência Nacional de Saúde Suplementar mostram a dimensão histórica da disparidade. Em 2021, 57% dos nascimentos registrados no Brasil ocorreram por cesariana. Entre beneficiárias de planos de saúde, a proporção chegou a 81,76%. Embora sejam anteriores ao novo estudo, os números ilustram a concentração do parto cirúrgico no setor privado.

O UNICEF recomenda revisar modelos de financiamento e remuneração que possam incentivar cesarianas sem indicação clínica. A proposta inclui segurança jurídica para decisões baseadas em evidências, capacitação profissional e monitoramento transparente de indicadores maternos e neonatais.

A mudança exige reorganizar escalas, equipes e protocolos para tornar o parto normal uma opção efetivamente disponível, e não apenas formalmente oferecida.

Parceiros e familiares podem reforçar pressão por cesárea

A rede de apoio ocupa posição ambivalente. Mães, avós, tias, sogras, amigas e referências comunitárias podem fortalecer a confiança da gestante, mas também transmitir experiências traumáticas ou pressionar por uma via específica. Entre usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS), os relatos familiares tiveram influência relevante nas entrevistas.

Os parceiros também interferem. Quando participam pouco das consultas, podem chegar ao trabalho de parto sem compreender sua duração ou suas fases. Diante da dor e da ansiedade, há casos em que passam a defender a cesariana, ainda que a mulher tenha planejado o parto normal e não exista indicação médica naquele momento.

O UNICEF propõe incluir acompanhantes nas orientações do pré-natal sem transferir a eles o poder de decisão. O papel da rede é apoiar a escolha informada da mulher, não substituí-la.

A pesquisa também recomenda mobilizar parteiras e lideranças locais em territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos, conciliando saberes tradicionais e acesso oportuno a serviços de referência quando houver risco para a gestante ou para o bebê.

Doulas e equipes multiprofissionais ampliam suporte ao parto normal

Entre as medidas associadas a uma experiência mais segura estão a participação de doulas, enfermeiras obstetras e obstetrizes, além da expansão dos Centros de Parto Normal. Esses modelos ampliam a presença de profissionais durante o trabalho de parto e reduzem a dependência de uma assistência centrada apenas na intervenção médica.

Doulas não substituem profissionais de saúde nem realizam procedimentos clínicos. Sua atuação se concentra no apoio físico, emocional e informacional. Enfermeiras obstetras e obstetrizes integram a assistência técnica ao parto de risco habitual, dentro das competências profissionais e dos protocolos do serviço.

O estudo sustenta que equipes multiprofissionais podem dar continuidade ao cuidado, identificar alterações precocemente e criar condições para que o parto normal seja conduzido com respeito à fisiologia, sem abrir mão da intervenção quando necessária.

A vinculação prévia da gestante à maternidade também aparece entre as recomendações. Saber onde será atendida, conhecer as rotinas da unidade e compreender quais recursos estarão disponíveis pode reduzir a incerteza que acompanha as últimas semanas da gravidez.

Estudo qualitativo não representa todo o país

O levantamento foi realizado em Belém e São Paulo e não constitui uma amostra estatística nacional. Foram ouvidas 94 gestantes e puérperas — 73 atendidas pelo SUS e 21 no setor privado — em 11 grupos focais e 41 entrevistas individuais. Outros 37 participantes eram gestores, médicos e enfermeiros de unidades básicas, hospitais públicos e serviços privados.

Ao todo, a equipe analisou depoimentos de 131 pessoas e revisou 77 artigos científicos, além de documentos institucionais sobre parto humanizado. O trabalho recebeu apoio financeiro da iniciativa MSD para Mães, da farmacêutica MSD.

Por ser qualitativa, a pesquisa não mede a frequência nacional de cada barreira. Seu objetivo é identificar mecanismos e padrões que ajudam a compreender como as decisões são formadas. Os resultados podem orientar novos estudos, políticas públicas e mudanças nos serviços, mas não devem ser interpretados como estimativa estatística para todas as gestantes brasileiras.

Os achados foram organizados nos níveis psicológico, sociológico e estrutural, abrangendo medos individuais, influência das relações sociais e características do sistema de saúde que dificultam o parto normal.

Pressão por mudança alcança SUS e saúde suplementar

As recomendações do UNICEF distribuem responsabilidades entre poder público, hospitais privados, operadoras, maternidades e profissionais. No SUS, o foco recai sobre pré-natal qualificado, ampliação da analgesia, fortalecimento de Centros de Parto Normal, vinculação à maternidade e oferta de métodos de alívio da dor.

Na saúde suplementar, a agenda inclui revisão da remuneração, disponibilidade de equipes e transparência sobre as taxas de cesariana. A ANS exige que operadoras informem percentuais de parto normal e cesarianas quando solicitados pelas beneficiárias, mas o novo estudo indica que a informação ao consumidor precisa ser acompanhada por mudanças na organização da assistência.

O estudo se conecta à campanha “Parto normal. Uma escolha que merece respeito”, lançada pelo UNICEF em junho e destinada a gestantes, famílias, redes de apoio e profissionais. A iniciativa reforça que decisões devem combinar informação confiável, avaliação profissional e respeito à vontade da mulher.

O diagnóstico é que o acesso ao parto normal depende menos de convencer gestantes e mais de remover as barreiras que restringem o parto normal. Quando o sistema oferece orientação completa, controle da dor, equipe disponível, participação do acompanhante e resposta rápida a riscos, a escolha deixa de existir apenas no papel.

A elevada frequência de cesarianas no Brasil passa, assim, a ser tratada como resultado de um modelo assistencial que precisa alinhar incentivos econômicos, direitos das mulheres e segurança clínica.

Apuração e checagem: o material encaminhado pela assessoria foi confrontado com o estudo e o comunicado oficiais do UNICEF, com dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar e com as orientações da OPAS/OMS sobre indicações e riscos da cesariana.

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