O consumidor paulista entrou no inverno de 2026 gastando de forma mais defensiva, com prioridade para roupas de frio, alimentos típicos da estação e cuidados com saúde, enquanto viagens e eventos ficaram em segundo plano. O comportamento, captado pelo Procon-SP em junho, ajuda a explicar por que o varejo cresceu apenas 0,1% em maio e por que redes de vestuário e supermercados devem concentrar a maior parte das vendas até agosto.
De acordo com o Procon-SP, 556 pessoas responderam ao questionário aplicado no site do órgão entre 9 e 30 de junho. Desse total, 427 entrevistados, ou 76,8%, afirmaram que compram roupas e agasalhos nesta época do ano. Outros 334, ou 60%, disseram que costumam comprar alimentos típicos de inverno, como sopas, fondue e chás. O lazer ficou atrás. Apenas 29% afirmaram frequentar eventos no trimestre, com preferência por festas juninas, julinas e quermesses em igrejas e áreas públicas, geralmente com entrada gratuita. Só 14,57% informaram que costumam viajar no período, com destino mais citado nas cidades do interior do Estado.
A pesquisa, embora amostral, traz um retrato relevante do orçamento familiar no início do terceiro trimestre, quando o comércio tenta compensar um primeiro semestre de vendas irregulares.
Varejo de inverno fica mais essencial e menos discricionário
O dado reforça uma mudança na composição do consumo. O inverno, que historicamente impulsionava categorias como moda, calçados e turismo de montanha, aparece em 2026 mais concentrado em itens essenciais. Vestuário segue no topo, mas com ticket médio menor e foco em reposição, não em moda. Alimentos típicos ganham espaço porque substituem refeições fora de casa, mais caras.
Segundo o IBGE, as vendas no varejo avançaram 0,1% em maio, abaixo das projeções do mercado, após meses de volatilidade. O resultado indica que o consumidor não deixou de comprar, mas passou a escolher onde gastar. Para o varejista, a diferença é relevante. Vender agasalho com desconto pontual gera fluxo de caixa, mas com margem menor. Vender fondue, sopa e chá no supermercado mantém giro, porém com menor valor agregado que uma viagem ou um evento pago.
Levantamento da Gazeta Mercantil mostra que o comportamento coincide com um inverno mais curto e irregular, influenciado pelo El Niño, que deve encurtar o período de frio intenso e obrigar o varejo a redesenhar estratégias de coleção, estoques e campanhas.
Endividamento de inverno e viagens adiadas expõem cautela no orçamento
Um dos pontos de atenção do Procon-SP é o endividamento ligado ao frio. Cerca de 25% dos respondentes relataram dívidas relacionadas a compras de inverno. Somado ao percentual menor de quem frequenta eventos ou viaja, o dado sugere adiamento de despesas não essenciais.
A leitura tem impacto econômico direto. Viagens, que têm multiplicador alto sobre serviços, transporte, hospedagem e alimentação fora do lar, ficam para depois. O interior do Estado, destino mais citado por quem viaja, deve capturar a maior parte do gasto turístico, enquanto destinos de maior distância e custo, como capitais do Sul e Nordeste, perdem tração neste trimestre.
O movimento pressiona agências de turismo, companhias aéreas regionais e hotelaria de lazer, mas beneficia comércio de bairro, mercados municipais e serviços de saúde. A Gazeta Mercantil apurou que redes de vestuário popular já ajustaram vitrines para priorizar segunda peça com desconto e parcelamento sem juros, enquanto redes de turismo apostam em pacotes curtos de fim de semana para o interior, com tíquete médio 30% menor que o de 2024.
Saúde entra na cesta de inverno e muda mix de consumo
O levantamento apontou que pelo menos um terço dos participantes citou compra de medicamentos e vacinas entre os itens mais adquiridos no inverno, além de contratação de serviços médicos e hospitalares. O consumidor segue associando o período mais frio a maior cuidado com saúde.
O efeito para empresas é duplo. Farmácias e redes de drogarias, como Raia Drogasil (RADL3) e Pague Menos (PGMN3), tendem a ter melhor desempenho em categorias de antigripais, vitaminas e vacinas particulares. Planos de saúde e clínicas privadas observam aumento de demanda por consultas de pronto-atendimento, o que eleva sinistralidade no curto prazo, mas pode reduzir internações mais caras à frente.
Para a indústria de vestuário, o desafio é transformar a procura por agasalhos em venda com margem. Tecidos mais pesados, como lã e soft, têm custo de produção maior e dependem de importação de insumos. Com dólar ainda acima de R$ 5,00 e crédito mais caro, a estratégia tem sido produzir coleções menores, com reposição rápida e foco em cores neutras e peças curinga.
O que muda na prática para empresas e para o consumidor
Para empresas de moda, o inverno de 2026 exige gestão fina de estoque. A pesquisa do Procon-SP indica que o consumidor compra, mas compara mais e espera promoção. Quem antecipou coleção de inverno pesada pode precisar queimar margem em julho. Quem apostou em meia-estação e em camadas, com sobreposição de peças, tende a girar mais rápido.
Para supermercados, a oportunidade está em kits de inverno, como sopas, caldos, fondues e chás, com preço ancorado e oferta combinada. Para o setor de turismo, a saída é reduzir distância e tempo de viagem, com pacotes para o interior paulista, onde o gasto com deslocamento é menor.
Para o consumidor, a recomendação do Procon-SP é planejar compras de maior valor, como casacos e cobertores, e evitar parcelamentos longos que se acumulam com contas de energia e saúde, mais altas no frio. O órgão reforça que o endividamento de 25% relatado na pesquisa pode crescer no segundo semestre se o orçamento não for reorganizado.
O próximo termômetro será o varejo de julho, que captura liquidações de inverno e festas julinas. Se a cautela se mantiver, o varejo deve fechar o trimestre com crescimento próximo de zero em volume, sustentado por vestuário essencial e alimentos, e com serviços de lazer e viagens ainda abaixo do nível pré-pandemia.









